quarta-feira, junho 30, 2010

A lenda do farol de cáceres

Cáceres é uma cidade com mais histórias do que as que a História conta.

Em Cáceres há vestígios pré-históricos e em várias escavações foram encontradas pinturas de mãos humanas com a particularidade de ter o dedo mindinho amputado. Mas essa não é a nossa história de hoje (poderá ser a de amanhã, talvez).

A lenda que vos quero contar é a do farol de Cáceres, ou melhor, de Norba Caesarina, como se chama no século I a.C., e fazia parte do império romano.

A maior parte das lendas que chegam aos nossos dias, são histórias de amor. Curiosamente, não é o caso desta, já que o farol de Cáceres não foi erguido por motivos tão sentimentais.

Conta-se que em Norba Caesarina (Cáceres) habitava um rapaz novo e forte, que fez fortuna com porcos. Não só os comercializava nos grandes mercados romanos, como ainda tinha a estranha habilidade de os tratar em doenças que os outros romanos achavam já serem uma sentença de morte.

O rapaz, grande conhecedor de porcos e das suas habilidades, possuia vários, de várias raças e feitios. E vivia feliz entre o pastoreio dos porcos, a sua venda e o acolhimento de porcos tão doentes que em qualquer outro sitio morreriam. Ao aumentar a sua fortuna e ao receber porcos doentes que miraculosamente se salvavam, era o maior guardador de porcos da região.

Lidar com porcos tem destas coisas, as trufas e as escavações são frequentes. Então, um dia de manhã ao levantar-se e ao sair de casa para o habitual pastoreio dos seus porcos, o rapaz caiu num grande buraco por eles escavado, mesmo em frente à porta de casa. Ficou irritado com o buraco, mas rapidamente prosseguiu a sua vida e os seus afazeres.

Ao segundo dia, acordou cedinho pela manhã, saiu de casa sorridente e feliz e, esquecendo-se do buraco, voltou a cair nele.
Irritado pensou que tinha que tratar daquele buraco.

Ao terceiro dia espreguiçou-se, tomou o pequeno-almoço e saiu de casa para os seus afazeres. Caiu novamente no buraco.

Pensou, isto não pode voltar a acontecer, e ao quarto dia quando acordou lembrou-se, há um buraco à porta de casa. Não tomou banho, que não era costume dos romanos, mas tomou o seu pequeno-almoço e saiu de casa e voltou a cair no buraco.

Ao quinto dia, depois do pequeno-almoço lembrou-se, há um buraco à porta de casa, há um buraco à porta de casa, há um buraco à porta de casa e enquanto pensava que havia um buraco à porta de sua casa, caiu nele.

Ao sexto dia parou ao sair de casa e repetiu, há um buraco à porta de casa, e olhou para ele e sorriu. "Desta vez estou-te a ver" e um porco guinchou e o rapaz assustou-se e caiu no buraco.

Nessa tarde ao voltar a Cáceres pensou que a melhor maneira de no dia seguinte se aperceber do buraco era construir um farol que o iluminasse. E assim fez, numa tarde construiu um pequeno farol, colocou-lhe uma candeia e foi dormir, seguro que no dia seguinte não cairia no buraco.

Ao sétimo dia olhou para o farol, lembrou-se do buraco, tomou balanço e saltou por cima do buraco. O balanço não foi suficiente e o rapaz caiu novamente nele.

Ao oitavo dia, olhou para o farol, lembrou-se do buraco, tomou balanço e saltou por cima dele. Os pés bem assentes no chão, o buraco atrás e o rapaz tão contente que saltou e saltou de alegria... até cair no buraco.

Ao nono dia, o rapaz olhou para o farol, lembrou-se do buraco, tomou o balanço certo e saltou por cima do buraco. Lembrou-se do dia anterior, deu 3 ou 4 passos para a frente e saltou de alegria porque sabia que jamais voltaria a cair no buraco.

Ao décimo dia o rapaz acordou de manhã e espreguiçou-se, contente com o feito do dia anterior sabia que não cairia de novo no buraco, o farol cumpriu a sua missão. E foi quando se apercebeu que, a partir dali, se calhar era mais sensato sair pela porta da frente em vez de pela porta de trás.

Os anos passaram e o rapaz morreu. O farol foi reedificado muitos anos depois, no mesmo sítio, para nos relembrar que os seres humanos tem capacidade de raciocínio e aprendizagem com os erros, mas mais ou menos.

Aqui fica a história e a imagem do farol de Cáceres, fotografia tirada da sala da minha amiga Fresquinha. Obrigado pelos dias ai.




segunda-feira, maio 24, 2010

nostalgias de um tempo que passa

Há 10 anos atrás vim viver para Lisboa.
Quando fui ao supermercado pela primeira vez sozinha e com dinheiro "meu", fui verdadeiramente feliz. Já não tinha que pedir à minha mãe para me comprar este ou aquele chocolate, ou para levar duas latas de coca-cola, e arriscar-me a ouvir profundos "não, tu precisas é de te alimentar bem". Com tanta prateleira apelativa e todo o dinheiro do mundo disponível (entenda-se 300 euros por ser princípio do mês) dei efectivamente largas aos ímpetos que me assolaram. Comprei portanto uma lata de chantilí e vários frasquinhos de efeites de bolos coloridos e coca-cola. Fui para casa felicíssima, com um saco as 4 ou 5 coisas atrás enumeradas e passei a tarde no sofá a pôr directamente na boca o chantilí, as drageias coloridas e a beber coca-cola.

Hoje fui ao supermercado e tudo o que trouxe poderia ser comprado pela minha mãe. Pão em fatias, que tive a separar, para congelar, presunto, salada, fruta e sei lá que mais.

Suponho que o tempo passa e as pessoas crescem mesmo. Quando estava no sofá lambuzada de chantilí e drageias coloridas não previ que um dia ia ser tão racional e adulta assim, para só comprar coisas "normais".

Se calhar amanhã quando for ao supermercado, acho que vou deixar a menina da caixa intrigada com o sortido escolhido.

quarta-feira, maio 19, 2010

De todos os sonhos possíveis e impossíveis, quantos são os gritos que calam, que calas, quando a noite se põe e te sentes confortável numa ausência de luz que te segreda que tudo poderia ser isto?
Procuras respostas e escondes perguntas, deixando-te encontrar certezas que não existem, permitindo-te encontrar abrigos que caem nas primeiras chuvadas da estação.
Sabendo de todas as indefinições, chamas nomes às coisas e obriga-las a tornarem-se naquilo porque as chamas. Infrutífero, sabe-lo tão bem quanto o que acreditas nas suas impossíveis possibilidades.
Quanto mais será preciso para deixar o teu corpo arder nas chamas pelas que chamas e foges? O que mais será preciso para encontrares uma eufórica paz que te consuma na alegre destruição daquilo que anseias por não seres?

Todos os dias, todas as memórias, confusas. Diferem apenas no sonho do dia que nunca tiveste coragem para concretizar.

segunda-feira, maio 10, 2010

Da vida deles V

- Mas como assim? Uma equipa de quê? - perguntou Jefferson a John, com curiosidade mais do que espanto.
- Então Jefferson, para termos mais impacto, temos que nos organizar de maneira a cobrir todas as frentes, a estarmos preparados e a poder prever o imprevisivel. Desta forma conseguimos uma vantagem aos outros candidatos que não vão estar tão bem preparados. - respondeu John, com os olhos a brilhar com o entusiasmo de quem sabe que teve uma ideia que só pode resultar.
- Então achas que isso vai assegurar mais sucesso?
- Acho Jefferson. Acho que a maioria das pessoas não planeia fracassar, fracassa por não planear. (John L. Beckley)


John L. Beckley 1757-1807
Com o crédito de ter sido o primeiro gestor de campanha política, com parâmetros semelhantes aos modernos, para Thomas Jefferson.

segunda-feira, maio 03, 2010

Lições de humildade ou coisas que aprendi ultimamente e que não quero esquecer:

1º Analisamos todos os comportamentos das pessoas segundo o que achamos que fariamos em igual circunstância. E, no entanto, sabemos que não podemos querer que todas as pessoas sejam iguais a nós. Temos, obrigatoriamente, que aceitar as pessoas como elas são, mesmo quando nos fazem coisas que achamos que jamais lhes fariamos. A única coisa que nos cabe, que podemos fazer é, sabendo o que elas fizeram nessa situação (e que provavelmente voltarão a fazer em idênticas circunstâncias) é decidir "quem" queremos ser para elas.

2º Não se controlam nem manipulam sentimentos, nem os nossos nem alheios. Se não somos donos dos nossos sentimentos (e talvez sejam eles que são donos de nós) como podemos achar injusto que alguém não sinta por nós o que sentimos por essa pessoa? Ou como achamos que podemos "prender" alguém para toda a vida? Tudo o que podemos fazer é tentar alinhar as nossas acções com os sentimentos que queremos que alguém tenha por nós e esperar que resulte, e depois que resulte por um bocadinho, e depois esperar que dure mais um bocadinho e depois outro...

quarta-feira, março 31, 2010

uma estátua qualquer

Mandaram-na erguer no princípio do século XX. De bronze luzidio, impressionou todo um país que se juntou para a inauguração. Forte, intocável, inantigível. Causou sincera admiração nos meses que se seguiram, com propositadas expedições só para a ver, apenas para a admirar. Fizeram-se comparações com o seu nome - saia sempre vencedora - quase se criou um ditado com sua referência.

Depois... depois aconteceu o que costuma acontecer nestas coisas. Tornou-se invisível aos olhos de quem ali passava, por sempre lá estar, algumas vezes incómodo pelo trabalho que dava a limpar e por fim mero depositório de merda de pombos que a usavam para cagar.

No final foi substituída, dos fracos não rezou a história e todas as suas forças não eram mais do que vulneráveis fragilidades. E quem o adivinharia?

"Ninguém, senhora, ninguém."

quarta-feira, março 10, 2010

hum.

Postulado: Escrever é captar um momento e torná-lo relevante.

Exercício tecnológico: Escrever é sistematizar no teclado um determinado acontecimento, eternizando-o na Internet.

Exercício maternal: Escrever é segurar um frágil momento, cuidando-o e desenvolvendo-o para que ele encontre o seu caminho nas vidas de outras pessoas.

Exercício mágico: Escrever é tentar traduzir a magia de um momento, congelando-o num movimento de varinha de condão para que nunca perca a sua beleza.

Exercício psicológico: Escrever é traduzir os impulsos sistémicos, analisando e determinando as suas motivações e consequências, de modo a aprender e evoluir enquanto pessoas.

Exercício simples: escrever é isto.

quinta-feira, fevereiro 25, 2010

Disney

Ah e tal, o mundo cor-de-rosa da Disney, a vida devia ser um conto de fadas como os filmes da Disney...

E suspiram, ansiando por um filme cor-de-rosa da Disney. E nem se apercebem!...

Ah, e gostava de ser uma princesa!... como, por exemplo, a Branca de Neve! Dizem. E nem se apercebem, que a Branca de Neve era uma ameaça sexual para a sua madrasta, que por isso a matou e portanto foi salva por um principe com base na sua única mais valia - uma carinha laroca. E provavelmente ser boazona. Tipo... ele nem falou com ela! Há mais evidente vontade de comer alguém do que nem falar com ela???

E a Cinderella? òptima capacidade de trabalho, completamente explorada pela sua entidade patronal (a madrasta e as irmãs) e no final acaba com um principe que... uhm.. err... a quer comer. Tipo, ya, dançaram uma beca, a seguir ela baza e ele fica com tanta tanta tesão que tem que a encontrar para... a comer. Mais uma vez, era boazona. Podia ter ambição profissional, já que era eficiente. Podia ter delineado todo um programa político e de gestão para o reino, ter-he falado nele, captado o interesse dele quer pela sua cultura geral, quer pela sua visão estratégica. Mas não, ele queria-a comer.



Ah, mas podemos falar na pequena sereia... aí todas as questões são outras. Ela muda a sua aparência fisica e tudo aquilo que é para agradar um homem. Em troca perde a capacidade de falar, e então? Assim como assim, ela não tem nada de jeito para dizer mesmo! Nem precisa porque... o principe só a quer.... comer.

Não quero ser ressabiada, nem femininista, nem nada esquisito... mas... hey! A Disney anda-nos a ensinar que basta um homem querer comer-nos!!

segunda-feira, fevereiro 22, 2010

...

Ela tem hábitos péssimos. Deixa a roupa espalhada pelo chão, todas as manhãs. E todas as noites tira as meias quando já está deitada e empurra-as para o fim da cama, perto da fronteira onde o colchão acaba. Quando se mudam os lençóis à cama, é comum encontrarem-se duas ou três meias perdidas e desemparelhadas.

E estes nem sequer são os seus piores hábitos.

Conheço-a bem, tão bem quanto se pode conhecer alguém. Conheço as suas manias, e tantas que tem! Tem, por exemplo, a mania que há-de conseguir sempre o que quer. Nem sempre consegue, mas por ter essa mania é mais insistente e às vezes até resulta. Quando resulta, diz de sorriso posto que consegue sempre o que quer, mas é mania dela, para o conseguir às vezes. Tenho ideia de que ela tem consciência disto, mas não tenho a certeza.

É assim que ela vai construíndo as suas verdades. Outro exemplo, é quando ela se obriga a querer coisas que não sabe se quer de facto. Mete só na cabeça que as quer, para se obrigar a querê-las e depois para tentar consegui-las. Mais uma vez, não tenho a certeza que ela saiba disso, mas às vezes desconfio que sim.

Não são raras as vezes que carrega nos ombros toda a tristeza do mundo. E isto é que eu não sei porquê. Sei que às vezes trás a tristeza mais triste de todas. Disfarça-a, claro.

Sente-se muitas vezes perdida e é aí que se obriga a querer coisas. É bastante sozinha mas, ao mesmo tempo que procura outros, tenta guardar a sua solidão só para si. Às vezes tento meter conversa com ela, mas nem sempre lhe consigo chegar a sério. Ela não deixa.

sexta-feira, fevereiro 05, 2010

terça-feira, fevereiro 02, 2010

Da vida deles IV

- O teu problema é que exiges demasiado de ti. Não podes ser tão exigente contigo mesmo, às vezes só seguir o primeiro impulso, não pensar demais... sabe bem!...

- Pois sabe, mas a vida não é só feita do que sabe bem e do que não dá muito trabalho... a vida implica tomada de decisões e, se seguires o teu primeiro impulso ou não pensares o suficiente sobre elas, como podes segui-las até ao fim? E se não forem para ser seguidas até ao fim, se não acreditares nelas porque foste tu quem as decidiu, então de que servem? E, no final, quem és tu e que vida vives? Sabes o que dizem... Don't waste your life. No one chooses mediocracy, but many settle for it.
(Unkonwn)

(Arigato Dri)

Da vida deles - III

À entrada do infantário e um aglomerado de crianças impacientes e expectantes, desconcentradas e gritantes, brincalhonas, esquecendo-se por momentos o que as trouxera ali. Ann sentia-se por vezes desfalecer, todos os dias o mesmo esforço de cuidar, atentar, encaminhar, educar... e no dia seguinte parece que se esvaia num grande nada do esquecimento. Tantas vezes parecia que não valia a pena... se calhar podia simplesmente mudar de vida, para qualquer outra coisa mais fácil... Mas sabia que, no final de algum tempo, o seu trabalho ali era importante e podia mudar vidas. Só que no dia-a-dia não parecia que sim!...
Foi quando Ann estava entretida nestes pensamentos que James chegou. Era sua tarefa encaminhá-lo ao infantário e portanto foi ter com ele. Ele vinha sorridente e bem disposto. Ann perguntou-lhe:
- Afinal, como consegue James? Como aparece todos os dias, em todos os infantários, com o mesmo sorriso paciente?

James respondeu-lhe: - The most essential factor is persistence - the determination never to allow your energy or enthusiasm to be dampened by the discouragement that must inevitably come.
James Whitcomb Riley (poeta infantil)

Da vida deles - II

- Não sei Calvin, mas ver-te passar tantas horas aí sentado, insistindo e insistindo nos mesmos pontos, nas mesmas situações, parecendo que não chegas a lado nenhum, não te desilude? - perguntou Grace ao marido, vendo-o de novo, pacientemente, preenchendo relatórios e fazendo contas, para chegar às mesmas soluções que ele já conhecia de cor, já sabia de salteado.

- Grace - respondeu-lhe - Nothing in this world can take the place of persistence. Talent will not; nothing is more common than unsuccessful people with talent. Genius will not; unrewarded genius is almost a proverb. Education will not; the world is full of educated derelicts. Persistence and determination alone are omnipotent."

Calvin Coolidge, 30º presidente dos EUA

Da vida deles: I

Vicent escolhe o ângulo adequado. Pincela daqui, pincela dali... Não tem pressa nem impaciência. Está a pintar girassóis, com que decorará as paredes da sua casa amarela. Theo, o seu irmão mais novo, acha que girassóis são motivos menores e que Vincent se devia dedicar a temas mais ambiciosos, fazer mais coisas, agir mais por impulso, procurar mais emoções, querer mais grandeza!
Vicent sorri e diz-lhe:


"Great things are not done by impulse, but by a series of small things brought together."

Vincent van Gogh

quinta-feira, janeiro 28, 2010

Falar é fácil. O difícil é mostrar.

E nem devia ser, porque era só uma questão de pensar nas coisas e ser coerente. Mas devo ser eu que exijo demais, pedir alguém para mostrar aquilo que diz. Mas era só fazer sentir aquilo que se diz... e voltamos a dois posts abaixo deste.

Não vejo maneira de sair desta cepa torta.

Pelo meio entre fazer um e não fazer o segundo, só se gastam as palavras. E depois só fica o que o Géninho* tão bem diz que fica.



*Géninho para os amigos, Eugénio de Andrade para os outros.

terça-feira, janeiro 26, 2010

É sempre, dos encontros e desencontros, das pontes que não cobrem toda a distância, das mãos que se tentam mas não agarram e dos olhares que dançam juntos sem se largar.

É sempre, das relações, e mais do que isso, das compreensões que permitem duas almas se tocarem.

Geração sobrevivente

Efectivamente, a minha geração que ainda está pelos vintes/trintas, já sobreviveu conscientemente ao vírus do ano 2000 que ia paralisar o mundo;

à gripe das aves que afectou principalmente todos os patos que habitavam os lagos em jardins planeados das cidades grandes;

à doença das vacas loucas;

à doença das ovelhas com língua azul;

aos ataques terroristas,

à gripe suína.

Agora avisam que em 2012 o mundo vai acabar, derivado de uma crença celta ou maia, não sei.

Por mim, venha daí 2012. Oh pa mim a tremer. Not.