sábado, outubro 23, 2010

...

Uma artista.
Não, uma bailarina.
Pode ser, as bailarinas não são artistas?
Não embirres comigo. Escreve.

"Era uma bailarina que mesmo fora de palcos andava em bicos de pés pela vida..."

Chega lá esse cigarro para lá. Porque é que tens que estar sempre a fumar quando escreves?
Sei lá. Para me concentrar. Deixa-me continuar.

"Tinha um sorriso do tamanho do mundo, um olhar vibrante, daqueles que vê um bocadinho mais fundo e com mais atenção do que os outros..."

Isso não diz nada sobre ela.
Claro que diz.
Não diz nada. E ela não tinha já deixado de dançar?
Voltou. Escreve tu agora.
Não quero, continua lá. E afasta o cigarro.

"Tinha deixado quase todas as suas raízes noutra terra e as que trouxe começavam agora a definhar, passado tanto tempo. Ainda assim, dançava, como último reduto seguro de uma essência que não estava certa de conhecer..."

Isso também não diz.
Claro que diz. Lê lá com atenção.
Tá bem, tanto faz. Continua.
Não sei para onde. Nem ela sabe. Queres ver?

"Às vezes perdia-se nos ritmos das músicas diferentes que encenava. Ou talvez não se perdesse, encontrava-se todos os dias na multiplicidade de gestos que desenhava no ar."


Ahahahaha! Isso foi porque se acabou o cigarro?
Não... a história é que vai a meio e precisa de tempo para acontecer, e eu preciso de tempo para a conhecer.
Estás a pensar no quê?
Não sei. Em que só digo asneiras.

segunda-feira, outubro 18, 2010

A gente habitua-se

A gente habitua-se, desde criança, a dizer "obrigado" e "se faz favor". A não gritar, a ser bem comportado, a dar beijinho ordeiramente depois de nos mandarem, mesmo sem conhecermos aquela cara de lado nenhum. A gente habitua-se, a cumprir as expectativas que nos depositam e que não escolhemos. A gente habitua-se a fazer letra redondinha e a decorar matérias que não percebemos na escola, sem saber para que servem.

A gente habitua-se à ideia de ter que escolher qualquer coisa "para ser" na vida, e escolhemos e continuamos a cumprir as expectativas da nota X no exame Y, do estágio A no sítio B. A gente habitua-se, a passar de estágio para estágio, a viver com menos de 1000 euros no bolso, a sonhar com um contrato, geração rasca, geração à rasca.

A gente habitua-se a estar fechado 10 horas por dia em sítios que não são as nossas casas, com pessoas que nos obrigaram a conhecer, a fazer tarefas que não escolhemos, a ver o sol e o vento passar do lado de fora da janela.

A gente habitua-se a perder o verde das árvores, a não sentir o cheiro de terra molhada, a ver o horizonte largo que acaba na vista do prédio da frente. No trabalho e em casa.

A gente habitua-se às relações que temos, aos amigos que temos, às desilusões que sofremos, "a vida é assim" dizemos, enquanto nos habituamos a que seja outra vez assim.

A gente habitua-se a sair do trabalho e a almoçar em pé e sozinho, no meio de estranhos que evitamos olhar nos olhos, que evitam olhar-nos nos olhos. E a gente habitua-se a sair do trabalho e a irmos para casa, comer qualquer coisa em frente à tv e a sentir o serão passar, para no dia seguinte acordar e espreitar mais uma fila de trânsito, mais uns atrasos, mais o sol a passar na janela.

A gente habitua-se a que o amor se gaste, a gente habitua-se a que as conversas acabem, a gente habitua-se aos tópicos práticos e funcionais e aos silêncios que já não traduzem o conforto e a cumplicidade entre duas pessoas. Significam outra coisa qualquer, mas a gente habitua-se a eles também.

A gente habitua-se à vida e a tudo o que não gostamos na vida. Para não lutarmos por coisas perdidas, porque olhamos à volta e vemos gente habituada, para não nos desgastarmos deixamos que a vida se gaste sem que a gente faça outra coisa nela senão habituarmo-nos.

Terá mesmo que ser assim?




(li um texto parecido com isto em algum sítio, não me lembro onde, não me lembro de quem, sei que não me sai da cabeça há uns dias e acabei por ir escrevendo, parecido, igual, diferente, não sei. não é cópia, não é plágio, também não é ideia original minha, confessadamente.)

terça-feira, outubro 12, 2010

"Your idea of me is fabricated with materials you have borrowed from other people and from yourself. What you think of me depends on what you think of yourself. Perhaps you create your idea of me out of materials you would like to eliminate from your idea of yourself. Perhaps your idea of me is a reflection of what other people think of you. Or perhaps what you think of me is simply what you think I think of you?"

(ou, o eu na construção do tu e vice-versa, ou, uma nota mental de mim para mim.)

segunda-feira, outubro 11, 2010

...

Chegou e trazia as mãos vazias dentro de uns bolsos cheios de nada. Olhou à sua volta e viu gente. Teve vergonha das suas mãos vazias, dos nadas que lhe rebentavam pelas costuras, das palavras ocas com que tentava traduzir os silêncios que a recheavam. Pensou que este não era o seu lugar, teve todas as certezas do mundo que este não era o seu lugar enquanto via à sua volta os movimentos seguros de quem não se sabe repleto de pequenas brisas perfumadas a efémero. Assim de fácil, assim de inexistente, assim de intocável.

Foi ficando, porque foi, por acaso, porque não tinha mais onde ir.

E foi enchendo os seus bolsos de outros nadas de outras pessoas, de outros silêncios e intraduções de outras gentes, de tantos vazios como o seu, cheios de vontade de dar o que não existe.

Aos poucos, quem sabe, isto lhe começa a fazer sentido.

quarta-feira, setembro 29, 2010

Artigo de auto-(des)ajuda

Os livros e artigos de auto-ajuda, auto-espiritualidade, auto-equilíbrio, auto-guias e auto-móveis vieram para ficar. Um verdadeiro sucesso de prateleiras, uma companhia exímia para a almofada cor-de-rosa debroada a renda branca.

Não quero ficar atrás nesta corrente milagrosa que tantas vidas e coraçõezinhos partidos salva. Quero e vou escrever o meu 1º artigo de auto-(des)ajuda. Sotaque de português do Brasil e apelos directos a um "você" para entrar na linguagem certa:


Você quer ser feliz?

A felicidade está ao alcance de qualquer pessoa.
Para ser feliz, você só precisa mentalizar-se que é feliz.
Olhe em sua volta e procure essa felicidade.
Olhe para todo o lado, mesmo para os sítios onde estão as coisas que lhe trazem a infelicidade.
Pode olhar para o sítio onde estão as contas para pagar ou para o saldo negativo do seu cartão. Olhe e sorria, você tem cartão e contas para pagar! Pertence aos 80% da classe média, sua trupe é a maior da sociedade! Você está integrado socialmente!

Olhe também no espelho para a sua cara envelhecida e não tenha medo de suas olheiras cada vez mais marcadas. Você não está ficando velha não, você está é arranjando forma de dizer "hoje não posso ir trabalhar, estou doente" sem que ninguém desconfie que não é verdade. Basta olhar sua cara.

Procure ver o lado bom das coisas... está certo que engordou um pouquinho nestes anos e que seu marido não pega mais em você, mas essa sua barriguinha pronunciada e esse seu pneu balançante demonstram o como você não passa fome nunca. Nem por 10 minutos. Quer maior felicidade do que não passar fome?

Pode parar para pensar no seu marido, está bem, ele não lhe toca há mais de 5 meses mas e daí você já não tem que seguir inventado dores de cabeça que não tem, né? Não mais mentiras dessas, afinal, libertou-se do grande peso da mentira e está mais no caminho de ser feliz!

E seus filhos, são mesmo uma desilusão? Mais uma vez, veja o lado positivo, você só está a conseguir dar-lhes a liberdade de escolha e de identidade que seus pais nunca deram para você, nem hoje em dia, quando ainda a tratam como uma criança.

Viu como é fácil?
Sua vida é feliz, você só tem que enxergar o lado certo!


*Texto escrito por taparuere, feliz desde 2009, palestrante para quem quer escutar desde 2010, sempre ofertando sua sabedoria gratuitamente em ruas, praças e becos.

sábado, setembro 25, 2010

terça-feira, setembro 21, 2010

Jacques Derrida On Love and Being

Para ver o filme, tem que ser no youtube.

Mas isto levanta-me outras questões e penso que há ainda outra hipótese que o senhor não considera. Uma mais egoísta e menos bonita, mas a parte de amarmos alguém por aquilo que esse alguém nos "dá". Não materialmente, mas ainda assim, nos "dá", desde a forma como nos faz sentir à evolução que em nós provoca quando tentamos ser para esse alguém também aquilo que ele precisa...

Ou então não, sei lá.

terça-feira, setembro 14, 2010

beauty isn't in the eye of the beholder. there are international standarts for it.

segunda-feira, setembro 13, 2010

Manual de instruções para aquisição e manuseamento de uma "ralação" amorosa

Antes de adquirir uma "ralação" amorosa, aconselha-se uma exaustiva pesquisa de mercado. Podem e devem ser utilizados vários conhecidos métodos: benchmarketing, recolha de informação directa e indirecta, comparação de opiniões diferentes, consulta de informações oficiais e não-oficiais, pesquisas on e off-line.

Após a escolha do material mais adequado às suas necessidades e competências, terá que proceder à aquisição do mesmo. Para o o conseguir será necessária uma preparação prévia.

Procure zonas de humidade em várias áreas do corpo, tal como debaixo dos braços e elimine-as. Use uma toalha limpa para a sua remoção e proceda cuidadosamente à troca de t-shirt ou camisa por uma nova. Em seguida, diminua a intensidade dos seus odores corporais. Para tal, pressione intensamente o botão situado na parte de cima do seu desodorizante em spray.

Aconselha-se ainda o uso de pastilhas de mentol em todo e qualquer caso, sendo esta uma medida de prevenção genérica sem contra-indicações conhecidas.

Seguidamente, deve proceder ao contacto com a sua futura nova "ralação". Procure o contacto visual, utilizando os seus dispositivos ópticos para se alinharem com os dispositivos ópticos alheios. Ambos os dispositivos devem encontrar-se alinhados, sem qualquer objecto exterior no meio. Precaução: o alinhamento dos dispositivos ópticos deve ser acompanhado por um levantamento cuidadoso das zonas externas dos cantos da boca. Em caso da boca permanecer totalmente imóvel neste passo, considere abortar o plano e recomeçar este manual a partir do seu início.

Se o alinhamento dos dispositivos ópticos, acompanhado pelo levantamento cuidadoso das zonas externas dos cantos da boca tiver sido bem sucedido, haverá a repetição do mesmo por 4 a 5 vezes. Os objectos encontram-se então alinhados e devidamente preparados para o passo seguinte.

Para o passo seguinte será necessária a utilização da energia oral e vocal. Implica uma preparação prévia do instrumento situado na zona interna do pescoço conhecido por "leve tossido". Deste movimento resulta a libertação de alguma expectoração aprisionada na zona interna do pescoço e de uma agradável clarificação do instrumento sonoro voz. Use este instrumento para dirigir algumas palavras sensatas à sua futura "ralação". Não abuse deste instrumento numa primeira fase.

Se tiver recebido um sinal sonoro recíproco, pode proceder para o passo seguinte.

Para o passo seguinte, comece por assegurar-se da sequidão das ferramentas mãos. Limpe-as adequadamente e discretamente na parte superior traseira das suas calças. Repita o movimento as vezes necessárias até ter a certeza de que não sobram humidades. Em seguida, utilize as suas ferramentas mãos para certificar-se do bom estado do material em apreciação. Manusei-o com cuidado: toques discretos na zona braço para começar. Toques superficiais e discretos são um bom começo, procedendo gradualmente a uma apreciação do estado do material mais intensiva.

Quanto mais intensiva se for tornando a apreciação do material, mais perto estará da aquisição da sua futura "ralação". Chegará por ventura o momento em que o material avançará na sua direcção procedendo ao sinal positivo conhecido pela junção de lábios em biquinho. Este movimento indica que pode pousar os seus próprios lábios nesse biquinho.

A partir daqui, o manuseamento da sua nova ralação amorosa é por sua conta e risco, não se responsabilizando este manual por qualquer defeitos de utilização posterior ou anterior.

Em seguida, passe à acção.

sábado, setembro 11, 2010

Disseste-me uma vez que tenho muito boa capacidade de analisar situações e que consigo compreender muito bem as pessoas. Disse-mo mais gente também, em várias maneiras e formas. Compreender as pessoas. Precisava agora de uma definição mais objectiva deste verbo e das suas origens. O que será de facto compreender?
Porque acho que ninguém se compreende totalmente. Ou sequer parcialmente. E no entanto há tentativas de tradução, as pessoas usam palavras, gestos, acções para se traduzirem, para se expressarem, para fazerem compreender o incompreensivel que elas não sabem que são. E não sei se de facto as pessoas se compreendem. Sei que se pensam, se re-definem, que se auto-impõem algumas coisas, que decidem outras, mas compreender-se mesmo... é possivel?

Os corpos são feitos de memórias e talvez de um bocadinho de futuro.

É poético e bonito, mas incompleto. Os corpos são feitos de memórias, de expectativas, de inseguranças e vontades, de músculos activos, de sangue e oxigénio, de normas sociais, impulsos biológicos, de células cujas formas só vimos desenhadas, sinapses químicas e fisicas e talvez, talvez, de alma. Os pensamentos e racíocinios abstractos começam na base física e quimica das nossas mentes que se dizem cinzentas e eu nunca vi um cérebro de ninguém e muito menos ver os pensamentos e desejos que dele nascem ou que ele origina, não sei porque processo. De neurónios e impulsos nervosos.

A linguagem - verbal e quinésica - construção social, feita de signos e significâncias, mensagem, entropia, ruído, codificação do incompreensível, descodificação em tentativa de compreensível.

Estás a ver?

Qual a compreensão possível disto?

É tão eficaz quanto tentar que uma flor e uma pedra se entendam. Ou seria mais fácil que uma flor e uma pedra se entendessem! Porque dá para perceber que sem água a flor fica com o caule amarelo e que com uma chuvada muito forte talvez a pedra seja afastada - talvez a pedra "se afaste". Como se todos os acontecimentos surgissem por vontades e acções que nem uma pedra nem uma flor têm, mas as pessoas têm, todos os dias e isso só dificulta a tentativa de traduzir aquilo que elas nem sabem o que é, o que são.

Qual é a possibilidade de uma pessoa perceber outra?
E portanto, qual a possibilidade de duas pessoas se perceberem??

- vou ali ter um grande ataque de riso, já volto.

sexta-feira, setembro 10, 2010

Nem sempre sei a importância relativa que as coisas devem ter na minha vida. Sei sempre a importância absoluta que têm.

É fácil gozar com frases que começam com "um sorriso..." e acabam em reticências. Mas é tão fácil gozar com elas quanto é fácil olhar em volta de uma mesa quadrada onde está mais gente do que as gentes que deviam caber e sentir-se em paz.

Durante toda a minha vida tive a sorte - ou o azar! - de sentir que tinha vivido um bocadinho mais do que as pessoas que me rodeavam. e não foi pouco, e não é pouco, diga-se.
Até ter tido o azar - ou a sorte, tanto a sorte..! - de sentir que vivi mais diferente do que outras pessoas me mostram as vidas delas. E ter pessoas assim na nossa vida é aumentar o nosso mundo de uma forma exponencialmente potencial.

Olhando para cada uma de vocês - desculpem lá pah - é ver as diferenças que vos unem. E são tantas! Em personalidades tão fortes há duas marcas: 1ª - como é que vocês se aguentam??? 2ª - como é que eu me vou aguentado num "fazer mais ou menos parte?"

seja lá como for, obrigado por enriquecerem a minha vida. Durante 3 anos, claramente, e espero que mais uns 30, pode ser? Ajuda-me a ter os pés assentes na terra. Ainda que vocês me mostrem que a terra onde assento os pés não é nem nunca foi a única terra que existe.



(claro, estou a tentar não ser melodramática)

quarta-feira, setembro 08, 2010

Can you hear it Vicki? I want to say. It ‘s not
words, it’s nothing so coherent as words. It’s
all of us, hoarse with calling, straining in the
darkness to hear something we recognize as
our names.

Cate Kennedy from the story A Pitch Too High for the Human Ear

terça-feira, setembro 07, 2010

Agarra-te ao ar, crava-lhe as unhas, faz do vento tua âncora. Nunca precisaste de rede, nunca tiveste apoio, que imobilidade é esta que agora te amordaça as mãos?

Pensas que antes houve um tempo em que sabias, mas houve-o de facto? Recordas um passado tão longíquo que quase parece outra vida paralela, talvez um filme que tivesses visto há tanto tanto tempo que os pormenores soam desfocados, uma altura de acções... mas e respostas?
havia-as de facto?

Talvez sempre tenha sido assim. Talvez sempre tenha sido nas incertezas que os movimentos se desenharam em redor de pouco mais do que vontades ancoradas no vento. O que tinhas então que agora perdeste? Ou que foi que ganhaste agora que tanto temes perder?

Em alturas de maior lucidez, um sorriso.
Nada disto importa.
Nem as tuas respostas
nem a falta delas
nem o que decides fazer
nem o que não fazes
nem a tua vida
nem nenhum segredo sussurrado
nem nenhuma conversa inacabada
nem nenhum gesto tocado

Como pôde ser? (Foi como foi, deslarga, deslarga, deslarga).

domingo, agosto 29, 2010

...

A melhor canção do mundo soa de dentro das garrafas de vinho vazias. Os cigarros são fumados lentamente, como se deles pudessemos inalar e guardar cá dentro qualquer pedacinho de felicidade. As palavras pretendem traduzir-se em gestos, como se a linguagem da alma perdesse assim menos dos seus significados e das suas significâncias, as distâncias, e as distâncias que se alargam mais e mais que já nem o corpo sabe o que a alma quis sussurrar. Imprecisos e no entanto decididos, os movimentos, só interessa parecer, na decisão, em todas as seguranças. As inseguranças são meninas de tranças que guardam esperanças que a realidade que vêem seja diferente daquilo que lhes parece. Ou que mude de repente sem aviso. De olhos grandes e esbugalhados, expectantes e tristes, cheios de qualquer coisa que se poderia tocar com as pontas dos dedos para sentir a matéria de que é feito. Mas ninguém se atreve. Já não há nada sagrado hoje em dia e ainda assim ninguém se atreve a tentar tocar com as pontas dos dedos na imatéria de que se compõem as emoções. As primas afastadas dos sentimentos. Esses seguram-se e agarram-se até se lhes cravam as unhas para os apertar, até fazer sangue, neles e nos dedos, da força que se faz. desses toda a gente conhece a consistência, tão volátil, tão... inconsistente.

"dos-sonhos" e do resto (ou, conversas sobre outras coisas ao fim-de-semana)

- Deixa-me contar-te os meus sonhos...

-... E nem sabes o que é difícil quando se quer realmente ter alguma coisa sólida e segura, que dure uma vida inteira!

- Deixa-me pegar-te na mão e ficar apenas a sentir os teus dedos nos meus...

- ... Porque hoje em dia, parece que as pessoas já nem sequer estão para isso. Ou não querem ou deixaram de acreditar que é possível, não sei!

- Deixa-me brincar com a ponta dos teus cabelos e fazer rolinhos enquanto os cheiro sem que te apercebas...

- E as coisas acabam ao mínimo problema, sem esforço, as pessoas desistem! Eu quero uma construção, alicercada e com raízes, com problemas e a conseguir lidar com eles. Assim é que se constroem as coisas, com seriedade!

- Deixa-me pousar o mão no teu ombro e ficar na quietude de um momento fora do tempo só por sentir o calor da tua pele na minha mão...

- Não percebo isto, a sério que não. Parece que já ninguém quer mesmo nada sério. Eu quero! Quero apaixonar-me e poder viver uma coisa séria, com uma boa história de amor e que dure uma vida inteira. Tu não queres?

- Quero o meu mundo feito em ti, encontrar-me e perder-me no teu corpo, conhecer as tuas linhas e os teus centímetros, saber-te de cor.

- Vês? Já ninguém quer nada sério e a sério. Por isso é que as coisas também não resultam, ninguém se esforça para construir uma história que dure, nem logo no começo nem depois... Desculpa, disseste alguma coisa?

- Nada. Não disse nada.

sexta-feira, agosto 27, 2010

pensamentos soltos

Às vezes as pessoas metem na cabeça que têm que comprar um carro, ficam obcecadas com a ideia de comprar um carro, planeiam, pesquisam, idealizam, escolhem qual o carro que vão comprar e não se lembram de lembrar que ainda não têm carta.

quarta-feira, agosto 25, 2010

involução

23h45.

3 "miúdas" meio graúdas. Bebemos vinho de (re)nome. Sabemos as gafes que se deram no trabalho - o que não significa que se evitem todas, mas significa que já sabemos quando as demos - à posteriori, redundantemente, claro!

Encomendamos (e pagamos) sushi do bom. E entretemo-nos em conversas daquelas que trazem fios agarrados e tentam deslindar conceitos que não existem, como a verdade última por detrás das verdades aparentes.

Efectivamente, o mundo (o nosso mundo) evolui. Anda, para um lado qualquer, acresce factores e factos e considerações. E daqueles inesperados.

A luta (interior) é mais ou menos a mesma (acho, pelas histórias... mas elas também são condicionadas pela perspectiva em que no momento são contadas, ainda que sejam as mesmas).

Isto é um dado adquirido para quem está "aqui" mas é uma inovação (historicamente/sociologicamente escrevendo - ou falando).

Bolas, lá estou eu outra vez com os parentesis e as divagações que não ajudam em nada mas que por alguma razão considero importante. E não vou tentar descobrir neste texto porque é que considero importante, que é para me conter.

Ou seja... há aqui um bom insight que eu sei qual é mas não me apetece continuar a escreve-lo. implica outro género de amadurecimentos, e nem toda a fruta madura é a melhor. a gente sabe o que acontece à fruta madura, n sabemos? pois.

segunda-feira, agosto 23, 2010

guerras ao nosso redor

Diz-nos a lei de Murphy que "Mesmo o objeto mais inanimado tem movimento suficiente para ficar na sua frente e provocar uma canelada."

Sendo uma grande apreciadora deste tratado murphyano, na verdade não concordo com esta lei, pelo menos desta maneira simplista. Não é verdade que os objectos inanimados têm movimento suficiente para nos atingir de maneiras particularmente dolorosas. A verdade por detrás deste acontecimento frequente é muito mais aterrador e insuspeito.

Sei de fonte segura que há toda uma conspiração entre cadeiras, móveis, mesinhas de cabeceiras, cantos e pés das camas, etc etc etc, para aniquilarem e acabarem com todos os mindinhos do mundo. Não sei onde e quando começou esta guerra, mas sei que os estrategas e generais por trás dela são os insuspeitos tapetes.

Rasteirinhos e praticamente inexistentes naquela que é a percepção humana do espaço (especialmente de manhã ao sair da cama) são os tapetes que sempre levam os nossos mindinhos para perto dos agressivos móveis. Um pequeno "deslize" para que o imperceptível movimento se faça sentir de forma aguda e desesperante no desgraçado mindinho cuja única arma que dispõe é a da sobrevivência, para continuar a ser agredido.

Gostava realmente de saber o que despoletou esta guerra muda da qual os meus dois mindinhos dos pés são vítimas indefesas praticamente todos os dias. Qual foi o mindinho que hostilizou desta maneira um tapete que conseguiu mobilizar não apenas todos os outros tapetes como todos os móveis para a sua causa. Talvez um mindinho com uma unha demasiado comprida que tenha causado um buraco num tapete? Parece-me móbil insuficiente para a agressividade que todas as manhãs sinto. Talvez uma "tapeta" que tenha jurado amor eterno a um qualquer mindinho passageiro, ignorando para sempre o senhor tapete do outro lado da cama? Ou quiçá um mindinho gozão que tenha ofertado pelo natal a um tapete já com mau feitio os resquícios de uma pastilha elástica?

Não sei efectivamente a causa desta guerra muda e absurda da qual os meus mindinhos são vítimas todas as manhãs. Mas sei que ela existe, já me foi confessada por uma banquinha de cabeceira mais vulnerável, quando lhe apertei os cantos tal qual colarinhos e a obriguei a confessar-se. Foi o 7º ataque no mesmo dia e o mindinho roxo e choroso nada dizia. Foi ela que me confessou que a origem é tapetiana e efectivamente é sobre estes soldados que os nossos mindinhos são conduzidos ao seu cruel e agressivo destino.

sexta-feira, agosto 20, 2010

Agendas sem adendas

Durante anos, meses, semanas e dias fui anti-agendas, (des)organizando a minha vida ao sabor dos ventos e dos eventos, sem outras questões além do que me apetecia no momento (e totalmente independente das coisas que me esquecia no tempo). Houve inclusivé uma altura em que o fazia de tal forma sistemática e inesperada que achei por bem assumir que nunca sabia onde ia dormir em todas as noites e portanto andava sempre de saco-cama e pijama na mala do carro. E deu jeito vezes sem conta. Hoje, o saco-cama ainda lá está, o pijama já não, mas o espírito diz que ainda se mantém. As responsabilidades é que não me deixam "esquecer" de tantas coisas.

Portanto, apesar de ainda lá ter o saco-cama, tive que repensar na minha filosofia anti-agendas e render-me à evidência que preciso de uma. Bonitinha e jeitosinha, com os dias mundiais de coisas que eu não sabia que tinham direito a dias mundiais assinalados, sempre na minha mala.

Não a comprei em Janeiro, foi para aí em Março... e demorei para aí 2 meses a perceber que para apontar as coisas nas agendas, significa que elas tem que ser combinadas com antecedência. Não serve atender um telefonema "queres vir cá jantar hoje" às 20h30 e sacar da agenda para escrever. Isto significa que, se quero combinar uma coisa com alguém, tenho que pensá-la para um dia específico e não para "daqui a cadinho". Foram dois meses de treino intensivo para entrar neste novo frame mental. Quando percebi o esquema, agarrei na agenda e marquei rapidamente os meus anos em Abril. Ficou porreiro, dia 27 de Abril, "Anos". E efectivamente não me esqueci que fazia anos dia 27 de Abril.

As outras coisas que ia apontando, também não me esquecia, que as pessoas habituadas à minha falta de memória, lá mandavam sms "então, amanhã ainda se mantém?". E eu feliz, com uma agenda que não me esqueço de preencher quando assim se justifica.

Mais uns meses se passaram e metade do mundo foi-se habituando a que eu tenha agenda e planeie as semanas. O que é porreiro, porque é para isso que ela serve. Mas, como o mundo se foi habituando, as pessoas começaram a deixar de me mandar as tais sms do "então e amanhã, ainda se mantém?". E, na prática, isto trouxe-me um novo problema: é que parece que metade da ciência de uma agenda é anotar as coisas que temos para fazer, mas a outra metade é consultar a agenda para nos relembrarmos do que lá marcámos.

Espero que não demore mais dois meses até me habituar a consultar a agenda de vez em quando, ou então ainda vou faltar a muita coisa que tinha combinado...


Para começar, acho que vou marcar na agenda uma nota para consultar a agenda. Assim como assim, lembrar-me de anotar lá as coisas já consigo...

sábado, agosto 07, 2010

O planeta dos inexperientes

já o disse a duas ou três pessoas, em algum momento, em alguns momentos de conversa.
Dos escritores que gosto - e são vários e diferentes - há um que em particular acrescenta novos pensamentos ao meu pensamento. Milan Kundera, de obra mais conhecida a insustentável leveza do ser (e devia ter sido escrita com maiúsculas e posta entre aspas, deixa lá), de outras obras menos reconhecidas mas igualmente boas, de muitas filosofias e teorias que deixam marcas nas pessoas que não o conhecem.

Tem ele uma teoria acerca do planeta dos inexperientes. Diz o senhor que devia ser este o nome do nosso planeta, que somos inexperientes na vida quando nascemos, mas somos inexperientes nas emoções quando somos adolescentes (e continuamos meio inexperientes nas emoções a vida toda, acrescentaria eu se tivesse alguma legitimidade para lhe acrescentar alguma coisa), que somos inexperientes adultos, a tentar comportarmonos como adultos e velhos inexperientes sem saber que é isto da velhice. E morremos, claro, inexperientes na morte.

A inexperiencia (que leva acento circunflexo num é, apesar de neste post n parecer) causa-nos medos e insegurança. Não sabemos o que dali vem (digo eu prestes a abdicar do til na palavra não, que já me enganei 3 vezes) não sabemos o resultado, não sabemos o que nos espera, temos medo do que possa vir, temos inseguranças na inexperiencia.

E, parece-me a mim, que todos os conflitos e mal-entendidos se devem a esta espécie de miúda, esta insegurança que, desculpem lá, mas cada vez mais acho que existe em toda a gente mas numas gentes melhor escondida do que noutras, e que activa imediatamente uma série de comportamentos defensivos, desconfianças, falta de entrega e por aí fora.

Os meus problemas vem quase todos desta insegurança, dos não saber. Os meus problemas causados por mim e os meus problemas causados pelos outros que habitam o meu mundo.

Quando se pensa isto, quando se acha que "eles" estão a fazer o que fazem por inseguranças inconfessadas, o certo é que tudo ganha novos contornos.

não sei se verdade universal, se verdade pessoal... mas parece-me que vou pensar mais nisto nos próximos tempos.