terça-feira, abril 26, 2016

weather report

*perdoem-me a falta de acentos e cedilhas, diz que neste teclado num teim assim que olhem, paciencia...


Diziam que vinha para a chuva e para o cinzento mas (afinal) tinha vindo era para os intervalos (intercalados), como por exemplo hoje de manha (logo cedo). A manha ia ensolarada (mas fria) e depois houve (assim de repente) uma pausa (pequenina) de chuva torrencial (como se tivessem aberto mangueiras). Logo depois (assim seguidinho) voltou o sol e manteve-se (pelo menos meia hora!) ate ficar cinzento (mas menos frio). 
E eh assim (eh mesmo) que se vive a Primavera (aos solucos) nesta ilha.

Era so isto (era mesmo).

segunda-feira, outubro 12, 2015

Os tropeções da Veva

Apresentava-se como Veva o que causava sempre alguma estranheza mas tinha fácil explicação:
era Vera o nome de baptizo mas os érres foram a última letra que aprendeu a dizer, numa fase em que já tinha pressa de chamar por si e de Vera passou a Veva e ficou assim.

Despachada já se vê que era, mas também trapalhona - fácil de adivinhar. Mais do que isso, a Veva tinha mesmo algumas particularidades que conforme quem as referia se tratavam ora de:
"engraçadas" (à vista de quem gostava dela),
"desesperantes" (à vista de quem precisava de resultados dela),
"inacreditáveis" (à vista de quem a acabava de a conhecer),
 e,
"aterrorizantes" (à vista dela mesma que não sabia como lidar com elas).

A questão era de fácil diagnóstico e de re-la-ti-va-men-te fácil solução (não tão fácil assim, já lá chegamos),

Acontece que a Veva tinha aprendido mal duas lições na vida. Não sabia apertar os atacadores dos sapatos como-deve-ser nem sabia amar do-jeito-certo. Seja lá o que for isso de apertar os atacadores dos sapatos como-deve-ser, afinal de contas há tantas formas diferentes de apertar os atacadores... mas todas resultam e a dela simplesmente não resultava. Como consequência, a Veva andava aos tropeções pela vida - derivado do primeiro problema - e punha as pessoas a quem queria bem aos tropeções também - derivado do segundo.

A Veva sabia que tinha um problema e procurava incessantemente pela solução. Em todo o lado lhe aparecia - ou lhe diziam - tens primeiro que aprender a amar-te a ti mesma, tens que aprender a estar sozinha, só quando te valorizares poderás fazer alguém feliz e a Veva continuava aos tropeções e a magoar a quem gostava, a tentar descobrir sozinha como se faz, sem nunca lhe ter ocorrido que talvez a lição não lhe servisse. Afinal de contas, quantas são as pessoas que aprenderam sem ajuda como se dão nós nos atacadores?



quarta-feira, agosto 19, 2015

monologos de inverno, no verao

Em Piccadily Circus grafittaram um anjo por cima dos azulejos brancos que indicam o caminho para a saída. No Panamá, uma senhora a quem restam 5 dentes acordou gritando pela noite fora, que um demónio lhe entrou pelo sonho adentro,
só pode ser premonição, algo terrível vai acontecer,
é o que vai dizer á vizinha dentro de umas horas, e a outra a benzer-se, e a outra a benzer-se como se isso apagasse o pesadelo já tido. 

Por aqui chove-me pelo jantar adentro, ouvi dizer que em Santa Luzia puseram uma estátua de um menino agarrado á pilinha, como se fosse brussels mas sem a originalidade de ser a primeira ou a vigésima quarta mil. Sabes quantas santas luzias existem no mundo? Se bem me lembro, em dubrovnick havia uma esplanada igual aquela do bairro do alto, onde estive uma vez a ver se te via aparecer na curva e não vieste e perdi um sapo. Perdi um sapo mas ganhei um novo sitio para ficar, exactamente quando me vim embora e nunca tive como tu essa fé inabalável nos recomeços de continuidade. As vezes não é uma questão de fé, ás vezes é uma questão do que é, tão certo como as ruas de Roma cheias de vespas de luz acesa, tão certo quanto o toque certeiro que se ouve em marraquesh, tão certo quanto os Hamer terem inventado um pequeno instrumento que os guerreiros levavam nas caçadas e que servia para colher as lágrimas que lhes escorriam por estarem do lado de lá do horizonte que conheciam. As viagens nunca foram fáceis, e no entanto sempre se fizeram por mais do que obrigação. Em português de portugal, "assentar" tanto quer dizer ficar no mesmo sitio como ganhar juízo. Já em português do brasil é dar algo para um santo. Vá-se lá perceber o espírito humano, vá-se lá perceber apenas uma pessoa no mundo inteiro, e a outra a benzer-se agora mesmo, agora mesmo.

terça-feira, julho 07, 2015

Sr Augusto Silva, o pescador

*this is for you mate. specially because you can't read portuguese ;)


O dia amanhece cinzento e enevoado, mais um dia na vida de Augusto Silva, 45 anos de idade e cerca de 20 de relações falhadas, umas a seguir às outras.

Aos 20 anos não tem mal nenhum andar-se a falhar relações, diz que é suposto e faz parte da “aprendizagem emocional”. Seja lá o que isso for. Quando a primeira ex-namorada lhe saiu porta fora entre gritos e malas mal feitas, Augusto Silva encolheu os ombros e pensou que ela era a louca. Gajas desequilibradas, desabafa com os amigos nas raras ocasiões em que eles deixam as mulheres em casa com os filhos. E os amigos dizem que sim, tu sempre tiveste tendência para gajas loucas, devias arranjar uma equilibrada e normal. Uma relação saudável, para variar, e Augusto Silva não sabia mais se eram elas que eram loucas ou se era ele que as estragava. Lembra-se da semana passada, roupas aventadas pela janela do terceiro andar e gritos vários sobre o monstro que ele era, entre várias comparações, metáforas, disfemismos e outros lirismos. Esta era tão louca como as outras, mas lá tinha que dar a mão à palmatória, tinha criativas formas de o insultar. Gajas desequilibradas, confirma, e lá dentro guarda a dúvida do que andará a fazer mal. Talvez deva ter mais paciência. Talvez deva conseguir engolir mais sapos. Talvez seja exigente demais – já lho disseram uma vez. Bom, mais vezes, mas foi sempre a mesma, se calhar não conta. Ou será que conta?

No bar passa uma miúda gira, terá uns 38 anos, aos 45 alguém com 38 é uma miúda, todos somos miúdos se não estamos já casados ou divorciados ou viúvos. Já houve outras mais novas, já houve outras mais velhas, todas loucas. Ou seria ele? Bah, desvia o olhar e nem tenta meter conversa, então Augusto, estás a desistir? Ah.. não.. é só hoje que não me apetece, de resto também não é nada de especial. Não me digas que ainda estás a pensar na outra. Sabes.. eu gostava mesmo desta. Gosto. Não sei o que correu mal. Achas que lhe ligue? Ao menos para saber que fiz de errado.. e se ela me ajuda a não o tornar a fazer...? Será demasiado cedo..? Será exigir demais? Augusto.. Err... Nem sei que te diga... Se quiseres mesmo... achas que vai servir de alguma coisa?

Achava que não, já tinha tentado outras vezes e concluiu de todas as vezes que estes exercícios melo-dramáticos só resultavam em mais agressividades trocadas. Que se lixe, já se tinham magoado demasiado, já se tinha magoado demasiado, se calhar era só melhor desistir. Ainda que houvessem mais peixes no mar, a verdade é que não eram as competências de pescador que lhe faltavam. O que fazer com os peixes depois é que lhe parecia escapar e muito. Ou se calhar era mesmo isso, não era sobre casar e ter filhos e uma vida estável, era sobre ter actividades de curto prazo com benefícios rápidos e a seguir, seguir para bingo. Afinal se resultava em tudo o resto na vida dele porque haveria de ser diferente neste tema?


Augusto Silva acabou a caneca de cerveja de um trago. Olhou de relance a miúda que tinha passado e virou costas. Hoje por certo não era noite de mais nada. E amanhã provavelmente também não.

segunda-feira, junho 01, 2015

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Nasceu com um bloqueio no coração, sabes? Ao principio ninguém deu conta, era só um bebe que sorria pouco mas com o tempo aprendeu as alturas em que devia sorrir. Os momentos para o sorriso. E o bloqueio foi passando despercebido, tornou-se pior na adolescência, pelo menos acho que ela começou a suspeitar de alguma coisa diferente, quando lia poesia e se prendia nas métricas ou quando as amigas sussurravam em histéricos risinhos o nome do rapazinho que lhes corava as bochechas. Aprendeu a fazer parecido, a conhecer os momentos certos para este ou aquele suspiro, imitava na perfeição a vergonha mal disfarçada mas nunca conseguiu que as bochechas se lhe corassem. Também não chegou a ser preciso, nunca houve observador tao atento que lhe estranhasse a falta desse sinal quando os outros abundavam. Nem toda a gente cora, diria se lhe perguntassem, nem toda a gente chora, também haveria dito se lhe perguntassem mas ainda bem que nao perguntaram porque se calhar esta afirmação levantaria maior estranheza.

Nasceu com um bloqueio no coração, sabes? Acho que nunca ninguém deu conta mas ela sabia que havia algo de pouco natural na forma como antecipava os momentos para falar ou calar, na mestria como mostrava a reacção certa, no momento certo, quase como ensaiado. Não fazia colecções de muitas coisas, apenas de sinais disto ou daquilo. Caminhos lógicos para chegar a conclusões emocionais, decisões ponderadas para demonstrar impulsividade, surpresa ensaiada para não defraudar expectativas e alguns silêncios escondidos nas quatro paredes de sua casa para quando se cansava dos teatros dos dias.


Não sei se alguma vez foi realmente feliz. Quer dizer, sei que gostava de algumas coisas, gostava de andar de bicicleta rua abaixo, especialmente no final do verão quando acabavam de por asfalto novo que nunca durava ate ao ano seguinte. Gostava do cinema ao ar livre nas noites quentes, que a câmara montava no jardim. Eram poucos os momentos em que os olhos brilhavam mas suponho que mesmo com um bloqueio no coração possas sentir o vento na cara ou sonhar em ser outra coisa qualquer. 

quarta-feira, maio 20, 2015

virtual love

She started to write about a faked love, beautifully hand written and tender lover letters, words that would hold the smell of flowers and honey, poems that started by floating in the windows of her room and directly jumped for the ephemeral but the eternal virtual world. In a blink of one eye, her love poems spread all over the social networks. People would fall in love with her idea of love, sharing, liking, tagging and commenting and sharing again in other networks and spread those words like a virus. What did she do? She kept in silence and secret that she was writing to no one. She did try to blur herself, maybe that special one she was searching for, maybe he was out there... maybe her words would reach for him and someday he will answer to them.. silly ideas from a silly mind, she thought, and kept writing in the windows of her room, with her finger, praising him to search for her. He read her. Not across the ocean as it could have happened, but from a different city and a different computer. He started to follow her everywhere he stumbled on her profile: instagram, pinterest, facebook, twitter and others. He was one more of the thousand followers she had in all these networks. but he was the one that understood she was the kind of girl who love to stretch out under the sheets, eating chocolate, reading books and cuddling on rainy afternoons. He knew that words are powerful things that should not be written in a foggy window with a finger. He knew words can break hearts and make panties wet, and so he tried. He really tried. And for a couple of months, maybe for three couples of months, they've read each other trough the brightening monitors. All of the available ones: computer, laptop, tablet, smart phones. He kept trying, he even wrote a book with a full inscription to her. Printed. Distributed in the whole country. He even achieved success with his literally career, she kept writing in her windows and posting it across the web. She read him too. She had doubts. Would this be a coincidence? Could this be happening? She even wished that the name on the inscription of that book was her name, she opened a chat window in her laptop and stood there, with the finger in the air, not being able to draw on the screen the same words she kept leaving in the windows. She closed the program. Truth to be told, she was the kind of girl who love to stretch out under the sheets. He was a well known author, how in the world would he be thinking about her? And so she just kept writing love words in her windows, day dreaming about how sweet a true love could be, but how good it is a love that cannot disappoint you. Both of them still write. She writes for no one and he writes for her. And the whole world believes in such a beautiful love that has never existed outside their own imaginations.

quinta-feira, março 05, 2015

Sra Dona Roseta

Sra Dona Roseta trazia a alegria espelhada no olhar e o bem estar a colorir-lhe as bochechas. Era dai que vinha o seu nome de guerra e de festas, das rosetas bem coradas que lhe tingiam a cara e a alma, tanto em momentos de danca como nos outros de calma. 

Era muito querida no bairro, a sra dona Roseta, e toda a gente celebrava quando ela na rua passava. 

Bom dia sra Dona Roseta, como esta hoje? E ela com seu ar afogueado, dizia em tom despachado, ja estou atrasada, ja estou atrasada, um beijinho ao seu Joazinho, ele que volte depressa para casa!  E ia em direccao ah mercearia, escolher os ingredientes a dedo, eh que mais logo tenho visitas e queria preparar um piteu, entradas a preceito e um arroz de lingueirao, uns quantos doces e talvez um licor beirao. Eu ate costumo ter licor la da terra sabe, mas ontem acabaram-se-me com ele, a casa sempre cheia de gente mas eh isto que a gente leva da vida nao eh? E voltava rua acima, entre mais cumprimentos de bons dias, uma paragem aqui para dois dedos de conversa, outra paragem ali para os assuntos rapidos do jornal, e ficava mais rosado o bairro inteiro, entre piadas e arroz de fumeiro; a sra dona Roseta quando sai a rua eh como um dia de sol no meio do inverno, as cores tem mais cor, nao sei,, mas sei que sem a sra dona Roseta este bairro nao era o mesmo, dizia o ze merceiro e toda a gente o aplaudia.

terça-feira, fevereiro 24, 2015

Y es que como si no subiera más hablar tu lengua, like I was a foreing in my own body, not being able to reach yours, como si nunca hubiera entendido los colores del cielo ou ainda como se tivesse aprendido a caminhar ao contrário. Al revés. Sin hacer ruído, without a clearing direction or sense of urgency.

Quantos mundos consegues trazer dentro de ti? Y se paraba mirando sus manos vacías, I can’t even understand that question, can you repeat it please, can you stop it, please?


Aún que el planeta no termina de girar sobre sí mismo, toda a gente continua com as suas vidas sabes, and you can go as far as you wanna go because, tampoco importa dónde te podrás ir. La verdad es que siempre estarás beneath the same sun, olhando para a mesma lua, e as linhas que trazes na tua mão e que se te marcam um destino, no cambiaran más, no se cambiaram más. And even when you won’t be able to return home, terás um mar mais perto do que te imaginavas,
terás um mar a prometer-te sobre novos mundos, 
terás um mar a prometer-te novas conquistas, 
terás um mar a prometer-te novas descobertas 
e talvez hoje e amanhã 
possas, 
simplesmente, 
não precisar de mais nada.




sexta-feira, fevereiro 13, 2015

um mes na ilha


Ontem fez um mes desde que apanhei o aviao em lisboa para me mudar com 3 malas de roupa, um ventilador, um secador, 3 livros em portugues e tres adaptadores de fichas, para Poole, Dorset.

- Bem vinda a ilha - deveria alguem ter dito, mas vamos la ver, quando aterras em heatrow toda a gente tem mais que fazer do que te dar as boas vindas. Isso eh no hawai, com os alohas, e em outros destinos de ferias tropicais. Aqui eh mais um vamuximbora que para a frente eh caminho, chega-te para o lado na escada rolante porque quem vem atras quer passar.

Alugamos um carro, convicta de que ia ser um causador de peripecias e afins, mas conduzir ao contrario revelou-se muito mais facil do que o previsto. Eh que eu nunca fui boa a dizer qual eh a esquerda e qual eh a direita, e como tudo acontece do lado certo, basta nao pensar muito nisso. Porreiro.

Algures agora, um mes depois, comecam-se a desenhar algumas teorias e improvisacoes sobre como viver nesta ilha.

A saber,

Thank you diz-se muito. A toda a hora e a todo o momento. Diz que eh polite, diz que eh bonito, diz que eh para usar e abusar. E nunca esquecer de o dizer em jeito de despedida ao senhor do autocarro. Eh pratica comum, sais do autocarro e agradeces a conducao. E se tiveres tempo e quiseres, ainda podes elogiar o bem que o senhor conduziu. Porque^? Por causa do tema seguinte:

Elogios sao mato. Chegas e achas que es a melhor do mundo porque numa semana elogiam-te mais do que num mes inteiro noutro sitio. "Ah, vou vencer nesta terra!! Sou mais do que o que eles alguma vez ja viram!!" Mas... chega o dia em que vais ao karaoke e recebes elogios por cantares. Nao so te deixam voltar ao palco uma segunda vez (o que em portugal nunca acontecey), como ainda te deixam voltar ao palco 5 vezes (sim, cantei 5 cancoes sem provocar danos fisicos a ninguem), como ainda te batem palmas em vez de assobiarem e rirem, como... ainda... me elogiaram. Pela primeira vez na minha vida inteira. Agora, pode ter-se dado o fenomeno milagroso de que repentinamente ganhaste um talento musical derivado sei la, do sentimento de nostalgia ou dos ares do vento da antartida. ou entao estes amigos tem o reflexo do elogio como quem diz "santinho" a um espirro. Pelo sim pelo nao, gravo um clip musical e envio para os meus amigos. As reaccoes nao trazem duvidas, estes amigos quando te fazem um elogio estao na verdade a dizer que te viram fazer algo e nao que o tenhas realmente feito bem.

O tempo que faz, o tempo que fez, o tempo que ira fazer. Todos os dias, durante todo o dia. Conversa-se sobre o tempo em qualquer sitio e em qualquer situacao, pode ser quando foste fumar, pode ser quando chegate a casa, pode ser quando te acabas de sentar no autocarro, pode ser quando estas a espera que te sirvam de gammon na cantina - que eh algo entre o fiambre e o bacon, mas acho que os nossos porcos portugueses nao tem aquela parte porque nunca tinha comido parecido. Primeiro criei a suspeita que estes amigos sao obcecados com o tempo. Algures com o avancar dos dias percebe-se que nao, falar do tempo eh na verdade uma ferramenta social que te permite auferir do interesse que alguem tem em comecar uma conversa contigo e que quer saber se tambem queres conversar. Explico melhor: lembram-se quando entramos na pre primaria e nao conheciamos ninguem e o miudo do lado olhou para nos com ar igualmente aflito e perguntou "ola, queres ser meu amigo?". Aqui em adultos fazem o mesmo, mas vem com a forma de "Hoje esta um dia bonito!", ou "Hoje nao esta muito frio" ou "que pena esta chuva, ontem esteve um dia tao bom". E depois esperam com ansiedade que a gente responda "sim, quero ser teu amigo", que na verdade se diz em sinal de concordancia. "Sim, esta mesmo um dia bonito", ou "sim, esta frio mas ao menos nao esta a chover" ou ainda "mas amanha ja nao chove, dao sol!" eh a forma como se diz que sim, eh para continuar a conversa. Se nao quisermos continuar a conversa? entao discordamos, que eh como quem diz, epah nao, ja tenho amigos que cheguem. "Nao gosto de tanto sol, fico aflito dos olhos" ou "nao acho que esteja assim tanto frio, ontem estava mais" ou "gosto da chuva" sao formas de negar conversa a alguem. Discordar sobre a apreciacao generalista que foi feita sobre o tempo causa 5 segs de silencio entre duas pessoas e depois uma dela vai embora. trigo limpo, farinha amparo!


Havia mais coisas deste genero, mas agora nao me lembro. lamento a falta de acentos e afins, os teclados daqui num teim tracinhos para se porem em cima das letras. e o facto de ter escrito este post a correr e sem revisao, mas.. era so para dar um ola neste cantinho! :)

quarta-feira, janeiro 07, 2015

historiazinha parte II

- mas a vida é o que é, e sabes, de todos os planos que fazemos e de tudo o que conquistamos ou perdemos, uma vez conheci um homem que me disse que o grande arrependimento da vida dele foi um dia ter visto um bocadinho de poeira ou uma palhinha, ele não sabia exactamente o quê, aterrar do lado de dentro de dois dedos de cabelo encaracolado de alguém que estava à sua frente e não ter tido coragem para lho tirar. Suponho que tenha imaginado que o simples gesto de lhe tocar no cabelo fosse suficiente para lhe mudar a vida inteira e tenha tido medo do que isso significaria. 

- achas mesmo que uma vida inteira pode ser mudada por tocares num cabelo alheio?

- acho. 

segunda-feira, dezembro 22, 2014

questões de fé

eu era capaz de acreditar que tu consegues, pondo os dois pés no chão com muita força, fazer abrandar o mundo da sua vertigem egoísta. eu era capaz de acreditar que te basta querer para fazer o tempo passar mais devagar, capaz de acreditar que as ondas do mar se espaçam para que tu mergulhes, como se até o oceano suspirasse só com a ideia de te abraçar. eu era capaz de acreditar que tu trazes o verão debaixo da pele, que esticas os braços para trazer ou afastar nuvens, conforme precisa quem se fica pouco acima da tua cintura. eu era capaz de acreditar que há sonhos enrodilhados no teu cabelo e que os veria se pudesse entrelaçar nele os meus dedos enquanto te deixas adormecer. eu até era capaz de acreditar que emprestas o teu cheiro aos raios de sol nos dias frios de inverno e que as lareiras existem para tentar recriar o carinho e calor que se sente quando se responde a um sorriso teu. eu era capaz de acreditar que a hora em que a noite se faz dia tem o mesmo nome que tu e que os pássaros emigram porque foste tu quem os ensinou a voar.

eu era capaz de acreditar que as razões do mundo tem mais a ver contigo do que com física ou ciência ou química e que a religião, digo a fé, nasceu na verdade de um toque suave da ponta dos teus dedos. eu era capaz de acreditar nisto tudo, mesmo sabendo que tu não. 

sexta-feira, dezembro 19, 2014

Historinhazinha

Sempre havia sido sozinho na vida.
Saiu de casa cedo de mais, aprendeu a desembaraçar-se cedo de mais, entendeu que nem ás paredes se contam segredos mas que é dentro das suas quatro paredes que existe o maior sossego desta vida. No entanto, foi só depois de adulto, depois de se ter apaixonado e juntado trapinhos, que percebeu enfim o que era realmente a solidão.

quarta-feira, dezembro 17, 2014

4328 Horas

Onze mil, quinhentos e vinte e quatro dias de vida. Mais dia, menos dia, não sou boa de contas e também não me lembro deles todos.

Quatro mil, trezentas e vinte e oito horas, mais hora menos hora, não sou boa de contas e também não estiveste em todas elas. Dentro destas horas couberam cento e setenta e seis marés - mais maré menos maré - que levaram e trouxeram seiscentas e vinte e três mil, quatrocentas e cinquenta e duas ondas. É muita onda, ainda para mais porque só vimos umas dezenas a rebentarem-se-nos ao pé.

Foram 72 horas de lua cheia o que daria três dias inteiros de lua cheia, mas é uma parvoíce porque toda a gente sabe que foram antes 6 noites, que é como quem diz, 6 “meios-dias”. Seis “meios-dias” de lua cheia e nem 2 minutos de consciência dela. 
Mas não faz mal, hão-de haver mais porvir. 
Afinal de contas, a lua existe desde que o mundo é mundo, toda a gente que existe, toda a gente que já existiu, toda a humanidade desde os primórdios olha, de vez em quando, para a mesma lua. E normalmente suspira. Também há quem sorria.

Dois frascos de perfume, mais coisa menos coisa, porque lá em casa ainda sobra o cheiro agarrado aos tecidos. Uma mão cheia de gargalhadas, outra mão cheia de lágrimas, temos duas mãos, que mais haveria para agarrar em cada uma delas?

Oitenta e seis mil, quatrocentas e vinte e três canções, mais canção menos canção, e destas oitenta e seis mil e muitas há 3 que podíamos cantar em conjunto. Sem que mais ninguém ouvisse, que eu canto mal que dói.


Mil quatrocentos e 96 caracteres, agora mais uns quantos, e na verdade não há nem uma frase ou palavra que te saiba dizer. Mas há mais dias, e horas, há mais marés cheias de ondas, haverá mais “meios-dias” de lua cheia, frascos de perfume, canções e caracteres. 

E, se calhar, nem serão tão diferentes dos que existiram dentro das quatro mil, trezentas e vinte e oito horas, passadas na mesma margem de dois rios diferentes – o da ilusão e o da fé. 
Quem diria que não eram o mesmo.

quinta-feira, novembro 20, 2014

dizias que era impossível viver no país de deus,
que se podia sim atravessar o gramado de deus em bicicleta e eu fiquei com a ideia de risos misturados com grasnares de aves coloridas,
fiquei com a ideia de que o vento tinha um sabor adocicado,
fiquei com a ideia de que eras sombra feita de sal e que o cercado estava muito mais perto e que o gramado de deus devia ser muito mais extenso e que as bicicletas deviam ser mais lentas e nunca, nunca, te cheguei a dizer adeus.

dizias que havia um sítio onde estava sempre sol, que era só atravessar as nuvens - olha la, sempre sol - e que não seria nunca preciso mais nada alem de saber isto. passaram-se anos até te dizer que tens razão - tens razão - e os meus pais ainda dormem lá atrás, e aqui embaixo há um muçulmano que se prepara para as orações da manhã, daquele lado uma argentina chega a casa embrigada, meias rasgadas, o nascer de uma aurora, e algures ali há um chinês sozinho que aperta melhor a gravata ao espelho e respira fundo outra vez, que se prepara para causar boa impressão, de mãos nos bolsos não vá alguém notar que lhe tremem.

não sei se é o mundo que não chega,
se é o mundo que nos sobra,
nem tampouco sei das cores da tua camisa, das emoções dos teus olhos,
havia um sorriso - acho que havia um sorriso - dentro do lado do aceno. tu dizias adeus, em tom alegre e eu deixei-me só ficar surpreendida por um fim que não antevi e pela leveza do teu aceno. não sei que histórias contam as pedras do outros lugares, não sei que chão pisam as pessoas cujos medos e ansiedades não conheço, nunca te cheguei a dizer adeus mas aprendi a andar de bicicleta devagarinho e com as mãos nos bolsos.




segunda-feira, novembro 17, 2014

demasiado prática, Dona Teresa, demasiado prática...

Dona Teresa tinha a certeza que das estórias românticas que guardamos, sobram mais do que memórias espalmadas em páginas de livros velhos. Mas esse mais, do que é feito?

Dona Teresa sabia que não eram as saudades - essas têm prazo de validade, tempo limite, metem-se-nos primeiro dentro do corpo mas acabam por escorrer para dentro de uma arca qualquer, encontradas por acaso aquando a procura incessante de um telemóvel velho de substituição e – ai o que é isto, ai que giro – sorriso nostálgico e - volta a aventá-las lá para dentro.

Dona Teresa sabia que também não era a tristeza, essa desvanece-se entre um ou outro empurrão de um amigo, um vá tens que vir, vá anda lá, e mais cedo ou mais tarde, com maior ou menor sabor a álcool, já está.

 Dona Teresa tinha a certeza que das estórias, aquilo que realmente nos sobra, são as manias novas, vícios pequenos, tiques e esquisitices, velhos hábitos adotados numa nova existência, de um lado passam para o outro.

- Sabes – dizia Dona Teresa – eu tive uma vez um namorado que não saia de casa sem saber onde estava a estrela polar e… olha, e está ali – e apontava por cima do ombro sem sequer olhar.

- E.. Sabes… - dizia Dona Teresa – o a seguir dizia que as cuecas devem estar na mesma gaveta do que as meias, mas aquelas á frente destas e… bom, e não precisas de ir ver a minha gaveta. E havia aqueloutro, que cada vez que mastigava tinha que mastigar 15 vezes e é por isso que reclamas que como devagar quando estamos a conversar. E o pior – continuava dona Teresa – foi o seguinte, que mesmo depois de termos acabado me veio dizer que guardava as meias com as cuecas, e estas à frente daquelas e que mastigava 15 vezes antes de engolir e que essas coisas o faziam pensar em mim.


- É que sabes… - continuava Dona Teresa – as saudades e a tristeza, as lágrimas e recordações, as memórias e outras histórias, acabam por ir passando. Mas as maniazinhas e esquisitices, essas ficam contigo até já nem te lembrares de onde vieram. Menos romântico do que prático e até ver nunca encontrei ninguém que considerasse isso na escolha de um parceiro. Não é curioso?

quinta-feira, setembro 04, 2014

As coisas que quero depois de ti

23 anos sem ti, 48 anos contigo.
Houve um tempo em que moço bravo feito abria o peito às ideias revolucionárias, mais ou menos revolucionárias - se tiver que ser sincero - mas abraçava as causas - pelo menos até ser hora de jantar, conheceste a minha mãe, sabes que sempre foi chata com as horas de jantar, mesmo depois de homem feito - desfrutava de uma liberdade curiosa de ir ver o mundo. Lembras-te quando queria que nos mudássemos para a França e tu dizias "Mas Manel, e depois como os entendemos? E como arranjo os coentros para fazer açordas, que tu tanto gostas e eu não sei se há coentros na França e a tua mãe está doente e precisa de ti Manel, e agora que o gaiato é pequeno é que queres ir, deixa-o crescer mais um tempo, depois nem fala português nem sabe a que sabem coentros Manel" e sempre gostei do meu nome na tua boca, a forma como dizias "Manel" tinha o carinho dos nossos abraços e não havia tempo nem espaço para abraçar mais nada além de ti e das barrigas que iam crescendo uma depois das outras. 5 filhos, já viste, e 2 até são doutores mas está tudo orientado e todos tem os teus olhos e quando dizem "Pai" também há carinho mas não há os teus olhos a olharem para mim assim, como fazias quando dizias "Hoje não há açorda, não te chega já de pão, pão todos os dias a todas as horas? E vai-te pentear homem, andas sempre despenteado, não te deixei um pente no casão para não andares assim desgrenhado?".

Houve um tempo em que moço bravo abria o peito a sonhar com sítios lá longe, mais longe do que para trás daquele cabeço, até ir ver o mar, e fomos ver o mar os dois, lembras-te, e tu dizias que cheirava estranho e rias descalça com a saia levantada por debaixo do joelho e sempre tiveste uns artelhos lindos, mesmo quando a má circulação não perdoou, mesmo quando se te inchavam as pernas no verão e as artroses te criaram um ritmo novo, e tu dizias "não faz mal Manel, olha para elas que nem roupa trazem, coitadinhas que devem ter frio, com elas ali naquelas coisas tão apertadinhas ninguém me olha os artelhos Manel" e dizias que o som do mar era bonito mas dava vontade de fazer xixi e eu nunca te disse que não há nenhum som mais bonito do que quando te rias e dava vontade de saber todas as histórias engraçadas do mundo para que nunca parasses de te rir.

Houve um tempo em que moço bravo queria ir para a capital, que lá é que há a vida, e fomos à capital e tu vaidosa com um lenço novo ao pescoço e nunca tínhamos vistos tantos carros e as estátuas são muito altas, para que fazem as estátuas tão altas se não dá para as olhar de frente, a da paróquia tem um sorriso triste e um alto estranho numa bochecha e tu dizias que devia ser um abcesso de pedra e eu nunca soube para que pensavas tu sobre aquelas coisas porque as estátuas não tem abcessos nem tristezas, e para que as querias olhar de frente porque desde que pudesse olhar de frente para ti não havia nada mais que eu quisesse ver.

Houve um tempo em que moço bravo queria fazer coisas e fizemos 48 anos de casamento e tu a cortares os alhos, e tu a cortar cebola, e os teus lenços ainda na gaveta e os nossos filhos que aparecem menos com os olhos iguais aos teus, fizeram-se uns belos moços, sabes que sim, mas eu não sei cortar alhos nem cebolas e escondo-lhes as lágrimas na almofada, que estas coisas não são para se amostrar, o que pensariam, e já sei, que tenho 48 anos para recordar e que fomos felizes dizem eles, mas depois de ti não quero isso, depois de ti não quero muito, as coisas que quero depois de ti é que o mundo se esqueça de mim, que o sol não nos entre pela casa adentro e que os corvos me venham buscar pela janela do nosso quarto durante a próxima madrugada em que não estejas a dormir comigo. Daqui a bocadinho.

quarta-feira, setembro 03, 2014

Dona Lena

Dona Lena era financeira e dizia números crescidos - separados com vírgulas do grandes que eram - dizia indicadores,
volumes,
métricas
e pensava sentimentos - separados pela ausência de tempo para os sentir, do forte que eram - pensava sonhos,
ilusões,
esperanças que nem chegava a acalentar no breve escorrer dos dias corridos ou voados - ai, não são voados de sentir o vento na cara, são tipo voados em motores barulhentos e com cheiro a óleos ou cadáveres de pássaros esmigalhados - não sei se me estou a explicar, não tenho tempo para me explicar //

se tinha tempo para olhar uma nuvem, nem a via, por isso gostava de cheiros, não se perde tempo a avaliar cheiros, quando se dá conta deles é porque já foram vistos sem se dar conta disso, é ver sem ter que perder tempo a olhar, é ouvir o que não foi dito, é uma forma de cumplicidade unilateral, secreta, escondida, guardada cá dentro, e

Dona Lena dizia,

Dizia que a felicidade não era isto, mas dizia-o a sorrir em suspiros, dizia coisas demais e sabia-o, mas calar é morrer ou encontrar pelo menos um silêncio que põe a nú todas as incertezas e inseguranças e fragilidades e não há nada mais frágil do que o próprio silêncio, portanto mais vale dizer que a felicidade não é isto, e dizê-lo a sorrir em suspiros, enquanto se corre sem tempo para se explicar o inexplicável, para traduzir o intraduzível, Dona Lena dizia,

Um dia mudo tudo, um dia mudo o mundo para ter tempo para mudar também, um dia deslargo tudo para poder não mudar nunca mais, um dia descalço-me de vez para não poder correr, um dia deixo-me cair de verdade para aprender a voar a sentir o vento na cara.