*sobre umas férias na ilha da culatra*
- história de ficção -
Na ilha da Culatra vive ainda o Ti Manel da Ria, homem conhecido e adorado por todos, não pelos feitos extraordinários que praticou, mas por tudo o que, ao longo de uma vida, aprendeu a ver.
É que o Ti Manel da Ria começou a apanhar amêijoa ainda antes de saber contar até dez, e fez da ria, das marés e da lama o seu sustento e destino. Reformado há alguns anos, a apanha da amêijoa deixou-lhe no corpo uma assinatura que não se apaga: anda encurvado, de mãos atrás das costas, boné descaído e nariz quase a roçar o chão.
Outros há que se poderiam queixar da maleita profissional, mas na ilha da Culatra rapidamente perceberam o valor inestimável do Ti Manel da Ria. Durante muitos anos, quando alguém perdia alguma coisa, ia ter com o Ti Manel.
Uma carteira, um molho de chaves, um anel, um brinco…
“Ti Manel, perdi o meu porta-chaves do Sporting!”
“Raios do gaiato, que não sabe que o Benfica é que é bom.”
Mas nem dois dias depois:
“Olha lá, tá aqui o teu porta-chaves de mau gosto.”
E tudo correu bem até os turistas descobrirem a Culatra.
Para muitos, foi o começar de uma nova era: restaurantes com peixe fresco, outros de massa italiana, cocktails de nomes pomposos, luzes néon e colunas com músicas que nunca tinham soado na ilha.
Enquanto um lado da população prosperava com a nova vaga de modernidade, o Ti Manel rangia entre dentes contra os turistas que, quando encontravam alguma coisa perdida antes dele, gentilmente a punham no cimo de um muro ou em cima de uma mesa, onde qualquer pessoa poderia bater o olho com facilidade, mas que fugia ao olhar de peneira rente ao chão do Ti Manel.
É por isso que o Ti Manel agora vota Chega, enquanto diz que os turistas acabaram com o que era bom na ilha.
E por mais que procure no meio da areia, o Ti Manel ainda não encontrou maneira de voltar a fazer da Culatra aquilo que era.
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