terça-feira, abril 15, 2014

Dona Mena

Dona Mena tinha a elegância suave de alguns anos de ballet e muitos mais de doçura, tinha gestos alargados e falava PAU-SA-DA-MEN-TE, sem se deixar arrastar nas conclusões, sem se deixar aprisionar nas teorias. Sabia que o caminho era para a frente mas sentia nas pernas e nas costas o cansaço das correrias de outros tempos - tempos em que o mundo era casa e mudar era a vizinhança não desejada mas enfrentada com a coragem e confiança de quem tem nos pés a certeza dos caminhos e nos braços as asas dos sonhobjectivos.

Dona Mena, nos serões de lua cheia, olhava-se ao espelho entristecida e pensava para si mesma como a magreza lhe dava um aspecto frágil e convencia-se dos anos que tinha e das fraquezas traduzidas em artroses e das mazelas que dizia é-da-idade, que já-não-sou-o-que-era, e olha-para-isto, e que-foi-que-me-aconteceu, e será-que-fui-sempre-assim, e um ai-eu-nem-consigo-chegar-ali...

Era só quando adormecia que o espírito de dona Mena se voltava a levantar seguro, entre todas as histórias que já tinha passado e todas as que ainda vinham - e que ela ia negando, quando acordada - "ai-sei-lá-se-chego-lá". Era o que dona Mena fazia, negava-se a si mesma as forças que já tinha usado, nas desculpas das encruzilhadas da vida, que "antes tinha condições e agora não", que "antes tinha apoio e agora não", que "antes subia umas escadas a correr e agora não". Mas dona Mena ainda se lembra de si mesma às 3h da manhã sozinha numa cidade francesa, uma mala,17 anos de idade, 1.700 km de distancia de tudo o que ela conhecia. Entre o medo abandonado a decidir o que fazer, transformado na certeza de ser dona da sua vida na manhã seguinte, dona Mena tem ainda na ponta dos dedoss o resto adocicado de um croissant misturado com as rédeas da sua vida.

Na verdade quem a conhece sabe que dona Mena nasceu guerreira da paz e que é exactamente isso que continua a ser todos os dias, mesmo quando o tenta negar ou ainda quando não se lembra de saber que o é.

quarta-feira, março 26, 2014

Dona Brites

Dona Brites nascera de parto planeado, um bébé desejado e assinalado no calendário dos grandes marcos da vida, "primeiro casar, depois 1 ano para nós, empregos estáveis, a primeira criança, ao fim de 2 anos a segunda, mudar para uma casa maior, ter a terceira". E a vida que se desenhara no papel foi-se construindo a par e passo, sem altercações de maior, sem tempestades do lado de cá do horizonte e poucas vezes as gaivotas vinham a terra.

Dona Brites cresceu por isso ponderada e sensata, cheia de cautelas e cuidados, um senso que aos 5 anos de idade lhe punha um dedo espetado no ar enquanto dizia cheia de certezas aquilo que ela própria podia ou não fazer. "Oh mãe, não achas que já é hora de me ires por a dormir?" inquiria Dona Brites de sobrancelha carregada, "Oh mãe, hoje não devia ser peixe em vez de carne?".

Ficou conhecida e reconhecida pelos "nãos" que distribuía, Dona Brites sempre assertiva, "tu não podes fazer isso, tu não deves fazer aquilo, isto é mau, aquilo é bom, tu vê lá nas que te metes, eu se fosse a ti não fazia isso".

Cresceu rápido Dona Brites, sempre seguindo as tendências da moda sem exageros - as calças à boca de sino eram de sininho, as saias curtinhas eram curtas, os vestidos balão eram enchidos sem fôlego, os estampados de cores suaves.

Sem surpresas Dona Brites casou na altura devida com o homem certo, teve 3 filhos devidamente espaçados e adequadamente alegrados, e depois de muitos natais abençoados, festas de anos e baptizados, Dona Brites morreu sensatamente durante a noite, sem acordar, sem gritos, estremecimentos, dor ou até consciência de si. Na lápide do cemitério escreveram em letras bonitas, "Aqui jaz Dona Brites, esposa dedicada e mãe amada, que desta vida nada levou nem muitas marcas deixou".

segunda-feira, março 24, 2014

Tem um sorriso a mais de que não precise?

Andava pelas ruas com olhos e bolsos vazios, mendigava para não roubar, dizia a quem o quisesse ouvir, mas dizia pouco entre as gentes apressadas de telemóveis nas mãos, músicas nos carros, vidros fechados. "Tem um sorriso a mais de que não precise?" perguntava enquanto batia nas janelas, acenavam-lhe que não por detrás dos vidros dos carros, por detrás dos vidros escuros dos óculos, "tem um abraço a mais que possa dispensar?" e nem olhavam para ele enquanto passavam apressados para os seus afazeres, "tem uma festinha na cara que me possa dar?, um sorrisinho, vá lá amigo, não mendigo porque gosto, é porque preciso..." e logo o senhor mudava de lugar na paragem do autocarro, diziam que não e afastavam-se, e ele por ai continuava, de bolsos vazios a mendigar um pedacinho de amor.

terça-feira, março 11, 2014

A menina que comia arco-íris

Não tinha cor preferida, gostava do amarelo e do verde, do azul, do cinzento, do rosa ou vermelho, a qualquer hora, em qualquer dia. Isto era o que ela explicava quando lhe perguntavam de ar assombrado, mas a sério que comes arco-íris?

Vinha-lhe de pequena esta estranha mania - e são deliciosos, devias provar! - e mesmo que os pais lhe ralhassem de nada servia. Mas oh mãe, eu gosto tanto, eu sei querida mas daqui a nada vamos almoçar e depois não tens fome, e de olhos desiludidos limpava o azul do lábio inferior e guardava o resto do amarelo para comer à sobremesa.

Os amigos perguntavam-lhe, mas tu não sabes que o bom do arco-íris é que podes encontrar um pote de ouro no fim? e a menina sorria e dizia que tu é que não sabes o bom do arco-íris, é o começo e o meio e o fim... o fim só serve para deixar um gosto doce na boca e a gente com vontade de comer mais.

Quem não a conhecia tomava-a muitas vezes por pintora ou artista de algum género, manchas de cores várias nas mãos e às vezes uma ou outra nódoa na camisola - olha sujaste-te a pintar hoje na escola - e ela nem negava que às vezes os arco-íris pingavam e nem sempre havia um guardanapo no bolso para a ocasião.

Foi quando soube desta história que percebi de onde lhe vinha o brilho nos olhos e a alegria que trazia nos bolsos e agora quando a vejo de vez em quando toda deliciada, a mastigar discretamente e sem barulho, não consigo não sorrir porque já me contou do seu segredo.

quarta-feira, fevereiro 26, 2014

Dona Clara

Dona Clara sorria com lábios de luz, quer o sol se estivesse a levantar ou a pôr, quer o calor do verão lhe aquecesse a alma ou o frio do inverno lhe esfriasse os pés. Dona Clara gostava de se desdobrar em amabilidade para não ganhar vínculos de amargura, era um lago de calmaria onde até os peixes nadavam desapressados.

Tinha tiques encantadores, Dona Clara, que sempre que sorria inclinava levemente a cabeça para o seu lado direito, uma perspectiva diagonal de quem desabafa, ou seria para deixar livre o ombro esquerdo, nunca soube dizer, nunca soube encostar os pensamentos atrelados de céus muito pouco estrelados.

Mas um dia Dona Clara, ouviu falar que havia uma crise no país, ouviu falar de uma crise na europa, ouviu as queixas do vizinho de cima, do do lado, do senhor da padaria, sempre com um sorriso, Dona Clara, já leu o jornal hoje, isto assim não tem remédio, já sabe do meu sobrinho que é médico e recebe 500$, já não há profissões dignas, já sabe do leiteiro ali da esquina, abriu falência a semana passada, e tanto foi o queixume que Dona Clara ouviu que o pescoço se lhe prendeu num torcicolo desalmado e Dona Clara menos calma concluiu que era esse o seu último dia útil do mês.

terça-feira, fevereiro 04, 2014

D. Litéria

Dona Litéria dizia "relva" e cuspia pedacinhos verdes entre as palavras, dizia "céu" e um pedacinho de baba azulada a escorrer-lhe pelo canto da boca que limpava apressada com as costas da mão," ai que grande peso que carrego", suspirava, e logo os joelhos se dobravam e os ombros descaíam.

Dona Litéria dizia que gostava de beber da sabedoria dos antigos e logo se engasgava a meio da frase, pirulito desprevenido como um gole de mar, ah, tanto mar que há nas ilhas que são os homens e Dona Litéria a ser ilha engasgada, a tossir que nem um cão e a abanar a cauda, pode um piano abanar a cauda Dona Litéria? e Dona Litéria tocava música desafinada enquanto pensava nos desafinos da vida que são os desencontros e Dona Litéria já estava atrasada para o próximo, aquele que foi com o outro que haveria de ser o seu marido, risonho e habituado às esquisitices de Dona Litéria. A relação? A relação foi fácil, ela apaixonou-se no momento em que recebeu o mapa com os caminhos para o seu coração e um aviso, "vê lá não descarriles" e Dona Litéria a ser comboio fiável, sempre seguindo os caminhos trilhados, sempre na linha Dona Litéria e mesmo assim às vezes o marido zangava-se, "são facadas no meu coração!" e logo Dona Litéria ia correndo buscar o algodão com betadine e voltava para ficar baralhada, não vejo nada, não vejo nada.

Dona Litéria enviuvou num dia e demorou exactamente 5 dias, 3 horas e 27 minutos até morrer de saudade, claro.

quinta-feira, dezembro 05, 2013

There is hope for level 140 on candy crush

Wake up in the morning and grab your cellphone. Take a deep breath and push the "play" button. It could be the 100th time you give it a try. Or 1000th. Probably you already found out that there are no strategies for this level. Probably you already found out there are no cheats or tricks to clear the 140 level on candy crush. But let me tell you a story I've heard a couple of years ago:

During the year of 1930, people heard about an old gentleman with a brown hat and a black mustache that made it. He cleared level 140 on candy crush, and what was more unbelievable, he made it at the third try. It was a rainy day, the wind was blowing and the trees would dance outside the window at the same rhythm than the gentleman's cellphone sound. So happy of his conquest, the gentleman screamed "Sweet!" and after that he said "Delicious!" and after that he disappeared forever. Those two words echoed on the empty streets for ages, but never again the gentleman was seen.

This story have been told by generations, passing from fathers to daughters, heard in silent corridors or told during winter nights near the fireplace. There are no records of that gentleman, the first one to achieve it. No one knows what happened, some people thinks he was kidnapped by the candy crush mafia, other people believes he is trapped by our government in order to study his brain and skills, other people believes he simply found out the secret of his existence and lives now in a much better place that it is still locked to the ordinary people. But, in order to remember him, the candy crush developers included a record of the gentleman's voice screaming the same two words: "Sweet!" and "Delicious!" as the brave man screamed that windy night.

Either way, that is not the question. No matter what happened to him, one thing you know now, It is possible. Level 140 on candy crush can be cleared. Is not a matter of faith, it has been proved. So, come on little candy crush addict, just raise your eyes to the window, take a deep breath and click "retry" one more time. Only one more time until is done. it is possible!

quarta-feira, agosto 28, 2013

A lenda de Ódelouca

No concelho de Almodovar há uma ribeira chamada de Ódelouca, vestígio de tempos antigos em que se conta que uma mulher descalça habitava estas margens, navegava nestas curtas águas, em busca da ´Verdade Última". 

Os locais reconheciam-na ao longe, trajando cores claras por entre as marcas da terra e da água, conversando com os peixes, as aves, os lobos, as árvores. Frequentemente gritava contra as pessoas que a observavam, um chorrilho de palavrões imperceptível, inventava insultos como uma raposa dá saltos em fuga: Rápida e ágil, punho erguido e cauda espetada. Poder-lhe-ia ser diagnosticada uma qualquer esquizofrenia marada ou ter pela frente uma carreira brilhante em consultoria, mas os tempos eram diferentes e as gentes só lhe tinham medo. 

Ora acontece que estávamos em 1189 e D. Sancho I enviou uma frota de Cruzados para conquistar Silves. O plano era fácil, subir o rio Arade, cercar a cidade e conquista-la aos mouros. Pilhar comidas e bebidas, riquezas e tristezas e depois, logo depois, seguir o caminho para a Terra Santa. Afinal de contas, foram estes raciocínios e necessidades que deram origem às estações de serviço para abastecer o carro e comer qualquer coisinha.

Ora acontece que os ditos cruzados cruzaram por terras erradas e acabaram a subir uma ribeira pouco navegável. "Eu bem te disse que era para a esquerda, cala-te tu nunca queres pedir direcções, mas via-se logo que era para a esquerda, desculpa lá mas a estrela polar não avisou"... e entre discussões para aqui e culpas para ali, vê-se chegar na margem uma senhora de ar calmo, vestes claras e cabelo ao vento. Prontamente os cruzados viram salvação, "oh minha senhora, o caminho para Silves? É por aqui?" e a senhora da ribeira olhando de ar esgazeado os mal cheirosos barbudos que ousam entrar-lhe no reino líquido logo grita uma série de impropérios tão comprida e feroz que os soldados logo se denortearam. Não contente com isso, arreia saias para cima (até ao joelho) e faz-se à água, diz-lhe que o que lhes falta é um processo para sairem dali, que falhar em planeamento é planear falhar, que deviam ter feito follow-ups mais apertados, que nem chegaram a atingir a milestone para o arranque do projecto e que as calças que usam são feias e nada modernas. 

Os soldados atazanados com uma mulher que lhes ousa falar assim, logo arregaçaram mangas para se porem ao trabalho, "agora faz isto, agora faz aquilo, agora o outro" e toda  a noite de trabalhos sob a direcção da louca levou à criação da bandeira triangular que tão importante foi para a navegação ao contrário do vento, durante os restantes descobrimentos uns anos mais tarde. 

Mas o legado da louca visionária foi maior, basta uma visita ao supermercado para ver os homens obedientes aos designios das mulheres, agora mete isto, agora vai buscar aquilo. Também pela louca os homens do mundo nunca mais pediram indicações para os caminhos, repetindo entre dentes que todos os caminhos vão dar a Silves se não parares para perguntar. 

No final Silves foi conquistada, os descobrimentos foram feitos mas o mundo jamais seria o que é hoje se não fosse a louca da ribeira de Odelouca.




quarta-feira, agosto 21, 2013

Dona Maria Fernanda

O sol espreguiça-se e cheira a manhã do lado de dentro da cama. Dona Maria Fernanda levanta-se devagar, parece que lhe custaram 54 anos a acordar e olha em seu redor com estranheza. Pensa que ali está ele, mais um dia em branco para preencher como quiser, entenda-se, como tem que ser mas dentro do como tem que ser, será como quiser. Era essa a promessa não era? Um dia em branco para começar a dar o melhor de si - era isso o que tinha que querer não era? Dona Maria Fernanda sentada na cama com 54 anos de sono e pensar que mau dia para acordar de vez. A sentir-lhe a frustação entranhada na barriga, a pensar-se grávida de revolta de uma vida que não escolheu e que não quis, das promessas feitas que nunca foram quebradas - estão apenas por cumprir. Há quase 54 anos também.

Dona Maria Fernanda levanta-se de vez, percorre o caminho até à casa de banho e faz xixi da maneira que quer que é também a melhor maneira que sabe. Dar o melhor de si mesma a fazer o xixi matinal. Dar o melhor de si mesma a esfregar-se no banho. Escolhe a roupa, penteia o cabelo, bebe leite com café, esfrega a maquilhagem do mesmo tom que a camisa que tem o tom dos sapatos. Um brinco e outro, o carro para o trabalho, Dona Maria Fernanda dá o melhor que sabe nas filas, nos semáforos, nas curvas. No estacionamento, ao dizer bom dia, Dona Maria Fernanda agenda reuniões, preenche impressos, procura informação e nem um cabelo lhe sai do sítio, nunca um esmorecimento de sorriso, Dona Maria Fernanda agarrou o dia para fazer o que quer - que tem que ser "ser o melhor possível", "ser simpática e agradável", "ouvir as outras pessoas", "pedir opinião e envolver os colegas", "não procrastinar", "combater a preguiça concentrado-se nos objectivos", "fazer mais e melhor", "planear e informar para não falhar", "agarrar as oportunidades que lhe aparecem com entusiasmo", "fazer network através de construir relações verdadeiras que se baseiam em fazer perguntas e mostrar interesse", que dia cheio tem Dona Maria Fernanda a fazer aquilo que quer que é o melhor que pode. Sem se comparar com os outros, sem criticar os outros, sempre procurando soluções e nunca responsabilidades.

Amanhã Dona Maria Fernanda tem nova oportunidade de fazer o melhor que pode com o dia que tem. Hoje escorregou num mal entendido, deu dois gritos a um colega, ignorou uma dead line para sair mais cedo. E sabe que acima de tudo Dona Maria Fernanda só se prejudica a si mesma porque assim pode nunca lhe aparecer a oportunidade que lhe poderia aparecer se Dona Maria Fernanda fosse o seu melhor em todas as situações, como quer em cada novo dia em que o sol se espreguiça lá fora.

sexta-feira, junho 14, 2013

É agosto e a terra está seca, gretada. O chão feito pó, o pó feito mundo, cheiro de alcatrão e deserto, pessoas refugiadas em paredes e casas e ares acondicionados a zumbirem baixinho, um sem número de ares acondicionados a fazerem zzzzzzzzzzzzzz e os cortinados meu amor, os cortinados desta vez abanam por de dentro das casas. As casas a fingir que respiram, as pessoas a fingirem que são livres nas prisões escolhidas, o mundo civilizado a esconder-se da natureza intrépida que reclama de garganta arranhada e seca que afinal quem ainda manda é ela e a gente a enganar-se meu amor, a gente a enganar-se entre paredes e aquários de vidro a dizer que sim, que somos tudo e fazemos tudo sem coragem para por o pé la fora. E nesta secura cai uma lágrima tua bebida pelo mundo que é pó de chão e terra gretada, gota sagrada que alivia e cura e faz renascer a vida debaixo do mesmo sol escaldante que a matou.

segunda-feira, abril 29, 2013

dos 10 aos 30



- aos 10 tens todos os amigos do mundo quando queres
- aos 20 tens os amigos que queres e é para sempre
- aos 30 tens os amigos.

- aos 10 o melhor do fim-de-semana é ir brincar na rua
- aos 20 o melhor do fim-de-semana é sair à noite
- aos 30 o melhor do fim-de-semana é dormir.

- aos 10 achas que vais encontrar o principe encantado, casar e ser feliz para sempre
- aos 20 achas que todos podem ser o principe encantado
- aos 30 achas que realmente os principes devem ser todos sapos.

- aos 10 anos imaginas-te aos 30 casada, feliz e com 3 filhos
- aos 20 anos imaginas-te aos 30 casada, feliz, com 1 filho e montes de sucesso profissional
- aos 30 anos duvidas do casamento, dos filhos e do sucesso profissional mas estás feliz e não querias necessariamente que fosse de outra maneira.

- aos 10 anos sais com pessoas de 20 e é uma seca.
- aos 20 anos sais com pessoas de 20 e achas que conseguem conquistar o mundo numa noite
- aos 30 anos sais com pessoas de 20 e percebes que já não tens 20.

- aos 10 achas que os de 30 são adultos responsáveis, maturos e que sabem tudo
- aos 20 achas que os de 30 são completamente livres, independentes e tomam todas as decisões da sua vida com responsabilidade
- aos 30 achas que é quase indiferente ter 30, 20 ou 10, em matéria de responsabilidade, maturidade e conhecimento

- aos 10 anos, o mundo inteiro é a tua rua
- aos 20 anos o mundo é um lugar enorme que é impossivel conhecer
- aos 30 anos o mundo é estranhamente pequeno mas interessante.

- aos 10 queres ser tudo: veterinária, advogada, escritora, bióloga, fotografa do national geographic
- aos 20 queres ser a melhor profissional da carreira que te calhou
- aos 30 queres largar tudo, não ser nada e ir ver o mundo

- aos 10 achas que o que não nos mata torna-nos mais fortes
- aos 20 achas que elas não matam mas móem
- aos 30 achas que as todas as coisas são válidas, mesmo quando são contrárias.

- aos 10, as pessoas fixes são as que sabem jogar à bola
- aos 20, todas as pessoas tem alguma coisa de interesse para descobrir
- aos 30, todas as pessoas tem um desequilibrio qualquer e tu só estás para lidar com 10% dessas pessoas (que são as que tem um desequilibrio compativel com o teu)

segunda-feira, abril 15, 2013

os mares das gentes


Os mares, os oceanos que se tocam e trocam, em divisões planeadas e escritas à mão, em contratos que contém sal proveniente de diferentes desejos e vontades. As pessoas trazem mundos e mares dentro de si, a colapsarem e a colidirem como ondas em rochas, a rebentarem fora de tempo, a gritar o agora contra o eterno. A gritarem o que sabem contra o que querem, a gritarem não os limites que encerram mas os limites que transbordam. A quererem transbordar-se de si em voz, em palavras, em toques. Ansiando quem as transborde, acossando-as com tempestades e ondas mais altas que prédios, as construções humanas, as convenções a fecharem passagens, a calarem segredos.

conheço um pedinte que tem um segredo que dói. O que ele precisa dói-lhe tanto que não pede, grita e ofende quem passa - o desespero enraivecido, não porque lhe seja devido mas porque nasceu da necessidade mais visceral que o acossou. "Pobre diabo" penso quando  o vejo, cheia dos direitos e legitimidades que ele (não) tem das exigencias que o atormentam. Pede o errado, pede moedas em vez de sorrisos, pede dinheiro em vez de atenção e sabe de antemão que nunca jamais alguém valorizá alguma coisa dele, pobre diabo abandonado a uma sorte contra a qual não foi capaz de lutar. o mar dele a rebentar-se em quem passa. E não consegue expressar-se melhor, porque não pode, todas as vezes que se afundou, todos os caminhos que não fez, todas as paisagens que não visitou e as pessoas que o olham a cobrar-lhe isso, devias ser mais assim porque devias saber melhor. Um dia destes aparece morto. afogado numa esquina entre ruas, sem ninguém perceber como foi possivel.

segunda-feira, dezembro 17, 2012

Miss Patsy



Miss Patsy was a sweet lady in her sixties, big brown eyes and lazy smile, soft gestures and gentle posture every time she wanted her wishes to be satisfied. Miss Patsy didn’t like to talk loud, “it’s not appropriate for a real lady” she used to say, but often forgot it when in some shop or restaurant the waitress did something wrong. “I asked for a fresh orange juice you incompetent!” she would not be afraid to scream.

A spoiled child by her parents, Miss Patsy did never totally grow up. An immature and childish sense of unfairness would make her cry over the injustice she was a victim. “Because people are never nice to me, because red lights are always against me, because nobody understands how important it is for me to have a brand new car today!”

She was never very happy, Miss Patsy, and she never married. She had a bunch of boyfriends, enchanted by her eyes, scared away by her mood swings and demands.

Poor Miss Patsy died when she wanted only to be independent – she was getting out the subway when someone whispered to her “please mind the gap”. But she knew no one in earth could tell her what to do and so she didn’t listen.

Other passengers had to wait for 5 hours while the fireman managed to take out the stubborn body.

terça-feira, dezembro 04, 2012

Subia a rua como todos os dias, mala ao ombro e saco na mão. Hoje trazia casaco que o Inverno fazia-se sentir e trazia histórias e memórias nascidas dos anos que passavam que criam estas lembranças e esperanças que nem sempre se traduzem em respostas. Acabam com as perguntas, contudo, pensava enquanto tricotava pensamentos com muito maior ligeireza do que costumava tricotar cachecóis. 

Tinha visto estas árvores crescerem, tinha visto duas delas serem arrancadas às raízes em dois Invernos mais penosos do que o deste ano, tinha assistido a mais de 50 decorações de natal diferentes, parecidas, quase iguais, todas com luzes fundidas. 

Conhecia as pedras das calçadas de uns anos para os outros, as pedras que faltavam e as outras que rebentavam, as que foram substituídas  as que lá estavam desde os primórdios das vidas que moravam naquela rua. 

Fora naquele canto que tinha dado o primeiro beijo apaixonado ao que viria a ser marido, já não se lembrava disso quando ali passava, ocupada a decidir o que seria o jantar, e que bom que era fazer uns bifinhos mas era fim do mês, talvez arroz com feijão à falta de lombo arranjadinho, estava bem arranjada era com o que tinha que carregar no próprio lombo, que os sacos começam a pesar mais, não é o peso dos sacos, as pernas é que já não respondem como antes, lembras-te antes que aguentavas uma tarde inteira a dançar nos domingos de verão no largo da igreja? Ah, e eles faziam fila para dançar comigo, e diziam-me sussurros aos ouvidos e de todos escolhi o melhor, o mais dançarino e divertido, uma mão atrevida a querer baixar mais do que a conta e as palavras doces que me murmurava sem mais ninguém saber. Agora os tempos são outros, não dançamos mais que as pernas não deixam, não me diz palavras doces mas gosta de mim à maneira dele, quando reclama com o jantar ou quando quer sossego para ver a bola, quando chega a casa cansado e me pede cervejas, quando estou a cozinhar e ele finge que nem me vê mas eu sei que quando estou de costas ele olha para mim. Nunca o apanhei, acho que é vergonha, mas eu sei que ele olha para mim quando não o estou a ver.

quarta-feira, novembro 28, 2012

Dona Céu - external and anonymous collaboration


Dona Céu is 53 years old. She’s divorced and has 2 kids that she sees often enough. She lives with a friend in the south of Spain in a small house with a blue door. She picked the house because of the blue door. Somehow it made sense to live in a house with a blue door when your name means sky.

She loves to cook and to gather friends and family around the dinner table chatting and eating her marvelous cooking. She’s particularly good with the oven. Everything she bakes comes out tasting delicious. Her friends often joke she could bake a rock and it would come out tasting delicious.
Dona Ceu works with old people. She feels it’s her way to give back to society. Most people would prefer to work with children but it her case she feels old people need her more and she feels it’s rewarding to be where you’re needed.

She has very few worldly possessions except for her book collection and an old porche. These seem to be her only 2 hobbies in life.

She used to travel a lot around the world and sometimes in the very few occasions when she has a lot of scotch you can still listen to her stories about distant places and different lives.
When asked why she doesn’t travel anymore she usually answers she’s happy where she is.


(Dona Céu has been created/found by a friend)

segunda-feira, novembro 26, 2012

V.


Há uma cidade onde as estradas são líquidas e as teimosias imunes à vontade de prender os pés no chão. Há uma cidade onde as ruas são feitas de marés e os homens não decidem os caminhos que percorrem, docilmente entregues a correntes e ventos, aprenderam à muito que os lemes são ilusões de controlo e que é na aceitação da descoberta imprevisível que se dobram esquinas de algas e lodo para se chegar a algum lado diferente, outro qualquer.

Há uma cidade construída por pontes a segurarem as margens dos caminhos, a servirem de aproximações ao que não nasceu junto, a quererem ligações ao que nunca foi uno. Dizem em outras cidades que não separe o homem aquilo que Deus juntou, mas nesta terra-água cabe ao homem juntar o que Deus separou.

Poderiam os homens deste estranho sítio serem homens-peixe, escorregadios e adaptados ao ambiente, mas a sua missão é maior do que a lei de darwin. trazem nos genes as improbabilidades acontecidas, trazem na pele as âncoras que os prendem ao não determinismo próprio.

segunda-feira, novembro 19, 2012

Dona Selena


"Se pudesse ia, 
se soubesse cantava, 
se houvesse ficava, 
se quisessem dançava, 
se sonhasse saltava, 
se mais houvesse menos lá chegava..."

Assim pensava Dona Selena, entre ruas cruzadas e atalhos paralelos, entre possibilidades remotas e condicionantes internas, entre ilusões e obrigações.

Na cidade conheciam-na bem, especialmente os lojistas, "Bom dia Dona Selena, que procura hoje?", ah, procuraria um vestido se houvesse aí uma festa aonde ir, mas um vestido amarelo se vocês tivessem, mas se este fosse mais curto era perfeito para um casamento ou baptizado!.. Mas não há, diga-me lá, quero uma camisola, se tiverem do meu tamanho, se houver com flores verdes, se amanhã estiver sol quero ir de verde, se for mesmo fazer greve porque como as coisas estão, ah, se eu tivesse partido quando era nova, agora é que era, quando era nova, se tivesse ido não tinha esta vida...

E não teria esta vida, se tivesse partido quando o namorado lhe propôs, se tivesse agarrado nas malas com as duas mãos em vez de ter ficado de mãos atadas a pensar e se não arranjo trabalho, e se deixas de gostar de mim, e se tenho saudades, e se me acontece algo e tenho que ir ao hospital, e se de repente sou feliz e não sei...?

Não lhe serviram de nada as hesitações quando nas noites mais frias Dona Selena começava as suas divagações, desliando e enliando compridos fios de possibilidades sobre se era para ser, como teria corrido, se tivesse ido, onde estaria, como seria. Não sabe Dona Selena que numa vida paralela existe outra ela, deitada noutra cama e com outra vida que nas noites mais frias pondera como seria se tivesse ficado, se tivesse lutado, se se tivesse agarrado ao que conhecia.
Ali ao fundo da estrada vê-se uma sombra que acena, mesmo ali, ao fundo da estrada, olha pra lá, pela janela, lá ao fundo... reconheces-te a ti a acenares-te um adeus de quem já foi?

segunda-feira, outubro 22, 2012

Nem sempre as coisas que se nos escapam entre os dedos caem no chão. Larguei pássaros suficientes para o saber. De todos, lembro-me de uma andorinha, adolescente feita, de asas sem mágoas mas assustada demais para se fazer a uma vida entre nuvens e migrações. Lembro-me de um tio de bigode a dizer que tinha que a atirar, lembro-me de mim a dizer que não, lembro-me dele ma tirar em homem decidido, apanhar balanço com a mão e atira-la por cima do telhado da casa do avô, lembro-me de ter antecipado a queda em elipse que o corpo mais pesado que a gravidade ia fazer e da surpresa no estômago quando a previsão se mostrou errada e o trajecto foi seguro e decidido. Por cima do telhado, para os lados do horizonte.

Não bastou abrir as mãos, ali, que isso já eu tinha tentado sem resultado. Foi violento e cheio de força, o atirar do bicho, o aventar do bicho, por cima de um telhado de uma casa. Gente que sabe, acho eu, se não, correu bem. Não me lembro qual tio era, duvido que se lembre da história também. Gostava de saber, se sabia mesmo ou se acreditou com palpite.

Nem sempre as trajectórias adivinhadas são as que se cumprem. Nem sempre há coragem para libertar algo. Como se o prender fosse mais do que uma ilusão, ou como se manter limitado fosse certo de que há a vontade de ficar.

Nem sempre as coisas que se nos escapam entre os dedos caem no chão. Larguei pássaros suficientes para o saber.





terça-feira, outubro 16, 2012

Dona Opala

Dona Opala trazia nos braços a calma dos lagos azuis profundos. Tinha um céu brilhante nos olhos e os sonhos carregados de safiras. Não havia nuvens nas deambulações de Dona Opala, calmamente sentada  no cadeirão da sala, Dona Opala fantasiava com um mundo brilhante e sorridente.

Assim vivia Dona Opala, de respostas serenas e sorriso sossegado, gestos tranquilos e muitas horas de sono. Dormitava e acordava, adormecia e ressonava, levantava-se do sofá e ia para a cama.

Senhora de uma existência sem percalços  Dona Opala navegava no mar da tranquilidade. Deixou saudade Dona Opala, quando numa noite sem tempestade se afogou na realidade, ao ouvir o primeiro ministro a falar dos novos cortes orçamentais.