Os livros e artigos de auto-ajuda, auto-espiritualidade, auto-equilíbrio, auto-guias e auto-móveis vieram para ficar. Um verdadeiro sucesso de prateleiras, uma companhia exímia para a almofada cor-de-rosa debroada a renda branca.
Não quero ficar atrás nesta corrente milagrosa que tantas vidas e coraçõezinhos partidos salva. Quero e vou escrever o meu 1º artigo de auto-(des)ajuda. Sotaque de português do Brasil e apelos directos a um "você" para entrar na linguagem certa:
Você quer ser feliz?
A felicidade está ao alcance de qualquer pessoa.
Para ser feliz, você só precisa mentalizar-se que é feliz.
Olhe em sua volta e procure essa felicidade.
Olhe para todo o lado, mesmo para os sítios onde estão as coisas que lhe trazem a infelicidade.
Pode olhar para o sítio onde estão as contas para pagar ou para o saldo negativo do seu cartão. Olhe e sorria, você tem cartão e contas para pagar! Pertence aos 80% da classe média, sua trupe é a maior da sociedade! Você está integrado socialmente!
Olhe também no espelho para a sua cara envelhecida e não tenha medo de suas olheiras cada vez mais marcadas. Você não está ficando velha não, você está é arranjando forma de dizer "hoje não posso ir trabalhar, estou doente" sem que ninguém desconfie que não é verdade. Basta olhar sua cara.
Procure ver o lado bom das coisas... está certo que engordou um pouquinho nestes anos e que seu marido não pega mais em você, mas essa sua barriguinha pronunciada e esse seu pneu balançante demonstram o como você não passa fome nunca. Nem por 10 minutos. Quer maior felicidade do que não passar fome?
Pode parar para pensar no seu marido, está bem, ele não lhe toca há mais de 5 meses mas e daí você já não tem que seguir inventado dores de cabeça que não tem, né? Não mais mentiras dessas, afinal, libertou-se do grande peso da mentira e está mais no caminho de ser feliz!
E seus filhos, são mesmo uma desilusão? Mais uma vez, veja o lado positivo, você só está a conseguir dar-lhes a liberdade de escolha e de identidade que seus pais nunca deram para você, nem hoje em dia, quando ainda a tratam como uma criança.
Viu como é fácil?
Sua vida é feliz, você só tem que enxergar o lado certo!
*Texto escrito por taparuere, feliz desde 2009, palestrante para quem quer escutar desde 2010, sempre ofertando sua sabedoria gratuitamente em ruas, praças e becos.
Já fomos, já deixamos de ser, talvez estejamos de volta. Poderá ser o regresso do mito. O mito que nunca o foi.
quarta-feira, setembro 29, 2010
sábado, setembro 25, 2010
e o teu trabalho?
Esquivel from David Hubert on Vimeo.
e o teu trabalho? que música faz soar nas pessoas que são impactadas por ele?
terça-feira, setembro 21, 2010
Jacques Derrida On Love and Being
Para ver o filme, tem que ser no youtube.
Mas isto levanta-me outras questões e penso que há ainda outra hipótese que o senhor não considera. Uma mais egoísta e menos bonita, mas a parte de amarmos alguém por aquilo que esse alguém nos "dá". Não materialmente, mas ainda assim, nos "dá", desde a forma como nos faz sentir à evolução que em nós provoca quando tentamos ser para esse alguém também aquilo que ele precisa...
Ou então não, sei lá.
terça-feira, setembro 14, 2010
segunda-feira, setembro 13, 2010
Manual de instruções para aquisição e manuseamento de uma "ralação" amorosa
Antes de adquirir uma "ralação" amorosa, aconselha-se uma exaustiva pesquisa de mercado. Podem e devem ser utilizados vários conhecidos métodos: benchmarketing, recolha de informação directa e indirecta, comparação de opiniões diferentes, consulta de informações oficiais e não-oficiais, pesquisas on e off-line.
Após a escolha do material mais adequado às suas necessidades e competências, terá que proceder à aquisição do mesmo. Para o o conseguir será necessária uma preparação prévia.
Procure zonas de humidade em várias áreas do corpo, tal como debaixo dos braços e elimine-as. Use uma toalha limpa para a sua remoção e proceda cuidadosamente à troca de t-shirt ou camisa por uma nova. Em seguida, diminua a intensidade dos seus odores corporais. Para tal, pressione intensamente o botão situado na parte de cima do seu desodorizante em spray.
Aconselha-se ainda o uso de pastilhas de mentol em todo e qualquer caso, sendo esta uma medida de prevenção genérica sem contra-indicações conhecidas.
Seguidamente, deve proceder ao contacto com a sua futura nova "ralação". Procure o contacto visual, utilizando os seus dispositivos ópticos para se alinharem com os dispositivos ópticos alheios. Ambos os dispositivos devem encontrar-se alinhados, sem qualquer objecto exterior no meio. Precaução: o alinhamento dos dispositivos ópticos deve ser acompanhado por um levantamento cuidadoso das zonas externas dos cantos da boca. Em caso da boca permanecer totalmente imóvel neste passo, considere abortar o plano e recomeçar este manual a partir do seu início.
Se o alinhamento dos dispositivos ópticos, acompanhado pelo levantamento cuidadoso das zonas externas dos cantos da boca tiver sido bem sucedido, haverá a repetição do mesmo por 4 a 5 vezes. Os objectos encontram-se então alinhados e devidamente preparados para o passo seguinte.
Para o passo seguinte será necessária a utilização da energia oral e vocal. Implica uma preparação prévia do instrumento situado na zona interna do pescoço conhecido por "leve tossido". Deste movimento resulta a libertação de alguma expectoração aprisionada na zona interna do pescoço e de uma agradável clarificação do instrumento sonoro voz. Use este instrumento para dirigir algumas palavras sensatas à sua futura "ralação". Não abuse deste instrumento numa primeira fase.
Se tiver recebido um sinal sonoro recíproco, pode proceder para o passo seguinte.
Para o passo seguinte, comece por assegurar-se da sequidão das ferramentas mãos. Limpe-as adequadamente e discretamente na parte superior traseira das suas calças. Repita o movimento as vezes necessárias até ter a certeza de que não sobram humidades. Em seguida, utilize as suas ferramentas mãos para certificar-se do bom estado do material em apreciação. Manusei-o com cuidado: toques discretos na zona braço para começar. Toques superficiais e discretos são um bom começo, procedendo gradualmente a uma apreciação do estado do material mais intensiva.
Quanto mais intensiva se for tornando a apreciação do material, mais perto estará da aquisição da sua futura "ralação". Chegará por ventura o momento em que o material avançará na sua direcção procedendo ao sinal positivo conhecido pela junção de lábios em biquinho. Este movimento indica que pode pousar os seus próprios lábios nesse biquinho.
A partir daqui, o manuseamento da sua nova ralação amorosa é por sua conta e risco, não se responsabilizando este manual por qualquer defeitos de utilização posterior ou anterior.
Em seguida, passe à acção.
sábado, setembro 11, 2010
Disseste-me uma vez que tenho muito boa capacidade de analisar situações e que consigo compreender muito bem as pessoas. Disse-mo mais gente também, em várias maneiras e formas. Compreender as pessoas. Precisava agora de uma definição mais objectiva deste verbo e das suas origens. O que será de facto compreender?
Porque acho que ninguém se compreende totalmente. Ou sequer parcialmente. E no entanto há tentativas de tradução, as pessoas usam palavras, gestos, acções para se traduzirem, para se expressarem, para fazerem compreender o incompreensivel que elas não sabem que são. E não sei se de facto as pessoas se compreendem. Sei que se pensam, se re-definem, que se auto-impõem algumas coisas, que decidem outras, mas compreender-se mesmo... é possivel?
Os corpos são feitos de memórias e talvez de um bocadinho de futuro.
É poético e bonito, mas incompleto. Os corpos são feitos de memórias, de expectativas, de inseguranças e vontades, de músculos activos, de sangue e oxigénio, de normas sociais, impulsos biológicos, de células cujas formas só vimos desenhadas, sinapses químicas e fisicas e talvez, talvez, de alma. Os pensamentos e racíocinios abstractos começam na base física e quimica das nossas mentes que se dizem cinzentas e eu nunca vi um cérebro de ninguém e muito menos ver os pensamentos e desejos que dele nascem ou que ele origina, não sei porque processo. De neurónios e impulsos nervosos.
A linguagem - verbal e quinésica - construção social, feita de signos e significâncias, mensagem, entropia, ruído, codificação do incompreensível, descodificação em tentativa de compreensível.
Estás a ver?
Qual a compreensão possível disto?
É tão eficaz quanto tentar que uma flor e uma pedra se entendam. Ou seria mais fácil que uma flor e uma pedra se entendessem! Porque dá para perceber que sem água a flor fica com o caule amarelo e que com uma chuvada muito forte talvez a pedra seja afastada - talvez a pedra "se afaste". Como se todos os acontecimentos surgissem por vontades e acções que nem uma pedra nem uma flor têm, mas as pessoas têm, todos os dias e isso só dificulta a tentativa de traduzir aquilo que elas nem sabem o que é, o que são.
Qual é a possibilidade de uma pessoa perceber outra?
E portanto, qual a possibilidade de duas pessoas se perceberem??
- vou ali ter um grande ataque de riso, já volto.
sexta-feira, setembro 10, 2010
Nem sempre sei a importância relativa que as coisas devem ter na minha vida. Sei sempre a importância absoluta que têm.
É fácil gozar com frases que começam com "um sorriso..." e acabam em reticências. Mas é tão fácil gozar com elas quanto é fácil olhar em volta de uma mesa quadrada onde está mais gente do que as gentes que deviam caber e sentir-se em paz.
Durante toda a minha vida tive a sorte - ou o azar! - de sentir que tinha vivido um bocadinho mais do que as pessoas que me rodeavam. e não foi pouco, e não é pouco, diga-se.
Até ter tido o azar - ou a sorte, tanto a sorte..! - de sentir que vivi mais diferente do que outras pessoas me mostram as vidas delas. E ter pessoas assim na nossa vida é aumentar o nosso mundo de uma forma exponencialmente potencial.
Olhando para cada uma de vocês - desculpem lá pah - é ver as diferenças que vos unem. E são tantas! Em personalidades tão fortes há duas marcas: 1ª - como é que vocês se aguentam??? 2ª - como é que eu me vou aguentado num "fazer mais ou menos parte?"
seja lá como for, obrigado por enriquecerem a minha vida. Durante 3 anos, claramente, e espero que mais uns 30, pode ser? Ajuda-me a ter os pés assentes na terra. Ainda que vocês me mostrem que a terra onde assento os pés não é nem nunca foi a única terra que existe.
(claro, estou a tentar não ser melodramática)
quarta-feira, setembro 08, 2010
terça-feira, setembro 07, 2010
Agarra-te ao ar, crava-lhe as unhas, faz do vento tua âncora. Nunca precisaste de rede, nunca tiveste apoio, que imobilidade é esta que agora te amordaça as mãos?
Pensas que antes houve um tempo em que sabias, mas houve-o de facto? Recordas um passado tão longíquo que quase parece outra vida paralela, talvez um filme que tivesses visto há tanto tanto tempo que os pormenores soam desfocados, uma altura de acções... mas e respostas?
havia-as de facto?
Talvez sempre tenha sido assim. Talvez sempre tenha sido nas incertezas que os movimentos se desenharam em redor de pouco mais do que vontades ancoradas no vento. O que tinhas então que agora perdeste? Ou que foi que ganhaste agora que tanto temes perder?
Em alturas de maior lucidez, um sorriso.
Nada disto importa.
Nem as tuas respostas
nem a falta delas
nem o que decides fazer
nem o que não fazes
nem a tua vida
nem nenhum segredo sussurrado
nem nenhuma conversa inacabada
nem nenhum gesto tocado
Como pôde ser? (Foi como foi, deslarga, deslarga, deslarga).
Pensas que antes houve um tempo em que sabias, mas houve-o de facto? Recordas um passado tão longíquo que quase parece outra vida paralela, talvez um filme que tivesses visto há tanto tanto tempo que os pormenores soam desfocados, uma altura de acções... mas e respostas?
havia-as de facto?
Talvez sempre tenha sido assim. Talvez sempre tenha sido nas incertezas que os movimentos se desenharam em redor de pouco mais do que vontades ancoradas no vento. O que tinhas então que agora perdeste? Ou que foi que ganhaste agora que tanto temes perder?
Em alturas de maior lucidez, um sorriso.
Nada disto importa.
Nem as tuas respostas
nem a falta delas
nem o que decides fazer
nem o que não fazes
nem a tua vida
nem nenhum segredo sussurrado
nem nenhuma conversa inacabada
nem nenhum gesto tocado
Como pôde ser? (Foi como foi, deslarga, deslarga, deslarga).
domingo, agosto 29, 2010
...
A melhor canção do mundo soa de dentro das garrafas de vinho vazias. Os cigarros são fumados lentamente, como se deles pudessemos inalar e guardar cá dentro qualquer pedacinho de felicidade. As palavras pretendem traduzir-se em gestos, como se a linguagem da alma perdesse assim menos dos seus significados e das suas significâncias, as distâncias, e as distâncias que se alargam mais e mais que já nem o corpo sabe o que a alma quis sussurrar. Imprecisos e no entanto decididos, os movimentos, só interessa parecer, na decisão, em todas as seguranças. As inseguranças são meninas de tranças que guardam esperanças que a realidade que vêem seja diferente daquilo que lhes parece. Ou que mude de repente sem aviso. De olhos grandes e esbugalhados, expectantes e tristes, cheios de qualquer coisa que se poderia tocar com as pontas dos dedos para sentir a matéria de que é feito. Mas ninguém se atreve. Já não há nada sagrado hoje em dia e ainda assim ninguém se atreve a tentar tocar com as pontas dos dedos na imatéria de que se compõem as emoções. As primas afastadas dos sentimentos. Esses seguram-se e agarram-se até se lhes cravam as unhas para os apertar, até fazer sangue, neles e nos dedos, da força que se faz. desses toda a gente conhece a consistência, tão volátil, tão... inconsistente.
"dos-sonhos" e do resto (ou, conversas sobre outras coisas ao fim-de-semana)
- Deixa-me contar-te os meus sonhos...
-... E nem sabes o que é difícil quando se quer realmente ter alguma coisa sólida e segura, que dure uma vida inteira!
- Deixa-me pegar-te na mão e ficar apenas a sentir os teus dedos nos meus...
- ... Porque hoje em dia, parece que as pessoas já nem sequer estão para isso. Ou não querem ou deixaram de acreditar que é possível, não sei!
- Deixa-me brincar com a ponta dos teus cabelos e fazer rolinhos enquanto os cheiro sem que te apercebas...
- E as coisas acabam ao mínimo problema, sem esforço, as pessoas desistem! Eu quero uma construção, alicercada e com raízes, com problemas e a conseguir lidar com eles. Assim é que se constroem as coisas, com seriedade!
- Deixa-me pousar o mão no teu ombro e ficar na quietude de um momento fora do tempo só por sentir o calor da tua pele na minha mão...
- Não percebo isto, a sério que não. Parece que já ninguém quer mesmo nada sério. Eu quero! Quero apaixonar-me e poder viver uma coisa séria, com uma boa história de amor e que dure uma vida inteira. Tu não queres?
- Quero o meu mundo feito em ti, encontrar-me e perder-me no teu corpo, conhecer as tuas linhas e os teus centímetros, saber-te de cor.
- Vês? Já ninguém quer nada sério e a sério. Por isso é que as coisas também não resultam, ninguém se esforça para construir uma história que dure, nem logo no começo nem depois... Desculpa, disseste alguma coisa?
- Nada. Não disse nada.
sexta-feira, agosto 27, 2010
pensamentos soltos
Às vezes as pessoas metem na cabeça que têm que comprar um carro, ficam obcecadas com a ideia de comprar um carro, planeiam, pesquisam, idealizam, escolhem qual o carro que vão comprar e não se lembram de lembrar que ainda não têm carta.
quarta-feira, agosto 25, 2010
involução
23h45.
3 "miúdas" meio graúdas. Bebemos vinho de (re)nome. Sabemos as gafes que se deram no trabalho - o que não significa que se evitem todas, mas significa que já sabemos quando as demos - à posteriori, redundantemente, claro!
Encomendamos (e pagamos) sushi do bom. E entretemo-nos em conversas daquelas que trazem fios agarrados e tentam deslindar conceitos que não existem, como a verdade última por detrás das verdades aparentes.
Efectivamente, o mundo (o nosso mundo) evolui. Anda, para um lado qualquer, acresce factores e factos e considerações. E daqueles inesperados.
A luta (interior) é mais ou menos a mesma (acho, pelas histórias... mas elas também são condicionadas pela perspectiva em que no momento são contadas, ainda que sejam as mesmas).
Isto é um dado adquirido para quem está "aqui" mas é uma inovação (historicamente/sociologicamente escrevendo - ou falando).
Bolas, lá estou eu outra vez com os parentesis e as divagações que não ajudam em nada mas que por alguma razão considero importante. E não vou tentar descobrir neste texto porque é que considero importante, que é para me conter.
Ou seja... há aqui um bom insight que eu sei qual é mas não me apetece continuar a escreve-lo. implica outro género de amadurecimentos, e nem toda a fruta madura é a melhor. a gente sabe o que acontece à fruta madura, n sabemos? pois.
segunda-feira, agosto 23, 2010
guerras ao nosso redor
Diz-nos a lei de Murphy que "Mesmo o objeto mais inanimado tem movimento suficiente para ficar na sua frente e provocar uma canelada."
Sendo uma grande apreciadora deste tratado murphyano, na verdade não concordo com esta lei, pelo menos desta maneira simplista. Não é verdade que os objectos inanimados têm movimento suficiente para nos atingir de maneiras particularmente dolorosas. A verdade por detrás deste acontecimento frequente é muito mais aterrador e insuspeito.
Sei de fonte segura que há toda uma conspiração entre cadeiras, móveis, mesinhas de cabeceiras, cantos e pés das camas, etc etc etc, para aniquilarem e acabarem com todos os mindinhos do mundo. Não sei onde e quando começou esta guerra, mas sei que os estrategas e generais por trás dela são os insuspeitos tapetes.
Rasteirinhos e praticamente inexistentes naquela que é a percepção humana do espaço (especialmente de manhã ao sair da cama) são os tapetes que sempre levam os nossos mindinhos para perto dos agressivos móveis. Um pequeno "deslize" para que o imperceptível movimento se faça sentir de forma aguda e desesperante no desgraçado mindinho cuja única arma que dispõe é a da sobrevivência, para continuar a ser agredido.
Gostava realmente de saber o que despoletou esta guerra muda da qual os meus dois mindinhos dos pés são vítimas indefesas praticamente todos os dias. Qual foi o mindinho que hostilizou desta maneira um tapete que conseguiu mobilizar não apenas todos os outros tapetes como todos os móveis para a sua causa. Talvez um mindinho com uma unha demasiado comprida que tenha causado um buraco num tapete? Parece-me móbil insuficiente para a agressividade que todas as manhãs sinto. Talvez uma "tapeta" que tenha jurado amor eterno a um qualquer mindinho passageiro, ignorando para sempre o senhor tapete do outro lado da cama? Ou quiçá um mindinho gozão que tenha ofertado pelo natal a um tapete já com mau feitio os resquícios de uma pastilha elástica?
Não sei efectivamente a causa desta guerra muda e absurda da qual os meus mindinhos são vítimas todas as manhãs. Mas sei que ela existe, já me foi confessada por uma banquinha de cabeceira mais vulnerável, quando lhe apertei os cantos tal qual colarinhos e a obriguei a confessar-se. Foi o 7º ataque no mesmo dia e o mindinho roxo e choroso nada dizia. Foi ela que me confessou que a origem é tapetiana e efectivamente é sobre estes soldados que os nossos mindinhos são conduzidos ao seu cruel e agressivo destino.
Sendo uma grande apreciadora deste tratado murphyano, na verdade não concordo com esta lei, pelo menos desta maneira simplista. Não é verdade que os objectos inanimados têm movimento suficiente para nos atingir de maneiras particularmente dolorosas. A verdade por detrás deste acontecimento frequente é muito mais aterrador e insuspeito.
Sei de fonte segura que há toda uma conspiração entre cadeiras, móveis, mesinhas de cabeceiras, cantos e pés das camas, etc etc etc, para aniquilarem e acabarem com todos os mindinhos do mundo. Não sei onde e quando começou esta guerra, mas sei que os estrategas e generais por trás dela são os insuspeitos tapetes.
Rasteirinhos e praticamente inexistentes naquela que é a percepção humana do espaço (especialmente de manhã ao sair da cama) são os tapetes que sempre levam os nossos mindinhos para perto dos agressivos móveis. Um pequeno "deslize" para que o imperceptível movimento se faça sentir de forma aguda e desesperante no desgraçado mindinho cuja única arma que dispõe é a da sobrevivência, para continuar a ser agredido.
Gostava realmente de saber o que despoletou esta guerra muda da qual os meus dois mindinhos dos pés são vítimas indefesas praticamente todos os dias. Qual foi o mindinho que hostilizou desta maneira um tapete que conseguiu mobilizar não apenas todos os outros tapetes como todos os móveis para a sua causa. Talvez um mindinho com uma unha demasiado comprida que tenha causado um buraco num tapete? Parece-me móbil insuficiente para a agressividade que todas as manhãs sinto. Talvez uma "tapeta" que tenha jurado amor eterno a um qualquer mindinho passageiro, ignorando para sempre o senhor tapete do outro lado da cama? Ou quiçá um mindinho gozão que tenha ofertado pelo natal a um tapete já com mau feitio os resquícios de uma pastilha elástica?
Não sei efectivamente a causa desta guerra muda e absurda da qual os meus mindinhos são vítimas todas as manhãs. Mas sei que ela existe, já me foi confessada por uma banquinha de cabeceira mais vulnerável, quando lhe apertei os cantos tal qual colarinhos e a obriguei a confessar-se. Foi o 7º ataque no mesmo dia e o mindinho roxo e choroso nada dizia. Foi ela que me confessou que a origem é tapetiana e efectivamente é sobre estes soldados que os nossos mindinhos são conduzidos ao seu cruel e agressivo destino.
sexta-feira, agosto 20, 2010
Agendas sem adendas
Durante anos, meses, semanas e dias fui anti-agendas, (des)organizando a minha vida ao sabor dos ventos e dos eventos, sem outras questões além do que me apetecia no momento (e totalmente independente das coisas que me esquecia no tempo). Houve inclusivé uma altura em que o fazia de tal forma sistemática e inesperada que achei por bem assumir que nunca sabia onde ia dormir em todas as noites e portanto andava sempre de saco-cama e pijama na mala do carro. E deu jeito vezes sem conta. Hoje, o saco-cama ainda lá está, o pijama já não, mas o espírito diz que ainda se mantém. As responsabilidades é que não me deixam "esquecer" de tantas coisas.
Portanto, apesar de ainda lá ter o saco-cama, tive que repensar na minha filosofia anti-agendas e render-me à evidência que preciso de uma. Bonitinha e jeitosinha, com os dias mundiais de coisas que eu não sabia que tinham direito a dias mundiais assinalados, sempre na minha mala.
Não a comprei em Janeiro, foi para aí em Março... e demorei para aí 2 meses a perceber que para apontar as coisas nas agendas, significa que elas tem que ser combinadas com antecedência. Não serve atender um telefonema "queres vir cá jantar hoje" às 20h30 e sacar da agenda para escrever. Isto significa que, se quero combinar uma coisa com alguém, tenho que pensá-la para um dia específico e não para "daqui a cadinho". Foram dois meses de treino intensivo para entrar neste novo frame mental. Quando percebi o esquema, agarrei na agenda e marquei rapidamente os meus anos em Abril. Ficou porreiro, dia 27 de Abril, "Anos". E efectivamente não me esqueci que fazia anos dia 27 de Abril.
As outras coisas que ia apontando, também não me esquecia, que as pessoas habituadas à minha falta de memória, lá mandavam sms "então, amanhã ainda se mantém?". E eu feliz, com uma agenda que não me esqueço de preencher quando assim se justifica.
Mais uns meses se passaram e metade do mundo foi-se habituando a que eu tenha agenda e planeie as semanas. O que é porreiro, porque é para isso que ela serve. Mas, como o mundo se foi habituando, as pessoas começaram a deixar de me mandar as tais sms do "então e amanhã, ainda se mantém?". E, na prática, isto trouxe-me um novo problema: é que parece que metade da ciência de uma agenda é anotar as coisas que temos para fazer, mas a outra metade é consultar a agenda para nos relembrarmos do que lá marcámos.
Espero que não demore mais dois meses até me habituar a consultar a agenda de vez em quando, ou então ainda vou faltar a muita coisa que tinha combinado...
Para começar, acho que vou marcar na agenda uma nota para consultar a agenda. Assim como assim, lembrar-me de anotar lá as coisas já consigo...
Portanto, apesar de ainda lá ter o saco-cama, tive que repensar na minha filosofia anti-agendas e render-me à evidência que preciso de uma. Bonitinha e jeitosinha, com os dias mundiais de coisas que eu não sabia que tinham direito a dias mundiais assinalados, sempre na minha mala.
Não a comprei em Janeiro, foi para aí em Março... e demorei para aí 2 meses a perceber que para apontar as coisas nas agendas, significa que elas tem que ser combinadas com antecedência. Não serve atender um telefonema "queres vir cá jantar hoje" às 20h30 e sacar da agenda para escrever. Isto significa que, se quero combinar uma coisa com alguém, tenho que pensá-la para um dia específico e não para "daqui a cadinho". Foram dois meses de treino intensivo para entrar neste novo frame mental. Quando percebi o esquema, agarrei na agenda e marquei rapidamente os meus anos em Abril. Ficou porreiro, dia 27 de Abril, "Anos". E efectivamente não me esqueci que fazia anos dia 27 de Abril.
As outras coisas que ia apontando, também não me esquecia, que as pessoas habituadas à minha falta de memória, lá mandavam sms "então, amanhã ainda se mantém?". E eu feliz, com uma agenda que não me esqueço de preencher quando assim se justifica.
Mais uns meses se passaram e metade do mundo foi-se habituando a que eu tenha agenda e planeie as semanas. O que é porreiro, porque é para isso que ela serve. Mas, como o mundo se foi habituando, as pessoas começaram a deixar de me mandar as tais sms do "então e amanhã, ainda se mantém?". E, na prática, isto trouxe-me um novo problema: é que parece que metade da ciência de uma agenda é anotar as coisas que temos para fazer, mas a outra metade é consultar a agenda para nos relembrarmos do que lá marcámos.
Espero que não demore mais dois meses até me habituar a consultar a agenda de vez em quando, ou então ainda vou faltar a muita coisa que tinha combinado...
Para começar, acho que vou marcar na agenda uma nota para consultar a agenda. Assim como assim, lembrar-me de anotar lá as coisas já consigo...
sábado, agosto 07, 2010
O planeta dos inexperientes
já o disse a duas ou três pessoas, em algum momento, em alguns momentos de conversa.
Dos escritores que gosto - e são vários e diferentes - há um que em particular acrescenta novos pensamentos ao meu pensamento. Milan Kundera, de obra mais conhecida a insustentável leveza do ser (e devia ter sido escrita com maiúsculas e posta entre aspas, deixa lá), de outras obras menos reconhecidas mas igualmente boas, de muitas filosofias e teorias que deixam marcas nas pessoas que não o conhecem.
Tem ele uma teoria acerca do planeta dos inexperientes. Diz o senhor que devia ser este o nome do nosso planeta, que somos inexperientes na vida quando nascemos, mas somos inexperientes nas emoções quando somos adolescentes (e continuamos meio inexperientes nas emoções a vida toda, acrescentaria eu se tivesse alguma legitimidade para lhe acrescentar alguma coisa), que somos inexperientes adultos, a tentar comportarmonos como adultos e velhos inexperientes sem saber que é isto da velhice. E morremos, claro, inexperientes na morte.
A inexperiencia (que leva acento circunflexo num é, apesar de neste post n parecer) causa-nos medos e insegurança. Não sabemos o que dali vem (digo eu prestes a abdicar do til na palavra não, que já me enganei 3 vezes) não sabemos o resultado, não sabemos o que nos espera, temos medo do que possa vir, temos inseguranças na inexperiencia.
E, parece-me a mim, que todos os conflitos e mal-entendidos se devem a esta espécie de miúda, esta insegurança que, desculpem lá, mas cada vez mais acho que existe em toda a gente mas numas gentes melhor escondida do que noutras, e que activa imediatamente uma série de comportamentos defensivos, desconfianças, falta de entrega e por aí fora.
Os meus problemas vem quase todos desta insegurança, dos não saber. Os meus problemas causados por mim e os meus problemas causados pelos outros que habitam o meu mundo.
Quando se pensa isto, quando se acha que "eles" estão a fazer o que fazem por inseguranças inconfessadas, o certo é que tudo ganha novos contornos.
não sei se verdade universal, se verdade pessoal... mas parece-me que vou pensar mais nisto nos próximos tempos.
sexta-feira, julho 23, 2010
untitled document
Andava descalça pela rua crua, sem sentir o frio que lhe subia pelas pernas acima, sem se dar conta das plantas do caminho misturadas com as plantas dos pés, seiva com sangue, sangue com seiva e a poeira encrustada na estrada, encostada no corpo.
Andava descalça pela rua, mas não era como se fugisse de alguma coisa ou como se voltasse a sítio nenhum. Os passos certos e o destino incerto, andava para não se abandonar e no entanto há tanto que ela já não morava em si.
As pessoas que passaram apressadas fingiram que não a viram, ou talvez não a tenham visto mesmo e ninguém a interpelou nem perguntou para onde ia.
Andava descalça pela rua e foi assim que passou, como se não tivesse de facto passado mas tendo deixado no chão as marcas de um sangue misturado que tornou a rua diferente... por uns dias.
Depois? Depois ninguém sabe que lhe passou, para onde foi ou que fez. Ninguém lhe perguntou, ninguém se perguntou e o mundo continuou igual.
domingo, julho 04, 2010
Momento cultural do dia
Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão realque o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura
Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
Mario Cesariny
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão realque o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura
Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
Mario Cesariny
quarta-feira, junho 30, 2010
A lenda do farol de cáceres
Cáceres é uma cidade com mais histórias do que as que a História conta.
Em Cáceres há vestígios pré-históricos e em várias escavações foram encontradas pinturas de mãos humanas com a particularidade de ter o dedo mindinho amputado. Mas essa não é a nossa história de hoje (poderá ser a de amanhã, talvez).
A lenda que vos quero contar é a do farol de Cáceres, ou melhor, de Norba Caesarina, como se chama no século I a.C., e fazia parte do império romano.
A maior parte das lendas que chegam aos nossos dias, são histórias de amor. Curiosamente, não é o caso desta, já que o farol de Cáceres não foi erguido por motivos tão sentimentais.
Conta-se que em Norba Caesarina (Cáceres) habitava um rapaz novo e forte, que fez fortuna com porcos. Não só os comercializava nos grandes mercados romanos, como ainda tinha a estranha habilidade de os tratar em doenças que os outros romanos achavam já serem uma sentença de morte.
O rapaz, grande conhecedor de porcos e das suas habilidades, possuia vários, de várias raças e feitios. E vivia feliz entre o pastoreio dos porcos, a sua venda e o acolhimento de porcos tão doentes que em qualquer outro sitio morreriam. Ao aumentar a sua fortuna e ao receber porcos doentes que miraculosamente se salvavam, era o maior guardador de porcos da região.
Lidar com porcos tem destas coisas, as trufas e as escavações são frequentes. Então, um dia de manhã ao levantar-se e ao sair de casa para o habitual pastoreio dos seus porcos, o rapaz caiu num grande buraco por eles escavado, mesmo em frente à porta de casa. Ficou irritado com o buraco, mas rapidamente prosseguiu a sua vida e os seus afazeres.
Ao segundo dia, acordou cedinho pela manhã, saiu de casa sorridente e feliz e, esquecendo-se do buraco, voltou a cair nele.
Irritado pensou que tinha que tratar daquele buraco.
Ao terceiro dia espreguiçou-se, tomou o pequeno-almoço e saiu de casa para os seus afazeres. Caiu novamente no buraco.
Pensou, isto não pode voltar a acontecer, e ao quarto dia quando acordou lembrou-se, há um buraco à porta de casa. Não tomou banho, que não era costume dos romanos, mas tomou o seu pequeno-almoço e saiu de casa e voltou a cair no buraco.
Ao quinto dia, depois do pequeno-almoço lembrou-se, há um buraco à porta de casa, há um buraco à porta de casa, há um buraco à porta de casa e enquanto pensava que havia um buraco à porta de sua casa, caiu nele.
Ao sexto dia parou ao sair de casa e repetiu, há um buraco à porta de casa, e olhou para ele e sorriu. "Desta vez estou-te a ver" e um porco guinchou e o rapaz assustou-se e caiu no buraco.
Nessa tarde ao voltar a Cáceres pensou que a melhor maneira de no dia seguinte se aperceber do buraco era construir um farol que o iluminasse. E assim fez, numa tarde construiu um pequeno farol, colocou-lhe uma candeia e foi dormir, seguro que no dia seguinte não cairia no buraco.
Ao sétimo dia olhou para o farol, lembrou-se do buraco, tomou balanço e saltou por cima do buraco. O balanço não foi suficiente e o rapaz caiu novamente nele.
Ao oitavo dia, olhou para o farol, lembrou-se do buraco, tomou balanço e saltou por cima dele. Os pés bem assentes no chão, o buraco atrás e o rapaz tão contente que saltou e saltou de alegria... até cair no buraco.
Ao nono dia, o rapaz olhou para o farol, lembrou-se do buraco, tomou o balanço certo e saltou por cima do buraco. Lembrou-se do dia anterior, deu 3 ou 4 passos para a frente e saltou de alegria porque sabia que jamais voltaria a cair no buraco.
Ao décimo dia o rapaz acordou de manhã e espreguiçou-se, contente com o feito do dia anterior sabia que não cairia de novo no buraco, o farol cumpriu a sua missão. E foi quando se apercebeu que, a partir dali, se calhar era mais sensato sair pela porta da frente em vez de pela porta de trás.
Os anos passaram e o rapaz morreu. O farol foi reedificado muitos anos depois, no mesmo sítio, para nos relembrar que os seres humanos tem capacidade de raciocínio e aprendizagem com os erros, mas mais ou menos.
Aqui fica a história e a imagem do farol de Cáceres, fotografia tirada da sala da minha amiga Fresquinha. Obrigado pelos dias ai.
Em Cáceres há vestígios pré-históricos e em várias escavações foram encontradas pinturas de mãos humanas com a particularidade de ter o dedo mindinho amputado. Mas essa não é a nossa história de hoje (poderá ser a de amanhã, talvez).
A lenda que vos quero contar é a do farol de Cáceres, ou melhor, de Norba Caesarina, como se chama no século I a.C., e fazia parte do império romano.
A maior parte das lendas que chegam aos nossos dias, são histórias de amor. Curiosamente, não é o caso desta, já que o farol de Cáceres não foi erguido por motivos tão sentimentais.
Conta-se que em Norba Caesarina (Cáceres) habitava um rapaz novo e forte, que fez fortuna com porcos. Não só os comercializava nos grandes mercados romanos, como ainda tinha a estranha habilidade de os tratar em doenças que os outros romanos achavam já serem uma sentença de morte.
O rapaz, grande conhecedor de porcos e das suas habilidades, possuia vários, de várias raças e feitios. E vivia feliz entre o pastoreio dos porcos, a sua venda e o acolhimento de porcos tão doentes que em qualquer outro sitio morreriam. Ao aumentar a sua fortuna e ao receber porcos doentes que miraculosamente se salvavam, era o maior guardador de porcos da região.
Lidar com porcos tem destas coisas, as trufas e as escavações são frequentes. Então, um dia de manhã ao levantar-se e ao sair de casa para o habitual pastoreio dos seus porcos, o rapaz caiu num grande buraco por eles escavado, mesmo em frente à porta de casa. Ficou irritado com o buraco, mas rapidamente prosseguiu a sua vida e os seus afazeres.
Ao segundo dia, acordou cedinho pela manhã, saiu de casa sorridente e feliz e, esquecendo-se do buraco, voltou a cair nele.
Irritado pensou que tinha que tratar daquele buraco.
Ao terceiro dia espreguiçou-se, tomou o pequeno-almoço e saiu de casa para os seus afazeres. Caiu novamente no buraco.
Pensou, isto não pode voltar a acontecer, e ao quarto dia quando acordou lembrou-se, há um buraco à porta de casa. Não tomou banho, que não era costume dos romanos, mas tomou o seu pequeno-almoço e saiu de casa e voltou a cair no buraco.
Ao quinto dia, depois do pequeno-almoço lembrou-se, há um buraco à porta de casa, há um buraco à porta de casa, há um buraco à porta de casa e enquanto pensava que havia um buraco à porta de sua casa, caiu nele.
Ao sexto dia parou ao sair de casa e repetiu, há um buraco à porta de casa, e olhou para ele e sorriu. "Desta vez estou-te a ver" e um porco guinchou e o rapaz assustou-se e caiu no buraco.
Nessa tarde ao voltar a Cáceres pensou que a melhor maneira de no dia seguinte se aperceber do buraco era construir um farol que o iluminasse. E assim fez, numa tarde construiu um pequeno farol, colocou-lhe uma candeia e foi dormir, seguro que no dia seguinte não cairia no buraco.
Ao sétimo dia olhou para o farol, lembrou-se do buraco, tomou balanço e saltou por cima do buraco. O balanço não foi suficiente e o rapaz caiu novamente nele.
Ao oitavo dia, olhou para o farol, lembrou-se do buraco, tomou balanço e saltou por cima dele. Os pés bem assentes no chão, o buraco atrás e o rapaz tão contente que saltou e saltou de alegria... até cair no buraco.
Ao nono dia, o rapaz olhou para o farol, lembrou-se do buraco, tomou o balanço certo e saltou por cima do buraco. Lembrou-se do dia anterior, deu 3 ou 4 passos para a frente e saltou de alegria porque sabia que jamais voltaria a cair no buraco.
Ao décimo dia o rapaz acordou de manhã e espreguiçou-se, contente com o feito do dia anterior sabia que não cairia de novo no buraco, o farol cumpriu a sua missão. E foi quando se apercebeu que, a partir dali, se calhar era mais sensato sair pela porta da frente em vez de pela porta de trás.
Os anos passaram e o rapaz morreu. O farol foi reedificado muitos anos depois, no mesmo sítio, para nos relembrar que os seres humanos tem capacidade de raciocínio e aprendizagem com os erros, mas mais ou menos.
Aqui fica a história e a imagem do farol de Cáceres, fotografia tirada da sala da minha amiga Fresquinha. Obrigado pelos dias ai.
segunda-feira, maio 24, 2010
nostalgias de um tempo que passa
Há 10 anos atrás vim viver para Lisboa.
Quando fui ao supermercado pela primeira vez sozinha e com dinheiro "meu", fui verdadeiramente feliz. Já não tinha que pedir à minha mãe para me comprar este ou aquele chocolate, ou para levar duas latas de coca-cola, e arriscar-me a ouvir profundos "não, tu precisas é de te alimentar bem". Com tanta prateleira apelativa e todo o dinheiro do mundo disponível (entenda-se 300 euros por ser princípio do mês) dei efectivamente largas aos ímpetos que me assolaram. Comprei portanto uma lata de chantilí e vários frasquinhos de efeites de bolos coloridos e coca-cola. Fui para casa felicíssima, com um saco as 4 ou 5 coisas atrás enumeradas e passei a tarde no sofá a pôr directamente na boca o chantilí, as drageias coloridas e a beber coca-cola.
Hoje fui ao supermercado e tudo o que trouxe poderia ser comprado pela minha mãe. Pão em fatias, que tive a separar, para congelar, presunto, salada, fruta e sei lá que mais.
Suponho que o tempo passa e as pessoas crescem mesmo. Quando estava no sofá lambuzada de chantilí e drageias coloridas não previ que um dia ia ser tão racional e adulta assim, para só comprar coisas "normais".
Se calhar amanhã quando for ao supermercado, acho que vou deixar a menina da caixa intrigada com o sortido escolhido.
Quando fui ao supermercado pela primeira vez sozinha e com dinheiro "meu", fui verdadeiramente feliz. Já não tinha que pedir à minha mãe para me comprar este ou aquele chocolate, ou para levar duas latas de coca-cola, e arriscar-me a ouvir profundos "não, tu precisas é de te alimentar bem". Com tanta prateleira apelativa e todo o dinheiro do mundo disponível (entenda-se 300 euros por ser princípio do mês) dei efectivamente largas aos ímpetos que me assolaram. Comprei portanto uma lata de chantilí e vários frasquinhos de efeites de bolos coloridos e coca-cola. Fui para casa felicíssima, com um saco as 4 ou 5 coisas atrás enumeradas e passei a tarde no sofá a pôr directamente na boca o chantilí, as drageias coloridas e a beber coca-cola.
Hoje fui ao supermercado e tudo o que trouxe poderia ser comprado pela minha mãe. Pão em fatias, que tive a separar, para congelar, presunto, salada, fruta e sei lá que mais.
Suponho que o tempo passa e as pessoas crescem mesmo. Quando estava no sofá lambuzada de chantilí e drageias coloridas não previ que um dia ia ser tão racional e adulta assim, para só comprar coisas "normais".
Se calhar amanhã quando for ao supermercado, acho que vou deixar a menina da caixa intrigada com o sortido escolhido.
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