No meu bairro havia um rapaz que tinha uma lágrima guardada no bolso das calças. Foi há mais de 20 anos, mas o outro dia estava a olhar para ti e lembrei-me. Era o Zé dos Berlindes porque era o melhor a jogar aos berlindes lá do bairro. Por causa disso foi ganhando berlindes e mais troféus. Um dia deram-lhe uma lágrima de verdade - foi uma troca. O Zé ganhou o berlinde mas o rapaz que o perdeu pediu--lhe, "Oh Zé, deixa-me ficar com o berlinde e dou-te outra coisa. É o meu bila da sorte, sem este nunca mais ganho nenhum" e o Zé deixou porque sentiu na voz do outro o peso da desgraça iminente. O outro estendeu-lhe uma lágrima e o Zé inspeccionou-a com especial atenção. Virou-a de todos os lados, pô-la de frente para o sol para a ver bem e por fim disse que tá bem, podia ser, e guardou-a no bolso.
O Zè era meu amigo e mais tarde pedi-lhe para a ver e ele todo contente com o seu troféu lá me deixou. Não sem antes me avisar, tu vê lá não a apertes com muita força que ela estraga-se, mas também não a deixes cair que ainda se parte ou se gasta ou se perde no meio do chão. E estendeu-ma, entre o polegar e o indicador, e eu com muito medo lá lhe peguei e virei-a contra o sol para lhe ver os raios por de dentro. Viam-se também outras coisas misturadas, pedaços soltos da história que a fez - todas as lágrimas trazem as marcas das histórias que as criaram.
O tempo passou-se e eu saí do bairro, nunca mais vi o Zé, vim para a cidade grande aprender a fazer outras coisas. E nunca mais me lembrei nem voltei a jogar berlinde. Também nunca mais voltei a segurar uma lágrima com o polegar e o indicador mas depois, depois apareceste tu e descobri que afinal ainda sei como elas se seguram, como se viram de frente para o sol para olhar para dentro delas e como se faz para as guardar no bolso de trás das calças. E andar com elas para todo o lado, com medo de as perder ou estragar, mas sempre guardadas à mão para se olhar de novo quando se tem tempo.
Já fomos, já deixamos de ser, talvez estejamos de volta. Poderá ser o regresso do mito. O mito que nunca o foi.
sexta-feira, maio 04, 2012
quarta-feira, maio 02, 2012
querido diário
9:00 - deslarga.
9:05 - deslarga mesmo.
9:10 - se não consegues deslargar, vai fazer outra coisa qualquer.
(como, aprender gramática. discutir que des-largar seria o oposto a largar, tal como des-cuidar é o oposto a cuidar)
11:17 - olha em volta sem suspiros. o mundo é para a frente, não se dá corda aos relógios ao contrário que se estragam as máquinas.
12:29 - sente saudade do tempo que passou. sente o tempo que passou, com saudade. sente o tempo nas mãos, a saudade a passar. o toque que te segurou a mão a perder o calor. desvanecer-se. para que outras coisas se vanescam?
12:30 - à procura de novos conceitos agora. só por piada.
12:34 - conceptualização sem materialização, a lógica não existe no mundo real. um sorriso.
13:12 - vais ter saudades do tempo de agora - hipótese que faz tremer. não vou nada, não é possível. não quero. shhht, cala-te e olha o presente como se fosse passado - é circular, anda lá, assume de vez. todas as vezes seguidas. rocambolesco. oi? rucambulesco. oi? shhht, cala-te.
14:12 - perdes o controlo outra vez. em histeria agora. porque o mundo é para a frente e vais sentir saudades disto mas não queres nem saber, só viver, tudo de uma vez. todas as possibilidades não cumpridas, todos os "eus" que poderias ter sido, tudo o que poderias ter agarrado. e agarras uma cerveja fresca para te fazer abrandar, até parar.
15:22 - qualidade de vida embalada por palavras que ouves mas não escutas.
16:15 - nunca serão possíveis, todas as possibilidades do mundo que não escutas. deslarga de novo. inventa, mistura, recria. para fingir que sim. para fingir esquisito. fala esquisito a fingir que sabes do que falas. desdenha dos arquétipos e das cargas mitológicas, finge que só tu sabes do rio de palavras que corre, atribui valor aos artigos e aos adventos - todos nas mesmas prateleiras. faz pior, encena o dramatismo pseudo cosmopolita a fundar alicerces performativos desenraizadamente grostescos, sempre de forma espontânea.
16:16 - ri-te com todos os dentes que tens na boca, os que são teus e os que são mais teus porque pagaste por eles e os escolheste.
16:17 - dá-te conta que és uma pessoa que escolheu os dentes com que sorri ao mundo. e ri-te disso.
18:25 - apercebe-te que é tarde demais, porque ainda nada está pronto.
19:00 - pára para fugir.
22:00 - quietude fugidia, sem saber o que quer isso dizer.
22:05 - ai.
22:06 - ai ai.
22:08 - decides mudar de vida.
22:09 - fazes os mesmos erros de sempre.
22:10 - decides mudar de vida.
22:11 - fazes os mesmos erros de sempre.
22:12 - atinge-te em cheio - não há regresso possível nem fuga provável.
00:15 - decide re-escrever o futuro e acaba na prisão de todos os dias.
9:05 - deslarga mesmo.
9:10 - se não consegues deslargar, vai fazer outra coisa qualquer.
(como, aprender gramática. discutir que des-largar seria o oposto a largar, tal como des-cuidar é o oposto a cuidar)
11:17 - olha em volta sem suspiros. o mundo é para a frente, não se dá corda aos relógios ao contrário que se estragam as máquinas.
12:29 - sente saudade do tempo que passou. sente o tempo que passou, com saudade. sente o tempo nas mãos, a saudade a passar. o toque que te segurou a mão a perder o calor. desvanecer-se. para que outras coisas se vanescam?
12:30 - à procura de novos conceitos agora. só por piada.
12:34 - conceptualização sem materialização, a lógica não existe no mundo real. um sorriso.
13:12 - vais ter saudades do tempo de agora - hipótese que faz tremer. não vou nada, não é possível. não quero. shhht, cala-te e olha o presente como se fosse passado - é circular, anda lá, assume de vez. todas as vezes seguidas. rocambolesco. oi? rucambulesco. oi? shhht, cala-te.
14:12 - perdes o controlo outra vez. em histeria agora. porque o mundo é para a frente e vais sentir saudades disto mas não queres nem saber, só viver, tudo de uma vez. todas as possibilidades não cumpridas, todos os "eus" que poderias ter sido, tudo o que poderias ter agarrado. e agarras uma cerveja fresca para te fazer abrandar, até parar.
15:22 - qualidade de vida embalada por palavras que ouves mas não escutas.
16:15 - nunca serão possíveis, todas as possibilidades do mundo que não escutas. deslarga de novo. inventa, mistura, recria. para fingir que sim. para fingir esquisito. fala esquisito a fingir que sabes do que falas. desdenha dos arquétipos e das cargas mitológicas, finge que só tu sabes do rio de palavras que corre, atribui valor aos artigos e aos adventos - todos nas mesmas prateleiras. faz pior, encena o dramatismo pseudo cosmopolita a fundar alicerces performativos desenraizadamente grostescos, sempre de forma espontânea.
16:16 - ri-te com todos os dentes que tens na boca, os que são teus e os que são mais teus porque pagaste por eles e os escolheste.
16:17 - dá-te conta que és uma pessoa que escolheu os dentes com que sorri ao mundo. e ri-te disso.
18:25 - apercebe-te que é tarde demais, porque ainda nada está pronto.
19:00 - pára para fugir.
22:00 - quietude fugidia, sem saber o que quer isso dizer.
22:05 - ai.
22:06 - ai ai.
22:08 - decides mudar de vida.
22:09 - fazes os mesmos erros de sempre.
22:10 - decides mudar de vida.
22:11 - fazes os mesmos erros de sempre.
22:12 - atinge-te em cheio - não há regresso possível nem fuga provável.
00:15 - decide re-escrever o futuro e acaba na prisão de todos os dias.
quarta-feira, abril 25, 2012
Dona Eva
Dona Eva olhava angustiada para a balança,
A balança não mente mas mente dona Eva quando o médico lhe pergunta. Não se fica pela pergunta, suba lá dona Eva, e o ódio que já guarda pelos números aumenta. Sustém a respiração mas os números não baixam, engordam no visor ao mesmo ritmo que dona Eva engorda na barriga.
137 kilos, Dona Eva, em vez de dois a menos temos dois a mais, Dona Eva. Solta-se-lhe um suspiro, se o médico soubesse o que lhe custa! O mal está nesta sociedade, em todo lado chocolates apetitosos, bonbons pouco decorosos, rebuçados despudorados e outra vez os dedos lambuzados.
Ah, dona Eva, conter os apetites custa-lhe o mesmo que conter esse pneu por debaixo da camisola mandada fazer à medida. Anda mais descansado o marido, ao fim de 10 anos de casados encontra por fim a paz de que a única tentação seja gelado de limão.
A balança não mente mas mente dona Eva quando o médico lhe pergunta. Não se fica pela pergunta, suba lá dona Eva, e o ódio que já guarda pelos números aumenta. Sustém a respiração mas os números não baixam, engordam no visor ao mesmo ritmo que dona Eva engorda na barriga.
137 kilos, Dona Eva, em vez de dois a menos temos dois a mais, Dona Eva. Solta-se-lhe um suspiro, se o médico soubesse o que lhe custa! O mal está nesta sociedade, em todo lado chocolates apetitosos, bonbons pouco decorosos, rebuçados despudorados e outra vez os dedos lambuzados.
Ah, dona Eva, conter os apetites custa-lhe o mesmo que conter esse pneu por debaixo da camisola mandada fazer à medida. Anda mais descansado o marido, ao fim de 10 anos de casados encontra por fim a paz de que a única tentação seja gelado de limão.
quarta-feira, abril 04, 2012
Das vidas de outras vidas
Andavam em escavações, diziam, quando na verdade apenas esgafatunhavam aqui e ali. Usavam normalmente armadilharia pesada: pás, enxadas, perguntas certeiras. Mas outras vezes usavam apenas os dedos e os olhos. À procura de alguma coisa, à procura de qualquer coisa, e andavam naquilo dia e noite. Os dedos duros e doridos, bolhas a rebentar, um sulco de esforço por debaixo das unhas, uns calos altos por entre os descansos do dia. Os descansos do dia - a noite. Queriam-na pacífica mas vá-se lá saber dos desígnios estrelares, eram cheias de sonhos com buracos a fecharem-se, esforços redobrados, escava daqui e dali, retira daqui e dali, carrega daqui pr'ali.
Podia pensar-se que sonhavam com qualquer objectivo mais alto e maior. Talvez chegar ao outro lado do mundo, talvez construir uma passagem que permitisse que os extremos se tocassem, talvez encontrar uma verdade mais quente e verdadeira, presa e logo colada ali ao centro da terra. Podia pensar-se nessas coisas todas, mas nenhuma era certa hoje em dia. Já haviam sido, agora não. Agora era escavar pela ânsia de escavar, esgafatunhar como quem não sabe nem quer saber fazer mais nada, o desígnio de quem se esqueceu de outros propósitos e horizontes. À procura, claro, de algo. De alguma coisa. De qualquer coisa. Que teimava em não se materializar por baixo da terra, da lama, dos sonhos, da esperança, de todas as porcarias em que escavavam.
segunda-feira, janeiro 09, 2012
segunda-feira, novembro 28, 2011
Atitudes activas Vs passivas
Ouvi dizer que não sabes o que fazer.
Ouvi dizer que continuas em quietude no mesmo canto, de braços cruzados, sem saber o que fazer.
Creio que essa posição te é confortável, enquanto te manténs na indecisão a vida vai passando por ti e tomando ela as decisões que são tuas. "São coisas que me acontecem" dizes com alguma raiva, em sussurro por entre os dentes. Sem saber que a culpa é tua por não tomares nenhuma atitude.
Mas se agora sussurras de dentes semi-cerrados por causa disso, tenho uma má noticia para te dar: vai piorar. A sério. Porque vais sofrer de uma grande crise de pós-meia idade (que é quando disseres que estás na meia idade mas na verdade já a passaste). E não vais fazer nada sobre isso, e depois envelheces e já se sabe como é essa velhice, amarga e azeda a dizer mal dos tempos modernos e bem dos tempos que mais ninguém se lembra - aqueles em que podias ter feito alguma coisa e não fizeste - e depois morres nas amarguras porque a tua vida afinal não fez diferença nenhuma (e na verdade a vida não foi tua, foi dela sozinha porque sozinha se decidiu) e depois reencarnas numa minhoca lenta e começas a rastejar por uma varanda cheia de humidade e há uma gaja que também não decide a vida dela que te vê e como também não tem a atitude que te faltou, em vez de te matar com uma pisadela fica só histérica a atirar-te sapatos do outro lado da varanda a acabas uma minhoca meia morta a dizer mal das duas vidas que não viveu. E vamos ter sinceridade, isso é triste.
Portanto, se não queres acabar como uma minhoca moribunda durante 58 horas, mais vale fazeres alguma coisa agora.
sábado, novembro 26, 2011
Um casal atípico
Segunda-feira, 7:30 da manhã, na casa de Ana e Jaime em Campo de Ourique.
Jaime percorre a casa toda em passo apressado. Procura as suas chaves de casa. Já desesperado decide acordar Ana para o ajudar a encontrá-las.
- Anaaaa, viste as minhas chaves?
- Vi. E até podia dizer-te onde elas estão se não tivesse sido atacada por uma perguicite tão grande que nem consigo falar. Só para teres uma ideia, a explicação que te acabo de dar sobre o cansanço arruinou com as minhas reservas de energia e vai-me levar, pelo menos, uma hora antes de conseguir articular qualquer palavra.
- Vá lá Ana, pára de brincar. Assim vou chegar tarde ao emprego. Tenho uma reunião de equipa às 8:30 e ainda nem revi a minha apresentação.
- Não estou a brincar! O que te digo é muito sério. Não consegues ver como arrasto a voz quando falo?... No entanto - porque te amo acima de todas as coisas - estou disposta a fazer um sacrifício. Mas para isso também vou precisar de ver alguma boa vontade da tua parte... afinal quem perdeu as chaves foste tu.
- Vá lá Ana! Não tenho tempo para jogos. Diz-me duma vez onde estão as chaves e pára de brincar.
- Como te digo, se queres reaver as tuas chaves tens que demonstrar uma intenção realmente séria de as reaver.
- E como é que esperas que eu faça isso?
- Bem, tens que jogar o jogo das perguntas: tens direito a três perguntas; nenhuma delas pode ser "Onde é que estão as chaves?". Por cada pergunta inteligente que fizeres recebes pistas que te levarão direitinho ao teu objectivo... a argúcia e perspicácia são, portanto, qualidades altamente valorizadas neste desafio. Pronto?
- Sim, tenho outro remédio?
- Isso é uma pergunta?
- Não! Era eu que estava a pensar alto, desculpa. Posso começar de princípio?
- Sim, mas a partir de agora não há mais desculpas. Não te esqueças que o tempo está a contar.
- Ok, ok. Então vamos lá. (Jaime inspira fundo olha para Ana e começa.) Já te disse hoje que te amo?
- Ainda não tinhas mencionado, não. As chaves estão algures no andar de baixo.
- Queres ir jantar fora logo à noite e ir ao cinema ver um filme à tua escolha?
- Aceito o convite...talvez fosse bom limitares a tua busca à zona da sala.
- Achas que logo à noite posso fazer-te uma massagem para estrear os óleos que comprámos na nossa viagem à Tailândia?
- Também reparaste que estão a ganhar pó na dispensa?... acho que as chaves estão caídas entre as almofadas do sofá.
Jaime beija Ana na boca e sai apressado descendo as escadas de duas em duas.. quando chega à sala vira o sofá de ponta a ponta sem vislumbrar ponta de chaves.
- Anaaaa, não estão aqui.
- Então não sei. Pensei que as tinha visto aí caídas.
...
Fim.
segunda-feira, novembro 21, 2011
O amor é uma construção a dois.
Querido Diário,
Conheci um rapaz espectacular. Tem cabelo desalinhado, usa t-shirts pretas de rock, tem montes de estilo e conversas super-interessantes. Não entendo tudo o que diz mas adoro a expressão dele!
Querido Diário,
Hoje passamos a tarde juntos, ele fala-me de coisas que nunca tinha ouvido, conhece imenso sobre tudo, tem perspectivas muito interessantes sobre qualquer assunto. Nunca me vai ligar, que interesse poderia eu ter para ele? Ah, mas como adoro aquele cabelo despenteado!
Querido Diário,
tenho novidades das últimas semanas. Temos saído muito e conversado. Já conheço alguns amigos dele, tem todos conversas diferentes dos meus. E opiniões, é gente que sabe do que fala!
Querido diário,
tenho namorado. Adoro andar com ele e apresentá-lo a toda a gente. As pessoas ficam sempre muito impressionadas com o ar dele, porque ele é diferente em tudo. Do cabelo por pentear, as t-shirts de rock, as calças rasgadas...
Querido diário,
tivemos um jantar de anos de uma amiga minha. Ele também foi, é mais do que oficial que namoramos. Estou tão feliz! Só foi pena que algumas pessoas o olharam de lado, pudera, ele tem um estilo tão diferente...
Querido diário,
amanhã vamos ter outro jantar de anos de outra amiga minha. Felizmente consegui convence-lo a pentear-se e a vestir uma camisa. Vai fazer um sucesso, com as conversas interessantes que tem, vais ver! Só espero que não fale muito de assuntos chocantes, às vezes não percebo porque tem que ter opiniões tão duras sobre tudo. E são meio esquisitas, era muito mais fácil se pensasse o mesmo que os meus amigos em alguns assuntos...
Querido diário,
ontem ele veio cá jantar. Veio de camisa e calças sem estarem rasgadas. Não falou muito das conversas mais esquisitas que às vezes tem, que foi para não chocar muito a minha família. Correu bem... acho eu. Ele gostou! Os meus pais não disseram nada de especial, mas acho que não desgostaram.
Querido diário,
hoje tivemos uma discussão. Tudo porque me apareceu cá em casa todo despenteado - apesar de estar com um novo corte de cabelo muito mais giro! - e eu pedi para se pentear para irmos ao cinema. Não percebo qual é o problema dele, afinal não lhe custava nada e fica-lhe muito melhor!
Querido diário,
acabei o meu namoro. Não sei o que se passou com ele, mas ele mudou muito neste tempo. Não é mais o rapaz por quem me apaixonei. Não tem mais a garra que tinha a falar do que falava, parece que perdeu o brilho! E ás vezes tem um ar meio apatetado, a camisa sai-lhe para fora e parece meio tóino. Mudou demais neste tempo de namoro, não entendo. Se calhar é só de estar a ficar mais maduro, mas acho que estamos a crescer para caminhos diferentes.
Conheci um rapaz espectacular. Tem cabelo desalinhado, usa t-shirts pretas de rock, tem montes de estilo e conversas super-interessantes. Não entendo tudo o que diz mas adoro a expressão dele!
Querido Diário,
Hoje passamos a tarde juntos, ele fala-me de coisas que nunca tinha ouvido, conhece imenso sobre tudo, tem perspectivas muito interessantes sobre qualquer assunto. Nunca me vai ligar, que interesse poderia eu ter para ele? Ah, mas como adoro aquele cabelo despenteado!
Querido Diário,
tenho novidades das últimas semanas. Temos saído muito e conversado. Já conheço alguns amigos dele, tem todos conversas diferentes dos meus. E opiniões, é gente que sabe do que fala!
Querido diário,
tenho namorado. Adoro andar com ele e apresentá-lo a toda a gente. As pessoas ficam sempre muito impressionadas com o ar dele, porque ele é diferente em tudo. Do cabelo por pentear, as t-shirts de rock, as calças rasgadas...
Querido diário,
tivemos um jantar de anos de uma amiga minha. Ele também foi, é mais do que oficial que namoramos. Estou tão feliz! Só foi pena que algumas pessoas o olharam de lado, pudera, ele tem um estilo tão diferente...
Querido diário,
amanhã vamos ter outro jantar de anos de outra amiga minha. Felizmente consegui convence-lo a pentear-se e a vestir uma camisa. Vai fazer um sucesso, com as conversas interessantes que tem, vais ver! Só espero que não fale muito de assuntos chocantes, às vezes não percebo porque tem que ter opiniões tão duras sobre tudo. E são meio esquisitas, era muito mais fácil se pensasse o mesmo que os meus amigos em alguns assuntos...
Querido diário,
ontem ele veio cá jantar. Veio de camisa e calças sem estarem rasgadas. Não falou muito das conversas mais esquisitas que às vezes tem, que foi para não chocar muito a minha família. Correu bem... acho eu. Ele gostou! Os meus pais não disseram nada de especial, mas acho que não desgostaram.
Querido diário,
hoje tivemos uma discussão. Tudo porque me apareceu cá em casa todo despenteado - apesar de estar com um novo corte de cabelo muito mais giro! - e eu pedi para se pentear para irmos ao cinema. Não percebo qual é o problema dele, afinal não lhe custava nada e fica-lhe muito melhor!
Querido diário,
acabei o meu namoro. Não sei o que se passou com ele, mas ele mudou muito neste tempo. Não é mais o rapaz por quem me apaixonei. Não tem mais a garra que tinha a falar do que falava, parece que perdeu o brilho! E ás vezes tem um ar meio apatetado, a camisa sai-lhe para fora e parece meio tóino. Mudou demais neste tempo de namoro, não entendo. Se calhar é só de estar a ficar mais maduro, mas acho que estamos a crescer para caminhos diferentes.
quinta-feira, novembro 17, 2011
Sabia de cor as cores das suas mãos
quando cruzava os dedos em apertados gritos mudos. Era estranho, como se
quisesse agarrar a raiva dentro das palmas e por vezes tivesse medo que a força
lhe faltasse. Apertava os lábios também, sempre o mesmo gesto, a expressão crua
nos olhos. Crua de existência.
- Que outras terras achas que pisas
que te asseguram seguros chãos?
Ninguém fala assim quando em vez de
palavras guarda nuvens cinzentas na cabeça. Ninguém fala mesmo, intraduções de
coisas indefinidas. Raios de tentativas de explicações a soçobrarem pelos
ossos, a rebentarem por dentro da pele, a baterem insistentemente contra o
mesmo invólucro selado, impossível saírem por esses cortes tentativas.
- Que outras terras achas que pisas
que te asseguram seguros chãos?
Como se não fossemos existência em
vazio. Como se houvesse mesmo a possibilidade de assegurar ou de nos segurarmos
a alguma coisa. Um cajado, havia senhores que tinham cajados, havia um tempo
infantil que achava que jamais o mundo se poderia desequilibrar se tivesse apoiado
num cajado firmemente cravado no chão. As mãos sob o queixo. As respostas sob
as mãos.
- Que rios são esses que tentas
travar sem fazeres de ti barragem?
A fluidez dos dias, dos momentos, das
pedras, dos "sim", dos agora. A fluidez imparável da falta do
concreto, a fluidez do cimento e do betão, não há nada indestrutível, não há
nada que dure agarrado ao lodo escorregadio do que já foi. Uma lágrima tem
menos fluidez do que essa promessa. Há no vento uma aspereza maior do que nesse
muro. É preciso, seria preciso, aprender a andar assim. Sem chão nos pés, sem
mãos no cajado. Pior que um bebé de ano. Trôpego, não bebas mais, não mastigues
a bebida, não mastigues essa raiva. Sôfrego, já não há, fluiu-se.
- Anda, vamos embora. Amanhã também é
dia.
Não são os dias que importam, são as noites. Quando as
coisas fluidas ganham algum peso. Quando a gente se ilude a pensar que há
coisas importantes e que vão durar. As noites são uma merda, por isso digo-te
bom dia, alegria, e construo uma casa de nevoeiro - o material de onde nascem
todos os outros.
sexta-feira, outubro 07, 2011
Três grandes grupos de mentirosos: Caçadores, Políticos e Pescadores
- Mas de verdade que há pesca boa no Tejo?
- Claro que há menina... claro que há... deixe-me contar-lhe uma história. Comecei a pescar no Tejo, aqui mesmo à beira de Alcântara, quando tinha 7 anos. Vinha com o meu pai e tinha que ficar em silêncio o tempo todo. Mas sabe como é, a gente ganha-lhe o gosto. Assim como assim, o meu pai também era homem de poucas palavras. Não se chegava a zangar comigo quando a linha se partia. Dava-me um calduço e já está. E sorria quando eu apanhava um peixe. No Tejo há pesca boa menina, já cá apanhei uma corvina de 2,5 kl. Charroucos também aparecem. E taínhas, taínhas há com fartura. Ás vezes também aparecem robalos menina, às vezes também aparecem robalos, mas aparece mais vezes lixo. Há muito lixo no Tejo menina, imagine que o outro dia vim à pesca e apanhei com uma multa. Que são precisas licenças, que é preciso ir tratar de papéis, no tempo do meu pai não havia nada disso. Hoje em dia apanha-se mais lixo desse. Bu-ro-cra-cia chamam-lhe os especialistas, é lixo é o que é. E ali mais abaixo costumava estar outro pescador todas as manhãs de sábado que já não vem por causa disso, apanhou uma burocracia tão grande que desistiu disto. É triste menina, a gente desistir das coisas que gosta por causa dos entraves que encontramos.
Mas também se apanham coisas melhores agora. O outro dia apanhei um bocadinho de nostalgia, mas coisa miúda, coisa miúda. Fui dar com um antigo companheiro lá da escola, veja lá menina, está na frança mas veio cá uns dias e teve que vir ao tejo. Ainda deu para desenrolar umas histórias e apanhar umas lembranças. Também cheiram a peixe as lembranças, mas não só. A pão acabado de fazer ou a cozido nos dias de festa.
É.. é verdade que ainda há pesca boa no tejo menina. Se não a gente já não vinha para aqui... e às vezes até aparecem robalos.
quinta-feira, setembro 15, 2011
história que toda a gente conhece
Mariazinha tem 3 anos e quer a sua chupeta. A mãe afasta-a, porque sabe que Mariazinha se vai magoar nela, com os seus novos dentinhos. Mariazinha não sabe das razões nem dos porquês, quer a sua chupeta e quer-la tanto que dos pulmões nascem furacões que abanam as paredes da casa e transformam os cérebros dos pais em papa. Mariazinha consegue a sua chupeta e magoa-se nela com os seus novos dentinhos. Não sabe ainda que não adianta chorar sobre a chupeta derramada, mas adiante na história que a chupeta em si não nos interessa.
Mariazinha tem 7 anos e quer subir ao muro da escola. A professora não deixa, que te vais magoar Mariazinha!, e Mariazinha aproveita todos os intervalos em que a professora está distraída para acenar aos coleguinhas do alto do muro branco. Sobe uma, sobe duas, sobe vinte, Mariazinha é a rainha da escola quando a professora não vê, até ao dia em que a professora se zanga com o namorado ao telefone e volta mais cedo, dá de caras com Mariazinha no muro, grita alto e assusta-a, Mariazinha dá de caras com o chão do intervalo. Mariazinha magoa-se uma vez em 50 e deixa de ser rainha da escola.
Mariazinha tem 12 anos e mais de 7 amigas com quem partilha segredos. Que o rapaz mais giro da escola é o Rui, ai Mariazinha não se gosta de um rapaz de 14 anos. Mas ele tem estilo e as calças abaixo do rabo, os risinhos das amigas são quase histéricos quando ele passa até que lhe passa a vontade de trocar olhares com Mariazinha. Das 7 amigas, uma foi fazer conversinha - ai Mariazinha que te deu para confiares nas 7, os números perfeitos são apenas bíblicos - Mariazinha chora as traições e outras intenções, Mariazinha só tem uma amiga com quem partilha segredos.
Mariazinha tem 17 de média e 17 de idade. São os exames nacionais e Mariazinha estuda e estuda e estuda e passa e passa e chumba. 2 exames brilhantes, um exame de merda - ai Mariazinha, tão boa aluna que tu eras e ainda acabas a lavar degraus. Pode ser que não, que a segunda opção da faculdade não era a de empregada doméstica, mas pobre Mariazinha, nunca acerta, nunca acerta.
Mariazinha tem quase 30 anos e sabe que quem não arrisca não petisca, mas tem tanto medo Mariazinha que se vai desculpando que os petiscos engordam e se calhar é melhor não.
Mariazinha Mariazinha, um dia destes digo-te que se não fosses tão parva eras estúpida que nem uma porta. Sem demérito para a porta, que ainda é mais estúpida que tu porque se fecha sempre como se fosse a última vez. Até ao dia em que quebra e é substituída por outra mais prudente.
Moral da história?
É no equilíbrio que está a virtude.
Largamos a Mariazinha e recomeçamos?
Osho, Zén, Chin e Yang eram quatro amigos muito equilibrados, tão equilibrados equilibrados que podiam vir a ser os melhores trapezistas do mundo inteiro e arredores. Mas nunca o seriam, a vida no trapézio é um risco sobre uma linha e quando há mais risco do que segurança não se está no equilíbrio. Por isso eram outra coisa, gestores de coisas - um de comunicação, outro de recursos, outro de humanos e outro de gestão. Sim, gestor de gestão, hoje em dia também fazem falta. Em equilíbrio lá se casaram na idade devida com raparigas equilibradamente giras e interessantes, a tentarem equilibrarem-se em cima das suas andas, ai perdão, sapatos de saltos muitos altos. Nem demais nem de menos, nem muito apaixonados nem muito enjoados. Um deles casou com a Mariazinha e viveram equilibradamente felizes, moderadamente satisfeitos, só tinham - por mera coincidência - um problema na vida: a porta de sua casa nunca aguentava muito tempo, estava sempre a partir-se e a ter que ser substítuida.
É assim com as intensidades da vida.
Mariazinha tem 7 anos e quer subir ao muro da escola. A professora não deixa, que te vais magoar Mariazinha!, e Mariazinha aproveita todos os intervalos em que a professora está distraída para acenar aos coleguinhas do alto do muro branco. Sobe uma, sobe duas, sobe vinte, Mariazinha é a rainha da escola quando a professora não vê, até ao dia em que a professora se zanga com o namorado ao telefone e volta mais cedo, dá de caras com Mariazinha no muro, grita alto e assusta-a, Mariazinha dá de caras com o chão do intervalo. Mariazinha magoa-se uma vez em 50 e deixa de ser rainha da escola.
Mariazinha tem 12 anos e mais de 7 amigas com quem partilha segredos. Que o rapaz mais giro da escola é o Rui, ai Mariazinha não se gosta de um rapaz de 14 anos. Mas ele tem estilo e as calças abaixo do rabo, os risinhos das amigas são quase histéricos quando ele passa até que lhe passa a vontade de trocar olhares com Mariazinha. Das 7 amigas, uma foi fazer conversinha - ai Mariazinha que te deu para confiares nas 7, os números perfeitos são apenas bíblicos - Mariazinha chora as traições e outras intenções, Mariazinha só tem uma amiga com quem partilha segredos.
Mariazinha tem 17 de média e 17 de idade. São os exames nacionais e Mariazinha estuda e estuda e estuda e passa e passa e chumba. 2 exames brilhantes, um exame de merda - ai Mariazinha, tão boa aluna que tu eras e ainda acabas a lavar degraus. Pode ser que não, que a segunda opção da faculdade não era a de empregada doméstica, mas pobre Mariazinha, nunca acerta, nunca acerta.
Mariazinha tem quase 30 anos e sabe que quem não arrisca não petisca, mas tem tanto medo Mariazinha que se vai desculpando que os petiscos engordam e se calhar é melhor não.
Mariazinha Mariazinha, um dia destes digo-te que se não fosses tão parva eras estúpida que nem uma porta. Sem demérito para a porta, que ainda é mais estúpida que tu porque se fecha sempre como se fosse a última vez. Até ao dia em que quebra e é substituída por outra mais prudente.
Moral da história?
É no equilíbrio que está a virtude.
Largamos a Mariazinha e recomeçamos?
Osho, Zén, Chin e Yang eram quatro amigos muito equilibrados, tão equilibrados equilibrados que podiam vir a ser os melhores trapezistas do mundo inteiro e arredores. Mas nunca o seriam, a vida no trapézio é um risco sobre uma linha e quando há mais risco do que segurança não se está no equilíbrio. Por isso eram outra coisa, gestores de coisas - um de comunicação, outro de recursos, outro de humanos e outro de gestão. Sim, gestor de gestão, hoje em dia também fazem falta. Em equilíbrio lá se casaram na idade devida com raparigas equilibradamente giras e interessantes, a tentarem equilibrarem-se em cima das suas andas, ai perdão, sapatos de saltos muitos altos. Nem demais nem de menos, nem muito apaixonados nem muito enjoados. Um deles casou com a Mariazinha e viveram equilibradamente felizes, moderadamente satisfeitos, só tinham - por mera coincidência - um problema na vida: a porta de sua casa nunca aguentava muito tempo, estava sempre a partir-se e a ter que ser substítuida.
É assim com as intensidades da vida.
segunda-feira, setembro 05, 2011
...
A língua transformada em granito quando dizes "tens a maturidade emocional de um cachorro de 3 meses" mas não me atiras a bola de volta.
As flores de papel arrastadas pelo vento das pálas de um moinho em ruína, rua fora, ao longo da costa, para longe. É o tempo dos varredores de rua, cabeças viradas ao chão, não sei de que cor têm os olhos. Só sei do irritante barulho das vassouras feitas de ramos mortos a rasparem nas pedras da calçada, são de granito, como a língua.
É o tempo do fim das festas, dizem os varredores sem falar.
É o tempo do fim das festas, diz o cachorro sem abanar a cauda.
As pedras, essas não dizem nada. Ficam-se com o seu tempo e o seu peso, as histórias que calam e a vontade de aprenderem a voar, que nunca será de facto uma possibilidade. Mas também, assim como assim, não precisam de mais nada.
As flores de papel arrastadas pelo vento das pálas de um moinho em ruína, rua fora, ao longo da costa, para longe. É o tempo dos varredores de rua, cabeças viradas ao chão, não sei de que cor têm os olhos. Só sei do irritante barulho das vassouras feitas de ramos mortos a rasparem nas pedras da calçada, são de granito, como a língua.
É o tempo do fim das festas, dizem os varredores sem falar.
É o tempo do fim das festas, diz o cachorro sem abanar a cauda.
As pedras, essas não dizem nada. Ficam-se com o seu tempo e o seu peso, as histórias que calam e a vontade de aprenderem a voar, que nunca será de facto uma possibilidade. Mas também, assim como assim, não precisam de mais nada.
terça-feira, julho 26, 2011
Às vezes, só às vezes, deixas o tempo escorregar-te no corpo para te lembrares das histórias que já não existem. Como as de umas mãos muito velhas que te davam umas palmadas desajeitadas no cimo da cabeça e tinham marcadas nas palmas as histórias incontáveis da vida, em vez de linhas sobre o futuro e promessas escondidas.
As mãos - todos os erros, todos os sucessos, todas as desistências e os momentos inesperados que tentaram agarrar, os outros que largaram, as vezes que tocaram em coisas, objectos, outras pessoas e depois se esqueceram dessas formas, dessas temperaturas, dessas densidades. Para se lembrarem de outras.
Ás vezes também me lembro de coisas. Lembro-me que esta cidade cheia de luz não é de verdade terra de ninguém. Se alguém lhe pertencer serão os pombos, não as pessoas que a cruzam e a (re)conhecem. Porque as pessoas que a cruzam apenas conhecem os sítios que são pisados todos os dias por centenas de milhares de pés apressados, mudos, pés que não reparam nos sítios porque os lugares não são deles e mudam um bocadinho, todos os dias, sozinhos, sem ninguém que se aperceba de uma erva a florir entre a calçada ou mais um pedaço de madeira que apodrece porque estes lugares não são de ninguém.
O outro dia disseram-me que as coisas são de quem trata delas, que essa é a única pertença possível (e mesmo assim não chega).
Quase todos os dias sabes o que deves fazer, quando acordas de manhã e o dia se espreguiça à tua frente e na tua cabeça as vozes de recomendações, exigências, responsabilidades e planos. Para chegar a algum sítio, para fazer o que deves fazer, porque é assim. Porque a vida às vezes não nos guarda tempo para aquilo que gostamos e é assim que o tempo se nos escorre pelo corpo numa cidade que não é de ninguém e sem mãos que guardem as histórias e memórias que o tempo apagou.
Não quero deslargar as pequenas histórias cruzadas que não se vão tornar no elenco principal. Porque acho que essas é que são o principal, sem os deveres e responsabilidades e pressupostos com alguém a dizer-me "não faças isso que o caminho é por ali" e esse caminho é aquele onde a vida não nos guarda tempo para as coisas que queremos mais (que queríamos mais, quando as mãos forem velhas e tiverem traçados os erros e segredos incontáveis).
As mãos - todos os erros, todos os sucessos, todas as desistências e os momentos inesperados que tentaram agarrar, os outros que largaram, as vezes que tocaram em coisas, objectos, outras pessoas e depois se esqueceram dessas formas, dessas temperaturas, dessas densidades. Para se lembrarem de outras.
Ás vezes também me lembro de coisas. Lembro-me que esta cidade cheia de luz não é de verdade terra de ninguém. Se alguém lhe pertencer serão os pombos, não as pessoas que a cruzam e a (re)conhecem. Porque as pessoas que a cruzam apenas conhecem os sítios que são pisados todos os dias por centenas de milhares de pés apressados, mudos, pés que não reparam nos sítios porque os lugares não são deles e mudam um bocadinho, todos os dias, sozinhos, sem ninguém que se aperceba de uma erva a florir entre a calçada ou mais um pedaço de madeira que apodrece porque estes lugares não são de ninguém.
O outro dia disseram-me que as coisas são de quem trata delas, que essa é a única pertença possível (e mesmo assim não chega).
Quase todos os dias sabes o que deves fazer, quando acordas de manhã e o dia se espreguiça à tua frente e na tua cabeça as vozes de recomendações, exigências, responsabilidades e planos. Para chegar a algum sítio, para fazer o que deves fazer, porque é assim. Porque a vida às vezes não nos guarda tempo para aquilo que gostamos e é assim que o tempo se nos escorre pelo corpo numa cidade que não é de ninguém e sem mãos que guardem as histórias e memórias que o tempo apagou.
Não quero deslargar as pequenas histórias cruzadas que não se vão tornar no elenco principal. Porque acho que essas é que são o principal, sem os deveres e responsabilidades e pressupostos com alguém a dizer-me "não faças isso que o caminho é por ali" e esse caminho é aquele onde a vida não nos guarda tempo para as coisas que queremos mais (que queríamos mais, quando as mãos forem velhas e tiverem traçados os erros e segredos incontáveis).
quarta-feira, julho 20, 2011
NOTICIA DE ÚLTIMA HORA: Mãe entra na cozinha depois de ausência de mais de 30 anos!
Após a tentativa falhada de confecção de um bacalhau com natas, a gastronomicamente insensível foi apanhada a tentar remediar o prato que, momentos antes, fora dado a provar a Joana, a filha mais nova. (os nomes utilizados nesta reportagem são fictícios e qualquer semelhança com uma realidade perto de si é puramente acidental) .

Joana, sempre se mostrou condescendente com os "dotes" culinários da sua mãe adoptando sempre uma postura de encorajamento, fruto do seu incomensurável amor filial. Chegou mesmo “a oferecer-lhe um O Livro do Pantagruel para guiá-la nos momentos de escuridão culinária”, conta com um sorriso triste nos lábios. A sua mãe, no entanto, nunca abriu o livro e decidiu aventurar-se no novo e inexplorado mundo da culinária.
José seu marido, conta-nos como tentou evitar o sucedido “Eu vi logo que ia sair dali disparate. Quando a minha mulher põe uma ideia nova na cabeça o melhor a fazer é afastarmo-nos. Eu e a minha filha mais velha não arriscámos e comemos bifes grelhados com ovo a cavalo, mas a Joana não quis ouvir-nos…”
Mais para agradar a sua mãe do que por vontade de se submeter a tal provação Joana terá consentido no uso do seu paladar a fim de aferir a qualidade do prato. O testemunho de dor partilhado com o nosso repórter ilustram bem os momentos de terror passados por esta flha que reconhece agora a má opção de ter rejeitado o bife grelhado confeccionado pelo seu pai.
Horror, angústia e desepero foram as palavras escolhidas pela vítima para descrever a experiência: “O meu mundo, tal como o conhecia, desmoronou-se à minha volta no momento em que dei a primeira garfada. A minha mente foi invadida por imagens flash das minhas vivências passadas: recordei a minha infância, os meus pais a jogarem comigo ao peão e um dia de sol na praia.”
Com o olhar vago e os braços envolvendo fortemente o seu corpo Joana, leva-nos friamente a reviver os momentos abaladores de que foi vitíma: “A violência do primeiro contacto da pasta seca e farelenta com as papilas fungiformes despoletaram uma dor lacinante que percorreu cada centimetro do meu corpo. Senti o subtil sabor do bacalhau tentar vencer e impôr-se diante da quantidade desproporcional de batata – esmigalhada ao acaso e sem arte ”.
Desproporcional foi também o polvilhamento do pão ralado que dava ao prato um aspecto assustadoramente semelhante à cabeleira do Mick Jagger. Quase como se o cantor tivesse decidido cortar o cabelo e atirá-lo para dentro de um pirex. “Numa tentativa de esconder o que estava a sentir comecei a mastigar mais depressa para pôr termo ao meu sofrimento. Sei agora que só piorei as coisas...”. Segundo apurámos junto do Dr. Mimoso da Silva, abalizado nutricionista: “A mastigação rápida faz libertar todos os aromas e odores contidos nos alimentos exponenciando o seu sabor aos níveis máximos”.
Infelizmente a experiência não terminava ali e o preparado iniciou a sua descida em direcção ao estômago a um ritmo “morbidamente lento” para utilizar palavras de Joana. “Era como se os sucos gástricos do meu estômago estivessem conscientes do marasmo gastronómico que acabara de se instalar no meu estômago e se tivessem recusado a actuar, assim como uma greve gástrica….”
Felizmente a história de Joana tem um final feliz. Ao fim de seis longas horas de digestão de apenas 4 gr de bolo alimentar Joana conseguiu vencer a estupro alimentício de que foi alvo e o seu estado clínico é, agora, estável.
Até ao fecho da edição pudémos confirmar junto de amigos próximos da familia que o alimento se encontra agora perto do recto onde será finalmente expelido do corpo. A relação entre Joana e sua mãe também foi reatada, não sem a promessa por parte desta última de não mais entrar ou aproximar-se de uma cozinha enquanto a sua condição de culinariamente toldada permanecer.
sábado, julho 09, 2011
Assunto a explorar
Nunca o próprio ser conseguirá passar a
Fronteira entre as coisas como elas são e como nós as sentimos.
Fronteira entre as coisas como elas são e como nós as sentimos.
terça-feira, junho 28, 2011
mini-conto
Aos 2 anos já se entretinha com as próprias mãos, enrolava sorrisos entre os dedos deitada no berço. Aos 3 começou a brincar com o mundo das cores da alegria, em joguinhos e plataformas de marca que os tios lhe ofereciam. Aos 5 construia casas de expectativas, aos 6 vestia as suas bonecas de tristezas ou felicidades, conforme o dia. Aos 7 resolvia puzzles de nostalgias, aos 8 lia livros de saudades, aos 9 ensinava às outras crianças como se brincar aos orgulhos e humilhações. Foi crescendo, mas nunca deixou de brincar com os sentimentos.
sexta-feira, junho 24, 2011
Dona Bia
Dona Bia vivia atarefada entre duas histórias paralelas. De um amor para o outro, correrias escondidas e memórias secretas. Um malabarismo constante, acompanhado de arritmias pontuais, um ou outro susto elegante, formas aprendidas para disfarçar mais.
Dona Bia dividia-se para multiplicar os beijinhos, Dona Bia entretia-se a somar carinhos.
Sabia Dona Bia, que não podia durar eternamente, mas acreditava piamente que o fim seria sempre adiável.
Mas não sabia Dona Bia que a solidão que sentia se agravava a diário. Impedida da sua verdade desabafar, dia-a-dia mais se enterrava num fosso emaranhado de cruzamentos abafados.
Não sei eu quando será que Dona Bia se vai aperceber que este é um caminho seguro para a sua solidão lhe continuar a doer.
Dona Bia dividia-se para multiplicar os beijinhos, Dona Bia entretia-se a somar carinhos.
Sabia Dona Bia, que não podia durar eternamente, mas acreditava piamente que o fim seria sempre adiável.
Mas não sabia Dona Bia que a solidão que sentia se agravava a diário. Impedida da sua verdade desabafar, dia-a-dia mais se enterrava num fosso emaranhado de cruzamentos abafados.
Não sei eu quando será que Dona Bia se vai aperceber que este é um caminho seguro para a sua solidão lhe continuar a doer.
sexta-feira, junho 17, 2011
...
Dias entalados fora das geografias, à procura de um tempo para respirar fundo, à procura do espaço de um abraço. Horas de gritos contidos, de gestos parados antes de tentarem acontecer, sem saber como desatar a garganta, sem saber calar as lágrimas. Podia ser qualquer outra coisa, e distraia-se um bocadinho de roda das possibilidades em volta. Sem na verdade querer agarrar nenhuma, logo à noite para adormecer, em vez de contar ovelhas, contarei possibilidades. E sorria, porque os sorrisos tristes valem tanto quanto os outros, adivinhando uma lua cheia a espreguiçar-se num horizonte em alguma parte do mundo. Naquela parte do mundo segredada entre lençóis.
segunda-feira, junho 06, 2011
Fábulas urbanas improváveis
Hoje nasceu-me uma flor no braço.
Não sei de que semente, não sei que tipo de flor irá tornar-se.
Não me causou muito espanto, ao vê-la percebi que tem vindo a ser ajardinada há já algum tempo, eu é que não me apercebi.
O botão é quadrado e as pétalas que lhe apareceram são pequenas e triangulares. Ainda sem cor definida. Creio que irão ficar maiores.
As raízes são fortes, mas não estão à vista.
As pessoas olharam-me com estranheza. Não estão habituadas a que nasçam flores nos braços das outras pessoas. Eu já sabia que as pessoas podiam ser terra, não tinha antevisto a possibilidade de serem férteis para flores. Nem que eu pudesse ser terra.
Amanhã rego-a, para que fique viçosa. Se me nasceu uma flor no braço, por algum motivo será. Talvez me avise que o Outono possa chegar antes de tempo e fique Inverno no Verão, ou talvez faça do meu braço uma Primavera cheia de borboletas.
Temo no entanto a possibilidade que ganhe espinhos. Suspeito que me rasgariam a pele o que poderia ser incómodo, se me doesse. Se não doer, quem sabe, será só mais uma forma para que nasçam outras flores no mesmo corpo.
Se eu própria vier a ganhar raízes, espero não perder a mobilidade. Mas sempre gostei de sentir o vento nos ramos e nas pétalas... ai, nos braços e cabelo.
sexta-feira, junho 03, 2011
"NightLands"
"Às 5h30 da manhã o céu começa a desbotar. A parte debaixo do céu escorre de preto para azul, são espessas as linhas que mergulham do lado de lá do horizonte, mas a tua respiração mantém-se igual.
Ás 6h10 da manhã, o azul enche-se de vento, torna-se quase transparente e tu dás meia volta sobre ti e largas um suspiro profundo. Todo o ar que existe no quarto dentro de ti, todo o ar que existe no mundo a sair de ti.
A esta hora desconfio que o céu vai escorrer até deixar de existir, que o branco-vazio vai encher o que descansa assente em cima do horizonte, que o único espaço seguro é este sítio inexistente onde estás enquanto dormes.
Ás 7h00 da manhã já é mesmo dia e tu não sabes. Eu sei que é dia, mas não sei exactamente de onde é que ele apareceu. Mesmo tendo visto a transformação da luz pelo espaço da persiana que ontem não fechaste. Sei outras coisas, sei que mudaste o tom da respiração mesmo agora, que é menos profunda, que tem menos pausas. Suponho que o teu sono esteja a perder peso e tento quase não me mexer e quase não respirar, para não correr o risco de te acordar. Corro outros riscos, mas que não me dão tantas insónias.
É antes das 8h00 que os teus olhos abrem mas o teu corpo ainda é a minha terra. E vai ser durante mais um bocado, antes de se encher da consciência de ti e dos afazeres que te esperam, do lado de lá da janela que nos olha."
in NightLands, by Hipnos.
Ás 6h10 da manhã, o azul enche-se de vento, torna-se quase transparente e tu dás meia volta sobre ti e largas um suspiro profundo. Todo o ar que existe no quarto dentro de ti, todo o ar que existe no mundo a sair de ti.
A esta hora desconfio que o céu vai escorrer até deixar de existir, que o branco-vazio vai encher o que descansa assente em cima do horizonte, que o único espaço seguro é este sítio inexistente onde estás enquanto dormes.
Ás 7h00 da manhã já é mesmo dia e tu não sabes. Eu sei que é dia, mas não sei exactamente de onde é que ele apareceu. Mesmo tendo visto a transformação da luz pelo espaço da persiana que ontem não fechaste. Sei outras coisas, sei que mudaste o tom da respiração mesmo agora, que é menos profunda, que tem menos pausas. Suponho que o teu sono esteja a perder peso e tento quase não me mexer e quase não respirar, para não correr o risco de te acordar. Corro outros riscos, mas que não me dão tantas insónias.
É antes das 8h00 que os teus olhos abrem mas o teu corpo ainda é a minha terra. E vai ser durante mais um bocado, antes de se encher da consciência de ti e dos afazeres que te esperam, do lado de lá da janela que nos olha."
in NightLands, by Hipnos.
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