No concelho de Almodovar há uma ribeira chamada de Ódelouca, vestígio de tempos antigos em que se conta que uma mulher descalça habitava estas margens, navegava nestas curtas águas, em busca da ´Verdade Última".
Os locais reconheciam-na ao longe, trajando cores claras por entre as marcas da terra e da água, conversando com os peixes, as aves, os lobos, as árvores. Frequentemente gritava contra as pessoas que a observavam, um chorrilho de palavrões imperceptível, inventava insultos como uma raposa dá saltos em fuga: Rápida e ágil, punho erguido e cauda espetada. Poder-lhe-ia ser diagnosticada uma qualquer esquizofrenia marada ou ter pela frente uma carreira brilhante em consultoria, mas os tempos eram diferentes e as gentes só lhe tinham medo.
Ora acontece que estávamos em 1189 e D. Sancho I enviou uma frota de Cruzados para conquistar Silves. O plano era fácil, subir o rio Arade, cercar a cidade e conquista-la aos mouros. Pilhar comidas e bebidas, riquezas e tristezas e depois, logo depois, seguir o caminho para a Terra Santa. Afinal de contas, foram estes raciocínios e necessidades que deram origem às estações de serviço para abastecer o carro e comer qualquer coisinha.
Ora acontece que os ditos cruzados cruzaram por terras erradas e acabaram a subir uma ribeira pouco navegável. "Eu bem te disse que era para a esquerda, cala-te tu nunca queres pedir direcções, mas via-se logo que era para a esquerda, desculpa lá mas a estrela polar não avisou"... e entre discussões para aqui e culpas para ali, vê-se chegar na margem uma senhora de ar calmo, vestes claras e cabelo ao vento. Prontamente os cruzados viram salvação, "oh minha senhora, o caminho para Silves? É por aqui?" e a senhora da ribeira olhando de ar esgazeado os mal cheirosos barbudos que ousam entrar-lhe no reino líquido logo grita uma série de impropérios tão comprida e feroz que os soldados logo se denortearam. Não contente com isso, arreia saias para cima (até ao joelho) e faz-se à água, diz-lhe que o que lhes falta é um processo para sairem dali, que falhar em planeamento é planear falhar, que deviam ter feito follow-ups mais apertados, que nem chegaram a atingir a milestone para o arranque do projecto e que as calças que usam são feias e nada modernas.
Os soldados atazanados com uma mulher que lhes ousa falar assim, logo arregaçaram mangas para se porem ao trabalho, "agora faz isto, agora faz aquilo, agora o outro" e toda a noite de trabalhos sob a direcção da louca levou à criação da bandeira triangular que tão importante foi para a navegação ao contrário do vento, durante os restantes descobrimentos uns anos mais tarde.
Mas o legado da louca visionária foi maior, basta uma visita ao supermercado para ver os homens obedientes aos designios das mulheres, agora mete isto, agora vai buscar aquilo. Também pela louca os homens do mundo nunca mais pediram indicações para os caminhos, repetindo entre dentes que todos os caminhos vão dar a Silves se não parares para perguntar.
No final Silves foi conquistada, os descobrimentos foram feitos mas o mundo jamais seria o que é hoje se não fosse a louca da ribeira de Odelouca.
Já fomos, já deixamos de ser, talvez estejamos de volta. Poderá ser o regresso do mito. O mito que nunca o foi.
quarta-feira, agosto 28, 2013
quarta-feira, agosto 21, 2013
Dona Maria Fernanda
O sol espreguiça-se e cheira a manhã do lado de dentro da cama. Dona Maria Fernanda levanta-se devagar, parece que lhe custaram 54 anos a acordar e olha em seu redor com estranheza. Pensa que ali está ele, mais um dia em branco para preencher como quiser, entenda-se, como tem que ser mas dentro do como tem que ser, será como quiser. Era essa a promessa não era? Um dia em branco para começar a dar o melhor de si - era isso o que tinha que querer não era? Dona Maria Fernanda sentada na cama com 54 anos de sono e pensar que mau dia para acordar de vez. A sentir-lhe a frustação entranhada na barriga, a pensar-se grávida de revolta de uma vida que não escolheu e que não quis, das promessas feitas que nunca foram quebradas - estão apenas por cumprir. Há quase 54 anos também.
Dona Maria Fernanda levanta-se de vez, percorre o caminho até à casa de banho e faz xixi da maneira que quer que é também a melhor maneira que sabe. Dar o melhor de si mesma a fazer o xixi matinal. Dar o melhor de si mesma a esfregar-se no banho. Escolhe a roupa, penteia o cabelo, bebe leite com café, esfrega a maquilhagem do mesmo tom que a camisa que tem o tom dos sapatos. Um brinco e outro, o carro para o trabalho, Dona Maria Fernanda dá o melhor que sabe nas filas, nos semáforos, nas curvas. No estacionamento, ao dizer bom dia, Dona Maria Fernanda agenda reuniões, preenche impressos, procura informação e nem um cabelo lhe sai do sítio, nunca um esmorecimento de sorriso, Dona Maria Fernanda agarrou o dia para fazer o que quer - que tem que ser "ser o melhor possível", "ser simpática e agradável", "ouvir as outras pessoas", "pedir opinião e envolver os colegas", "não procrastinar", "combater a preguiça concentrado-se nos objectivos", "fazer mais e melhor", "planear e informar para não falhar", "agarrar as oportunidades que lhe aparecem com entusiasmo", "fazer network através de construir relações verdadeiras que se baseiam em fazer perguntas e mostrar interesse", que dia cheio tem Dona Maria Fernanda a fazer aquilo que quer que é o melhor que pode. Sem se comparar com os outros, sem criticar os outros, sempre procurando soluções e nunca responsabilidades.
Amanhã Dona Maria Fernanda tem nova oportunidade de fazer o melhor que pode com o dia que tem. Hoje escorregou num mal entendido, deu dois gritos a um colega, ignorou uma dead line para sair mais cedo. E sabe que acima de tudo Dona Maria Fernanda só se prejudica a si mesma porque assim pode nunca lhe aparecer a oportunidade que lhe poderia aparecer se Dona Maria Fernanda fosse o seu melhor em todas as situações, como quer em cada novo dia em que o sol se espreguiça lá fora.
Dona Maria Fernanda levanta-se de vez, percorre o caminho até à casa de banho e faz xixi da maneira que quer que é também a melhor maneira que sabe. Dar o melhor de si mesma a fazer o xixi matinal. Dar o melhor de si mesma a esfregar-se no banho. Escolhe a roupa, penteia o cabelo, bebe leite com café, esfrega a maquilhagem do mesmo tom que a camisa que tem o tom dos sapatos. Um brinco e outro, o carro para o trabalho, Dona Maria Fernanda dá o melhor que sabe nas filas, nos semáforos, nas curvas. No estacionamento, ao dizer bom dia, Dona Maria Fernanda agenda reuniões, preenche impressos, procura informação e nem um cabelo lhe sai do sítio, nunca um esmorecimento de sorriso, Dona Maria Fernanda agarrou o dia para fazer o que quer - que tem que ser "ser o melhor possível", "ser simpática e agradável", "ouvir as outras pessoas", "pedir opinião e envolver os colegas", "não procrastinar", "combater a preguiça concentrado-se nos objectivos", "fazer mais e melhor", "planear e informar para não falhar", "agarrar as oportunidades que lhe aparecem com entusiasmo", "fazer network através de construir relações verdadeiras que se baseiam em fazer perguntas e mostrar interesse", que dia cheio tem Dona Maria Fernanda a fazer aquilo que quer que é o melhor que pode. Sem se comparar com os outros, sem criticar os outros, sempre procurando soluções e nunca responsabilidades.
Amanhã Dona Maria Fernanda tem nova oportunidade de fazer o melhor que pode com o dia que tem. Hoje escorregou num mal entendido, deu dois gritos a um colega, ignorou uma dead line para sair mais cedo. E sabe que acima de tudo Dona Maria Fernanda só se prejudica a si mesma porque assim pode nunca lhe aparecer a oportunidade que lhe poderia aparecer se Dona Maria Fernanda fosse o seu melhor em todas as situações, como quer em cada novo dia em que o sol se espreguiça lá fora.
sexta-feira, junho 14, 2013
É agosto e a terra está seca, gretada. O chão feito pó, o pó feito mundo, cheiro de alcatrão e deserto, pessoas refugiadas em paredes e casas e ares acondicionados a zumbirem baixinho, um sem número de ares acondicionados a fazerem zzzzzzzzzzzzzz e os cortinados meu amor, os cortinados desta vez abanam por de dentro das casas. As casas a fingir que respiram, as pessoas a fingirem que são livres nas prisões escolhidas, o mundo civilizado a esconder-se da natureza intrépida que reclama de garganta arranhada e seca que afinal quem ainda manda é ela e a gente a enganar-se meu amor, a gente a enganar-se entre paredes e aquários de vidro a dizer que sim, que somos tudo e fazemos tudo sem coragem para por o pé la fora. E nesta secura cai uma lágrima tua bebida pelo mundo que é pó de chão e terra gretada, gota sagrada que alivia e cura e faz renascer a vida debaixo do mesmo sol escaldante que a matou.
segunda-feira, abril 29, 2013
dos 10 aos 30
- aos 10 tens todos os amigos do mundo quando queres
- aos 20 tens os amigos que queres e é para sempre
- aos 30 tens os amigos.
- aos 10 o melhor do fim-de-semana é ir brincar na rua
- aos 20 o melhor do fim-de-semana é sair à noite
- aos 30 o melhor do fim-de-semana é dormir.
- aos 10 achas que vais encontrar o principe encantado, casar e ser feliz para sempre
- aos 20 achas que todos podem ser o principe encantado
- aos 30 achas que realmente os principes devem ser todos sapos.
- aos 10 anos imaginas-te aos 30 casada, feliz e com 3 filhos
- aos 20 anos imaginas-te aos 30 casada, feliz, com 1 filho e montes de sucesso profissional
- aos 30 anos duvidas do casamento, dos filhos e do sucesso profissional mas estás feliz e não querias necessariamente que fosse de outra maneira.
- aos 10 anos sais com pessoas de 20 e é uma seca.
- aos 20 anos sais com pessoas de 20 e achas que conseguem conquistar o mundo numa noite
- aos 30 anos sais com pessoas de 20 e percebes que já não tens 20.
- aos 10 achas que os de 30 são adultos responsáveis, maturos e que sabem tudo
- aos 20 achas que os de 30 são completamente livres, independentes e tomam todas as decisões da sua vida com responsabilidade
- aos 30 achas que é quase indiferente ter 30, 20 ou 10, em matéria de responsabilidade, maturidade e conhecimento
- aos 10 anos, o mundo inteiro é a tua rua
- aos 20 anos o mundo é um lugar enorme que é impossivel conhecer
- aos 30 anos o mundo é estranhamente pequeno mas interessante.
- aos 10 queres ser tudo: veterinária, advogada, escritora, bióloga, fotografa do national geographic
- aos 20 queres ser a melhor profissional da carreira que te calhou
- aos 30 queres largar tudo, não ser nada e ir ver o mundo
- aos 10 achas que o que não nos mata torna-nos mais fortes
- aos 20 achas que elas não matam mas móem
- aos 30 achas que as todas as coisas são válidas, mesmo quando são contrárias.
- aos 10, as pessoas fixes são as que sabem jogar à bola
- aos 20, todas as pessoas tem alguma coisa de interesse para descobrir
- aos 30, todas as pessoas tem um desequilibrio qualquer e tu só estás para lidar com 10% dessas pessoas (que são as que tem um desequilibrio compativel com o teu)
segunda-feira, abril 15, 2013
os mares das gentes
Os mares, os oceanos que se tocam e trocam, em divisões planeadas e escritas à mão, em contratos que contém sal proveniente de diferentes desejos e vontades. As pessoas trazem mundos e mares dentro de si, a colapsarem e a colidirem como ondas em rochas, a rebentarem fora de tempo, a gritar o agora contra o eterno. A gritarem o que sabem contra o que querem, a gritarem não os limites que encerram mas os limites que transbordam. A quererem transbordar-se de si em voz, em palavras, em toques. Ansiando quem as transborde, acossando-as com tempestades e ondas mais altas que prédios, as construções humanas, as convenções a fecharem passagens, a calarem segredos.
conheço um pedinte que tem um segredo que dói. O que ele precisa dói-lhe tanto que não pede, grita e ofende quem passa - o desespero enraivecido, não porque lhe seja devido mas porque nasceu da necessidade mais visceral que o acossou. "Pobre diabo" penso quando o vejo, cheia dos direitos e legitimidades que ele (não) tem das exigencias que o atormentam. Pede o errado, pede moedas em vez de sorrisos, pede dinheiro em vez de atenção e sabe de antemão que nunca jamais alguém valorizá alguma coisa dele, pobre diabo abandonado a uma sorte contra a qual não foi capaz de lutar. o mar dele a rebentar-se em quem passa. E não consegue expressar-se melhor, porque não pode, todas as vezes que se afundou, todos os caminhos que não fez, todas as paisagens que não visitou e as pessoas que o olham a cobrar-lhe isso, devias ser mais assim porque devias saber melhor. Um dia destes aparece morto. afogado numa esquina entre ruas, sem ninguém perceber como foi possivel.
segunda-feira, dezembro 17, 2012
Miss Patsy
Miss Patsy was a sweet lady in her sixties, big brown eyes
and lazy smile, soft gestures and gentle posture every time she wanted her wishes
to be satisfied. Miss Patsy didn’t like to talk loud, “it’s not appropriate for
a real lady” she used to say, but often forgot it when in some shop or
restaurant the waitress did something wrong. “I asked for a fresh orange juice
you incompetent!” she would not be afraid to scream.
A spoiled child by her parents, Miss Patsy did never totally
grow up. An immature and childish sense of unfairness would make her cry over
the injustice she was a victim. “Because people are never nice to me, because
red lights are always against me, because nobody understands how important it is
for me to have a brand new car today!”
She was never very happy, Miss Patsy, and she never married.
She had a bunch of boyfriends, enchanted by her eyes, scared away by her mood
swings and demands.
Poor Miss Patsy died when she wanted only to be independent
– she was getting out the subway when someone whispered to her “please mind the
gap”. But she knew no one in earth could tell her what to do and so she didn’t
listen.
Other passengers had to wait for 5 hours while the fireman
managed to take out the stubborn body.
terça-feira, dezembro 04, 2012
Subia a rua como todos os dias, mala ao ombro e saco na mão. Hoje trazia casaco que o Inverno fazia-se sentir e trazia histórias e memórias nascidas dos anos que passavam que criam estas lembranças e esperanças que nem sempre se traduzem em respostas. Acabam com as perguntas, contudo, pensava enquanto tricotava pensamentos com muito maior ligeireza do que costumava tricotar cachecóis.
Tinha visto estas árvores crescerem, tinha visto duas delas serem arrancadas às raízes em dois Invernos mais penosos do que o deste ano, tinha assistido a mais de 50 decorações de natal diferentes, parecidas, quase iguais, todas com luzes fundidas.
Conhecia as pedras das calçadas de uns anos para os outros, as pedras que faltavam e as outras que rebentavam, as que foram substituídas as que lá estavam desde os primórdios das vidas que moravam naquela rua.
Fora naquele canto que tinha dado o primeiro beijo apaixonado ao que viria a ser marido, já não se lembrava disso quando ali passava, ocupada a decidir o que seria o jantar, e que bom que era fazer uns bifinhos mas era fim do mês, talvez arroz com feijão à falta de lombo arranjadinho, estava bem arranjada era com o que tinha que carregar no próprio lombo, que os sacos começam a pesar mais, não é o peso dos sacos, as pernas é que já não respondem como antes, lembras-te antes que aguentavas uma tarde inteira a dançar nos domingos de verão no largo da igreja? Ah, e eles faziam fila para dançar comigo, e diziam-me sussurros aos ouvidos e de todos escolhi o melhor, o mais dançarino e divertido, uma mão atrevida a querer baixar mais do que a conta e as palavras doces que me murmurava sem mais ninguém saber. Agora os tempos são outros, não dançamos mais que as pernas não deixam, não me diz palavras doces mas gosta de mim à maneira dele, quando reclama com o jantar ou quando quer sossego para ver a bola, quando chega a casa cansado e me pede cervejas, quando estou a cozinhar e ele finge que nem me vê mas eu sei que quando estou de costas ele olha para mim. Nunca o apanhei, acho que é vergonha, mas eu sei que ele olha para mim quando não o estou a ver.
Tinha visto estas árvores crescerem, tinha visto duas delas serem arrancadas às raízes em dois Invernos mais penosos do que o deste ano, tinha assistido a mais de 50 decorações de natal diferentes, parecidas, quase iguais, todas com luzes fundidas.
Conhecia as pedras das calçadas de uns anos para os outros, as pedras que faltavam e as outras que rebentavam, as que foram substituídas as que lá estavam desde os primórdios das vidas que moravam naquela rua.
Fora naquele canto que tinha dado o primeiro beijo apaixonado ao que viria a ser marido, já não se lembrava disso quando ali passava, ocupada a decidir o que seria o jantar, e que bom que era fazer uns bifinhos mas era fim do mês, talvez arroz com feijão à falta de lombo arranjadinho, estava bem arranjada era com o que tinha que carregar no próprio lombo, que os sacos começam a pesar mais, não é o peso dos sacos, as pernas é que já não respondem como antes, lembras-te antes que aguentavas uma tarde inteira a dançar nos domingos de verão no largo da igreja? Ah, e eles faziam fila para dançar comigo, e diziam-me sussurros aos ouvidos e de todos escolhi o melhor, o mais dançarino e divertido, uma mão atrevida a querer baixar mais do que a conta e as palavras doces que me murmurava sem mais ninguém saber. Agora os tempos são outros, não dançamos mais que as pernas não deixam, não me diz palavras doces mas gosta de mim à maneira dele, quando reclama com o jantar ou quando quer sossego para ver a bola, quando chega a casa cansado e me pede cervejas, quando estou a cozinhar e ele finge que nem me vê mas eu sei que quando estou de costas ele olha para mim. Nunca o apanhei, acho que é vergonha, mas eu sei que ele olha para mim quando não o estou a ver.
quarta-feira, novembro 28, 2012
Dona Céu - external and anonymous collaboration
Dona Céu is 53 years old. She’s divorced and has 2 kids that
she sees often enough. She lives with a friend in the south of Spain in a small
house with a blue door. She picked the house because of the blue door. Somehow
it made sense to live in a house with a blue door when your name means sky.
She loves to cook and to gather friends and family around
the dinner table chatting and eating her marvelous cooking. She’s particularly
good with the oven. Everything she bakes comes out tasting delicious. Her
friends often joke she could bake a rock and it would come out tasting
delicious.
Dona Ceu works with old people. She feels it’s her way to
give back to society. Most people would prefer to work with children but it her
case she feels old people need her more and she feels it’s rewarding to be
where you’re needed.
She has very few worldly possessions except for her book
collection and an old porche. These seem to be her only 2 hobbies in life.
She used to travel a lot around the world and sometimes in the
very few occasions when she has a lot of scotch you can still listen to her
stories about distant places and different lives.
When asked why she doesn’t travel anymore she usually
answers she’s happy where she is.
(Dona Céu has been created/found by a friend)
segunda-feira, novembro 26, 2012
V.
Há uma cidade onde as estradas são líquidas e as teimosias imunes à vontade de prender os pés no chão. Há uma cidade onde as ruas são feitas de marés e os homens não decidem os caminhos que percorrem, docilmente entregues a correntes e ventos, aprenderam à muito que os lemes são ilusões de controlo e que é na aceitação da descoberta imprevisível que se dobram esquinas de algas e lodo para se chegar a algum lado diferente, outro qualquer.
Há uma cidade construída por pontes a segurarem as margens dos caminhos, a servirem de aproximações ao que não nasceu junto, a quererem ligações ao que nunca foi uno. Dizem em outras cidades que não separe o homem aquilo que Deus juntou, mas nesta terra-água cabe ao homem juntar o que Deus separou.
Poderiam os homens deste estranho sítio serem homens-peixe, escorregadios e adaptados ao ambiente, mas a sua missão é maior do que a lei de darwin. trazem nos genes as improbabilidades acontecidas, trazem na pele as âncoras que os prendem ao não determinismo próprio.
segunda-feira, novembro 19, 2012
Dona Selena
"Se pudesse ia,
se soubesse cantava,
se houvesse ficava,
se quisessem dançava,
se sonhasse saltava,
se mais houvesse menos lá chegava..."
Assim pensava Dona Selena, entre ruas cruzadas e atalhos paralelos, entre possibilidades remotas e condicionantes internas, entre ilusões e obrigações.
Na cidade conheciam-na bem, especialmente os lojistas, "Bom dia Dona Selena, que procura hoje?", ah, procuraria um vestido se houvesse aí uma festa aonde ir, mas um vestido amarelo se vocês tivessem, mas se este fosse mais curto era perfeito para um casamento ou baptizado!.. Mas não há, diga-me lá, quero uma camisola, se tiverem do meu tamanho, se houver com flores verdes, se amanhã estiver sol quero ir de verde, se for mesmo fazer greve porque como as coisas estão, ah, se eu tivesse partido quando era nova, agora é que era, quando era nova, se tivesse ido não tinha esta vida...
E não teria esta vida, se tivesse partido quando o namorado lhe propôs, se tivesse agarrado nas malas com as duas mãos em vez de ter ficado de mãos atadas a pensar e se não arranjo trabalho, e se deixas de gostar de mim, e se tenho saudades, e se me acontece algo e tenho que ir ao hospital, e se de repente sou feliz e não sei...?
Não lhe serviram de nada as hesitações quando nas noites mais frias Dona Selena começava as suas divagações, desliando e enliando compridos fios de possibilidades sobre se era para ser, como teria corrido, se tivesse ido, onde estaria, como seria. Não sabe Dona Selena que numa vida paralela existe outra ela, deitada noutra cama e com outra vida que nas noites mais frias pondera como seria se tivesse ficado, se tivesse lutado, se se tivesse agarrado ao que conhecia.
segunda-feira, outubro 22, 2012
Nem sempre as coisas que se nos escapam entre os dedos caem no chão. Larguei pássaros suficientes para o saber. De todos, lembro-me de uma andorinha, adolescente feita, de asas sem mágoas mas assustada demais para se fazer a uma vida entre nuvens e migrações. Lembro-me de um tio de bigode a dizer que tinha que a atirar, lembro-me de mim a dizer que não, lembro-me dele ma tirar em homem decidido, apanhar balanço com a mão e atira-la por cima do telhado da casa do avô, lembro-me de ter antecipado a queda em elipse que o corpo mais pesado que a gravidade ia fazer e da surpresa no estômago quando a previsão se mostrou errada e o trajecto foi seguro e decidido. Por cima do telhado, para os lados do horizonte.
Não bastou abrir as mãos, ali, que isso já eu tinha tentado sem resultado. Foi violento e cheio de força, o atirar do bicho, o aventar do bicho, por cima de um telhado de uma casa. Gente que sabe, acho eu, se não, correu bem. Não me lembro qual tio era, duvido que se lembre da história também. Gostava de saber, se sabia mesmo ou se acreditou com palpite.
Nem sempre as trajectórias adivinhadas são as que se cumprem. Nem sempre há coragem para libertar algo. Como se o prender fosse mais do que uma ilusão, ou como se manter limitado fosse certo de que há a vontade de ficar.
Nem sempre as coisas que se nos escapam entre os dedos caem no chão. Larguei pássaros suficientes para o saber.
Não bastou abrir as mãos, ali, que isso já eu tinha tentado sem resultado. Foi violento e cheio de força, o atirar do bicho, o aventar do bicho, por cima de um telhado de uma casa. Gente que sabe, acho eu, se não, correu bem. Não me lembro qual tio era, duvido que se lembre da história também. Gostava de saber, se sabia mesmo ou se acreditou com palpite.
Nem sempre as trajectórias adivinhadas são as que se cumprem. Nem sempre há coragem para libertar algo. Como se o prender fosse mais do que uma ilusão, ou como se manter limitado fosse certo de que há a vontade de ficar.
Nem sempre as coisas que se nos escapam entre os dedos caem no chão. Larguei pássaros suficientes para o saber.
terça-feira, outubro 16, 2012
Dona Opala
Dona Opala trazia nos braços a calma dos lagos azuis profundos. Tinha um céu brilhante nos olhos e os sonhos carregados de safiras. Não havia nuvens nas deambulações de Dona Opala, calmamente sentada no cadeirão da sala, Dona Opala fantasiava com um mundo brilhante e sorridente.
Assim vivia Dona Opala, de respostas serenas e sorriso sossegado, gestos tranquilos e muitas horas de sono. Dormitava e acordava, adormecia e ressonava, levantava-se do sofá e ia para a cama.
Senhora de uma existência sem percalços Dona Opala navegava no mar da tranquilidade. Deixou saudade Dona Opala, quando numa noite sem tempestade se afogou na realidade, ao ouvir o primeiro ministro a falar dos novos cortes orçamentais.
Assim vivia Dona Opala, de respostas serenas e sorriso sossegado, gestos tranquilos e muitas horas de sono. Dormitava e acordava, adormecia e ressonava, levantava-se do sofá e ia para a cama.
Senhora de uma existência sem percalços Dona Opala navegava no mar da tranquilidade. Deixou saudade Dona Opala, quando numa noite sem tempestade se afogou na realidade, ao ouvir o primeiro ministro a falar dos novos cortes orçamentais.
terça-feira, outubro 09, 2012
Nem aos blogs confesso
Sabes que sonho.
Que ás vezes me perco nas entradas e estradas dos meus próprios sonhos, nas ilusões que idealizei. Que me esqueço da realidade para esquecer a saudade, que me agarro a fantasias para fazer durar os dias.
Sabes que me perco.
Em emaranhados de suposições, em "ses" infinitos, em completas divagações, para não ter que sentir as âncoras das existências. Como se pudessemos criar um navio, como se houvesse outro mundo do lado de lá do horizonte, como se não estivessemos sempre, em todos os momentos, do lado de cá do horizonte. Sempre. Do lado de cá. Não há outra forma de existência sem ser esta, do lado de cá do horizonte.
Sabes das deambulações.
Entre códigos, signos e objectividades, entre formas, conceitos e supostas verdades, entre ignorâncias mal tapadas com pedacinhos sonantes, chavões, palavrões, meta-questões, com a desculpa de procurar qualquer coisa mais profunda, mais densa, qualquer coisa que não existe mas persiste na vontade irrealizável.
São desculpas. São fugas. Esconderijos provisórios de baixa qualidade.
A vontade de ser pássaro sem ter asas.
O nunca deixar de sentir o vento na cara.
O não deslargar nunca daquilo que jamais pode ser.
Para fingir que não se tem o que se tem.
Que ás vezes me perco nas entradas e estradas dos meus próprios sonhos, nas ilusões que idealizei. Que me esqueço da realidade para esquecer a saudade, que me agarro a fantasias para fazer durar os dias.
Sabes que me perco.
Em emaranhados de suposições, em "ses" infinitos, em completas divagações, para não ter que sentir as âncoras das existências. Como se pudessemos criar um navio, como se houvesse outro mundo do lado de lá do horizonte, como se não estivessemos sempre, em todos os momentos, do lado de cá do horizonte. Sempre. Do lado de cá. Não há outra forma de existência sem ser esta, do lado de cá do horizonte.
Sabes das deambulações.
Entre códigos, signos e objectividades, entre formas, conceitos e supostas verdades, entre ignorâncias mal tapadas com pedacinhos sonantes, chavões, palavrões, meta-questões, com a desculpa de procurar qualquer coisa mais profunda, mais densa, qualquer coisa que não existe mas persiste na vontade irrealizável.
São desculpas. São fugas. Esconderijos provisórios de baixa qualidade.
A vontade de ser pássaro sem ter asas.
O nunca deixar de sentir o vento na cara.
O não deslargar nunca daquilo que jamais pode ser.
Para fingir que não se tem o que se tem.
terça-feira, setembro 04, 2012
D. Olimpia
Dona Olimpia corria corria corria para ver se da sua angústia fugia. Começou tarde nas correrias, tinha por volta dos 45 anos, mas defendia que partir tarde não impede que se chegue cedo, se se correr veloz pela vida.
Dona Olimpia corria veloz pela vida todos os dias das 17h30 às 19h30, duas horas de voo rasante por cima de ervas, calçadas, alcatrão, pedras, cócós de cão, stresses, ansiedades e outras agonias.
Quando lhe perguntavam os motivos, a resposta variava: "é para ser mais saudável", "é para não engordar mais", "é porque me ajuda a manter activa", "é porque me dá energia", "é porque me faz sentir melhor comigo própria", "é para ultrapassar os meus próprios limites", "é porque... é porque...".
Dona Olimpia correu muito e correu bem, em poucos anos perdeu a conta aos km que percorreu, estradas fora, bairros dentro. Um dia porém, Dona Olimpia cansou-se. Olhou à sua volta e percebeu que estava na Rússia, longe da sua família, amigos, conhecidos e vida. Ainda pensou em regressar a Portugal mas já que ali estava se calhar ainda tentava começar a fazer qualquer nova com a sua vida. E desde aí, Dona Olimpia nunca mais correu.
Dona Olimpia corria veloz pela vida todos os dias das 17h30 às 19h30, duas horas de voo rasante por cima de ervas, calçadas, alcatrão, pedras, cócós de cão, stresses, ansiedades e outras agonias.
Quando lhe perguntavam os motivos, a resposta variava: "é para ser mais saudável", "é para não engordar mais", "é porque me ajuda a manter activa", "é porque me dá energia", "é porque me faz sentir melhor comigo própria", "é para ultrapassar os meus próprios limites", "é porque... é porque...".
Dona Olimpia correu muito e correu bem, em poucos anos perdeu a conta aos km que percorreu, estradas fora, bairros dentro. Um dia porém, Dona Olimpia cansou-se. Olhou à sua volta e percebeu que estava na Rússia, longe da sua família, amigos, conhecidos e vida. Ainda pensou em regressar a Portugal mas já que ali estava se calhar ainda tentava começar a fazer qualquer nova com a sua vida. E desde aí, Dona Olimpia nunca mais correu.
terça-feira, agosto 28, 2012
Um casal (a)típico
21:00. Sala da casa da Ana e do Jaime em Campo de Ourique. Ana tenta convencer Jaime a adoptar um gato...
- Está fora de questão Ana. Não quero gatos cá em casa!!! Fim de assunto.
- Mas Jaime, este gatinho perdeu a mãe e não tem ninguém.. Olha só para ele.. não achas amoroso? Que dizes a chamarmos-lhe Mitra?
- Mitra?!? A sério! Queres mesmo ter um gato chamado Mitra!?!.. e onde é que vais comprar a coleira dele? À Fubu?
- Oh, vá lá Jaime! Estou a falar a sério!
- Também eu! Não quero um gato cá em casa. São falsos, não têm utilidade conhecida, defecam dentro de caixas, atraem germes e doenças...
- Jaime, estás a sentir o mesmo que eu?
- Não, não, não, não, não, não! Sei bem o que estás a tentar fazer Ana. Não comeces!!!
- De que é que estás a falar? Estás a sentir este calor? A temperatura parece ter subido de repente.
- Não sinto nada... a temperatura parece-me estar exactamente na mesma!! Os mesmos 23 graus que faziam quando começámos esta conversa... Anaaaa, veste imediatamente essa camisola!!
- Referes-te a esta camisola? (Ana agita a camisola na ponta do dedo indicador atirando-a depois à cara de Jaime).
- Ana, sabes bem que isso é jogo sujo! Por favor vamos continuar a nossa conversa como dois adultos racionais. Estávamos a falar sobre os motivos porque não devemos adoptar um gato... a forma como largam pêlo... por favor volta a pôr esse soutien! Volta a pôr esse soutien Ana! Imploro-te!
- Oops... não adoras a nova gama de soutiens de abertura fácil da Women'sexiest? Parece que têm molas propulsoras...
- Sim, de facto, a equipa de research&development da women'sexiest é uma das mais criativas do mercado de lingerie. Há que reconhecer isso...
- Jaime recorda-me outra vez porque é que não podemos ter um gato cá em casa?
- Não foi bem isso que eu disse..
- Ah não?...
- Não. O que eu disse foi que estava, completamente, fora de questão termos um gato, cá em casa, que não se chamasse Mitra!
- Amo-te tanto!
Fim
- Está fora de questão Ana. Não quero gatos cá em casa!!! Fim de assunto.
- Mas Jaime, este gatinho perdeu a mãe e não tem ninguém.. Olha só para ele.. não achas amoroso? Que dizes a chamarmos-lhe Mitra?
- Mitra?!? A sério! Queres mesmo ter um gato chamado Mitra!?!.. e onde é que vais comprar a coleira dele? À Fubu?
- Oh, vá lá Jaime! Estou a falar a sério!
- Também eu! Não quero um gato cá em casa. São falsos, não têm utilidade conhecida, defecam dentro de caixas, atraem germes e doenças...
- Jaime, estás a sentir o mesmo que eu?
- Não, não, não, não, não, não! Sei bem o que estás a tentar fazer Ana. Não comeces!!!
- De que é que estás a falar? Estás a sentir este calor? A temperatura parece ter subido de repente.
- Não sinto nada... a temperatura parece-me estar exactamente na mesma!! Os mesmos 23 graus que faziam quando começámos esta conversa... Anaaaa, veste imediatamente essa camisola!!
- Referes-te a esta camisola? (Ana agita a camisola na ponta do dedo indicador atirando-a depois à cara de Jaime).
- Ana, sabes bem que isso é jogo sujo! Por favor vamos continuar a nossa conversa como dois adultos racionais. Estávamos a falar sobre os motivos porque não devemos adoptar um gato... a forma como largam pêlo... por favor volta a pôr esse soutien! Volta a pôr esse soutien Ana! Imploro-te!
- Oops... não adoras a nova gama de soutiens de abertura fácil da Women'sexiest? Parece que têm molas propulsoras...
- Sim, de facto, a equipa de research&development da women'sexiest é uma das mais criativas do mercado de lingerie. Há que reconhecer isso...
- Jaime recorda-me outra vez porque é que não podemos ter um gato cá em casa?
- Não foi bem isso que eu disse..
- Ah não?...
- Não. O que eu disse foi que estava, completamente, fora de questão termos um gato, cá em casa, que não se chamasse Mitra!
- Amo-te tanto!
Fim
segunda-feira, agosto 20, 2012
Fim de férias
Dizia "bom dia" e eram cordas de guitarra à volta de uma fogueira o que lhe ressoava na garganta.
Dizia "bom dia" e entrava num corredor cinzento mas era ainda o sol que lhe dourava a pele e a brisa que lhe arrepiava os pelos do braço.
Dizia "bom dia" com ladrilhos brancos debaixo dos pés, sentindo um "crrraaaac craaaac" da areia morna.
Quando chegou ao seu lugar e calou a voz, sentiu o sabor do sal na boca, mas não era um mar a existir, eram duas lágrimas feitas gaivotas a desenharem caminhos de sede.
Hoje havia o ontem, amanhã não existe por detrás de um horizonte que não se vê.
Nas mãos as aventuras de estradas corridas, nos olhos as paisagens vistas, cada pedaço de pele transpirando a alguma forma de liberdade diferente desta daqui. Regressos feitos de ilusões, cada retorno é feito por alguém diferente de quem partiu, mudanças subtis e imperceptíveis, sonhos ganhos e horizontes despertos, ali, além, acolá, longe daqui.
quarta-feira, agosto 01, 2012
Coisas soltas
Uma lareira acesa enquanto chove à séria lá fora.
O cheiro a terra molhada.
Um cão a dormir com a cabeça à distância do braço.
O sol a deitar-se no mar enquanto e gente entre conversas com sweat-shirt vestidas.
Músicas antigas cantadas em coro desafinado aos gritos, com gente que não nos conhece a olhar.
Correr na rua entre as pessoas para chegar primeiro a qualquer sítio.
Dançar na rua só porque a música que vem do rádio do carro é boa que chegue.
Conversar numa esplanada com os pés em cima da cadeira da frente sem ninguém me chatear. Ter uma mini fresquinha na mão e montes de assuntos na manga.
Conversas soltas que começam com "gosto dessas calças" e acabam na tentativa de descoberta de toda a metafísica da vida e da morte.
Tardes lentas e quentes a ver passar os pássaros no céu azul.
Noites decoradas com estrelas e pontuadas por conversas, risadas e silêncios.
Livros. Muitos livros, todos os livros, praticamente qualquer livro.
Uma fotografia bem tirada, na altura certa. Por mim.
O olhar e abraço da amiga de Cáceres quando nos voltamos a ver.
As gargalhadas imparáveis e incontroláveis que acabam em lágrimas e dores de barriga.
A estrada vazia à frente a passar pelo carro com boa música. Com pessoas, acordadas ou a dormir, ou sem mais ninguém.
O cheiro a terra molhada.
Um cão a dormir com a cabeça à distância do braço.
O sol a deitar-se no mar enquanto e gente entre conversas com sweat-shirt vestidas.
Músicas antigas cantadas em coro desafinado aos gritos, com gente que não nos conhece a olhar.
Correr na rua entre as pessoas para chegar primeiro a qualquer sítio.
Dançar na rua só porque a música que vem do rádio do carro é boa que chegue.
Conversar numa esplanada com os pés em cima da cadeira da frente sem ninguém me chatear. Ter uma mini fresquinha na mão e montes de assuntos na manga.
Conversas soltas que começam com "gosto dessas calças" e acabam na tentativa de descoberta de toda a metafísica da vida e da morte.
Tardes lentas e quentes a ver passar os pássaros no céu azul.
Noites decoradas com estrelas e pontuadas por conversas, risadas e silêncios.
Livros. Muitos livros, todos os livros, praticamente qualquer livro.
Uma fotografia bem tirada, na altura certa. Por mim.
O olhar e abraço da amiga de Cáceres quando nos voltamos a ver.
As gargalhadas imparáveis e incontroláveis que acabam em lágrimas e dores de barriga.
A estrada vazia à frente a passar pelo carro com boa música. Com pessoas, acordadas ou a dormir, ou sem mais ninguém.
quinta-feira, julho 05, 2012
Zé António das meias
Chamavam-lhe Zé António das Meias porque o rapaz se chamava de facto Zé António e tinha uma obsessão na vida: saber o que acontece às meias que desaparecem na máquina de lavar.
Fora gozado na escola pelos seus colegas mas o Zé António sabia de cor que a questão não é de pouca importância. Estimava um gasto anual de milhões de euros em meias perdidas por mês, algo que poderia muito bem ajudar o governo a sair da crise. Se ao menos as meias não desaparecessem, quem sabe o dinheiro poupado não poderia servir para enviar alimentos para os carenciados que coitados, andam por esse mundo de pés descalços. Sem meias.
O Zé António tinha investigado estranhas teorias sobre como a fricção rotativa do tambor das máquinas poderia ser causador da abertura de mini-buracos negros espaciais por onde passariam mas meias perdidas. No fundo seria um vortex semelhante ao existente nas malas de senhoras, só que exclusivo de meias. A teoria revelou-se errada quando o Zé fez mais experiências com pedaços de tecidos semelhantes a meias, mesmo tamanho, igual textura, em que apenas as meias continuavam sistemáticamente a desaparecer.
De resto, o investigador atento, percebe à partida que a resposta não poderia estar ai. Se esta teoria estivesse correcta, ambas as meias do mesmo par teriam a mesma adesão à energia de sucção causada pelo tambor da máquina.
Ao abandonar esta teoria, o Zé António não abandonou a sua obsessão. Algo tinha que passar com as meias, e vá de se sentar todos os dias à hora da lavagem da máquina. De lanterna em punho não perdia de vista o tambor rotativo - nem buraco negro nem outra explicação. A sua cabeça rodopiava com possibilidades, um gnomo da peúga talvez, à procura de sacos para carregar as suas moedas de ouro? A fada dos dentes, sem alternativa melhor para guardar tanto dente de leite? Um ladrão perneta e fuinha, que se afinal não precisava de pares de meias porque as haveria de comprar?
Cresceu com estas questões existenciais à roda e, verdade seja dita, não lhe encontrou solução. Encontrou sim oportunidade de negócio, o Zé António é hoje dono da bem sucedida cadeia de lojas "Meia desemparelhada" onde toda e qualquer pessoa pode encontrar meias de todos os tamanhos e feitios para complementar a meia solitária lá de casa.
Fora gozado na escola pelos seus colegas mas o Zé António sabia de cor que a questão não é de pouca importância. Estimava um gasto anual de milhões de euros em meias perdidas por mês, algo que poderia muito bem ajudar o governo a sair da crise. Se ao menos as meias não desaparecessem, quem sabe o dinheiro poupado não poderia servir para enviar alimentos para os carenciados que coitados, andam por esse mundo de pés descalços. Sem meias.
O Zé António tinha investigado estranhas teorias sobre como a fricção rotativa do tambor das máquinas poderia ser causador da abertura de mini-buracos negros espaciais por onde passariam mas meias perdidas. No fundo seria um vortex semelhante ao existente nas malas de senhoras, só que exclusivo de meias. A teoria revelou-se errada quando o Zé fez mais experiências com pedaços de tecidos semelhantes a meias, mesmo tamanho, igual textura, em que apenas as meias continuavam sistemáticamente a desaparecer.
De resto, o investigador atento, percebe à partida que a resposta não poderia estar ai. Se esta teoria estivesse correcta, ambas as meias do mesmo par teriam a mesma adesão à energia de sucção causada pelo tambor da máquina.
Ao abandonar esta teoria, o Zé António não abandonou a sua obsessão. Algo tinha que passar com as meias, e vá de se sentar todos os dias à hora da lavagem da máquina. De lanterna em punho não perdia de vista o tambor rotativo - nem buraco negro nem outra explicação. A sua cabeça rodopiava com possibilidades, um gnomo da peúga talvez, à procura de sacos para carregar as suas moedas de ouro? A fada dos dentes, sem alternativa melhor para guardar tanto dente de leite? Um ladrão perneta e fuinha, que se afinal não precisava de pares de meias porque as haveria de comprar?
Cresceu com estas questões existenciais à roda e, verdade seja dita, não lhe encontrou solução. Encontrou sim oportunidade de negócio, o Zé António é hoje dono da bem sucedida cadeia de lojas "Meia desemparelhada" onde toda e qualquer pessoa pode encontrar meias de todos os tamanhos e feitios para complementar a meia solitária lá de casa.
segunda-feira, junho 18, 2012
acende mais um cigarro enquanto a lua se passeia no céu. de um lado para o outro, acompanhada de fumo viciado que não vê. soma mais uma noite às outras em que existiu de olhos abertos, a pensar na inexistência inviável. soma mais uma canção àquelas que quando tocam fazem doer a pele.
acende mais um cigarro e vê as ruas vazias, marcadas pela vida do dia, esquecidas na morte da noite. daqui a pouco há que recomeçar, mas não se lembra o quê ou como se faz.
houve uma altura em que ainda assim, estes eram momentos de alívio, mas agora somam-se as preocupações - e amanhã como acordo, com que cara acordo, eu que já não sei que cara tenho, que cara visto, como abro olhos olhos, como escrevo os pontos finais a meio dos textos, como digo sim com os sins entalados na garganta.
nos entretantos desenha formas fluídas com o fumo do cigarro. fluidez do fumo a contrariar o peso dos ombros, dos braços, dos dedos que seguram um vicio que ha muito lhe deixa a cabeça pesada, o corpo pesado.
"devia ser outra hora aqui" e vê um carro perdido que passa, perdido nas suas próprias histórias, desconhecendo a existência do seu cigarro, deixando-a na inexistência que procurava e que tampouco lhe traz alivio.
acende mais um cigarro e vê as ruas vazias, marcadas pela vida do dia, esquecidas na morte da noite. daqui a pouco há que recomeçar, mas não se lembra o quê ou como se faz.
houve uma altura em que ainda assim, estes eram momentos de alívio, mas agora somam-se as preocupações - e amanhã como acordo, com que cara acordo, eu que já não sei que cara tenho, que cara visto, como abro olhos olhos, como escrevo os pontos finais a meio dos textos, como digo sim com os sins entalados na garganta.
nos entretantos desenha formas fluídas com o fumo do cigarro. fluidez do fumo a contrariar o peso dos ombros, dos braços, dos dedos que seguram um vicio que ha muito lhe deixa a cabeça pesada, o corpo pesado.
"devia ser outra hora aqui" e vê um carro perdido que passa, perdido nas suas próprias histórias, desconhecendo a existência do seu cigarro, deixando-a na inexistência que procurava e que tampouco lhe traz alivio.
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