domingo, dezembro 12, 2010

das urbes que urgem

Não sei se já fez um ano desde que moro em alcântara.

- Bom dia dona Teresa, as minhas revistas já chegaram?
- Chegou esta Sofia, as outras ainda não sairam.

Não foi com bons olhos que vi a mudança de Campo de Ourique para Alcântara. Estava acostumada aos velhos no jardim e aos cães que já conhecia pelo nome.

- Bom dia sr. Fernando
- Boa tarde Sofia, então e um guarda-chuva? Olha que isto vai começar a chover bem.

Mas os domingos em alcântara são um bocadinho diferentes dos domingos em campo de ourique. Têm outro cheiro e os ruídos de uma ponte ao fundo, com carros e comboios mais espaçados do que nos dias de semana.

- Bom dia Rui
- Olá Sofia, então o queixo está melhor? Sandes de ovo e café, toma. Vais-te sentar?

Não sei se já fez um ano desde que moro em alcântara. Mas conheço os nomes e as caras. Toda a gente me trata por tu. E pelo nome. Não preciso dizer o que quero no café. E na papelaria encomendam um exemplar de 3 revistas diferentes só para mim.

- Olá Sofia, já tratou do problema do gás?
- Já sim dona Maria, era do esquentador.

Al-qantara, quer dizer ponte. E gosto das pontes entre pessoas, das ilhas que cada um de nós é (sim, com falta de concordância gramatical e tudo) e das conversas para tentar chegar a essas margens estreitas, inalcançáveis na realidade, agarradas nas ilusões.

Já fiz arder as pontes que estabeleci, à procura que pelo menos esse fogo me iluminasse o caminho que destruí. Mas al-qantara não arde, deixa-se envolver num nevoeiro só seu enquanto fica a olhar para um abraço prometido de uma estátua que não dá nem um passo para se aproximar.

Não sei se já fez um ano, desde que moro em Alcântara. E há sempre Londres, Paris e New York com promessas de outros domingos com outros cheiros, cores e ruídos.

Hoje não. Hoje fico aqui.

sexta-feira, dezembro 10, 2010

tales from real life

Abre o congelador.
Tira uma caixa de petit gatoux.
Tira lá de dentro os dois que sobram, põe num prato, enfia no microondas.

Abre o lixo, retira a caixa que lá pôs mesmo agora.
Vê quanto tempo tem que por no microondas.
Mete esse tempo.

Micro pára.
Não estão feitos, mete mais um pouco. Micro pára. Não estão feitos, mete mais um bocado. Micro pára. Acha que estão, agarra numa colher, começa a comer.

Agora não sabe se há-de bater com a cabeça nas paredes por nem conseguir aquecer petit gatoux no microondas ou se há-de congratular-se a si própria por ter "criado" um novo quente-e-frio.

quarta-feira, dezembro 08, 2010

a briga do costume

- Não é na racionalidade que encontras as verdades. Essa é que é a grande falácia do nosso tempo - a sociedade valoriza a objectividade, a racionalidade, o equilíbrio... já viste como andamos todos tão à procura do equilíbrio para "estarmos bem"?

Sentiu o chão fugir-lhe dos pés quando reconheceu o seu perfil. Deixou de haver tempo, espaço, paredes, terra, ar. Fora dos lugares, tornou-se uma trepadeira fragilizada por alguma tormenta, em desespero para não se deixar cair, a usar de toda a sua força daninha para sobreviver. Sem fôlego, sem respiração, parado sem uma pausa para descansar dessa quietude.

- Ah, o realismo, o racionalismo, o figurativismo até!.. o raciocínio lógico-dedutivo, sabes qual é o mal? É que quando as coisas entram na nossa lógica, a gente acha que são verdade. Encaixamos os "factos" na "lógica", para lhe conferir significados que compreendemos. E depois diz-se, "isto faz-me sentido". Como se a verdade tivesse que fazer sentido na nossa lógica. Ora, a haver uma "verdade" qualquer, existe fora de nós, existe fora das nossas convenções - é isso que criamos, convenções, e depois assumimos que são verdade. Mas são inventadas, como qualquer história de embalar ou lenda, para justificar algo e torná-lo compreensível para nós. Não te parece arrogante, que só aquilo que entra na nossa lógica possa ser verdade?

Sabia de cor os seus movimentos há já algum tempo. Conhecia a forma como afastava o cabelo, o trejeito das ondas que ele fazia quando ela soltava risos ou inclinava a cabeça naquele seu jeito típico. Conhecia-lhe a dança das mãos, o modo como davam um terço de volta e voltavam à posição inicial, a forma como o indicador e o dedo do meio se agitavam ligeiramente em assuntos mais problemáticos, o encosto do polegar ao anel do outro dedo em momentos mais distraídos. Sentia-se implodir por dentro cada vez que ela passava os 4 dedos pela testa, por dentro do cabelo, afastando-o da cara e abrindo mais os olhos a seguir. Sentia-se explodir por fora quando esses dois olhos o fitavam de frente. Que falta de noção, criticava-se, sempre que se apanhava a tremelicar por isso. Que estupidez, criticava-se, que agora com esta idade é que me havia de dar para isto. Que tenho que me controlar, convencia-se, sem conseguir desviar o olhar.

- Portanto, tenho a dizer-te, não é pelo raciocínio que vamos encontrar verdades. Não é. As verdades humanas, pelo menos. As científicas, vá, vamos descobrindo umas coisas na forma de como as coisas funcionam, mas também nunca será pelo método científico que descobriremos o porquê das coisas funcionarem. Isso pertence a outro reino, um sítio onde te garanto que não vai ser pela lógica que se entra. Por isso é que os sofistas foram o que foram, o poder argumentativo mais importante que a verdade intrínseca. A lógica, apesar de tudo, não deixa de ser um sofismo. Menos simplista, mas um sofismo. A gente anda a procurar a razão com a ferramenta errada - a razão. Já viste a ironia?

Queria tocar-lhe. Ás vezes acontecia, casualmente. Um encosto de ombro, um toque rápido na mão, um beijinho de "olá tudo bem". E ele ficava com aquele arrepio na pele, com aquela coisa agarrada à garganta, a tentar manter a casualidade da coisa, a tentar aguentar o impacto do terramoto interno que lhe varria o estomago, o baixo ventre e as virilhas. Queria agarrá-la com as duas mãos, segurá-la, abraçá-la, senti-la. Queria agarrar também todos esses impulsos, manietá-los, amordaçá-los, impedir de denunciar as suas vontades tão óbvias quanto despropositadas.

- E, se não é pela razão, então tem que ser pela emoção. Sabes que pela emoção também se aprende. Afinal de contas, nós somos seres sensitivos. Animais biológicos, condicionados pelos limites fisicos e hormonais da nossa percepção. Mas se calhar não é bem limitados, é mais libertos pelos limites fisicos e hormonais dos nossos sentidos. São eles que são a porta de entrada, mas as emoções, essas nascem cá de dentro, da reacção ao estímulo. Se nos conseguirmos libertar da raciocinalidade para encontrar uma forma mais "natural" de sentir, então estamos mais perto de alguma verdade. Mas não, continuamos a querer as razões, as causas, as análises, os equilibrios. Isso é que nos lixa tudo, isso é que nos afasta de "percebermos" as coisas. "Percebermos", assim, entre aspas, porque não é perceber-perceber com a cabeça, é perceber-perceber com os sentimentos. Percebes?

Ela olhou na direcção dele. E sorriu-lhe, inconsequente. E ele, desastrado, fez um esgar de volta a pensar que tinha que lá ir, que teria que lhe falar e não sabia de quê, não sabia como. Queria agarrá-la mas agora só queria fugir-lhe e tinha que lá ir dizer olá. Casualmente. E ela a falar com outros, e ela a sorrir-lhe, e as mãos dela na dança que ele lhe sabia, e o cabelo dela com os trejeitos que ele reconhecia e o cheiro dela, que se lhe iria colar ao nariz, aos olhos, à garganta, à noite e ao sono que não haveria de vir. Mas não podia dar parte fraca, não podia nunca denunciar-se, não iria nunca denunciar-se. Como é que faziam as pessoas para se falarem? Ah, já se lembrou. Coragem, são 30 segundos, 30 segundos não são nada, 30 segundos são mais do que 10 eternidades juntas.

- A gente tem que se deixar ir. O mal é que não deixamos. Sempre a planear. Sempre a analisar. Sempre a querer saber porquê e a dar justificações para o que sentimos. Tu, vai por mim, quando tiveres a rebentar nas mãos uma emoção qualquer muito forte, deixa-a rebentar toda até te arrancar as unhas. Seja boa ou má. Como diz o nandinho, sentir tudo de todas as maneiras. Vais ver que aí vais ter mais noção das coisas como elas são. Mesmo quando não fizerem sentido. Ou especialmente quando não fizerem sentido. Nunca fazem mesmo.

- É... é isso, é... quer dizer, não sei... equilíbrio é bom, ajuda um gajo a andar mais... equilibrado. epah, espera aí, vou falar a uma amiga, já volto.

segunda-feira, dezembro 06, 2010

Olá, teste, um dois, um, dois, som!!

Caros leitores do excelentíssimo blog Tapar Where,

Depois de várias investidas, disfarçadas de dicas e inuendos, a autora do blog - Exma. Sr.ª Taparuere - encurralada que se sentiu decidiu-se finalmente pelo suicídio literário e "convidou-me" a botar faladura no seu blog!!
A princípio fui invadida por uma felicidade imensa que, 5 segundos passados, foi substituída pela inigualável e sempre inoportuna sensação de pânico!
Para quem não sabe, esta sensação de pânico não escolhe idades, raças ou sexos atacando sem piedade todos aqueles que são colocados sob as encadeantes e assustadoras luzes da ribalta - ainda que neste caso seja somente para dizer disparates num blog...
Desengane-se quem pensa que se está, neste caso, perante uma qualquer sensação de pânico tal como aquela que dá a um traseunte que, absorvido pelos seus pensamentos, passa por um portão de ferro de onde salta um rotweiler que tenta - felizmente sem sucesso! - atacar quem passa; neste caso, o traseunte experiencia apenas uma descarga de adrelina fulminante que pode, na pior das hipóteses, dar origem a um gritinho histérico, que será tanto mais embaraçoso quanto maior for o número de pessoas presentes no local onde se dá o acontecimento!
Não! A sensação de pânico de que vos falo constitui a modalidade mais agressiva de todas as sensações de pânico porque contém em si um encadear de sintomas, maioritariamente fisícos que levam sempre e invariávelmente ao mesmo triste desfecho!
Começa por se sentir uma vontade de rir incontrolável que é imediatamente seguida por suores frios e quentes que atacam de forma intermitente todos os poros do corpo, denotando-se uma maior incidência na zona lombar e nas palmas das mãos. Tais sintomas, já de si desagradáveis, são acompanhados de um tremor incontrolável que faz toldar o raciocínio da mente mais preparada! O fenómeno continua o seu percurso, desta leva passando para o interior do corpo atacado - nomeadamente para o seu intestino grosso - onde atinge o seu climax no já costumeiro mas mesmo assim inadvertido cocó nervoso!
Na minha primeira entrada no Tapar Where não podia deixar de partilhar aquilo que me vai na alma (ou algures no interior do meu corpo)!
Hostilidades abertas, aqui vos deixo com a promessa de que mais disparates virão...

Cumprimentos a todos


As coisas boas vêm aos pares

Novidades fresquinhas neste blog, duas colaborações novas para trazerem novos universos, histórias e divagações.

Não sei como vão assinar nem o que vão querer ser aqui, suponho que o tempo e a participação ajude a definir. Assim, sem regras, sem limites, sem objectivos, uma nova fase no blog, muitas novas frases no blog, meio experimental, meio indefinida, que cada sentimento perdido ou encontrado no vento lhe ponha e lhe traga o que tiver guardado nos bolsos e apetecer partilhar, da forma como quiser.

:)

domingo, dezembro 05, 2010

O assalto

Antes, guardava todas as certezas e as respostas do mundo, devidamente etiquetadas e separadas em caixinhas de cores diferentes. Depois, bom, depois assaltaram-lhe a casa e levaram-lhe muitas coisas que sempre lhe tinham existido na vida e destruiram outras na passagem. A gaveta das respostas foi uma: abriram-na à força, remexeram-lhe as caixinhas, atiraram-nas ao chão e partiram-se, misturaram-se, desfizeram-se em pedaços, resquícios, restos, despojos quebrados.

Quando chegou entrou em pânico. Levaram-lhe as certezas, porque podiam ser vendidas no mercado negro, levaram-lhe as intensidades e as gargalhadas - mas essas, mais tarde, mas só mais tarde, ela viria a descobrir que podiam ser substituídas por outras parecidas, quase iguais e até novas e diferentes - e arruinaram-lhe as respostas.

Quando viu os pedaços quebrados pelo chão, tentou reconstruí-las. Refazê-las. colá-las, limpá-las, arrumá-las de novo. Pacientemente, juntando pedaços soltos. Não conseguiu, e já passou tanto tempo. Horas sem respostas, dias sem respostas, semanas sem respostas, meses cheios de perguntas apenas. Não conseguiu e em vez de respostas arrumadas em caixinhas guarda agora incoerências dispersas nas gavetas. Mas continua, todos os dias, a dedicar umas horas solitárias para ver se as consegue arranjar.

segunda-feira, novembro 29, 2010

A suspensão da vertigem. Como se num qualquer lugar ficassem guardadas as palavras por dizer, lado a lado com os sonhos por concretizar.Seria o sotão de um casarão imenso - as janelas do andar de cima fechadas e as escadas testemunhas.

"Quem consegue subir mais degraus? Quem consegue tocar na porta-que-nunca-se-abre-e-tem-um-monstro-e-espíritos-e-ainda-uma-bruxa-do-outro-lado?"

A porta quase tocada, última barreira entre o mundo e uma outra coisa habitada por seres que nunca ninguém viu mas que se ouvem nas noites em que cada estrela é uma pergunta a morar na mesma cabeça.

Quase toca, e foge.

Do lado de dentro a luz só entra pela fresta debaixo da porta, do lado de dentro há "ses" e "talvezes" e "deveria" que vêem as partículas de pó levantadas pelos passos apressados, pelos passos medricas mais corajosos.

Os fantasmas guardados, como se só existissem para brincadeiras de crianças antes de serem chamadas para o lanche, pelo menos até ao próximo anoitecer.

segunda-feira, novembro 22, 2010

a vida e a morte de D. Prudência

D. Prudência tinha idade indefinida e gostava de passar despercebida. Os seus passos eram sempre silenciosos e os seus movimentos repletos de tranquilidade.
D. Prudência gostava de vestir sorrisos apaziguadores e calças a rondar os beiges.
Era dada a cores neutras e pouco dada a dores intensas. Nunca tinha chorado em soluços, não sabia quando tinha dado a última gargalhada. Nem a primeira.

As pessoas no bairro simpatizavam com D. Prudência, isto é, cumprimentavam-na sempre que a viam. O que não era sempre que ela estava, às vezes passavam por ela sem ver, mas D. Prudência não levava a mal e dizia "bom dia" ou "boa tarde" na mesma. Falava baixinho porém e ficava na mesma sem resposta. Se o seu interlocutor se apercebia, ficava aflito, "D. Prudência, bom dia, nem a via, desculpe lá!" e logo D. Prudência corava com tanto alarido. E isto porque as pessoas simpatizavam verdadeiramente com ela, e ela simpatizava verdadeiramente com todos os equilíbrios da vida. "Que é isso que é importante, o equilíbrio" dizia baixinho a quem a conseguia ouvir.

D. Prudência, em toda a sua vida, só teve um azar, o mesmo que foi responsável pela sua partida deste mundo. Apaixonou-se dona Prudência, numa tarde em que o sol se punha em tons de vermelho e lhe apresentaram um homenzinho de gabardine igual à de outros milhões. Verdade seja dita, foi paixão à primeira vista que durou um serão inteiro, entre conversas, brincadeiras e sorrisinhos. Durou precisamente até à altura em que D. Prudência percebeu e se apercebeu de que não ia conseguir manter o equilíbrio, de que não queria manter o equilíbrio, que só queria perder-se num abraço, encontrar a sua pele naquela pele e enterrar os seus lábios naqueles lábios. Deixar-se sentir tudo de todas as maneiras.

Foi demais para D. Prudência, que logo ali esticou o pernil, quando o coração lhe explodiu dentro do peito, sem conseguir aguentar a intensidade do momento.

Enterraram-na num caixão de madeira, sem artifícios nem rebites bonitinhos, num canto ao lado do canto mais sossegado do cemitério. Raramente tem visitas, nem sempre as pessoas se lembram de lá ir. Quando se lembram, no entanto, ficam na dúvida se teria sido melhor D. Prudência nunca se ter apaixonado, ainda que isso a tenha matado.

sexta-feira, novembro 19, 2010

"querida, cheguei!"

supermodernidade, em vez de pós. Por causa das vertigens aceleradas no tempo, das velocidades incansáveis e das cidades que deixaram de dormir, por causa dos excessos. Tudo não chega, há mais além desse tudo, quero o que sobra de fora desse tudo. As cidades não dormem e tornaram-se sonâmbulas nas suas próprias esquinas, ilimitadas pelas possibilidades, dependentes dos seus não-lugares físicos.

E no entanto, no frenético excesso, os dias seguidos são espelhados, as semanas vizinhas idênticas, os meses fronteiriços praticamente iguais. Mas e os outros, mais afastados? 3 meses, e tudo muda. Dos anteriores 6? Não existe hoje nada. Nem vestígios, nem resquícios - uma ou outra memória meio desfocada que nem parece real. Ou se calhar é o hoje que não é real, ou se calhar foram duas existências paralelas, independentes, que nunca se cruzaram. Não pode ser, teve que haver continuidade obrigada pelo traço do tempo. É assim que a vida funciona, é assim que a lógica obriga. Teve que ser, teve que ser, teve que ser - se for dito muitas vezes pode ser que me acredite. Mas olho para tras e não vejo pontos de viragem. Estarão escondidos debaixo de algum tapete? Seja como for, é impossível um regresso.

Os regressos são sempre impossíveis, pela velocidade intransigente, o sentido é só um e é para ali, pára aí. E no entanto, todos os dias são espelhados, todos os dias são idênticos e todos os dias te sentes a regressar a casa. E anseias, em alguma parte do dia, esse momento em que chegas e anúncias a chegada, o regresso a casa, o retorno ao sítio de onde és, onde pertences. Mas os regressos são impossíveis. Será ilusão?

Só pode ser ilusão, pela vontade, pelo desejo de que seja um regresso. Como se se pertencesse a algum sítio. Daqui a 6 meses podes nem reconhecer a mesma casa, quando fores sair à noite e a encontrares pintada e arranjada de maneira diferente, com gestos diferentes, novo corte de cabelo e novas manias e palavras. Pode acontecer. Pode não acontecer. No entretanto, mantêm-se a ilusão, porque sabe bem.

Não me posso esquecer disto, que é ilusão, que os regressos não são possíveis... não me posso esquecer disto mas... está-me a saber bem.

quarta-feira, novembro 17, 2010

Sleep on needles

Ask me anything you like
I'll reveal everything
I will treasure the truth
You could know anything

I am but a fool to play unaware of things
If I'd treasured the truth
I would tell it to you
I'm coming down to tell you what I know
To say what's real, to let you know
Where I have been and how I had to

Sleep on needles
You'll believe you are hard
Sleep on needles
And hear only the truth

Am I likely to succeed with the way things are?
Judging by your smile
You are holding something back
I'm sleepless around midnight
There's a change in the wind
The remembrance of things you used to hold back
I come around each time your notes are high
To tear you down and drag you up
To let you know what's going on while I

Sleep on needles
You'll believe you are hard
Sleep on needles
And hear only the truth

http://www.youtube.com/watch?v=fGuijAGjlZU

quarta-feira, novembro 10, 2010

pára-doxo, pára.

20 mil horas submarinas. Que passam e trespassam, e conversas à solta num ambiente demasiado encharcado em tabaco e hálitos que comem de menos e bebem de mais.

E falas, e contas, as histórias dentro de outras histórias, do tipo que te disse que conhecia um tipo que era terra de ninguém no meio de toda a gente. Esse tipo - dizes - o segundo, um infeliz. Daqueles que tem a mania que não pertence a lado nenhum, que não se enquadra, que quer ser diferente e dá brilho aos símbolos do seu lado de fora.

Sabes - continuas - eu não percebo. È como se as pessoas estivessem à espera que houvesse mais, que houvesse algo mais e portanto não querem isto. Como se outro lugar fosse melhor, e não fossem as mesmas pessoas, as mesmas conversas repetidas, os mesmos olhares com os mesmos pedidos... Eu já tive em muito sítio, tu sabes - e nem sequer estás à espera de um sinal afirmativo da minha parte, pois não? - e posso-te dizer que no final do dia, é tudo mais ou menos a mesma coisa. Aqui ou em outro lado. E, vamos lá ver, se é isto que temos, não vale mais a pena agarrá-lo, que ficar à espera de outra coisa qualquer diferente que nunca vai existir? Que raio de insatisfação é essa? E depois, e depois as pessoas e aquela maniazinha de começarem todas as frases por "eu", sabes? E de fazer monólogos como se fossem diálogos, a reclamarem das vidas e das filosofias dos outros, como se só eles conseguissem suspeitar de um mundo novo, uma terra qualquer prometida, como se ouvissem um qualquer chamamento secreto... sei lá... Eu acho um desatino. Porque nem sequer se esforçam em fazer diferente ou em perceber. Não percebo - e fazes uma pausa, com o olhar preso num horizonte que se estende a 30 cm de distância. Eu não conseguia. Tenho que agarrar as coisas, tenho que pôr a mão na massa, tenho que fazer acontecer... percebes? Não fico à espera a queixar-me. Não anseio por uma terra prometida. É isto que temos. Eu não vou desistir, não posso.

Sorrio-te. Digo-te que sim, que as pessoas são assim. Que não estás mal, mas que remas contra a maré, que mais ninguém sabe disso, que guardas um segredo diferente do outro segredo do livro.

Suspiras. Não acredito em filosofias-cor-de-rosa, eu sei que estou sozinho nesta luta, dizes. E fazes aquele olhar, de quem acha que não é de lado nenhum, de quem acha que não pertence a lugar algum.

Quanto custa, deixar de acreditar(-te)?

domingo, novembro 07, 2010

bluuuuuuuurps.

duas da manhã e um céu desconhecido, apagado, escuro.


com tanto tempo de existência por aqui, estranha que seja desconhecido.


aquilo que se reconhece não tem só a ver com o tempo com que existe, tem a ver com aquilo que tu queres reconhecer como existente.


olha que não, segundo a filosofia budista, tudo o que fizeres durante 21 dias, se torna um hábito. segundo a praticidade oriental, o que se torna um hábito faz parte de ti. portanto, 21 dias chegam para te definirem.


ainda bem que eu nunca confiei nos budistas então. parecem sossegadinhos, mas nunca fiando.


os budistas não são questão de confiança!


achas tu.

quarta-feira, novembro 03, 2010

GPS

Desde o primeiro GPS que tive (que se chamava Gabriela Paulinha dos Santos) e que morreu nova (o Deus dos GPS's que a tenha, coitada) que efectivamente me tornei um pouco dependente do dito aparelho. Tanto em viagens compridas como em descobrir ruelas e ruínhas aconselhadas por alguém ou alguma publicação real ou virtual.

Dá-me mais jeito não ter que pensar. Vá. Acho que basicamente é isso, não ter que pensar, não ter que planear, não ter que procurar informação num sítio para o usar no outro sítio e guardá-la na memória durante esse espaço de tempo até que a sua utilidade expire de prazo. Pronto, dá-me mais jeito ser preguiçosa, no fundo.

Apesar de reconhecer a utilidade dos GPS's, acho que há com certeza muito espaço para evolução. Assim do estilo, um GPS-amigo, que faça conversa, jogue a jogos, introduza novos pedacinhos de conhecimento cultural / trivial e não me grite "vire à direita" como se mandasse em mim.

Assim, uma coisa mais social... "È aqui à direita pah", seguido de um "aqui, aqui, aqui!" e depois um "jááááá t'enganaste outra vez" parece-me que era um conjunto de frases que ouviria bastante.

se calhar não é assim grande ideia, não.

sexta-feira, outubro 29, 2010

meia-noite.
ela olha à sua volta e lembra-se de todas as vezes que ouviu que a maior parte das vezes, a felicidade existe mesmo ao nosso lado. ao estender da mão, ao alcance da mão, e não damos por ela.

sorri.

lembra-se de todas as vezes que ouviu que, felicidade é aquilo que encontras quando dás a volta ao mundo à procura dela mas é no regresso a casa que ela te espera.

bebeu mais um trago do vinho adocicado, de olhos presos no cenário em que vivia.

teve certezas.
os conformistas dizem muita merda. e decidiu-se em partir para ir à procura da felicidade. Não para a encontrar, mas para a construir em qualquer outro sítio que não este, que não ao alcance da sua mão.

domingo, outubro 24, 2010

faithless

Chuva. E um céu escuro e fechado tapava a saída do mundo. Pelo menos aquela única saída que sempre tinha sido considerada possível. Nestes dias ficava calada e tentava evitar as pessoas. Não era por mal, nem por bem, na verdade. Nem sempre se tem o domínio dos próprios gestos, nunca se tem o domínio dos próprios pensamentos. É só que, sem saída, não sabia para onde ir. Como se as pessoas tivessem sempre que estar a ir para algum lado, pensava. Mas estão, de facto... entre planos, metas e objectivos, à procura da conquista seguinte, que antecede a outra a seguir. E os falhanços pelo meio, que é bom errar e é no erro que se aprende... o erro tornou-se também um objectivo, olha que bem. E faz sentido, e é consensual.

O sentido. As lógicas. Os "factos". Chamam-se "factos" àquelas lógicas de argumentação que nos fazem sentido. Desde a religião que tudo tem um sentido. Assim, num céu sem saída, a única religião possível é a religião pagã. E sorria.

Era por isto que não gostava de estar com pessoas quando chovia na sua cabeça e um céu escuro e fechado lhe tapava a saída de um outro mundo que não aquele onde o sol brilhava, do lado de fora da sua janela.

sábado, outubro 23, 2010

...

Uma artista.
Não, uma bailarina.
Pode ser, as bailarinas não são artistas?
Não embirres comigo. Escreve.

"Era uma bailarina que mesmo fora de palcos andava em bicos de pés pela vida..."

Chega lá esse cigarro para lá. Porque é que tens que estar sempre a fumar quando escreves?
Sei lá. Para me concentrar. Deixa-me continuar.

"Tinha um sorriso do tamanho do mundo, um olhar vibrante, daqueles que vê um bocadinho mais fundo e com mais atenção do que os outros..."

Isso não diz nada sobre ela.
Claro que diz.
Não diz nada. E ela não tinha já deixado de dançar?
Voltou. Escreve tu agora.
Não quero, continua lá. E afasta o cigarro.

"Tinha deixado quase todas as suas raízes noutra terra e as que trouxe começavam agora a definhar, passado tanto tempo. Ainda assim, dançava, como último reduto seguro de uma essência que não estava certa de conhecer..."

Isso também não diz.
Claro que diz. Lê lá com atenção.
Tá bem, tanto faz. Continua.
Não sei para onde. Nem ela sabe. Queres ver?

"Às vezes perdia-se nos ritmos das músicas diferentes que encenava. Ou talvez não se perdesse, encontrava-se todos os dias na multiplicidade de gestos que desenhava no ar."


Ahahahaha! Isso foi porque se acabou o cigarro?
Não... a história é que vai a meio e precisa de tempo para acontecer, e eu preciso de tempo para a conhecer.
Estás a pensar no quê?
Não sei. Em que só digo asneiras.

segunda-feira, outubro 18, 2010

A gente habitua-se

A gente habitua-se, desde criança, a dizer "obrigado" e "se faz favor". A não gritar, a ser bem comportado, a dar beijinho ordeiramente depois de nos mandarem, mesmo sem conhecermos aquela cara de lado nenhum. A gente habitua-se, a cumprir as expectativas que nos depositam e que não escolhemos. A gente habitua-se a fazer letra redondinha e a decorar matérias que não percebemos na escola, sem saber para que servem.

A gente habitua-se à ideia de ter que escolher qualquer coisa "para ser" na vida, e escolhemos e continuamos a cumprir as expectativas da nota X no exame Y, do estágio A no sítio B. A gente habitua-se, a passar de estágio para estágio, a viver com menos de 1000 euros no bolso, a sonhar com um contrato, geração rasca, geração à rasca.

A gente habitua-se a estar fechado 10 horas por dia em sítios que não são as nossas casas, com pessoas que nos obrigaram a conhecer, a fazer tarefas que não escolhemos, a ver o sol e o vento passar do lado de fora da janela.

A gente habitua-se a perder o verde das árvores, a não sentir o cheiro de terra molhada, a ver o horizonte largo que acaba na vista do prédio da frente. No trabalho e em casa.

A gente habitua-se às relações que temos, aos amigos que temos, às desilusões que sofremos, "a vida é assim" dizemos, enquanto nos habituamos a que seja outra vez assim.

A gente habitua-se a sair do trabalho e a almoçar em pé e sozinho, no meio de estranhos que evitamos olhar nos olhos, que evitam olhar-nos nos olhos. E a gente habitua-se a sair do trabalho e a irmos para casa, comer qualquer coisa em frente à tv e a sentir o serão passar, para no dia seguinte acordar e espreitar mais uma fila de trânsito, mais uns atrasos, mais o sol a passar na janela.

A gente habitua-se a que o amor se gaste, a gente habitua-se a que as conversas acabem, a gente habitua-se aos tópicos práticos e funcionais e aos silêncios que já não traduzem o conforto e a cumplicidade entre duas pessoas. Significam outra coisa qualquer, mas a gente habitua-se a eles também.

A gente habitua-se à vida e a tudo o que não gostamos na vida. Para não lutarmos por coisas perdidas, porque olhamos à volta e vemos gente habituada, para não nos desgastarmos deixamos que a vida se gaste sem que a gente faça outra coisa nela senão habituarmo-nos.

Terá mesmo que ser assim?




(li um texto parecido com isto em algum sítio, não me lembro onde, não me lembro de quem, sei que não me sai da cabeça há uns dias e acabei por ir escrevendo, parecido, igual, diferente, não sei. não é cópia, não é plágio, também não é ideia original minha, confessadamente.)

terça-feira, outubro 12, 2010

"Your idea of me is fabricated with materials you have borrowed from other people and from yourself. What you think of me depends on what you think of yourself. Perhaps you create your idea of me out of materials you would like to eliminate from your idea of yourself. Perhaps your idea of me is a reflection of what other people think of you. Or perhaps what you think of me is simply what you think I think of you?"

(ou, o eu na construção do tu e vice-versa, ou, uma nota mental de mim para mim.)

segunda-feira, outubro 11, 2010

...

Chegou e trazia as mãos vazias dentro de uns bolsos cheios de nada. Olhou à sua volta e viu gente. Teve vergonha das suas mãos vazias, dos nadas que lhe rebentavam pelas costuras, das palavras ocas com que tentava traduzir os silêncios que a recheavam. Pensou que este não era o seu lugar, teve todas as certezas do mundo que este não era o seu lugar enquanto via à sua volta os movimentos seguros de quem não se sabe repleto de pequenas brisas perfumadas a efémero. Assim de fácil, assim de inexistente, assim de intocável.

Foi ficando, porque foi, por acaso, porque não tinha mais onde ir.

E foi enchendo os seus bolsos de outros nadas de outras pessoas, de outros silêncios e intraduções de outras gentes, de tantos vazios como o seu, cheios de vontade de dar o que não existe.

Aos poucos, quem sabe, isto lhe começa a fazer sentido.