terça-feira, março 15, 2011

- O que queres ser, quando fores grande?
- Seguradora de pássaros bébés.
- Desculpa?
- Sim, quero ser seguradora de pássaros bébés.
- Porquê?
- Estou desconfiada que é o mais próximo que tenho para tentar aprender a segurar momentos, sopros de brisas, cheiros e cumplicidades.

sexta-feira, março 04, 2011

Rio(te) sem beira

É sexta-feira. E nos dedos escorrega-me a sensação de agarrar qualquer coisa que não toco…ainda. Soubesses tu o caminho até Marte, até Vénus, até Plutão. Quisesses tu saber a frequência dos planetas e dos pássaros que voam na rota da abstracção. Não há nuvens. Mas há muito branco por onde viajar. Viagens de ida sem volta porque as voltas, as voltas meu amor, dão-se todas nos caminhos feitos de mãos encontradas. Encontradas, não dadas, como nos contaram antes. Porque há muito tempo que me deste as tuas mãos e eu ainda não as encontro. Por exemplo. Hoje quando acordei tinha a certeza que a claridade vinda de dentro eras tu. Lembro-me de me assegurar dos teus dedos depositados debaixo da minha almofada, como presentes secretamente esperados nas manhãs que acordam sem o primeiro dente.

Já não somos crianças, eu sei. Mas há ainda dentes que caiem em forma de embrião e manhãs de presentes secretos com sabor a desejo. Eu ia jurar que me recolheste as pálpebras. Mas foi, talvez, um dente caído como folha de Outono onde se escorrega em alegria vã. Amanheço sem segredos debaixo da almofada. Tenho o desejo em linha de espera que não posso atender. Seria mais fácil ver-te numa distância pouco precisa. Pouco precisa, como quem não faz tanta falta assim. Como o primeiro dente.

Sabes o que tinha debaixo da almofada nessa manhã de quatro anos? Ou de cinco, ou seis. Não me lembro da idade. Só me lembro do dente a menos e do caderno a mais, da Mafalda. Ainda o tenho. Escrevi-me até à exaustão ainda sem me saber escrever ou dizer. Depois desse dente caíram mais. Mas maior foi o ritmo da chegada dos cadernos. Hoje já não têm a Mafalda na capa. Essa ficou-me na ponta dos dedos e na tinta escorrida para adivinhar o mundo. Para lhe descascar as capas. Pretas hoje. Para te adivinhar aqui. Escrevo-me ainda para te agarrar agora. Mas escorregas-me como água em contra-corrente.

quinta-feira, março 03, 2011

beira Rio-me

Dizes, hoje tudo é outra coisa qualquer. E por detrás dos olhos escorrem-te peixes, soltos num rio de palavras que fez do céu um chão de tons de violeta.
Dizes, hoje é tudo qualquer outra coisa. E por detrás dos cabelos soltam-se pássaros que esvoaçam dentro dos lagos que te escorrem pelas mãos.
Digo que acredito nos novelos vermelhos que vejo desenliarem-se na tua boca, quando o telhado da casa da frente bate telhas para descolar-se dos muros. Escondemo-nos por detrás das janelas cegas, não sei com que cores se pinta o mundo lá fora, só tenho um lápis cor de laranja que a única coisa que diz é traço.
Foi ontem que vimos as nuvens dançar o tango? Rio-me e digo-te que não, que sabes bem que as nuvens não dançam o tango, é a valsa meu amor, com cheiro a hortelã pimenta e tempero de gengibre.
Se me deres as mãos, as duas, inventamos palavras daquelas que parecem gomas. Daquelas que não se conseguem parar de comer, umas atrás das outras depois daquelas antes de estas. E tiras um fio de novelo vermelho que ficou preso entre os dentes, olhas com admiração e espanto mas sabes que qualquer coisa é tudo, hoje.
Foi ontem que as paredes se encheram de relva do lado de dentro? Digo-te sim, logo depois daquele sino enorme ter feito as paredes da igreja velha ruir. Relva e malmequeres, respondes que sim, malmequeres, mal-me-queres.

quarta-feira, fevereiro 23, 2011

acto VIIX

Frases soltas num inglês vestido de sotaques de díspares nacionalidades. "Que está um dia lindo para se ficar a ver do lado de cá da janela", inglês despido de pretensões de gramáticas correctas. E está, e há dias assim, a ficar a ver o sol com a cara encostada ao vidro frio, tudo o que se poderia agarrar com as pontas dos dedos preso numa superfície nua de sentimentos.

Há qualquer coisa de mais verdadeiro na aceitação pura e dura da incompreensão plena de pessoas. Porque não falamos a mesma língua, porque não temos sequer os mesmos significados para as palavras iguais que usamos, porque as destrezas em que pensamos se perdem na intradutabilidade das experiências diferentes que passámos, em contextos tão longíquos uns dos outros, em contextos inexistentes nas cabeças uns dos outros. Frases soltas num inglês vestido de sotaques, despido de pretensões, sem procurar chegar a lado nenhum maior do que este ou aquele sorriso cortês, a aceitação da incompreensão numa cerveja partilhada, numas amendoas que foram ao forno, numa canja portuguesa com gengibre.

E a mão encostada ao vidro sem tocar no mundo que vejo.
E as pontes tão frágeis quanto a fina placa de gelo que cobre um rio lá ao fundo, entre os patos. Não terão frio, os patos?
Não terias tu frio, do lado de lá do vidro?

Talvez deixar-se ficar assim mais um pouco, mão no vidro, testa encostada na janela e um suspiro a embaciar a vista que numa língua estrangeira tráz impresso apenas um "se....".

quinta-feira, fevereiro 10, 2011

reflexo

O mundo inteiro era suficiente, quando te enfiavas em casa de olhos vendados a tentar ver com os outros sentidos o que te tornava na pessoa que não eras. O mundo inteiro era suficiente e cabia todo dentro da casa, cabia todo dentro de ti, quando te enfiavas em casa, de olhos vendados a tentar encher o corpo com o mundo que não tinhas.

Passaram anos desde essa altura e agora falas das inevitabilidades planeadas por forças habitacionais da tua mente. Sem saberes de que é isso que falas, quando dizes "o ar tem cor de chumbo com peso de algodão doce". Estranhas, no entanto, quando estás num sítio com eco, gritas "não" e escutas na volta interiores de recipientes incipentes que transbordam líquidos de que desconheces o nome.

Creio que foi por isso que deixaste de escutar.

Poderias ter escolhido deixar de gritar "não" e tentar com outra coisa qualquer, mas se te dissesse que foi escolha tua, irias desenrolar um novelo de fios eléctricos enrodilhados, na tentativa de explicar os impulsos nada causais mas sempre causísticos que se tornaram as inevitabilidades amarrantes que te esculpem enquanto te desculpas na inacção.

São tretas, sabias?

Posso dizer-to assim,
posso dizer-te "Bang",
posso dizer-te o que quiser porque
continuas a enfiar-te em casa de olhos vendados para olhar um mundo inteiro que te cabe dentro e se escoa pela janela quando te distrais.

Só tu não o sabes, quando te escondes do lado de trás da desculpabilização fácil.

segunda-feira, fevereiro 07, 2011

Dona Ema

Dona Ema estava casada há já 20 anos, e bem casada diziam na vizinhança, quando o seu marido passava apressado, levando as crianças ora para a escola, ora da escola, ora para os seus infantis afazeres, ora de passeio nos seus desportivos prazeres. Dona Ema estava casada havia 20 anos, e havia mais de 25 que o seu marido cuidava dele, dela, da casa, dos filhos, das contas, das necessidades, das futilidades. Só não cuidava do cão, mas isso era porque Dona Ema sempre tinha tido um invulgar medo de cães e portanto a família não tinha nenhum.

Dona Ema também vivia atarefada, agradecendo no entanto e nos entretantos, a preciosa ajuda que o marido prestava. Não era bem porque tivesse muitas coisas para fazer, era mais porque o seu estado de existência era naturalmente a correr. Corria para aqui, corria para ali, não se podia esquecer disto ou daquilo, ai que já estava atrasada para o outro. Acabava por ser a sua principal actividade, andar pelo corredor, encontrar esta ou a outra pessoa, subir e descer escadas e agora falta um papel, espera que vou beber um café, e faltava depois o tempo para fazer mais alguma coisa. No trabalho não lhe levavam a mal, já lá estava há muito tempo, fazia parte da casa. "Lá vai Dona Ema falar com alguém, lá vem Dona Ema além, viste a Dona Ema, não vi, mas espera um pouco que ela não deve demorar a voltar aqui."

Dona Ema que passava veloz, tinha na cabeça vários planos e sonhos, objectivos por concretizar, vontades por planear. Não tinha tempo para elas, mas, ah, se pudesse, quando tivesse tempo Dona Ema iria fazer tudo de uma vez, tudo o que andava a adiar, tudo o que podia sempre esperar.

Foi por isso que Dona Ema passou a vida a ser uma possibilidade por concretizar.

sexta-feira, fevereiro 04, 2011

coisas que sei fazer.

Sei fazer crepes e panquecas.

Sei assobiar alto, com os dedos na boca.

Sei fazer festas a cães, bem feitas, daquelas que os põem a abanar uma pata.

Sei fazer piadinhas secas.

Sei fazer um jantar sem ter que cozinhar nadinha.

Sei estacionar o carro em sítios onde as pessoas que estão dentro do carro acham que ele não cabe.

Sei tocar uma música na viola (mas preciso que me avisem quando é para mudar de nota).

Sei atar os atacadores dos sapatos de 2 maneiras diferentes. Bom, uma não é mesmo atar-atar, mas também conta.

Sei fazer o pino, dentro e fora de água. Mas fora de água não o aguento muito tempo.

Sei falar inglês e espanhol. Mas falo melhor espanhol do que inglês.

Sei brincar com gatos e despertar-lhe a curiosidade. Menos com a Farrusca, essa não quer brincadeiras, quer é festas porque é o gato-cão.

Sei beber de dois copos ao mesmo tempo, seguros só com uma mão, a fazer cascata.

Sei jogar matraquilhos e marcar golos da baliza.

Sei fazer merda.

Sei escrever com a mão esquerda.

Sei andar de mota, bicicleta e a cavalo.

quarta-feira, fevereiro 02, 2011

trági-sit-com

Primeiro acto:
A lamacenta queda. Não a lamacenta aterragem - é a queda que é suja, húmida e pegajosa.
Começa limpa, no tropeço da vida, mas imediatamente se suja no ar. Repleta de resquícios de formas indefinidas, salganhada amontoada, bolos disformes de matérias anónimas. Vai-se enchendo no movimento imprevisível mas obediente à gravidade.

Há dois tempos separados, o de quem vê e o de quem cái.
A lamaçenta queda, para quem vê, é rápida e barulhenta. Foi um "Truz!" momentâneo cuja velocidade não permitiu a gravação mental de pormenores inequívocos. Caberá ao cérebro de quem viu colmatar falhas visuais com pedaços dispersos de outros acontecimentos fortuitos e longíquos que agora servirão para complementar este, sem distinção das suas origens. Tanto pior para o individuo que tentar contar a sua versão ao outro individuo cujo acaso também lhe permitiu a assistência do mesmo acontecimento.

A lamacenta queda, para quem cái, é lenta e silenciosa. Há um "Truz!" no final, mas é desfasado do acontecimento e longíquo dele. Para quem cái, a lamacenta queda traduz o significado de eternidade, mas só por um bocadinho que dura muito. Dura o suficiente para a percepção tomar-se conta de todos os detalhes e pormenores - o movimento descontrolado do corpo, a sujidade que se lhe junta e cobre, as formas que toma na vertigem da queda desamparada na reflexa deslocação que se lhe imprime. Dura também o suficiente para que o individuo reveja mentalmente as circunstâncias que o trouxeram a este sujo desamparo, vistas de vários pontos terrestres e agrestes diferentes.

Segundo acto:

A nobre aterragem. Não é o nobre levantar - é a aterragem que é nobre, cheia de verticalidade.
O final da lamacenta queda é pontuada por um "Truz!", ponto final parágrafo de um momento, barra travessão do momento seguinte. A aterragem horizontal faz-se na verticalidade da situação - a possível, entenda-se. O indivíduo que cái teve tempo reflexivo e reflectivo suficiente para se aperceber da situação, das suas causas, das suas várias possíveis consequências segundo plano probabilístico desenhado pelo modelo matemático da hipergeométrica distribuição. Teve tempo para ponderar a dimensão da amostra e registar os casos de sucesso conhecidos dentro dessa amostra. Derivado destes factores, consegue transformar a sua aterragem desajeitada num momento de nobreza e honra. Para fazê-lo, cairá TO-TAL-MEN-TE desamparado e descordenado, sem qualquer tentativa de colocar as mãos à frente da cara ou de proteger a cabeça. De facto, a nobreza da aterragem dependerá também do momento de contacto das mãos e dos joelhos com o solo. Quanto mais nobre, mais tarde será esse contacto.

Terceiro acto:

O a-levantar-se. Não é o levantar-se - é o a-levantar-se.
O levantar-se seria digno e comandado pelas necessidades e possibilidades motoras do indivíduo. O a-levantar-se exige mais do que isso, exige ao individuo que se alevante como possa. Se puder. Se não puder, será na mesma considerado como se tendo alevantado. Para todos os efeitos, o domínio da percepção sobre os acontecimentos fortuitos imprime na objectividade visionária a incapacidade separativa da realidade objectiva tatuada na pele da ilusão casualística.


A banda sonora dos três actos será contínua e seguirá o seguinte modelo:
plóc-fzzzzzzzzzzzzzzzzzzztttt-Truz!

Fim.

segunda-feira, janeiro 24, 2011

Estranhas Encruzilhadas

- Mas demoras muito a chegar?

- Não sei, acho que me perdi!

- Estás onde?

- No Beco do Fim das Relações.

- Ui. Isso não é a melhor zona da cidade.

- Calculei, pelo aspecto. Como faço para sair daqui?

- Pois, ainda por cima isso aí é um autêntico labirinto. Mas tem várias opções. Atrás de ti tens um cruzamento, não tens?

- Sim, estou de frente para ele.

- A rua da direita vai dar a outras duas ruas. Uma delas leva-te de volta ao beco onde estás, a outra leva-te à praça de onde vieste. Chama-se “Rua dos Regressos”.

- Sim, estou a ver… mas é um bocado muito íngreme, não?

- É, é. E escorregadia, muita gente vem cá parar abaixo outra vez, que não é nada fácil de subir.

- Ok, a praça de onde vim não era má, não. Mas será que ainda vai estar igual?

- Há-de ter algumas coisas iguais, outras diferentes. Também para lá chegares vais ter que estar diferente e largar metade da bagagem, se não não consegues subir a rua.

- Ok. E as outras?

- Á tua frente tens uma rua larga e florida, certo?

- Sim! Com óptimo alcatrão e piso, várias faixas de rodagem e árvores! Parece uma óptima rua!

- Pois. Mas vai dar a uma praça meio estranha. È de terra batida e meio deserta, chama-se “Praça da Resignação” e essa rua que vês tem o nome de “Relações de conveniência apressada por medo da solidão”.

- Uhm… ok. E à esquerda? Esta rua estreitinha?

- Ah. Essa é a “Rua da descoberta” e vai a um largo muito fixe, de onde depois saem mais caminhos.

- Está cheia de buracos e é meio escura.

- Sim, e super-estreita, só dá para passar de uma pessoa de cada vez, e às vezes de lado. Também não é uma rua fácil de se fazer.

- E então, afinal para onde vou?

- Isso eu não sei, tu é que tens que te decidir.

- E tu?

- E eu o quê?

- Estás onde?

- Estou no Largo das Esperanças à tua espera.

- Mas os caminhos que disseste vão dar aí?

- Não sei. Depende.

- Então, e vais ficar aí à minha espera se eu não sei se aí vou dar?

- Vou. Só até ficar de noite, que isto é um bocado desabrigado. Depois, se não chegares, há aqui outras ruas também, por onde posso ir. Não sei, logo vejo.

quarta-feira, janeiro 19, 2011

“I should have been a pair of ragged claws
Scuttling across the floors of silent seas."
T.S. Elliot

- Fala-me das pedras…
- Ah, essas também estão sempre lá e não são intervalo, excepção nem regra
- Continua…
- Também não são fuga, ferida aberta ou trapos remendados nos músculos
- São o quê?
- As pedras contam (nos). São (nos) o menos para que tudo o resto (nos) conte mais.
- Todas as pedras?
- Todas.
- Quais?
- As que querias ter rematado com um sorriso. As que querias nem ter visto da primeira vez. As que escolheste ver de novo. As que esqueceste, as que escondeste, as que guardaste e trazes todos os dias e no intervalo deles…
- No intervalo?
- E antes e depois e durante… as que são cascata de punhais aflitos e as que são vinho quente num crepúsculo temperado de canela e dedos esguios à lareira.
- Uhm...de que é que gostas mais nas pedras?
- Da música.
- Qual música?
- A das pedras.

terça-feira, janeiro 18, 2011

Catarina, a Donzela incompreendida

Na Urbes Imperatoria Salatia existiu, nos tempos remotos dos poemas de amor e das serenatas, uma Donzela de seu nome Catarina. Catarina de La Pirose Totalle (façam favor de ler o seu nome com entoação francesa para lhe dar a solenidade devida!)

Catarina não era uma Donzela qualquer, como essas que só andam p'ra aí a donzelar o dia todo. Naaa...dessas havia-as aos molhos na Salatia; tantas que o Presidente da civitas mandou publicar um édito que aprovava um novo imposto municipal a ser pago por todos aqueles que albergassem mais do que uma Donzela em suas casas (tipo política do filho único na China mas só que na Salatia e algures no século XIII.)

Mas voltando à bela Donzela da nossa história, Catarina era detentora de uma beleza inigualável; os seus olhos verdes que adoptavam tons de mel em dias de maior claridade e os seus caracóis dourados sempre meticulosamente penteados com a melhor brilhantina da época enchiam o imaginário dos jovens salineiros que se dirigiam ao rio Sado ao fim do dia para a ver passear nas suas margens (bem sei que soa a cliché mas façam o favor de continuar a ler!).

No entanto algo diferenciava Catarina das outras Donzelas da sua idade, fazendo-a, desde cedo, sentir-se incompreendida por parte de todos os que a rodeavam. O diálogo com os seus pais era inexistente; os jovens salineiros haviam há muito cessado as suas tentativas de conversar com ela e quando o faziam as únicas reacções que obtinha eram olhares intrigados, curiosos ou até assustados. Nem sequer tinha uma melhor amiga para desabafar ou com quem partilhar as suas angústias. Todos a consideravam estranha. (sei o que estão a pensar: dêm-lhe um maço de tabaco e um cd dos The Doors e temos uma típica Donzela da Salatia do século XIII. Mas continuem a ler que não se trata disso.)

Perguntava-se muitas vezes qual seria o seu problema mas nunca chegava a nenhuma conclusão; por mais que tentasse integrar-se, todas as suas tentativas saíam frustradas. O que estaria a fazer mal?

Foi durante um desses momentos introspectivos, que geralmente a conduziam a um estado de desespero incontrolável, que Catarina se encheu de coragem e, numa derradeira tentativa de alterar o rumo das coisas respirou fundo e disse à sua mãe na única língua em que sabia expressar-se: "Mutter, was ist los mit mir? Ich fühle, dass ich nicht verstehen kann und tun, was die Leute denken ich bin komisch ... warum schaust du mich so an?"

segunda-feira, janeiro 17, 2011

doming, II acto

Não sabia, quando sai da cama, que hoje seria novamente domingo. Escrevo "novamente" porque ontem já foi domingo. Dois domingos seguidos, a semana passou uma rasteira ao tempo mas não estou certa que mais alguém se tenha apercebido.

Ouvi dizer que chovia lá fora. Estranho, porque não vejo, mas disseram-me que chovia e traziam cabelos e ombros encharcados, pingas grossas a escorrerem nas sobrancelhas, presas na pestana, a deslizarem na cara. Chove lá fora, e eu que estou na rua penso que não estarei naquele lá fora. Não me importo. Não foi hoje que descobri que os labirintos das pessoas são diferentes, que os caminhos cruzados não se tocam nos cruzamentos, que todas as estradas vão dar a sítio nenhum. Não, o que eu hoje descobri é que é domingo e as pessoas não o sabem e viemos todos trabalhar. Ou então fingimos todos que não sabemos - afinal, também eu não o disse a ninguém - para que pareça menos domingo do que o que é.

Podia ser. Podia até ser outro dia qualquer. Segunda-feira, era expectável que fosse segunda. Poderia ser sétima, ou oitava. Tinha que ser domingo, de que outra forma gozaria as ironias secretas das existências discretas?

Se tivesse força montaria uma conspiração. Para encher os domingos de verão e gelados de limão. Não seria suficiente, já sei. Mas podia ser.

Se tivesse jeito desenharia um arco na tua íris. Para encher os domingos de passeios rodeados de caricatas arquitecturas, ou forrados a relva e cheios de cães com bolas de ténis na boca.

Se tivesse capacidade, poderia encher os domingos de segredos misteriosos e de descobertas ansiosas. Ou gargalhadas daquelas que nascem no estomago e se libertam nos olhos.

É domingo. E aos domingos não se tem nada, para se fazer qualquer coisa. Pelo menos enquanto faltar uma lareira, por causa da chuva lá fora.

quarta-feira, janeiro 12, 2011

"Como acordam os sentidos? Os meus, por meias palavras."
M.G.Llansol


- Explica-me…
- Como olhos rasgados a contemplar a agitação de outro silêncio
- Como?
- Como a sede de outros séculos a superar-nos o tempo do corpo
- Do corpo?
- Sim. Como um gato que desenha oitos nas tuas pernas cada vez que chegas a casa. Podem ser oitos, um circuito fechado ou…
- Infinito…
- Depois cortam-te os dias em que não chegas e o mundo é demasiado grande para o ar que tens nos bolsos.
- E o gato?
- O gato continua lá.
- Sempre?
- O tempo suficiente. O tempo que está disposto a esperar pelo tempo. Se tiveres sorte é o teu tempo todo que não é o tempo todo dele.
- Uhm…
- É como passar o dia a procurar uma palavra que não encontras. Talvez por ser demasiado longa ou por só se escutar nos vértices da pele antes da pele
- A pele não tem vértices
- Precisamente. Demora a chegar. Mas entre tanto(s) dissolve-se nas tuas mãos e multiplica-te no espaço. Dissolve-te também.
- E o tempo?

- É como o gato e os soluços do corpo.

quinta-feira, janeiro 06, 2011

what's a dream?

Levantou-se da cama, e ainda era a noite o que vestia aquilo que viria a ser o dia, lá fora. Ainda era noite, mas não era tempo. As madrugadas têm uma luz inesperada, de quem se sabe ser a inexistência do tempo. Só espaço, e quando se levantou da cama, todo o espaço era dela. Não o do mundo, o outro espaço, fora do mundo, mais longe que o horizonte.

Ouviu no vento que batia na janela o seu nome. Não estranhou, conhecia o apelo. Dois passos, mão no puxador, um clique. O vidro frio saiu-lhe da frente e o bairro que conhecia desenrolou-se-lhe aos pés descalços. Como é diferente esta terra, nas madrugadas, pensou. Ou será que é diferente esta terra, nos dias com máscaras coladas? Não se debateu muito sobre a questão, não tinha pressa mas segurava urgências. Abriu os braços e tirou os pés do chão, levantou voo pela madrugada dentro, de mãos dadas com o vento que a chamava, de olhos abertos para uma terra iluminada pela luz prata da lua. Passou por cima do seu bairro, passou por cima da sua cidade, olhou os becos escuros, uma ou outra pessoa que passava sem reparar na sombra dela reflectida no chão. Passou por cima dos rios e das pontes, viu alguns carros solitários nas auto-estradas, sorriu-se para a lua e fez festas às nuvens.

O mundo - o mundo que achava que ela lhe pertencia - sonhava inteiro, só ela estava acordada no céu das rimas arritmadas.

Quando o sol começou a querer ameaçar nascer, soube que já era hora de o mundo voltar a ter horas, o regresso ao seu quarto impunha-se, a volta à sua cama era um imperativo. Não queria ser descoberta, olhada de soslaio como a louca que passava as madrugadas a voar. Entrou pela mesma janela por onde havia saído, correu o vidro e puxou o trinco. Deitou-se na cama e fechou os olhos. Era agora a altura dela sonhar, sonhar que se levantava e tinha um trabalho, sonhar que tinha obrigações e responsabilidades, sonhar que tinha preocupações e amizades. Mais logo acordaria de novo e poderia voltar a voar, sem ninguém ver, sem ninguém suspeitar.

quarta-feira, janeiro 05, 2011

Dona Gardênia e sua borboleta

Dona Gardênia tinha o espírito primaveril reflectido nos olhos azul-águados e envolto no cheiro florescido dos seus cabelos longos.



Quando passava nos corredores, o perfume que usava por lá ficava, muito após a sua passagem. Pairava no ar e paráva quem por lá andava. Uns reconheciam-no imediatamente, outros abriam as narinas com olhos de admiração e sobrancelhas de espanto.



Dona Gardênia de sorriso fácil, escondia em sua casa um tesouro pouco secreto. "A minha paixão desde criança", dizia enquanto mostrava uma enorme colecção de borboletas. Havia-as de todas as cores, tamanhos e feitios. Cuidadosamente espetadas em alfinetes, de asas bem abertas, de cores e padrões mais ou menos definidos, de olhos secos e vazios. Era a sua amada colecção de cadáveres de borboletas.



Numa caixa mais pequena, guardava as mais raras e belas. Azuis, vermelhas, laranjas, verdes. De círculos nas asas, simétricas - "para simularem olhos de predadores maiores, é uma técnica de defesa da natureza", explicava Dona Gardênia, de beiços embevecidos, de olhos humedecidos.



Dona Gardênia tinha também álbuns cheios de fotos - de expedições e outras loucuras, pelas Áfricas, Ásias, Américas, Europas. Continentes onde havia andado, de botas altas castanhas, coletes largos verdes, olhos argutos esfomeados e redes variadas à mão. A farda da silenciosa e lenta caça de novos exemplares coleccionáveis.



Havia uma coisa curiosa, na caixa mais pequena das borboletas encantadas - um espaço vazio, um alfinete sem cadáver por baixo, um corpo ausente. Uma borboleta por preencher, era a que faltava na sua colecção. Uma e apenas uma. Já não era nova, Dona Gardênia, mas sempre tinha sido ambiciosa. Não iria deixar a colecção inacabada, seria a sua última expedição, mas seria também a borboleta mais valiosa. E com a vantagem que, desta vez, não seria preciso viajar para muito longe. A noite já estava escolhida e seria precisamente hoje. Dentro de duas linhas, para ser mais precisa.

Quando Dona Gardênia achou que faltava pouco para a caçada da última e mais valiosa borboleta, levantou-se calmamente do sofá, sem desligar a televisão. Os passos entre a sala e o quarto foram seguros e calmos, a forma de vestir também. Não iria de botas castanhas e colete verde, a borboleta mais especial não habitava a mesma natureza cheia de vida onde tinha colectado as restantes de sua colecção. Era preta a farda desta noite. Confortável, sem ser larga, sapatos silenciosos, cabelos longos apanhados por baixo de um gorro de preta lã. Dona Gardênia estava pronta para ser a única detentora do mundo da espécie de borboletas mais rara.

Lanterna numa mão, martelo na outra. Ao ver-se ao espelho, sorriu. Dona Gardênia parecia um ladrão e não uma hábil e ambiciosa coleccionadora de insectos coloridos.

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A polícia bateu-lhe à porta logo pela manhã. A porta não foi aberta, seguiu-se o arrombamento, 10 homens fardados empunhando pistolas a correrem pela sala, a correrem até ao quarto, a chegarem ao escritório. Dona Gardênia, sem gorro nem cabelo alinhado, sentada no chão. A cara marcada por lágrimas, as mãos e a roupa cheias de sangue, a caixa das borboletas mais preciosas ao lado, caída, meia destruída, desalinhada.

Foi presa e condenada.
Prisão perpétua pelo homícidio de um casal de jovens namorados, com requintes de malvadez. Que os tinha estripado, arrancado o estômago e os intestinos, revolto e aberto orgãos, na busca desesperada de umas tais "borboletas no estômago dos apaixonados".

Não as encontrou e a sua colecção ficou para sempre inacabada.

sexta-feira, dezembro 31, 2010

O chão que pisas, sou eu.

Disfarça o sabor a sangue na boca. E tenta andar em pé, com as dores de quem tem os joelhos partidos, os calcanhares desfeitos, a carne a colar-se no chão, os ossos a baterem no chão e as pessoas a pensarem que o batuque é da sola dos sapatos. As pessoas, a pensarem que pensam e a comerem pensamentos mastigados pelos olhos.
Cuidado quando tentares fazer um sorriso. Há o perigo de te sair um esgar esquisito, capaz de pôr a chorar qualquer criancinha tenrinha. Cuidado quando apertares a mão a alguém, capaz de lhe partires alguns ossos para lhe tentar mudar a linha do destino. Não vai resultar, sabes disso. Cuidado quando entrares no autocarro, capaz de comeres à dentada os bancos e talvez o motorista e os passageiros, e depois vomitá-los agarrado ao pneu, canibalismo bulímico, o sabor a sangue dos outros misturado com o teu, misturado com o vómito e a bílis e as cores novas que se criam nessa poça aos teus pés. Quase poético, o vómito esverdeado-acinzentado, se não se tivesse transformado num lagarto emprenhado de lombrigas a correr pela cidade fora. Por esta cidade fora, por esta cidade dentro, nesta cidade sepultado por debaixo do alcatrão negro, por de cima dos alicerces podres, dos ninhos das ratazanas.

O corpo, nauseabundo, a espalhar-se no chão, sem espanto, nem coragem, nem força, nem vertigens.

quinta-feira, dezembro 30, 2010

Tábua de crenças II (2010)

Acredito na insistência e na teimosia. Porque as coisas criam-se e constróem-se nas rotinas do dia-a-dia, nas horas iguais às outras horas e não nos momentos geniais de inspiração metafísica.

Acredito nos momentos geniais de inspiração metafísica, mas, pelo sim pelo não, que é melhor não contar com eles.

Acredito que as pessoas não mudam mas sei que evoluem e se tranformam. Acredito que tenho que me lembrar mais vezes que o fazem apenas por processos internos de descoberta e não porque alguém lhes oferece as respostas que precisam embrulhadas em papel verde e laçarote vermelho em cima.

Acredito nos recomeços como forma coerente de evoluir no mesmo percurso.

Acredito que a chuva a bater no rosto ajuda nesses recomeços.

Acredito na consistência do ser, dos acontecimentos e dos processos, como forma de tomada de decisão mais livre e acertada. Acredito na inconsciência como forma de sentir a liberdade na pele.

Acredito no auto-controle e na racionalidade como forma de perceber e fazer. E nos sentimentos e como forma de ser, sentir e querer.
Acredito nas escolhas por opção. E nas inevitabilidades, por emoção.

Acredito profundamente nos paradoxos. E em que os paradoxos podem trazer coerência.

Acredito na boa vontade como valor alicerce para o entendimento entre pessoas. Tudo o resto vem depois. Se a boa vontade não for comum, mais nada poderá ser contruido em comum.

Acredito que os gestos das pessoas valem mais do que as suas palavras.
Acredito nas palavras, fora das pessoas. E nos cheiros que trazem.

Acredito que é possível ver-se mais do que aquilo que se vê. E para isso, basta olhar de verdade.

Acredito em planos e estratégias.
E na falta deles e delas.

Acredito no silêncio da minha casa. E no barulho das conversas soltas entornadas em copos de vinho, servidas como aperitivos para as descobertas dos sentidos - da vida e dos sensoriais.

Acredito que é na variedade que se encontra o conhecimento. E que acreditarei sempre nisto, ou que espero acreditar sempre nisto.

Acredito que tenho as mãos cheias de nada e que vão continuar assim até morrer. Que nunca irei agarrar nada mas que há momentos em que posso tocar em algumas coisas - tal como emoções, sentimentos, pessoas, sonhos - e até segurá-los um bocadinho, saber-lhes as formas, consistências, texturas, antes de voltar a ficar com as mãos cheias de nada.

"Acredito que aquilo em que acreditamos faz de nós aquilo que somos e que é uma ajuda lembrar disso quando nós próprios nos sentimos perdidos."
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Em 2003 escrevi um texto chamado "tábua de crenças", pode ser lido aqui.

Em 2010 andava às voltas com ele, que seria altura de escrever um novo, mas não me saía. E no natal, a minha mãe ofereceu-me com um metro de altura. E eu gostei mesmo, mas decidi que antes do final de 2010 teria que escrever um novo. E escrevi.

terça-feira, dezembro 28, 2010

*

Estou preocupada.
Perdi um asterisco.

Não sei onde o deixei, já procurei:
nos bolsos das calças
nos bolsos dos casacos
nos bolsos da bolsa
no carro
no chão do carro
nas almofadas do sofá
por debaixo das almofadas do sofá
no hall do prédio
no caminho que fiz daqui-até-ali

e não o encontro.

Perdi um asterisco e faz-me falta.
Não tanta quanto um ponto final, ou uma vírgula, é certo. Mas faz-me falta, o asterisco. Posso substitui-lo por BêJotaÉsse, mas não é a mesma coisa.

Preferia ter perdido outra coisa qualquer. Nunca se escolhem as coisas que se perdem.
Se alguém encontrar o meu asterisco, que me avise. É meio despenteado e tem um ar desconfiado quando não conhece as pessoas, mas depois é todo ternurento e meiguinho. É cor-de-rosa, para mal dos meus pecados que não gosto do cor-de-rosa, mas era a promoção que havia na loja do chinês, de asteriscos sem olhos em bico, só cor-de-rosas. E cheira a algodão-doce.

Eu sei, assim descrito nem parece que era meu. Mazéra, mazéra.

Se calhar foi isso.
Por não parecer meu.
Se calhar não o perdi, foi ele que se foi embora.

Fui abandonada por um asterisco.
E nem carta de despedida deixou.
Nem me avisou que ia lá fora comprar tabaco.

Se alguém encontrar o meu asterisco, que fique com ele.
Não o quero de volta.

Vou arranjar outro para mim,
um que seja líquido,
que seja feito de água:

Quero entornar asteriscos nas varandas dos vizinhos de cima.

segunda-feira, dezembro 27, 2010

linhas cruzadas em becos

"So many people live within unhappy circumstances
and yet will not take the initiative to change their situation
because they are conditioned to a life of security,
conformity, and conservatism, all of which may appear
to give one peace of mind, but in reality nothing is more dangerous
to the adventurous spirit within a man than a secure future.
The very basic core of a man's living spirit is his passion for adventure.
The joy of life comes from our encounters with new experiences,
and hence there is no greater joy than to have an endlessly
changing horizon, for each day to have a new and different sun."

Chris McCandless



O dia amanhece do lado de fora da janela. Um casal de adolescentes recém-apaixonados e recém-desvirgindados prende-se em suor e cansaço num abraço carinhoso. O teu despertador toca, mais 5 minutos, pensas. Os adolescentes adormecem no mesmo tempo em que te convences que tens mesmo que sair da cama. Entrar no banho. Escolher roupa que vestir, saltos que usar, não esquecer de combinar a mala nem de levar o laptop. O sr. Zé da pastelaria já abriu portas há que tempo, serve o café ao sexto cliente do dia, e um bolinho acabado de fazer. Vestes as calças e o botão aperta a custo, engordei?, e o sexto cliente do dia limpa as migalhas da boca e põe-se a caminho do escritório, mesmo aqui ao lado. Vai-se despedir hoje, que está farto de ser mal tratado por um chefe antipático, que tem ido a entrevistas várias, que finalmente a sorte lhe sorriu e agora sorri ele, dono de uma liberdade que se vai encostar a uma nova rotina.

O casaco, onde deixaste o casaco? ah, está no carro, falta o computador e duas trancas à porta que esta cidade confia mas não é de confiança. E passa na rua uma menina com o cabelo em trança, galochas para a chuva e dona de todas as poças enquanto a mãe reclama, na verdade porque há muito que não se encontra com o pai na cama, que lhes terá acontecido, é stress do trabalho, é stress do trabalho, nada preocupante, todos os casais passam por isto.

Guias pelo meio da cidade, passam edifícios, janelas, alcatrão, carros. Passam sonhos, desejos, medos, esperanças, expectativas. Semáforo vermelho, velho desdentado com a revista dos pobrezinhos, uma moeda, uma moeda, e tu que não e ele que segue para o outro carro, tal como seguiu a sua triste vida depois de ter enterrado dois filhos, depois de se ter apercebido que os outros três por ele não se interessam nada, que a culpa foi sua, que devia ter batido menos na mulher que tinha, que devia ter bebido menos e já resultava mas se conseguir vender só 2 revistas hoje já pode ir buscar um copo d3 ao António do bairro, que já não lhos vende fiados, mas se pagar o primeiro talvez lhe ofereça o segundo.

Entras no escritório, cumprimentas o porteiro, cumprimentas o segurança, sorris para os colegas com quem te cruzas no corredor. Cruzadas estão também as raças dos 5 cães que acabaram de ser paridos num quintal do outro lado da estrada e que amanhã, quando forem descobertos, vão fazer as felicidades do filho mais novo e angustiar a mãe não-tão-velha.

O dia de trabalho passa-te rápido, com muitos afazeres e decisões, planos e estratégias, vendas e compras. Lá fora os tempos do mesmo dia são outros: lento para os velhos colados à televisão, incrivelmente veloz para as crianças no infantário, praticamente parado no velório da igreja, em imperfeita pausa na sala de espera das urgências do hospital, ligeirinho nas carteiras e nos bares das universidades, curto na instituição de solidariedade social, onde curtas são também as mãos que dão quando comparadas com as que se estendem.

Ao jantar, enches 4 copos de vinho com histórias de tempos que passaram há pouco tempo, mas que vos parece muito, nessa mesa de amizades e frases adivinhadas, aventuras partilhadas, gostos reconhecidos. Ao jantar regressa a casa o marido ingenuamente encornado, o pai taxista muito suado, o filho estroina sempre animado, a criança ranhosa já de ar ensonado. Do outro lado do mundo nasce o dia e algumas vidas preparam-se para sair da cama, outras entram nela em horas desorientadas, os ciclos empurrados na rotação de uma terra que não sendo de ninguém é de toda a gente.

Pela janelas vês outra janela de luz acesa, o sabor do vinho adoça-te o pensamento, o dia correu-te bem com direito a elogio do chefe e palmadinha nas costas. Daqui amanhã espera-te uma promoção, daqui amanhã casas-te e tens filhos, daqui amanhã envelheces e não sabes o que te aconteceu. Há outra saída? Há outra alternativa melhor?

É o ritmo da vida, de todas as vidas, os rumos que tem que levar. Olhas à volta, uma já casada, o outro é para o ano, a terceira não está para lá encaminhada, mas há-de estar, há-de estar, que é isso que se faz.

Como explicar então que de repente o vinho te deixe um sabor amargo a insatisfação?

(Todas as outras vidas com que nos cruzamos sem saber, todas sem excepção, são pessoas que tentaram fazer delas o melhor possível, dentro do que souberam, dentro do que puderam. Mas esqueceram-se de se saberem vivas, esqueceram-se de se saberem existentes. Acontece, às vezes. Estar vivo não é o contrário de estar morto, pode-se estar vivo sem se estar, por desconhecimento desse facto.)

domingo, dezembro 26, 2010

Dona Perpétua

Corria o ano de 2004 e lembro-me de dona Perpétua que não corria para lado nenhum. Corríamos também nós, atrás de uma bola chutada com força a mais, à frente de um cão vadio que nos acompanhava por um dia, debaixo de um sol que nascia tarde demais para a nossa excitação de aproveitar até ao tutano todas aquelas férias de verão na vila.

D. Perpétua não corria, mas tinha por norma um passo apressado quando passava por nós. Mas parava-se, quando eu lhe falava, e eu falava-lhe mais por simpatia do que por educação, tenho que confessar. Gostava de dona Perpétua, que morava na casa abaixo da dos meus avós e ás vezes me convidava a entrar para uma queijada-quentinha-acabada-de-fazer. Enquanto a trincava com gosto, demorava-me a olhar para as coisas na sala, tinha muitas coisas, a sala de dona Perpétua. Mais de 500 molduras com fotos de caras que eu não conhecia, dizia 500 mas a noção de 500 na cabeça de uma criança são apenas muitas e não verdadeiramente 500. Mais do que as que eu sabia contar: 500. Eram fáceis as contas naquela altura, e era fácil saber que também eram mais de 500 as caixinhas de loiça de dona Perpétua. Umas até tinham coisas dentro, botões de casacos que já não existiam, papéis de contas já saldadas, bilhetes de coisas que já tinha visto, sei lá que mais. Dona Perpétua não me deixava abrir as caixinhas porque eu tinha as mãos sujas de queijadas e podia partir alguma, então ela às vezes abria umas para eu ver.

Que eram recordações, explicava-me, e eu também gostava dela por aquele sorriso triste que ela fazia quando o dizia. Ou quando falava dos filhos, estão lá na capital grande, dizia, e são senhores importantes, e sorria, um sorriso diferente de quando o Júlio marcava um penalti, ou quando o Pedro descobria mais um ninho com passarinhos lá dentro.

Dona Perpétua dizia que não sabia quando era a próxima vez que ia ver os filhos importantes. Eu estranhava, será que a minha mãe também conhece outros meninos que nunca me viram? Se calhar dona Perpétua vai buscar os filhos no intervalo da escola, só que eu é que só cá estou nas férias, pensava. Mas estranhava que ela não soubesse quando acabavam as aulas, a minha mãe sabia. Mas não ligava muito, "e aquela? o que tem?" apontava para outra caixinha, uma agulha com uma linha branca, dona Perpétua já não se lembrava que bainha ou remendo teria servido.

"Sabes, eles crescem e vão-se embora de casa, é assim a vida" dizia-me, e eu percebia, que eu também já era crescido e tinha saído de casa logo de manhãzinha para vir jogar à bola.