quarta-feira, maio 04, 2011

"Post"ulado íntimo ou intimidado

by tap.

*este post não respeita o novo acordo ortográfico e não tem pena disso.


Creio que houve alguém que decidiu fazer uma pausa na necessidade de dormir e passou a noite a pintar a manhã de cinzento. Creio também que fez um bom trabalho, confesso que não sabia que havia tantos tons diferentes do mesmo cinzento. Não me chateia porque não me chateia cor nenhuma, afinal de contas todas as cores têm o mesmo direito à existência. Lá porque há outras mais exibicionistas não significa que um subtil cinzento tenha menos valor ou importância. Que seria do mundo sem o cinzento? Certamente um lugar pior, mais que não fosse pela incrível barreira entre o preto e o branco, para sempre incompreendidos um pelo outro, um para o outro.

Não que isto seja totalmente verdade ou conclusivo de alguma coisa. Ultimamente não me tem sido fácil chegar a conclusões. Nem difícil, não tenho chegado a muitas simplesmente. Mas cheguei a esta, portanto tenho alcançado algumas. Se calhar pintaram-lhes o cinzento por cima. Ou se calhar tem a ver com as palavras que se me partiram antes de sairem pelos dedos. È porque não as tenho procurado muito, ultimamente não chego a conclusões porque não tenho pensado com palavras. Tenho pensado mais com imagens e sentimentos e fragmentos de momentos que se deslargaram das letras mas ganharam cheiros e temperatura. Não estou bem certa sobre os porquês. È difícil pensar nos porquês em imagens e sentimentos, não costumam ser cinzentos os porquês, ou se calhar costumam e eu é que não lhes sei a cor. Porque é difícil pensar nos porquês em imagens, se fosse fácil saber-lhes-ia a cor.

É por isso que me faz alguma falta voltar às palavras e deixá-las escorrer pelos dedos, mas a verdade é que parece que nestes últimos tempos as palavras desabaram por mim adentro e ficaram lá no fundo meio partidas.

Nos entretantos das outras formas de pensar talvez vá ver se as encontre, mas receio dar com elas partidas e rachadas e amontoadas indistintamente. Tenho cenas e coisas misturadas, descobertas e redescobertas, é mais uma lanterna na cabeça e a falta de uma picareta na mão para tentar perceber sem ter que esgravatinhar nos muros. Racional e lógicamente, se não os derrubar, eles não caem, mas sem ser racional e lógicamente talvez assim os derrube na mesma. Afinal de contas, quanta razão e lógica existe num muro? Muito pouca, creio. Se ele não souber que esta não é a forma comum de o derrubar, pode ser que se deixe cair na mesma. Sei que não vale a pena tentar impôr ao muro a minha razão e lógica. Seria quase como estar a falar com uma parede e isso toda a gente sabe que é muito pouco útil.

terça-feira, maio 03, 2011

O Processo

O Processo

Tinham sido criteriosamente seleccionados entre a multiplicidade dos seus pares recentemente saídos do forno de torragem; as características demonstradas durante o processo de torrefacção (tonalidade, tamanho, consistência, junção das duas metades) eram responsáveis pela sua escolha e integração naquele núcleo restrito e honroso. Antes deles, outros tantos tinham seguido o mesmo destino, prestando um contributo incomparável na satisfação e alegria da raça humana. Cada um deles representaria, depois de terminado o processo de transformação, uma explosão de puro prazer só comparável à ingestão de outro igual a si.

Hordas de amendoins encontravam-se aglomeradas em gigantescas plataformas de alumínio aguardando ansiosamente instruções. Profissionais de topo, munidos dos meios tecnológicos mais inovadores, asseguravam, a todo o tempo, que apenas os mais aptos e os de melhor qualidade passariam as várias fases do processo de transformação. Cada uma das fases, tinha sido meticulosamente estudada e desenvolvida, ao longo dos anos, com o único objectivo de criar, nada menos do que a mais pura das perfeições comprimida numa massa de forma oval cujo diâmetro não ultrapassava os 5 mm.

Um burburinho de fundo percorria as fileiras de amendoins, deixando a atmosfera carregada de nervosismos e ansiedades. Cada um dos candidatos sentia sobre si o peso da responsabilidade de pertencer àquela elite. Todos tentavam lidar com a consciência gritante de que, até estar terminada a sua transformação, nada lhes garantiria que chegariam ao final. Todas as fases eram críticas e muitos candidatos sucumbiam aos nervos, separando-se irremediavelmente em duas metades. Nessa triste eventualidade o amen-doim seria automaticamente excluído do processo e condenado a trabalhar como assistente nos processos de transformação dos amendoins bem sucedidos. Era uma provação pela qual nenhum desejava passar e cujas consequências nefastas se alastrariam às gerações futuras que nasceriam da mesma planta.

O Revestimento

Um amen-doim de ar carrancudo e desmotivado aproximou-se das fileiras fazendo cessar abruptamente o barulho das conversas. O silêncio que se instalou era pesado e sufocante gerando uma sensação de desconforto nos corpos comprimidos dos amendoins. Segurando um bloco de notas, numa das suas metades, e um altifalante (que produzia um enervante zunido de cada vez que era apontado ao chão) na outra, o amen-doim passou em vista as várias folhas do bloco de notas onde estavam contidos os nomes de todos os amendoins que seriam chamados à fase de revestimento. Quando terminou, levantou os olhos do bloco e percorreu com olhar as longas fileiras de amendoins, naqueles que pareceram os 5 minutos mais longos da história. Aclarando a garganta disse:

Boa tarde a todos. O meu nome é Matias e sou o vosso orientador. Gostaria de começar por dar-vos as boas-vindas à nossa família. Vocês chegaram onde poucos amendoins ousaram chegar; e a vossa pertença a este grupo representa a frustração de todos aqueles que nunca conseguiram, nem conseguirão, qualificar-se. Espero que mantenham isso em mente durante todas as fases da transformação pois, é uma honra e um orgulho fazerem parte de uma equipa de profissionais empenhada, há anos, em prestar um serviço de excelência e qualidade na satisfação do homem.

Em reacção ao discurso de Matias, três amendoins cederam à pressão rachando-se em duas metades; todos os outros à sua volta deram três pulinhos e afastaram-se, numa atitude de desprezo e indiferença. Após uma breve pausa, para certificar-se de que os candidatos desqualificados eram removidos, Matias continuou:

Ao meu chamamento deverão dirigir-se à passadeira rolante que podem ver à vossa frente. No fim da mesma, serão atirados em queda livre para dentro da tina e mergulhados no líquido aí contido.

A tina, um grande recipiente em forma de funil, continha no seu interior um líquido sedoso e aveludado de coloração castanha (também conhecido por chocolate) cuidadosamente confeccionado com os produtos mais naturais e frescos existentes na natureza. Uma vez ingerido transmitiria ao cérebro humano a ideia de três bofetadas em catadupa, seguidas da visão de um LED roxo e rosa ostentando, intermitentemente, a mensagem DELICIOSAMENTE ORGÁSMICO.

Devem, em todas as alturas, permanecer calmos e relaxados. Essa atitude vai assegurar uma melhor absorção e colagem do chocolate ao vosso corpo de forma a atingirem o volume exigido e garantir passagem à fase seguinte. Um bom processo de revestimento deverá deixar-vos, aproximadamente, duas gramas mais pesados e com 4mm de diâmetro (em vez dos habituais 2 mm). Aconselho-vos a manterem a calma em todas as alturas e a desfrutarem da experiência até ao fim. Deixem-se levar sem pensar no como e no porquê. Absorvam a experiência sem pensar nela, sem tentar entendê-la...caso contrário, vão ficar rígidos e perder a agilidade necessária para atravessarem o líquido denso sem se racharem. Não é necessário recordar-vos o que acontece àqueles que não seguem os estes conselhos e se separam em duas metades. No fim desta fase, outros colegas estarão à vossa espera para aferir quais os que se qualificam para a fase de coloração. Desejo a todos, a melhor das sortes.

Matias iniciou a chamada:

Manuel, Mário, Martim, Miguel, Manfredo, Marcelo, Márcio,, Marcos, Mateus, Maurício, Mauro, Moisés, Marcelino, Milton, Morfeus, Murilo, Marílio, Manolo, Mizael, Margarido...

Ao ouvirem aos seus nomes, todos os amendoins identificados pularam apressadamente para cima da passadeira tentando relembrar e cumprir ipsis verbis as orientações dadas por Matias. Infelizmente, para Moisés, a atitude relaxada e calma durou apenas o tempo da viagem na passadeira rolante; o seu cérebro traiu-o com imagens de si depois de transformado e a sua ligação interior, outrora consistente, cedeu fazendo com que se dividisse em duas metades.

A Coloração

Tal como lhes fora prometido, um grupo de amen-doins com ar atarefado, aguardava a saída dos candidatos da tina. Munidos com fitas métricas, medidores de densidade e capacetes com lupa microscópica e lanternas incorporadas, acercaram-se dos candidatos revestidos e procederam aos devidos testes com perícia irrepreensível. O cenário era agora decorado por uma gigante rede construída em fibra de carbono por baixo da qual se encontravam 3 turbinas hiper-ventiladoras (ou, o mesmo é dizer, ventoinhas super-potentes) cuja função não era outra senão a de expeditar o processo de secagem e tornar o revestimento mais consistente.

Moisés, e todos amendoins que, como ele, não aguentaram a pressão, foram convidados a abandonar a rede de secagem e encaminhado para o departamento de Afectação de Recursos Falhados, a fim de ocuparem os lugares dos Matias deste mundo. Todos os outros, depois de terem sido classificados de "revestidos com louvor" foram novamente encaminhados a uma nova passadeira rolante no fim da qual os esperava a Câmara de Coloração.

As Câmaras de Coloração, situadas no fim das passadeiras rolantes, eram compartimentos de forma cilíndrica revestidos com mini-jactos (semelhantes a crias de chuveiro) dos quais sairia - com isócrona sintonia - uma fórmula composta de corantes e conservantes, estrategicamente desenvolvida para proporcionar nada menos que uma capa estaladiça e crocante, cujo aspecto final despertariam a lúxuria no ser humano mais indiferente e amorfo.

Cada "revestido com louvor" receberia exactamente 5 gramas do preparado e deveria ficar aleatoriamente tingido de uma das muitas cores existentes no arco-íris. Mais uma vez o discurso de Matias calcurreou as mentes de todos os que se preparavam para a coloração...

Para os que tiverem a felicidade de chegar à fase de coloração, lembrem-se de que, deverão manter, sempre, os olhos e a boca fechados e os vossos corpos devem ao longo de todo o percurso, permanecer imóveis. O mínimo movimento pode comprometer todo o processo de coloração, o que vos desqualificará automaticamente. A escolha da cor final de cada um é prerrogativa do nosso sistema pelo que não quero ver espertinhos a tentarem mudar de passadeira na esperança de se tornarem amarelos ou vermelhos. O facto das mascotes do grupo serem dessa cor é casual e não lhes atribui preferência no gosto humano. O John Lehnon dos Beatles - uma banda musical famosa dos anos 60 - só comia os castanhos! Os nossos serviços primam porque todas as cores constituem um universo de facto e os radicalismos colorais são altamente desaconselhados e podem contribuir para a vossa exclusão do processo.

Miguel, que já se encontrava na passadeira, relembrava as recomendações de Matias. ...fechar os olhos, abrir a boca e manter-me imóvel, fechar os olhos... ou seria abrir os olhos e fechar a boca? Manter-me imóvel era de certeza... vou abrir os olhos para ver se estou imóvel....Os jactos dispararam.

A Marca

Amen-doins de carimbo numa metade e tinteiro branco na outra, encontravam-se alinhados no fim das câmaras de coloração prontos para colocar a Marca nos seus pares que tinham terminado com sucesso a transformação. A Marca era simplesmente um m. Um só m não fazia a diferença mas todos juntos eram os vários m's. Por isso ficaram conhecidos como m & m's e destacaram-se para sempre!

segunda-feira, maio 02, 2011

Dona Gertrudes

Dona Gertrudes gerava amiúdes zangas e discussões, daquelas de fazer nascer relâmpagos e trovões. Trabalhava de facto e de fato mas achava-se no direito de opinar sobre a fraca capacidade de trabalhar dos colegas que ás vezes se deixavam ficar de olhar perdido do lado de lá das janelas. Vestia preto ou cinzento, não sossegava nem por momentos, falava alto e barafustava e a toda a gente irritava.

Trazia várias pulseiras que tilintavam nos seus gestos pouco modestos, a voz era confiante e segura, escondia na sua eficiência alguma parte de amargura.

Foi das maiores festas da empresa, aquela da sua reforma, com todos a festejarem o facto de se ir embora.

sexta-feira, abril 15, 2011

pura tagarelice

by tap.

Sabes... o outro dia vi um pardal gordo. Suponho que ele não sabe que estamos em crise. Os pássaros sem dono são selvagens, podem-se dar ao luxo de serem gordos e terem penas cheias de brilho. Os cães de rua são vadios, não podem ser outra coisa senão magrinhos e desgrenhadamente sujos. Aposto que nunca tinhas pensado nisto, pois não? Eu também não, mas o outro dia vi um pardal gordo e agora lembrei-me disso. Pelo menos acho que vi... mas não sei bem. Já reparaste como nos últimos tempos tudo se confunde? Entre realidade e ilusão, entre experiência directa ou indirecta, entre os videos do youtube e montagens de photoshop de coisas que não existem em mais nenhum sítio senão nesta janela, mesmo quando as coisas que deviam estar do lado de lá da janela, às vezes saltam para cá. E têm saltado muito. E cada vez há mais pessoas que não são bem pessoas às vezes, que andam máscaras e fatos e são personagens surrealistas a fazerem parte do nosso quotidiano... sabes... sabes do que falo? Deixa, não é importante, deixa-me só falar a saber que me ouves. Mas isto é mesmo assim, tem-se visto, as pessoas estão a tentar recriar no mundo real coisas do mundo virtual. Estamos a diminuir fronteiras das impossibilidades, um fenómeno dos nossos tempos. E mesmo assim, sabes outra coisa...? È que eu gostava de te oferecer um passaporte para outra realidade, uma inventada por nós, um sítio onde os cães pudessem estar gordos e terem as penas cheias de brilho e tu sorrisses sempre a ver as coisas cheias de... beleza? Não, não tem que ser beleza. Há coisas feias que são caricatas ou queridas ou... ou até bonitas... por causa de serem feias. È um tosco que tem uma essência genuína. Tu gostas disso, de coisas toscas mas genuínas.

Não sei onde se tiram esses passaportes. Mas se calhar a ideia é estúpida. Afinal de contas, aqui há pardais gordos que não sabem que estamos em crise, se calhar há cães vadios que se acham selvagens também. Gatos há, de certezinha absoluta. Já conheci uns quantos assim. A sério, conheci mesmo, não te rias.

Não sei mesmo onde se tiram esses passaportes. Talvez consiga descobrir. Deixa-me vestir um sorriso, calçar uma vontade, abootoar a atenção e sair para a rua, dizer bom dia ao sol, e ir à procura. Queres vir? Se calhar ainda encontramos aqui coisas diferentes e depois não precisamos do passaporte para nada. Anda, vem.




segunda-feira, abril 11, 2011

roupa velha ou jardineira, ou outra coisa do género.

by tap.

Transformava a chuva em estórias que lhe nasciam das poças acumuladas na terra e entravam pelas frinchas da janela, acompanhadas pelo cheiro de raizes agradecidas. Era quase um passatempo silencioso, os enredos cresciam-lhe viçosos na cabeça, adornados por pétalas de várias cores e tamanhos. Depois, exorcizava-as a custo do corpo, para que se plantassem numa folha de papel. O processo estava pois condenado à partida, como pode o espírito de uma matéria querer prender-se ao cadáver de si mesmo?


Pelo meio restava-lhe misturar a água do mar com pedaços da sua alma, cheia de tatuagens, e deixar o preparado escorrer-lhe pelas bochechas. Dizia que havia de dar sentido à existência dos lenços brancos, já que não entendia as razões de criação das peúgas da mesma cor.

Era isso que fazia com frequência e desesperava as pessoas - juntava tudo na mesma panela, misturava, remisturava, adicionava mais e mexia. E diziam-lhe que não, que cebolas e limão não se regam com chocolate, que o alho não serve para temperar fritos de peixe com maracujá e canela, que a melancia não combina com carne de porco e mel. E quando parava para olhar o quem lhe dizia estas coisas, só via bocas a abrirem e a fecharem, produtoras de sons que criavam imagens esfumadas à frente dos seus olhos mas das quais não conseguia retirar sentidos.

Ás vezes enchiam-lhe o espírito urgências e ansiedades descontroladas, pressas imediatas presas no corpo, a rebentar com o corpo. Nessas vezes não sabia que fazer consigo, segurava-se simplesmente atrás de uma janela, a tentar respirar, palmas das mãos abertas de encontro ao vidro, a tentar respirar. A tentar lembrar-se de como se respirava.

Se calhar as outras bocas a mexerem tinham razão e há coisas que não servem para serem misturadas, para se juntarem, para se contaminarem mutuamente acrescentando-se novos cheiros e cores. Se calhar todas as coisas tem pelo menos um limite, inultrapassável, uma barreira que separa o que pode ser contagiado daquilo que haverá sempre de permanecer intocado. Mas se sim, então para que há ideias como a da inter-subjectividade? Ou para que há a primavera e o outono, estações de transição?

E depois, invariavelmente, mais tarde ou mais cedo, começava a chover e a chuva podia ser transformada novamente em estórias, enquanto a noite de fazer arder a neve não chegasse.



quarta-feira, abril 06, 2011

Colchão de Perdição - Parte III

Ligeiramente embriagada Teresa percorreu o longo corredor de casa dos Sousas. Tentou servir-se do olfacto para descobrir qual a porta que correspondia à casa-de-banho, inspirando longas golfadas de ar e movimentando os braços num movimento circular e constante - exactamente igual ao bater de asas de um cisne - de forma a ajudar os odores da casa a penetrarem as suas narinas. Infelizmente o vinho levava já alguma vantagem e Teresa acabou por desistir e fazer uso do velho método abrir-todas-as-portas-até-encontrar-a-divisão-que-se-procura. Esse, apesar de mais longo, nunca falhava.

Decidiu-se a entrar na terceira porta do corredor. Toda a gente sabe que a casa-de-banho nunca fica logo ao pé da sala de jantar. No momento em que abriu a porta tudo o que viu foi um grande NADA. Apenas uma massa escura e compacta que ocupava toda a divisão. De repente, sentiu que as luzes do corredor desapareciam e que o mobiliário, antes meticulosamente arrumado, começava a mover-se em direcção ao grande vazio. Consciente do que tinha diante de si, fechou a porta num ímpeto. Será possível?!? Uma sala com um buraco negro?!? Mas isso seria demasiado perfeito!! Os Sousas são mesmo um espectáculo! Ou isso ou alguém já memeu buito, LOL! Das duas maneiras, adoro-os e é exactamente isso o que tenciono dizer-lhes da próxima vez que os vir!

Teresa recompôs-se, ajeitando a saia e o cabelo, e seguiu caminho em busca da casa-de-banho perdida. O que estaria por detrás da porta n.º 2? Ao abri-la percebeu que tinha entrado no quarto dos seus anfitriões. Por impulso, mais que por outra coisa qualquer, voltou a fechar a porta e preparava-se para continuar a sua demanda, não tivessem os seus olhos capturado a imagem da cama do casal situada exactamente no centro da divisão. Fora traída pelos seus próprios olhos!

Movida pela curiosidade, Teresa voltou a abrir a porta estacando diante da maravilhosa visão. A cama, um futon em madeira de mogno, não foi aquilo que chamou à atenção de Teresa, mas sim o colchão que repousava tranquilamente no seu centro. A olho nu percebeu estar perante um exemplar original e único de um Ortoclass de Espuma D45 Pillow Top, com espuma poliuretano 100% D45 e tecido com tratamento anti-ácaro, anti-mofo e anti-alérgico. Teria que analisar melhor, mas se tivesse que apostar, diria que o belo exemplar incluía ainda respiros nas faixas laterais para proporcionar circulação de ar no interior do colchão. Teresa nem queria acreditar na relíquia que tinha à sua frente. Santa Madre de todas as Madres! Bendita a hora em que decidi inscrever-me e ao Simão nas aulas de pintura para casais!

Se Teresa tivesse ficado por ali, limitando-se a apreciar mentalmente a sua descoberta, a sua vida e a de Simão teriam seguido com normalidade. Mas não foi isso que aconteceu e o casal viveria para o comprovar.

Teresa olhou em redor, e percebendo que continuava sozinha, deslizou, hesitante, para dentro do quarto fechando a porta atrás de si. O que aconteceu a seguir permanece até hoje uma incógnita para Teresa. A pessoa dentro daquela sala não era mais Teresa, mas outra.

Entretanto na sala de jantar, Simão perguntava-se se estaria tudo bem com Teresa. Tinham passado 5 minutos e ela não tinha regressado. Preocupado, decidiu ir procurá-la, deixando os convidados a tomar digestivos e a preparar a noite de jogos que se seguiria. Já no corredor Simão viu a luz que vinha da porta do quarto dos Sousas e dirigiu-se até lá. A imagem que surgiu diante dos seus olhos, fez com que as suas pupilas se dilatassem e a sua pulsação aumentasse para o dobro. Estava a ter uma descarga de adrenalina.

Teresa jazia deitada na cama, completamente imóvel. Dormia profundamente. As almofadas outrora adornos de cama, espalhavam-se caoticamente pelo quarto e o edredon tinha sido puxado e cobria o corpo da sua mulher. Simão chamou por Teresa acordando-a ao seu transe. Teresa, o que estás a fazer?!? Sai imediatamente daí! Mas Teresa, que entretanto tinha despertado, não quis ouvir Simão, limitando-se a abanar a cabeça e a abraçar o colchão. Não Simão, não percebes? É um Ortoclass de Espuma D45 Pillow Top. Um Ortoclass de Espuma D45 Pillow Top!! O rei dos colchões...e é meu. É todo meu!!!

Desesperado Simão dirigiu-se à cama para de lá tirar Teresa, mas a precipitação fez com que tropeçasse numa das almofadas espalhadas pelo quarto e caísse amparado, mesmo em cima do Ortoclass de Espuma D45 Pillow Top.

O contacto com a superfície sedosa e macia do colchão induziu Simão num estado de transe. Primeiro sentiu-se flutuar em nuvens de algodão doce, ao lado de felizes hipópotamos magenta que comiam chupa-chupas deitados em chaise-longs. Teresa estava com eles e todos eram um só ser, feliz, completo e perfeito.

Quando vieram a si, Simão e Teresa, não sabiam quanto tempo tinha passado e como tinham ido ali parar. O ruído dos convidados vindo da sala trouxera-os de volta à realidade e perceberam pelo som das gargalhadas e do ambiente de festa que ninguém tinha dado pela sua falta. Num estilhaço de segundo saltaram da cama e falaram aquele idioma só dominado pelos casais mais cúmplces, a língua dos olhos. Entreolharam-se longamente, naquilo que mais parecia o jogo de ver quem-desvia-primeiro-o-olhar, e decidiram que tudo tinha que ser reposto de volta à normalidade antes que alguém descobrisse o que tinham feito.

A noite chegara ao fim e o pequeno incidente tinha passado despercebido aos anfitriões e aos convidados que continuavam entretidos a jogar charadas no momento em que Teresa e Simão se juntaram a eles na sala. O regresso a casa foi feito em silêncio. Envergonhados com as suas acções nenhum dos dois se atrevia a falar sobre o assunto. No entanto, apenas uma ideia ocupava os pensamentos dos dois: tinham que voltar a deitar-se naquele colchão.

terça-feira, abril 05, 2011

Colchão de Perdição - Parte II

"Não quero saber se lá dormiram os teus bisavós, o Ghandi ou o General De Gaulle! Aquele colchão é uma MERDA! Só faltava ser em talha dourada para preencher todos os requisitos de uma peça digna de museu! Eu quero, NÃO! Eu exijo um colchão novo. Com molas, com capa dupla, com acolchoado anti-choque, com aquecimento central se os houver! Porque é que não podiam ter dado o colchão ao teu irmão Duarte?? Hã? Ele nunca dorme em casa, mesmo. Mas não! Tudo o que é lixo tinha que vir para nós. Vê lá se te deram a chaise-long que eu tanto elogiei?? Ou o louceiro que está a apodrecer na casa dos arrumos e que tanta falta nos faz?..."


Apesar da relutância em livrar-se da peça na qual todos os seus antepassados tinham dormido, Simão tinha que admitir que os argumentos da sua mulher não eram totalmente desprovidos de sentido. Com efeito, as mazelas fisícas provocadas pelo desconfortável colchão começavam a transparecer nos olhos remelentos e encovados de ambos. No trabalho, Simão revelava quebras de produtividade, chegava atrasado e esquecia-se constatemente dos seus compromissos. Além disso havia ainda aquele incidente em casa dos Sousas, sobre o qual nenhum dos dois ousava falar...


Os Sousas eram um casal que Simão e Teresa tinham conhecido nas aulas de pintura para casais, e com o qual tinham tido a maior das empatias. Não era só o facto de os Sousas terem os mesmos ideais de vida de Simão e Teresa (o que era bem ilustrado pelo facto de serem os únicos dois casais a frequentarem o curso de pintura para casais) mas era muito mais que isso: era generosidade que demonstravam na hora de partilhar as cores. O magenta era a cor mais disputada entre Simão e Pedro ("Para fazer os enchimentos dos hipópotamos!" diziam em uníssono.) mas Pedro, nunca se parecia importar de pintar o seu hipópotamo de rosa cristal - deixando o magenta para Simão - sempre que só existia uma bisnaga de magenta no cesto das cores!!


A relação entre os casais evoluía a um ritmo saudável até que os Sousas decidiram oferecer um jantar em sua casa para os seus amigos mais chegados. Tudo corria lindamente: o mais soberbo dos vinhos regou o serão de uma chuva púrpura e inebriante. E a mais suculenta das carnes abriu caminho na sala de jantar e desfilou diante dos olhos ávidos dos convidados, tentando-os. Tentando-os como uma bailarina de cabaret tenta os boémios e cadeleiros ao levantar o saiote diante das suas fronhas embasbacadas. E a companhia? Oohh a companhia...de fazer inveja aos von Oysters und Caviar, os vizinhos socialites que viviam no apartamento em frente de Simão e Teresa.

Depois de todo aquele vinho Teresa desculpou-se e levantou-se para ir à casa-de-banho. Percebeu momentos mais tarde que nunca alcançaria o seu destino...

segunda-feira, abril 04, 2011

A lenda da Berlenga ou o 1o moinho do mundo

by taparuere

Reza a lenda que na ilha da Berlenga mais pequena, também chamada de Berlenguita, nasceu uma miúda de olhos sorridentes que gostava de dançar sobre mar nas noites de lua cheia e queria transformar o mundo nos dias de sol.

Não vivia sozinha, nesse tempo lendário de onde não ficaram resquícios escritos. Habitavam na Berlenguita uma pequena comunidade de pessoas que conseguiam ver e ouvir o vento e falar a língua dos animais marinhos.

A miúda, que é a razão da nossa lenda, tinha vontade de fazer coisas, mas não sabia quais. E às vezes tinha vontade, mas quando pensava em começar a fazê-las era sempre poder fazer tanta coisa ao mesmo tempo que acabava por nunca fazer nada.

Assim se passavam os dias e os meses, com ela a pensar naquilo que poderia melhorar mas sem acabar por terminar nada, quando deu à costa da Berlenguita um cavalo marinho bem-falante. Falava e barafustava, com a terra dos homens - dos outros homens, aquela terra daqueles que se esquecem que vivem em ilhas e lhes chamam continentes - como se o seu pedaço de terra não estivesse também no meio do mar. Aqueles homens que se esquecem de organizar os 5 sentidos que têm e que aprendem a ver com ouvidos, a olhar com as mãos e a sentir com a cabeça. Que vivem naquela terra que parece terra de malucos, com eles a tentarem falar pelo gosto e a esquecerem-se do cheiro do tacto. Que precisam de algo, que os faça pôr os sentidos no sítio certo, que os faça usar aquilo que guardam sem uso dentro deles. E foi-se embora, o cavalo falante barafustador, e ainda se ouvia quando se afastava a rezingar pelas ondas fora.

A miúda ficou-se a pensar naquilo, nas terras que lhe serviam de horizonte e nos homens que viam com os ouvidos e ouviam com as mãos para sentir com a cabeça. Nada daquilo se passava na Berlenguita e ela sabia qual a razão. A razão era a pedra de Berlenguita, acaso feito ilha, ilha feita pedra-raiz-dos-seres, uma das essências da natureza a aparecer de soslaio na tona do mar. Esta era a pedra da criação que tinha dado origem ao mundo e aos humanos, a ferramenta que a dançarina miúda sabia que poderia repor os sentidos nos sítios. Mas, como conseguir espalhar na ilha gigante, chamada de continente, a pedra mágica e tão consistente?

Pôs-se a pensar durante os entardeceres. Precisava de uma forma qualquer de desgaste, uma máquina que fosse roendo ou desgastando, para da pedra dura tirar pedaços pequenos e soltos, partículas que soltas no vento levassem aos homens que o não escutavam as respostas que não procuravam. E para essa forma de desgaste, precisava de tempo contínuo, algo que nunca parasse e andasse, sempre, andasse, sem nunca sair do sítio. Pegou num pau de bico e fez desenhos na areia, uma forma, outra forma, um meio, outro meio, e por debaixo do seu cabelo as ideias multiplicavam-se. Encontrava várias respostas no vento, quando se lhe bloqueava o raciocínio e fixava os seus olhos brilhantes no horizonte de terra. Via passar o vento, multi-colorido-transparente, a encorajá-la e a prometer-lhe ajuda.

Da construção que tomou em mãos nasceu o primeiro moinho da história das lendas, com grandes palas a rodar dia e noite, a fazer girar pedra sobre a pedra e a transformar o duro em farinha. Quando o montinho de pedra-raiz-dos-seres transformada em farinha já cabia nas duas mãos em concha da corajosa e perspicaz miúda, ela soube que tinha chegado a hora de a soltar em frente às pálas do moinho. Nova função para a mesma construção, e chamar pelo vento para que levasse o pó mágico aos homens do continente que na sua grandeza se tinha esquecido do seu rebordo banhado pelo mar, como todas as ilhas.

Diz-se que os homens ganharam nessa época novo entendimento. Mas diz-se que às vezes o perdem, esquecendo-se de ver com os olhos e ouvir com os ouvidos. Seja como for, a Berlenguita vai ficando cada vez mais pequena e os ambientalistas culpam o aquecimento global, os geólogos os fenómenos naturais de desgaste do mar, os biólogos a introdução de novas espécies em ambientes não-hostis e sei lá que mais.

Eu, pessoalmente, não acredito em lendas e quando olho para as Berlengas nunca vi lá nenhum moinho. Mas já conheci gente de olhos brilhantes a quererem fazer coisas sem saber o quê... e tenho a sensação que seja o que for, será da mesma matéria que as lendas feitas histórias que provocam esse teu sorrir.

Colchão de Perdição - Parte I

O velho colchão de penas fora-lhes oferecido como presente de casamento, pelos avós maternos de Simão. Na altura, deslumbrados com a perspectiva de uma vida a dois, Simão e Teresa descuraram o facto de não se usarem, já, colchões sem molas. Mesmo que tivessem pensado nisso teriam chegado à conclusão de que não poderiam fazer uma tal desfeita aos avós de Simão que tão orgulhosos estavam de verem o seu neto dormir no exacto colchão que tinha pertencido aos seus falecidos pais.

Cedo o colchão começou a revelar as suas qualidades. Não era só a ondulação provocada pela distribuição heterogénea das plumas, que dava ao casal a estranha sensação de dormir num areal. Não era também, a concavidade natural que se formava no meio do colchão e que para ali empurrava e mantinha apriosionados, os corpos de Simão e Teresa. O pior de tudo era o circunstancialismo que impedia que um se mexesse sem perturbar o outro. Noite após noite Simão e Teresa dormiam colados, cara com cara, pele com pele, corpo com corpo.


Nos primeiros meses de casamento, apesar das noites mal dormidas, o casal compensava e substituia o sono traquilo por longas noites de paixão. Se um se mexia acordando o outro, a iminência do contacto fisíco, acabava por levá-los a fazer amor. Até chamavam ao colchão, em tom jocoso: "o indutor de sexo". As idas à casa-de banho, eram também bastante toleradas no princípio com um: "Claro amor! E eu lá ia deixar que a minha florzinha silvestre ficasse aflita uma noite inteira? Queres que vá contigo e te faça companhia, para não te sentires sozinha?" ou com um: "Querido? Estás a dormir? Se precisares de ir à casa-de-banho dizes-me não dizes?"...

segunda-feira, março 21, 2011

Exercícios musculares habituais, parte XVII:

by taparuere.

Exercícios musculares habituais, parte XVII:

XVII partiu para longe. Preparou-se para a viagem carregando malas e sacos de bens essenciais que o iriam ajudar em todos os momentos especiais. Limpou os binóculos e preparou o mapa, calçou as botas novas especialmente compradas para todas as caminhadas, encheu o peito de ar e preparou-se para viajar.

XVII olhou em volta, cheio de orgulho, nas construções que a sua vida fizera. Um relógio novo no pulso, dois computadores na mala, uma máquina fotográfica topo de gama e uma gama completa de tipos de livros e cadernos para fintar a memória.

Quando partiu, nem se despediu e foi XVI e XVIII os que o viram pela janela a arrastar as malas e sacos até à primeira esquina... e depois voltar para trás.
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Quase que toca a densidade do destino.
Toca e foge.
Foge para a toca.
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Tentou atentar na tentação. Ou não?
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Acho que ia atrás...

- Da rapariga do brinco de pérola?
- Não, de uma rapariga com brinco de lágrima.
- Mas feito de pérola? É a mesma!
- Não... ou então sim, mas onde vês pérola vejo lágrima.
- Ora, mas é a mesma coisa.
- Não é se onde vires força eu vir coragem de tentar disfarçar, não é se onde vires teimosia eu vir a necessidade de se agarrar às suas certezas para que o mundo não se lhe desabe, não é se onde vires sorrisos eu vir céu azul em qualquer dia chuvoso, não é se onde vires braços eu vir casa.
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E mesmo assim descobriu...

Por debaixo de um sol brilhante podem nascer as maiores tempestades,
Por debaixo de um mar tranquilo podem rebentar as maiores ondas,
Por debaixo de um ar pacífico podem travar-se as mais sangrentas batalhas,
Pelo meio de uma brisa pode chegar o cheiro da viagem.
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Sei de uma toca
em forma de lágrima
à beira mar,
onde as maiores
tempestades
rebentam com cheiro
a viagem em casa.
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terça-feira, março 15, 2011

- O que queres ser, quando fores grande?
- Seguradora de pássaros bébés.
- Desculpa?
- Sim, quero ser seguradora de pássaros bébés.
- Porquê?
- Estou desconfiada que é o mais próximo que tenho para tentar aprender a segurar momentos, sopros de brisas, cheiros e cumplicidades.

sexta-feira, março 04, 2011

Rio(te) sem beira

É sexta-feira. E nos dedos escorrega-me a sensação de agarrar qualquer coisa que não toco…ainda. Soubesses tu o caminho até Marte, até Vénus, até Plutão. Quisesses tu saber a frequência dos planetas e dos pássaros que voam na rota da abstracção. Não há nuvens. Mas há muito branco por onde viajar. Viagens de ida sem volta porque as voltas, as voltas meu amor, dão-se todas nos caminhos feitos de mãos encontradas. Encontradas, não dadas, como nos contaram antes. Porque há muito tempo que me deste as tuas mãos e eu ainda não as encontro. Por exemplo. Hoje quando acordei tinha a certeza que a claridade vinda de dentro eras tu. Lembro-me de me assegurar dos teus dedos depositados debaixo da minha almofada, como presentes secretamente esperados nas manhãs que acordam sem o primeiro dente.

Já não somos crianças, eu sei. Mas há ainda dentes que caiem em forma de embrião e manhãs de presentes secretos com sabor a desejo. Eu ia jurar que me recolheste as pálpebras. Mas foi, talvez, um dente caído como folha de Outono onde se escorrega em alegria vã. Amanheço sem segredos debaixo da almofada. Tenho o desejo em linha de espera que não posso atender. Seria mais fácil ver-te numa distância pouco precisa. Pouco precisa, como quem não faz tanta falta assim. Como o primeiro dente.

Sabes o que tinha debaixo da almofada nessa manhã de quatro anos? Ou de cinco, ou seis. Não me lembro da idade. Só me lembro do dente a menos e do caderno a mais, da Mafalda. Ainda o tenho. Escrevi-me até à exaustão ainda sem me saber escrever ou dizer. Depois desse dente caíram mais. Mas maior foi o ritmo da chegada dos cadernos. Hoje já não têm a Mafalda na capa. Essa ficou-me na ponta dos dedos e na tinta escorrida para adivinhar o mundo. Para lhe descascar as capas. Pretas hoje. Para te adivinhar aqui. Escrevo-me ainda para te agarrar agora. Mas escorregas-me como água em contra-corrente.

quinta-feira, março 03, 2011

beira Rio-me

Dizes, hoje tudo é outra coisa qualquer. E por detrás dos olhos escorrem-te peixes, soltos num rio de palavras que fez do céu um chão de tons de violeta.
Dizes, hoje é tudo qualquer outra coisa. E por detrás dos cabelos soltam-se pássaros que esvoaçam dentro dos lagos que te escorrem pelas mãos.
Digo que acredito nos novelos vermelhos que vejo desenliarem-se na tua boca, quando o telhado da casa da frente bate telhas para descolar-se dos muros. Escondemo-nos por detrás das janelas cegas, não sei com que cores se pinta o mundo lá fora, só tenho um lápis cor de laranja que a única coisa que diz é traço.
Foi ontem que vimos as nuvens dançar o tango? Rio-me e digo-te que não, que sabes bem que as nuvens não dançam o tango, é a valsa meu amor, com cheiro a hortelã pimenta e tempero de gengibre.
Se me deres as mãos, as duas, inventamos palavras daquelas que parecem gomas. Daquelas que não se conseguem parar de comer, umas atrás das outras depois daquelas antes de estas. E tiras um fio de novelo vermelho que ficou preso entre os dentes, olhas com admiração e espanto mas sabes que qualquer coisa é tudo, hoje.
Foi ontem que as paredes se encheram de relva do lado de dentro? Digo-te sim, logo depois daquele sino enorme ter feito as paredes da igreja velha ruir. Relva e malmequeres, respondes que sim, malmequeres, mal-me-queres.

quarta-feira, fevereiro 23, 2011

acto VIIX

Frases soltas num inglês vestido de sotaques de díspares nacionalidades. "Que está um dia lindo para se ficar a ver do lado de cá da janela", inglês despido de pretensões de gramáticas correctas. E está, e há dias assim, a ficar a ver o sol com a cara encostada ao vidro frio, tudo o que se poderia agarrar com as pontas dos dedos preso numa superfície nua de sentimentos.

Há qualquer coisa de mais verdadeiro na aceitação pura e dura da incompreensão plena de pessoas. Porque não falamos a mesma língua, porque não temos sequer os mesmos significados para as palavras iguais que usamos, porque as destrezas em que pensamos se perdem na intradutabilidade das experiências diferentes que passámos, em contextos tão longíquos uns dos outros, em contextos inexistentes nas cabeças uns dos outros. Frases soltas num inglês vestido de sotaques, despido de pretensões, sem procurar chegar a lado nenhum maior do que este ou aquele sorriso cortês, a aceitação da incompreensão numa cerveja partilhada, numas amendoas que foram ao forno, numa canja portuguesa com gengibre.

E a mão encostada ao vidro sem tocar no mundo que vejo.
E as pontes tão frágeis quanto a fina placa de gelo que cobre um rio lá ao fundo, entre os patos. Não terão frio, os patos?
Não terias tu frio, do lado de lá do vidro?

Talvez deixar-se ficar assim mais um pouco, mão no vidro, testa encostada na janela e um suspiro a embaciar a vista que numa língua estrangeira tráz impresso apenas um "se....".

quinta-feira, fevereiro 10, 2011

reflexo

O mundo inteiro era suficiente, quando te enfiavas em casa de olhos vendados a tentar ver com os outros sentidos o que te tornava na pessoa que não eras. O mundo inteiro era suficiente e cabia todo dentro da casa, cabia todo dentro de ti, quando te enfiavas em casa, de olhos vendados a tentar encher o corpo com o mundo que não tinhas.

Passaram anos desde essa altura e agora falas das inevitabilidades planeadas por forças habitacionais da tua mente. Sem saberes de que é isso que falas, quando dizes "o ar tem cor de chumbo com peso de algodão doce". Estranhas, no entanto, quando estás num sítio com eco, gritas "não" e escutas na volta interiores de recipientes incipentes que transbordam líquidos de que desconheces o nome.

Creio que foi por isso que deixaste de escutar.

Poderias ter escolhido deixar de gritar "não" e tentar com outra coisa qualquer, mas se te dissesse que foi escolha tua, irias desenrolar um novelo de fios eléctricos enrodilhados, na tentativa de explicar os impulsos nada causais mas sempre causísticos que se tornaram as inevitabilidades amarrantes que te esculpem enquanto te desculpas na inacção.

São tretas, sabias?

Posso dizer-to assim,
posso dizer-te "Bang",
posso dizer-te o que quiser porque
continuas a enfiar-te em casa de olhos vendados para olhar um mundo inteiro que te cabe dentro e se escoa pela janela quando te distrais.

Só tu não o sabes, quando te escondes do lado de trás da desculpabilização fácil.

segunda-feira, fevereiro 07, 2011

Dona Ema

Dona Ema estava casada há já 20 anos, e bem casada diziam na vizinhança, quando o seu marido passava apressado, levando as crianças ora para a escola, ora da escola, ora para os seus infantis afazeres, ora de passeio nos seus desportivos prazeres. Dona Ema estava casada havia 20 anos, e havia mais de 25 que o seu marido cuidava dele, dela, da casa, dos filhos, das contas, das necessidades, das futilidades. Só não cuidava do cão, mas isso era porque Dona Ema sempre tinha tido um invulgar medo de cães e portanto a família não tinha nenhum.

Dona Ema também vivia atarefada, agradecendo no entanto e nos entretantos, a preciosa ajuda que o marido prestava. Não era bem porque tivesse muitas coisas para fazer, era mais porque o seu estado de existência era naturalmente a correr. Corria para aqui, corria para ali, não se podia esquecer disto ou daquilo, ai que já estava atrasada para o outro. Acabava por ser a sua principal actividade, andar pelo corredor, encontrar esta ou a outra pessoa, subir e descer escadas e agora falta um papel, espera que vou beber um café, e faltava depois o tempo para fazer mais alguma coisa. No trabalho não lhe levavam a mal, já lá estava há muito tempo, fazia parte da casa. "Lá vai Dona Ema falar com alguém, lá vem Dona Ema além, viste a Dona Ema, não vi, mas espera um pouco que ela não deve demorar a voltar aqui."

Dona Ema que passava veloz, tinha na cabeça vários planos e sonhos, objectivos por concretizar, vontades por planear. Não tinha tempo para elas, mas, ah, se pudesse, quando tivesse tempo Dona Ema iria fazer tudo de uma vez, tudo o que andava a adiar, tudo o que podia sempre esperar.

Foi por isso que Dona Ema passou a vida a ser uma possibilidade por concretizar.

sexta-feira, fevereiro 04, 2011

coisas que sei fazer.

Sei fazer crepes e panquecas.

Sei assobiar alto, com os dedos na boca.

Sei fazer festas a cães, bem feitas, daquelas que os põem a abanar uma pata.

Sei fazer piadinhas secas.

Sei fazer um jantar sem ter que cozinhar nadinha.

Sei estacionar o carro em sítios onde as pessoas que estão dentro do carro acham que ele não cabe.

Sei tocar uma música na viola (mas preciso que me avisem quando é para mudar de nota).

Sei atar os atacadores dos sapatos de 2 maneiras diferentes. Bom, uma não é mesmo atar-atar, mas também conta.

Sei fazer o pino, dentro e fora de água. Mas fora de água não o aguento muito tempo.

Sei falar inglês e espanhol. Mas falo melhor espanhol do que inglês.

Sei brincar com gatos e despertar-lhe a curiosidade. Menos com a Farrusca, essa não quer brincadeiras, quer é festas porque é o gato-cão.

Sei beber de dois copos ao mesmo tempo, seguros só com uma mão, a fazer cascata.

Sei jogar matraquilhos e marcar golos da baliza.

Sei fazer merda.

Sei escrever com a mão esquerda.

Sei andar de mota, bicicleta e a cavalo.

quarta-feira, fevereiro 02, 2011

trági-sit-com

Primeiro acto:
A lamacenta queda. Não a lamacenta aterragem - é a queda que é suja, húmida e pegajosa.
Começa limpa, no tropeço da vida, mas imediatamente se suja no ar. Repleta de resquícios de formas indefinidas, salganhada amontoada, bolos disformes de matérias anónimas. Vai-se enchendo no movimento imprevisível mas obediente à gravidade.

Há dois tempos separados, o de quem vê e o de quem cái.
A lamaçenta queda, para quem vê, é rápida e barulhenta. Foi um "Truz!" momentâneo cuja velocidade não permitiu a gravação mental de pormenores inequívocos. Caberá ao cérebro de quem viu colmatar falhas visuais com pedaços dispersos de outros acontecimentos fortuitos e longíquos que agora servirão para complementar este, sem distinção das suas origens. Tanto pior para o individuo que tentar contar a sua versão ao outro individuo cujo acaso também lhe permitiu a assistência do mesmo acontecimento.

A lamacenta queda, para quem cái, é lenta e silenciosa. Há um "Truz!" no final, mas é desfasado do acontecimento e longíquo dele. Para quem cái, a lamacenta queda traduz o significado de eternidade, mas só por um bocadinho que dura muito. Dura o suficiente para a percepção tomar-se conta de todos os detalhes e pormenores - o movimento descontrolado do corpo, a sujidade que se lhe junta e cobre, as formas que toma na vertigem da queda desamparada na reflexa deslocação que se lhe imprime. Dura também o suficiente para que o individuo reveja mentalmente as circunstâncias que o trouxeram a este sujo desamparo, vistas de vários pontos terrestres e agrestes diferentes.

Segundo acto:

A nobre aterragem. Não é o nobre levantar - é a aterragem que é nobre, cheia de verticalidade.
O final da lamacenta queda é pontuada por um "Truz!", ponto final parágrafo de um momento, barra travessão do momento seguinte. A aterragem horizontal faz-se na verticalidade da situação - a possível, entenda-se. O indivíduo que cái teve tempo reflexivo e reflectivo suficiente para se aperceber da situação, das suas causas, das suas várias possíveis consequências segundo plano probabilístico desenhado pelo modelo matemático da hipergeométrica distribuição. Teve tempo para ponderar a dimensão da amostra e registar os casos de sucesso conhecidos dentro dessa amostra. Derivado destes factores, consegue transformar a sua aterragem desajeitada num momento de nobreza e honra. Para fazê-lo, cairá TO-TAL-MEN-TE desamparado e descordenado, sem qualquer tentativa de colocar as mãos à frente da cara ou de proteger a cabeça. De facto, a nobreza da aterragem dependerá também do momento de contacto das mãos e dos joelhos com o solo. Quanto mais nobre, mais tarde será esse contacto.

Terceiro acto:

O a-levantar-se. Não é o levantar-se - é o a-levantar-se.
O levantar-se seria digno e comandado pelas necessidades e possibilidades motoras do indivíduo. O a-levantar-se exige mais do que isso, exige ao individuo que se alevante como possa. Se puder. Se não puder, será na mesma considerado como se tendo alevantado. Para todos os efeitos, o domínio da percepção sobre os acontecimentos fortuitos imprime na objectividade visionária a incapacidade separativa da realidade objectiva tatuada na pele da ilusão casualística.


A banda sonora dos três actos será contínua e seguirá o seguinte modelo:
plóc-fzzzzzzzzzzzzzzzzzzztttt-Truz!

Fim.

segunda-feira, janeiro 24, 2011

Estranhas Encruzilhadas

- Mas demoras muito a chegar?

- Não sei, acho que me perdi!

- Estás onde?

- No Beco do Fim das Relações.

- Ui. Isso não é a melhor zona da cidade.

- Calculei, pelo aspecto. Como faço para sair daqui?

- Pois, ainda por cima isso aí é um autêntico labirinto. Mas tem várias opções. Atrás de ti tens um cruzamento, não tens?

- Sim, estou de frente para ele.

- A rua da direita vai dar a outras duas ruas. Uma delas leva-te de volta ao beco onde estás, a outra leva-te à praça de onde vieste. Chama-se “Rua dos Regressos”.

- Sim, estou a ver… mas é um bocado muito íngreme, não?

- É, é. E escorregadia, muita gente vem cá parar abaixo outra vez, que não é nada fácil de subir.

- Ok, a praça de onde vim não era má, não. Mas será que ainda vai estar igual?

- Há-de ter algumas coisas iguais, outras diferentes. Também para lá chegares vais ter que estar diferente e largar metade da bagagem, se não não consegues subir a rua.

- Ok. E as outras?

- Á tua frente tens uma rua larga e florida, certo?

- Sim! Com óptimo alcatrão e piso, várias faixas de rodagem e árvores! Parece uma óptima rua!

- Pois. Mas vai dar a uma praça meio estranha. È de terra batida e meio deserta, chama-se “Praça da Resignação” e essa rua que vês tem o nome de “Relações de conveniência apressada por medo da solidão”.

- Uhm… ok. E à esquerda? Esta rua estreitinha?

- Ah. Essa é a “Rua da descoberta” e vai a um largo muito fixe, de onde depois saem mais caminhos.

- Está cheia de buracos e é meio escura.

- Sim, e super-estreita, só dá para passar de uma pessoa de cada vez, e às vezes de lado. Também não é uma rua fácil de se fazer.

- E então, afinal para onde vou?

- Isso eu não sei, tu é que tens que te decidir.

- E tu?

- E eu o quê?

- Estás onde?

- Estou no Largo das Esperanças à tua espera.

- Mas os caminhos que disseste vão dar aí?

- Não sei. Depende.

- Então, e vais ficar aí à minha espera se eu não sei se aí vou dar?

- Vou. Só até ficar de noite, que isto é um bocado desabrigado. Depois, se não chegares, há aqui outras ruas também, por onde posso ir. Não sei, logo vejo.

quarta-feira, janeiro 19, 2011

“I should have been a pair of ragged claws
Scuttling across the floors of silent seas."
T.S. Elliot

- Fala-me das pedras…
- Ah, essas também estão sempre lá e não são intervalo, excepção nem regra
- Continua…
- Também não são fuga, ferida aberta ou trapos remendados nos músculos
- São o quê?
- As pedras contam (nos). São (nos) o menos para que tudo o resto (nos) conte mais.
- Todas as pedras?
- Todas.
- Quais?
- As que querias ter rematado com um sorriso. As que querias nem ter visto da primeira vez. As que escolheste ver de novo. As que esqueceste, as que escondeste, as que guardaste e trazes todos os dias e no intervalo deles…
- No intervalo?
- E antes e depois e durante… as que são cascata de punhais aflitos e as que são vinho quente num crepúsculo temperado de canela e dedos esguios à lareira.
- Uhm...de que é que gostas mais nas pedras?
- Da música.
- Qual música?
- A das pedras.