
Já fomos, já deixamos de ser, talvez estejamos de volta. Poderá ser o regresso do mito. O mito que nunca o foi.
Deixava-se ficar a ver o tempo e as pessoas passar. Olhava mas não reconhecia, não encontrava expressões familiares, não entendia a linguagem, não percebia o que estava escrito por detrás de olhares que se afastavam furtivos como se não quisessem ver a imagem de solidão que vão ser quando o tempo por eles também se esquecer de esperar.
Da vida que tinha como vivida, feitas as contas, não guardava lá muito. Um sorriso que se aflorava quando desflorava algumas imagens guardadas em recantos da memória mas também já não lhes garantia muita credibilidade. Talvez tivesse sido de outra maneira, era assim que gostava de as recordar. Pequenos fragmentos dispersos de rostos que já não existiam.
Se tinha valido a pena? Vá-se lá saber... supunha que não tinha tido era outra escolha senão ir vivendo... para agora deixar-se ficar e ir morrendo.
Não sei se o caro leitor já teve oportunidade de se deparar com a nova campanha de verão da Cofidis. Se não se deparou com a campanha, passou as vistas pelo menos pelo spot televisivo que é o que aqui nos interessa.O fumo que se desprende lentamente do cigarro, sobe e confunde-se com o ar, desaparece, desvanece... Quase, na roupa sobra o cheiro a tabaco e a alcool, restos da noite feita em estilhaços, frases soltas que ecoam no silêncio que rodeia um vulto, as quatro paredes imaculadamente brancas, os risos da fragilidade da memória, o olhar sarcástico e penoso, ao mesmo tempo, como quem goza com as artimanhas do esquecimento, só vultos em volta, difusos, confusos, encontrados.
Rende-se lentamente ao esquecimento que lhe apontam, entrega-se devagar ao desvanecimento que não consegue, não é fumo, pudesse sê-lo.

Acredito que cabe a cada um fazer-se à sua medida e maneira, entre o que queremos e o que conseguimos, desenhando a par e passo um caminho que decidimos entre escolhas e acasos, que nos sai das entranhas a ferro e fogo. Só assim saberemos, ao chegar a algum lugar, quem somos e do que somos feitos.
Mesmo que às vezes custe, mesmo que às vezes nos sintamos perdidos, mesmo que às vezes escolhamos parar por um momento para chegar mais longe.
"Mas lá ao fundo, sozinho, longe do barco e da costa, Fernão Capelo Gaivota treinava. A trinta metros da superfície azul brilhante, baixou os seus pés com membranas, levantou o bico e tentou a todo custo manter suas asas numa dolorosa curva. A curva fazia com que voasse devagar, e então sua velocidade diminuiu até que o vento não fosse mais que um ligeiro sopro, e o oceano como que tivesse parado, abaixo dele. Cerrou os olhos para se concentrar melhor, susteve a respiração e forçou ... só ... mais ... um ... centímetro ... de ... curva ... Mas as penas levantaram-se em turbilhão, atrapalhou-se e caiu."Fernão Capelo Gaivota" de Richard Bach"
Foto tirada do FlickR
Esta noticia saiu num jornal diário angolano...
"... o maior desastre aéreo de todos os tempos aconteceu ontem à noite em Angola: Segundo o mesmo jornal caiu ontem um avião de dois lugares sobre um cemitério de Luanda. Durante a noite foram encontrados 970 corpos, mas as equipas de socorro suspeitam que haja mais."
