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terça-feira, agosto 12, 2025

Sr. Júlio

O Sr. Júlio tinha sido um rapaz possante e forte, jogador de rugby e profissional de matraquilhos, engatatão da noite e do dia, voz grossa e confiante. Ainda carregava nos ombros a memória atlética de outros tempos e gostava de a exibir como quem lembra uma façanha que não passou de validade.

Trabalhava como comercial de viaturas automóveis, vendedor de carros, pois, 

a profissão que, para ele, parecia a continuação natural da juventude: almoçaradas com clientes à conta da empresa, carros de boa cilindrada para a frente e para trás, piadas trocadas com os clientes bonacheirões, uns chefes suficientemente satisfeitos para não perguntarem muito sobre as despesas ou as horas em serviço. Liberdade, liberdade, a preço acessível, e sempre com a sensação de estar a vender aquilo que dá mesmo gosto aos clientes. O segredo, dizia, estava nas relações de confiança.

Não trabalhava num escritório engravatado — “Deus me livre!” — nem se via atolado em papelada, que para isso havia sempre umas miúdas novas que davam conta do recado. Passava de cliente em cliente, e no intervalo trocava pelo telemóvel umas imagens mais ousadas que lhe chegavam. “Olhar não faz mal”, justificava, “até porque sou um homem casado e bem casado.” E era: ninguém percebia bem como é que tinha arranjado uma mulher tão bonita e paciente.

Orgulhava-se também dos dois filhos, rapagões traquinas, “frescos” como o pai dizia. E havia nele um lado romântico: aparecia com flores sem data marcada, ou levava a mulher até ao Porto só porque sim; se ela ficava de olhos presos num colar, ele não hesitava. Ao fim de semana, o programa era ir ver os miúdos — um bom de bola, outro de ténis — ou aparecer nos jogos de rugby da equipa onde ele próprio jogara. “Um orgulho, não… dois”, repetia.

Às quintas-feiras, uma vez por mês, havia o ritual dos negócios mais chorudos: fechar contratos com os clientes habituais e celebrar no Heaven, um strip club discreto, já tradição. Ali, entre luzes baças e copos cheios, o Sr. Júlio alimentava a certeza de que ainda tinha o mesmo fulgor de outros tempos — agora temperado com mais experiência, e, segundo ele, também mais tesão.

quinta-feira, agosto 07, 2025

Sr Dr Francisco

 
Sempre impecavelmente arranjado, o Sr. Dr. Francisco até de pijama tinha porte de fidalgo. Daquelas coisas que nascem connosco, diria a sua mãe orgulhosa, sem lhe passar a mão pela cabeça. Tinha sido uma mãe distante, mas naquela altura era assim, se calhar ele tinha feito mal em ter dado tantos mimos aos filhos que agora o respeitavam menos. Onde é que ele se atreveria a falar com os seus pais da maneira que os seus filhos de vez em quando lhe respondiam! Mas também, antes isso do que os ter mandado para o colégio militar e eles terem passado o que ele passou. Não tinha sido uma adolescência fácil, mas tinha compensado: não fosse isso e não era hoje a pessoa que é: Vice-Presidente de uma empresa com mais de mil pessoas, a poucos anos da reforma, um percurso brilhante que só não foi melhor por ser um homem de princípios e nunca se ter metido em certos interesses mais duvidosos. Não se arrependia e, para ser sincero, o sucesso já se antevia no seu consistente percurso de aluno brilhante e perspicaz, calado e reservado, como os professores no colégio apreciavam.

Da infância na aldeia tinha recordações mais adocicadas, apesar do distanciamento físico dos pais, havia as memórias boas da dona Idalina, a criada a tempo inteiro lá de casa, que tinha sido mais mãe que a mãe dele. O Sr. Dr. Francisco fazia um sorriso quando se lembrava dela, a dona Idalina era daquelas pessoas que sempre tinha sido velha – pelo menos era o que ele achava quando era catraio. Escondia rebuçados nos bolsos grandes do avental, tinha sempre uma guloseima para o seu menino preferido, desalinhava-lhe os cabelos com festas mais ou menos desajeitadas e logo o mandava ir pentear-se outra vez antes que a sua mãe o visse. Tinha-lhe encoberto muitas aventuras, como quando o Sr. Dr. Francisco fugia com os gaiatos da aldeia para ir tirar os grilos das tocas fazendo xixi em cima delas; ou quando iam apanhar sapos na ribeira e chegavam a casa todos sujos. Para os outros miúdos não havia problemas, gentes do campo com pais igualmente sujos, mas para o Sr. Dr. Francisco tinha sido a dona Idalina que o tinha salvo de várias sovas e raspanetes. Assim que ela o via entrar pela cozinha, agarrava-o pelo colarinho e corria com ele para a casa de banho, dava-lhe um banho de água aquecida no fogão, trazia-lhe a roupa lavada e impecavelmente passada e ao jantar ninguém na sua mesa desconfiava de nada.

Que esteve o menino Francisco a fazer hoje? Perguntava a mãe, Estive a ler o livro de Baden Powell, respondia o menino Francisco, e logo deixava de ser tema da mais perguntas ou comentários.

Outros tempos, pensava, o mundo agora muda a uma velocidade vertiginosa, parar é andar para trás, ah mas seria tão bom às vezes poder andar para trás... Talvez por isso tivesse começado há coisa de 3 anos um novo negócio só dele, eram vinhas e mais vinhas, davam para engarrafar umas 40.000 garrafas de tinto, umas 20.000 de branco e umas 5.000 de espumante. Este ano não tinha sido bom, muita chuva e o vinho ficava menos saboroso, mas um enólogo de renome ajudava a manter o negócio no mercado. E o Sr. Dr. Francisco gostava de passear pelos hectares alinhados. A mulher tinha gozado e gozado, completamente contra, que raio de crise de meia-idade. Também lhe tinha pouco respeito é certo, mas lá se encarregava de ajudar a organizar e aparecer nos eventos em que abriam a quinta a festas bastante elitistas. Uns quantos enólogos de nomes antigos e uma mão cheia de novos ricos, as revistas de especialidade e uns quantos diretores amigos… enfim, o que tem que ser para garantir o nome à frente do consumidor. Os filhos é que nem apareciam, ás vezes ligavam quase sempre a pedir dinheiro. Como se as casas e os carros e as contas pagas não fossem suficientes, esta nova geração está de facto muito mal habituada, mas também não se podia queixar muito. Ambos lá tinham tirado os seus cursos – cursos de 4 anos tirados em 5 ou 6, e arranjado os seus trabalhos – com uma grande ajuda dele e dos seus contactos. E mais a mais, os anos que haviam passado fora tinham ajudado, lá nisso o Sr. Dr. Francisco tinha feito questão, a filha um ano em New York, o filho um ano em Londres. Para conhecerem outras culturas e outras formas de vida, e que não o acusassem (como a mulher tinha acusado) de ele estar a fazer o mesmo que os seus pais lhe tinham feito, aquilo lá tinha alguma coisa a ver com o colégio interno, então a idade era outra, as condições também, era mesmo falar do que não entendiam!... O Sr. Dr. Francisco não podia deixar de achar irónico, como toda a gente cá fora tinha tanto respeito por tudo o que ele dizia, mas dentro de casa era o que era, ninguém o ouvia.

terça-feira, agosto 05, 2025

Dona Dália

 A Dona Dália era filha de um jardineiro de província, claro, que outra explicação haveria para o seu nome floreado que lhe fechava tantas portas? Ou era o nome ou seriam o sotaque e as maneiras, lá porque tinha emigrado para a capital há mais de vinte anos, não significava que se tivesse conseguido integrar totalmente. Eternamente estranha numa cidade que chamava sua, a Dona Dália tinha vingado mais do que se teria permitido imaginar: profissional de sucesso em consultora de renome internacional, cada subida do seu chefe significava também uma subida sua. Por isso a Dona Dália era uma secretária empenhada que não se ficava em tratar dos compromissos profissionais – há já muito que o lembrava de ir cortar o cabelo, que lhe marcava o dentista e que lidava com as agências para lhe assegurar o merecido descanso das férias. Lá na empresa haviam muitas miúdas novas, de nariz empinado, armadas em arrogantes, que a tentavam destratar. Ah, mas a Dona Dália logo as punha no lugar, destratá-la a ela era ficar sem acesso ao seu chefe, eram demoras nas respostas dos e-mails, eram prazos a serem ultrapassados e urgências que ficavam para a última prioridade da semana. Não era preciso muito tempo para essas arrogantezinhas perceberem rapidamente o seu lugar, com a Dália ninguém se mete, avisava ela carregando nas sibilantes e entre-dentes, ameaças sussurradas que nem precisavam ser ouvidas para mais cedo ou mais tarde serem claramente entendidas. O marido de Dona Dália, um ex-segurança ferido em serviço – que lhe tinha caído um armário em cima de um pé e esmagado 3 dedos e vários ossos, deixando-o sem trabalhar e a receber da segurança social - era um bom marido. Arranjava o que havia para arranjar lá por casa e ainda se entretinha a fazer umas obras a sério: a última que ela o tinha conseguido convencer e que já estava em andamento era um deck de madeira no quintal. Ia ficar bonito, oh se ia, digno de estrela de televisão. O filho único ajudava, estava já com 16 anos mas era um bocadinho mandrião nos estudos. Estava mais ligado ao exemplo do pai e menos ao da mãe, a Dona Dália não entendia já que era ela a profissional orgulhosa e bem sucedida da sua família. Tem o feitiozinho do pai, pensava, mas o pai também se deu bem na vida, afinal de contas é trabalhador e nunca está parado, nem agora ele sossega, sempre a inventar coisas lá em casa, e olha que bem que corre, será que depois do deck o consigo convencer a fazer uma piscina? Gostava por isto de receber gente em casa, a Dona Dália, gente da sua terra que também estava emigrada em Lisboa sobretudo - esses é que apreciam! Os colegas da universidade não, desses não tinha ficado com grande ligação, afinal de contas tinham ainda hoje vidas bem diferentes. Eles é que não sabem o que é bom, sempre a gastarem dinheiro em coisas que o meu marido faz tão bem ou melhor e que não nos custa nem um quinto do que eles pagam! Mesmo as casas, pagar 3 vezes mais por uma casa no centro da cidade, com todos aqueles carros e a poluição, não não, aqui na Bobadela é que se está bem, tão perto da cidade mas é quase meio campo, eu é que sei fazer isto bem. Ás vezes, muito raramente mas ás vezes, a Dona Dália olhava para o chefe e pensava que afinal de contas ainda podia aspirar a um bocadinho mais. Sempre de banho tomado e fato impecavelmente passado, o chefe até podia ser uma boa aposta para ela… mas rapidamente afastava esses pensamentos da sua cabeça, especialmente quando estava a tratar-lhe das férias, ia para sítios tão esquisitos, como é que não voltava mais magro, o que seria que comeria lá por essas Ásias e mais de oito horas de voo, deus me livre, e ainda por cima aposto que nem consegue arranjar um cano entupido do lava-loiças, eu estou bem é como estou, férias na Comporta de roulotte é que é um luxo que pouca gente tem. E mais a mais, não via o chefe a falar com o pai, de flores de certeza que não entendia já para não falar de que não o via mesmo sentado na sala de estar lá da aldeia. Não não, assim é que eu estou bem, e continuava decidida a fazer tudo para não perder a vida boa que tinha. A profissional de sucesso da sua família.

sexta-feira, agosto 01, 2025

 Sr Tiago

Tocava o despertador às segundas-feiras e o Sr. Tiago não se demorava a sair da cama. Tomar banho e vestir um fato, fazer o nó da gravata depois de ligar a máquina do café, a mulher que se levantava mais tarde e ele que saía sem pressa nem atraso para mais uma semana de trabalho. Organizado, metódico, estóico. O carro era bom, marca alemã com mais espaço e potência do que o que seriam necessários, cor escura. O sr. Tiago era seguro e confiante, era daqueles que ocupava mais do que o seu lugar quando se sentava: pernas abertas, braços abertos, ligeiramente recostado nas cadeiras, tinha sempre algo a dizer, a acrescentar, a apontar ou a criticar. Filho mais velho do que chamariam nos estados unidos de “self made man”, a empresa do pai sempre esteve presente na sua vida. Em miúdo, foi neste recinto que aprendeu a patinar e a andar de bicicleta; a sua primeira mota estava em nome da empresa; parte dos seus verões haviam sido passados ora no armazém, ora na oficina e mais tarde no escritório. Nessa altura alguns dos empregados tratavam-no por “o menino”, mas isso fora lá atrás. Agora era Senhor Doutor, e ele nem tinha esse titulo universitário mas também não os corrigia. A empresa era de transportes - quem é que em menino tinha sonhado em ser o maior gestor de uma empresa de transportes? - e não sendo uma mega multinacional, tinha os seus 300 empregados e uns quantos estagiários ocasionais. Estava bem na vida, o Sr. Tiago, não fosse de vez em quando ter que engolir sapos do pai, mas também não era grande sacrifício e além disso o velho estava cada vez mais velho e portanto o sr. Tiago também ja lidava com ele de outra maneira. Estava bem na vida, o sr. Tiago, sem grandes sonhos nem paixões mas lá disso nunca tinha havido que a vida é dura e sonhar e desejar era para outros românticos. Já a sua mulher, de vez em quando punha-se com conversas lamechas, que os presentes deviam ser bem pensados, que podiam ir fazer uma viagem a África... África? Como se ele aguentasse 15 dias a comer porcarias mal cozinhadas, ou como se a empresa aguentasse 15 dias sem ele! Que paciência às vezes era preciso ter, ainda se ela tivesse razão de queixa da vida que levavam!... Não, isso de divagações e sonhos não era para ele, o sr. Tiago era de fazer o que tinha que ser feito - geria a empresa, geria a sua família, fazia-se respeitar pelos amigos. Ocasionalmente metia-se com as estagiárias, aventuras de curta duração e de quase sempre apenas uma incidência, ao domingo levava a mulher a almoçar fora, trocava de carro a cada 3 anos e acima de tudo nunca se entretinha com pensamentos sobre o que poderia ser diferente ou como gostaria que a sua vida fosse. Era como era e ele sabia bem fazer isto.

quinta-feira, julho 31, 2025

Dona Laura

Dona Laura sabia, porque sua mãe muito repetia, o que o seu nome significava: a vitoriosa, a triunfadora. Dona Laura ficava vaidosa quando sua mãe lhe escovava os lisos cabelos compridos. Ela, menina, inspirava de costas direitas, pronta a triunfar na vida. Quarenta anos depois, olhava para o espelho e fazia o mesmo movimento direito à procura da pose de triunfo. Sempre fora menina ajuizada, estudante média-para-o-boa, nunca tinha perdido um ano do curso de letras que escolhera. Casara com um colega da universidade - o seu segundo namorado da vida inteira - e foram viver para a terra dele, o que não era um problema porque estavam apenas a duas horas da sua. Aos fins-de-semana até dava para ir e voltar. Dava para ir e voltar agora, no princípio passavam lá o fim de semana inteiro mas ele tinha cada vez menos paciência para isso, da mesma maneira que tinha cada vez menos paciência para programas com ela. As visitas a casa a encurtar e as semanas entre elas a aumentar, mas que diferença fazia, afinal os pais dela tinham mais perto a irmã, estavam apoiados e confortados e tampouco lho cobravam. Já dona Laura sabia que tinha uma boa vida entre os dois salários e os poucos gastos, um trabalho confortável para a câmara municipal, o marido como braço direito na empresa de seu pai - sem grandes riscos, luxos ou aventuras mas estável e seguro, a assegurar o futuro. Para ser sincera, Dona Laura, a vitoriosa, gostaria se ás vezes fizessem outras coisas, sei lá, mais viagens, jantares ao som das próprias conversas em vez de ao som da televisão… um gesto de romantismo dele - mas que não fosse o de irem almoçar fora ao domingo, era sempre ao mesmo restaurante, isso ainda conta como romantismo? Ele dizia que sim - meio impaciente, sem a olhar nos olhos - o que queres agora ao fim de tantos anos juntos, e ela dizia para si mesma que o casamento é isto mesmo, que estou a ser exigente e irrealista, ele tem lá as preocupações dele e da empresa e além disso nós temos esta bonita história de 23 anos juntos… O mal são as comédias românticas que passam na televisão, que não sei porquê mas às vezes põem-me a pensar no Júlio, o meu primeiro namorado, que apanhava malvas no quintal da vizinha sempre que vinha ver de mim, o que será feito dele? Ah mas Dona Laura nem se atrevia a suspirar, depressa tentava acabar com estas divagações nostálgicas da sua cabeça, concluindo que decerto o Júlio está gordo e desarranjado, era vaidoso mas não tinha gosto nenhum, andará lá na sua vida, tanto faz, eu é que tenho que ir ao cabeleireiro, e na volta passar no supermercado para comprar café, a ver se não me esqueço do que o adjunto da câmara falou na sexta-feira passada... e assim seguia rapidamente para a sua rotina, Dona Laura, a vitoriosa, a triunfadora, que não sabia explicar esta sensação de vazio que de vez em quando a enchia.

sexta-feira, julho 11, 2025

Sr. Jacinto

 Nas rugas profundas da cara do Sr. Jacinto podiam antever-se as preocupações que lhe haviam moldado

a vida, as preocupações que lhe serviram de motivação para se levantar ao mesmo tempo do sol e sair

de casa dia após dia - de semana ou fim de semana - sempre a dar vazão a mais um quintal que

precisasse de ser ajeitado; a uma  sebe de ramos desalinhados que precisasse de ser endireitada; a uma

relva amarelada e com peladas que precisasse de ser acarinhada. Era assim o Sr. Jacinto, um trabalhador

empenhado e respeitado, que sabia mais de jardinagem que qualquer outro e assim havia indo

construíndo o seu caminho - mesmo quando outras empresas mais modernas começaram a aparecer. A

razão era simples e bonita: o Sr. Jacinto havia casado com a Maria, a rapariga mais delicada da rua e que

até despertou a paixão pré-adolescente do Sr. Dr. Francisco da Palma e Matos. Coisas de miúdos, é

certo,  mas também o foi o facto de que a Dona Maria não se tinha deslumbrado com o filho dos

senhores. Claro que os senhores, ao primeiro sinal das palpitações do filho mais velho o enviaram

apressadamente para um colégio na capital e Maria, sempre recatada e delicada, nem sequer se fora

despedir dele. Anos mais tarde, quando ela aceitou namorar com o Sr. Jacinto, este preocupou-se pois

sabia que lhe caberia a ele dar-lhe uma vida digna e com condições, que até lhe permitissem comprar

dois ou três lenços novos quando ela quisesse.

Quando casaram, o Sr. Jacinto já havia conseguido uma casinha asseada, na mesma rua em que tantas

vezes a seguira com o olhar quando a mãe de Maria a vinha chamar para o jantar. Logo no primeiro ano

de casados ela deu-lhe um belo rapagão de 3 kilos e tal, com choro tão forte como o de um bezerro. E o

Sr. Jacinto preocupou-se, que agora eram três e depois passaram a 4 e a seguir chegaram a 5, a mais

nova a sua alegria, tão parecida com a mãe que era. De físico, de personalidade, tinha maiores

ambições. Ora com a família a crescer, o Sr. Jacinto preocupava-se ainda mais e trabalhava mais,

justamente o suficiente para assegurar que os três filhos pudessem crescer, estudar e fazerem-se à vida,

nas mesmas condições e com o mesmo conforto que todos os outros de famílias mais abastadas. Ou

quase. Certo era que os três estavam na capital, só a mais nova se tinha licenciado, mas os três bem

empregado. O mais velho era eletricista, o do meio estava na construção civil, e ela trabalhava numa

grande empresa de estrangeiros. Falava línguas, vestia de negócios, andava sempre pintada e arranjada.

Os três tinham casado, já havia netos que vinham de vez em quando, mas apesar da família a crescer, a

casa ia ficando cada vez mais vazia. Especialmente depois da morte da Maria, os miúdos vinham ainda

menos, os netos iam crescendo longe do olhar do avô. E o Sr. Jacinto, que outrora trabalhava por

preocupações, agora tinha que explicar ás novas clientes que não, que não se ia reformar, que era

mesmo das flores que gostava e que portanto para o ano ainda estaria disponível. Como no ano

passado, e todos os outros antes desse.

quinta-feira, abril 22, 2021

Dona Léria

Dona Léria

trazia

na voz 

a calma de um lago primaveril.

Dona Léria

pestanejava 

com 

todo o tempo do mundo.

Um pestanejar

podia durar

todo um segundo.

Não guardava urgências - nem nas pregas da roupa, nem em lado algum.

Sacudia-as

com um respirar pausado,

afastava-as

com um manejar bailado.

Dona Léria embrulhava-se em tranquilidade, não tinha problemas com o silêncio - o que às vezes deixava as pessoas à volta confusas, desconcertadas. Que vinham com partes de histórias e voltavam totalmente desarrumadas. Dona Léria criava assim desarrumações pessoais, 

e gostava.

terça-feira, junho 07, 2016

O Rui e os Dias*


Ele era boa pessoa, 
fazia os updates automáticos quando o tablet pedia, removia sempre o software em segurança, tinha uma conta poupança onde punha re-ligio-sa-men-te todos os meses uns bons 50 euros. Pedia recibos nos cafés, ia votar sempre que era preciso - desde que não estivesse a chover muito ou se as votações calhassem em período de férias, claro. Há muito que tinha deixado de discutir política e mesmo futebol discutia "com jeitinho", isto é, sem fazer muito alarido. Vá, uma laracha ou outra, um ou outro gozo com os amigos do clube rival, 
mas eles, 
eles acabavam sempre por ir buscar o campeonato de há 5 anos, ou outro qualquer anterior, e mais datas e nomes de jogadores que o Rui nem se lembrava. Nessas alturas, encolhia os ombros com meio sorriso e largava a conversa.

Estava inscrito num ginásio, um dia destes havia de voltar a começar a ir; quando se lembrava em algumas manhãs, até bebia um copo de água de um trago - tinha lido que fazia bem ao corpo, não custava tentar.
Gostava pouco de mudanças - da última vez que tinha sido obrigado a mudar de casa, durante um ano inteiro ia, de vez em quando, parar à porta do prédio antigo. Só quando a chave não funcionava na entrada cá de baixo é que se lembrava que já não morava ali e arrepiava caminho para a casa certa. "Que tontice" pensava, com um breve abanar de cabeça mas sem mais julgamento do que esses 3 segundos que lhe durava o pensamento. Às vezes ia jantar fora, normalmente com a equipa do trabalho, e depois um copo ao bairro alto. Reparava nas miúdas e nas mais graúdas que por lá rondavam mas era parco a fazer conversa. Já não ia para novo e as aventuras de uma noite que tivera eram mais que suficientes para se gabar a quem o quisesse ouvir.

Hoje em dia, nessas aventuras, até o aborrecia um bocado a manhã seguinte: roupa fora do sítio e lençóis com restos de maquilhagem. E ter que arrumar a casa e lavar os lençóis mesmo que não fosse dia disso, não, já tinha outra idade, já tinha outras prioridades, pensava para si mesmo. Além disso, aquela nova colega do escritório... ele achava que havia ali uma química. Nova - que já não era bem nova - fazia parte da outra equipa vai para dois anos; nunca tinham propriamente feito nada fora das responsabilidades laborais, nem trocado emails ou mensagens sobre outros temas além dos que lhes eram directamente temas profissionais. Mas às vezes, antes ou depois de uma reunião, ela fazia um bocadinho de conversa sobre o fim de semana seguinte e por duas vezes, quando ela passou por ele a caminho da impressora, lhe pôs a mão no ombro. Não precisava mais espaço para passar, mas mesmo assim pôs. Havia ali uma química, ele sabia, mas não que fosse de fazer algo por isso. As coisas haveriam de acontecer naturalmente, se tivessem que acontecer. E enquanto aconteciam ou não, acontecia a vida a escorregar por entre os dias mais ou menos organizados. Se lhe perguntassem se era feliz diria que sim, vá, normalmente feliz, afinal de contas que razão tinha para ser infeliz? Nenhuma, portando deveria ser feliz, sim.

*publicado em primeira mao aqui: https://quemcontaumconto.pt/o-rui-e-os-dias 

terça-feira, julho 07, 2015

Sr Augusto Silva, o pescador

*this is for you mate. specially because you can't read portuguese ;)


O dia amanhece cinzento e enevoado, mais um dia na vida de Augusto Silva, 45 anos de idade e cerca de 20 de relações falhadas, umas a seguir às outras.

Aos 20 anos não tem mal nenhum andar-se a falhar relações, diz que é suposto e faz parte da “aprendizagem emocional”. Seja lá o que isso for. Quando a primeira ex-namorada lhe saiu porta fora entre gritos e malas mal feitas, Augusto Silva encolheu os ombros e pensou que ela era a louca. Gajas desequilibradas, desabafa com os amigos nas raras ocasiões em que eles deixam as mulheres em casa com os filhos. E os amigos dizem que sim, tu sempre tiveste tendência para gajas loucas, devias arranjar uma equilibrada e normal. Uma relação saudável, para variar, e Augusto Silva não sabia mais se eram elas que eram loucas ou se era ele que as estragava. Lembra-se da semana passada, roupas aventadas pela janela do terceiro andar e gritos vários sobre o monstro que ele era, entre várias comparações, metáforas, disfemismos e outros lirismos. Esta era tão louca como as outras, mas lá tinha que dar a mão à palmatória, tinha criativas formas de o insultar. Gajas desequilibradas, confirma, e lá dentro guarda a dúvida do que andará a fazer mal. Talvez deva ter mais paciência. Talvez deva conseguir engolir mais sapos. Talvez seja exigente demais – já lho disseram uma vez. Bom, mais vezes, mas foi sempre a mesma, se calhar não conta. Ou será que conta?

No bar passa uma miúda gira, terá uns 38 anos, aos 45 alguém com 38 é uma miúda, todos somos miúdos se não estamos já casados ou divorciados ou viúvos. Já houve outras mais novas, já houve outras mais velhas, todas loucas. Ou seria ele? Bah, desvia o olhar e nem tenta meter conversa, então Augusto, estás a desistir? Ah.. não.. é só hoje que não me apetece, de resto também não é nada de especial. Não me digas que ainda estás a pensar na outra. Sabes.. eu gostava mesmo desta. Gosto. Não sei o que correu mal. Achas que lhe ligue? Ao menos para saber que fiz de errado.. e se ela me ajuda a não o tornar a fazer...? Será demasiado cedo..? Será exigir demais? Augusto.. Err... Nem sei que te diga... Se quiseres mesmo... achas que vai servir de alguma coisa?

Achava que não, já tinha tentado outras vezes e concluiu de todas as vezes que estes exercícios melo-dramáticos só resultavam em mais agressividades trocadas. Que se lixe, já se tinham magoado demasiado, já se tinha magoado demasiado, se calhar era só melhor desistir. Ainda que houvessem mais peixes no mar, a verdade é que não eram as competências de pescador que lhe faltavam. O que fazer com os peixes depois é que lhe parecia escapar e muito. Ou se calhar era mesmo isso, não era sobre casar e ter filhos e uma vida estável, era sobre ter actividades de curto prazo com benefícios rápidos e a seguir, seguir para bingo. Afinal se resultava em tudo o resto na vida dele porque haveria de ser diferente neste tema?


Augusto Silva acabou a caneca de cerveja de um trago. Olhou de relance a miúda que tinha passado e virou costas. Hoje por certo não era noite de mais nada. E amanhã provavelmente também não.

quinta-feira, março 05, 2015

Sra Dona Roseta

Sra Dona Roseta trazia a alegria espelhada no olhar e o bem estar a colorir-lhe as bochechas. Era daí que vinha o seu nome de guerra e de festas - das rosetas bem coradas que lhe tingiam a cara e a alma, tanto em momentos de dança como nos outros de calma. 

Era muito querida no bairro, a sra dona Roseta, e toda a gente celebrava quando ela na rua passava. 

Bom dia sra Dona Roseta, como está hoje? E ela com seu ar afogueado, dizia em tom despachado, já estou atrasada, já estou atrasada, um beijinho ao seu Joãozinho, ele que volte depressa para casa!  E ia em direcção à mercearia, escolher os ingredientes a dedo, é que mais logo tenho visitas e queria preparar um pitéu, entradas a preceito e um arroz de lingueirão, uns quantos doces e talvez um licor beirão. Eu até costumo ter licor lá da terra sabe, mas ontem acabaram-se-me com ele, a casa sempre cheia de gente mas é isto que a gente leva da vida não é? E voltava rua acima, entre mais cumprimentos de bons dias, uma paragem aqui para dois dedos de conversa, outra paragem ali para os assuntos rápidos do jornal, e ficava mais rosado o bairro inteiro, entre piadas e arroz de fumeiro; a sra dona Roseta quando sai à rua é como um dia de sol no meio do inverno, as cores tem mais cor, não sei... mas sei que sem a sra dona Roseta, este bairro não era o mesmo, dizia o Zé merceeiro, e toda a gente o aplaudia.

segunda-feira, novembro 17, 2014

demasiado prática, Dona Teresa, demasiado prática...

Dona Teresa tinha a certeza que das estórias românticas que guardamos, sobram mais do que memórias espalmadas em páginas de livros velhos. Mas esse mais, do que é feito?

Dona Teresa sabia que não eram as saudades - essas têm prazo de validade, tempo limite, metem-se-nos primeiro dentro do corpo mas acabam por escorrer para dentro de uma arca qualquer, encontradas por acaso aquando a procura incessante de um telemóvel velho de substituição e – ai o que é isto, ai que giro – sorriso nostálgico e - volta a aventá-las lá para dentro.

Dona Teresa sabia que também não era a tristeza, essa desvanece-se entre um ou outro empurrão de um amigo, um vá tens que vir, vá anda lá, e mais cedo ou mais tarde, com maior ou menor sabor a álcool, já está.

 Dona Teresa tinha a certeza que das estórias, aquilo que realmente nos sobra, são as manias novas, vícios pequenos, tiques e esquisitices, velhos hábitos adotados numa nova existência, de um lado passam para o outro.

- Sabes – dizia Dona Teresa – eu tive uma vez um namorado que não saia de casa sem saber onde estava a estrela polar e… olha, e está ali – e apontava por cima do ombro sem sequer olhar.

- E.. Sabes… - dizia Dona Teresa – o a seguir dizia que as cuecas devem estar na mesma gaveta do que as meias, mas aquelas á frente destas e… bom, e não precisas de ir ver a minha gaveta. E havia aqueloutro, que cada vez que mastigava tinha que mastigar 15 vezes e é por isso que reclamas que como devagar quando estamos a conversar. E o pior – continuava dona Teresa – foi o seguinte, que mesmo depois de termos acabado me veio dizer que guardava as meias com as cuecas, e estas à frente daquelas e que mastigava 15 vezes antes de engolir e que essas coisas o faziam pensar em mim. Mal sabe ele que deveria estar a pensar nos meus outros dois ex's. Não é irónico?


- É que sabes… - continuava Dona Teresa – as saudades e a tristeza, as lágrimas e recordações, as memórias e outras histórias, acabam por ir passando. Mas as maniazinhas e esquisitices, essas ficam contigo até já nem te lembrares de onde vieram. Menos romântico do que prático e até ver nunca encontrei ninguém que considerasse isso na escolha de um parceiro. Não é curioso?

quinta-feira, setembro 04, 2014

As coisas que quero depois de ti

23 anos sem ti, 48 anos contigo.
Houve um tempo em que moço bravo feito abria o peito às ideias revolucionárias, mais ou menos revolucionárias - se tiver que ser sincero - mas abraçava as causas - pelo menos até ser hora de jantar, conheceste a minha mãe, sabes que sempre foi chata com as horas de jantar, mesmo depois de homem feito - desfrutava de uma liberdade curiosa de ir ver o mundo. Lembras-te quando queria que nos mudássemos para a França e tu dizias "Mas Manel, e depois como os entendemos? E como arranjo os coentros para fazer açordas, que tu tanto gostas e eu não sei se há coentros na França e a tua mãe está doente e precisa de ti Manel, e agora que o gaiato é pequeno é que queres ir, deixa-o crescer mais um tempo, depois nem fala português nem sabe a que sabem coentros Manel" e sempre gostei do meu nome na tua boca, a forma como dizias "Manel" tinha o carinho dos nossos abraços e não havia tempo nem espaço para abraçar mais nada além de ti e das barrigas que iam crescendo uma depois das outras. 5 filhos, já viste, e 2 até são doutores mas está tudo orientado e todos tem os teus olhos e quando dizem "Pai" também há carinho mas não há os teus olhos a olharem para mim assim, como fazias quando dizias "Hoje não há açorda, não te chega já de pão, pão todos os dias a todas as horas? E vai-te pentear homem, andas sempre despenteado, não te deixei um pente no casão para não andares assim desgrenhado?".

Houve um tempo em que moço bravo abria o peito a sonhar com sítios lá longe, mais longe do que para trás daquele cabeço, até ir ver o mar, e fomos ver o mar os dois, lembras-te, e tu dizias que cheirava estranho e rias descalça com a saia levantada por debaixo do joelho e sempre tiveste uns artelhos lindos, mesmo quando a má circulação não perdoou, mesmo quando se te inchavam as pernas no verão e as artroses te criaram um ritmo novo, e tu dizias "não faz mal Manel, olha para elas que nem roupa trazem, coitadinhas que devem ter frio, com elas ali naquelas coisas tão apertadinhas ninguém me olha os artelhos Manel" e dizias que o som do mar era bonito mas dava vontade de fazer xixi e eu nunca te disse que não há nenhum som mais bonito do que quando te rias e dava vontade de saber todas as histórias engraçadas do mundo para que nunca parasses de te rir.

Houve um tempo em que moço bravo queria ir para a capital, que lá é que há a vida, e fomos à capital e tu vaidosa com um lenço novo ao pescoço e nunca tínhamos vistos tantos carros e as estátuas são muito altas, para que fazem as estátuas tão altas se não dá para as olhar de frente, a da paróquia tem um sorriso triste e um alto estranho numa bochecha e tu dizias que devia ser um abcesso de pedra e eu nunca soube para que pensavas tu sobre aquelas coisas porque as estátuas não tem abcessos nem tristezas, e para que as querias olhar de frente porque desde que pudesse olhar de frente para ti não havia nada mais que eu quisesse ver.

Houve um tempo em que moço bravo queria fazer coisas e fizemos 48 anos de casamento e tu a cortares os alhos, e tu a cortar cebola, e os teus lenços ainda na gaveta e os nossos filhos que aparecem menos com os olhos iguais aos teus, fizeram-se uns belos moços, sabes que sim, mas eu não sei cortar alhos nem cebolas e escondo-lhes as lágrimas na almofada, que estas coisas não são para se amostrar, o que pensariam, e já sei, que tenho 48 anos para recordar e que fomos felizes dizem eles, mas depois de ti não quero isso, depois de ti não quero muito, as coisas que quero depois de ti é que o mundo se esqueça de mim, que o sol não nos entre pela casa adentro e que os corvos me venham buscar pela janela do nosso quarto durante a próxima madrugada em que não estejas a dormir comigo. Daqui a bocadinho.

quarta-feira, setembro 03, 2014

Dona Lena

Dona Lena era financeira e dizia números crescidos - separados com vírgulas do grandes que eram - dizia indicadores,
volumes,
métricas
e pensava sentimentos - separados pela ausência de tempo para os sentir, do forte que eram - pensava sonhos,
ilusões,
esperanças que nem chegava a acalentar no breve escorrer dos dias corridos ou voados - ai, não são voados de sentir o vento na cara, são tipo voados em motores barulhentos e com cheiro a óleos ou cadáveres de pássaros esmigalhados - não sei se me estou a explicar, não tenho tempo para me explicar //

se tinha tempo para olhar uma nuvem, nem a via, por isso gostava de cheiros, não se perde tempo a avaliar cheiros, quando se dá conta deles é porque já foram vistos sem se dar conta disso, é ver sem ter que perder tempo a olhar, é ouvir o que não foi dito, é uma forma de cumplicidade unilateral, secreta, escondida, guardada cá dentro, e

Dona Lena dizia,

Dizia que a felicidade não era isto, mas dizia-o a sorrir em suspiros, dizia coisas demais e sabia-o, mas calar é morrer ou encontrar pelo menos um silêncio que põe a nú todas as incertezas e inseguranças e fragilidades e não há nada mais frágil do que o próprio silêncio, portanto mais vale dizer que a felicidade não é isto, e dizê-lo a sorrir em suspiros, enquanto se corre sem tempo para se explicar o inexplicável, para traduzir o intraduzível, Dona Lena dizia,

Um dia mudo tudo, um dia mudo o mundo para ter tempo para mudar também, um dia deslargo tudo para poder não mudar nunca mais, um dia descalço-me de vez para não poder correr, um dia deixo-me cair de verdade para aprender a voar a sentir o vento na cara.

segunda-feira, setembro 01, 2014

"that's not relevant"

O Sr. António vestia cinzento com cinzento: três botões no casaco e mais outros três do lado de dentro da garganta; umas calças meio roçadas nos bolsos de tanto tentar guardar as mãos e as memórias que elas seguravam; umas meias pretas bem esticadas, para não destoar do que se esperava dele.

Tinha a sua rotina diária há já tempo que chegasse para a ter querido mudar e depois desistido de ideias revolucionárias. Aliás, a única revolução em que havia querido participar, o Sr. António, foi na tentativa de mudar o rumo a um coração estrangeiro mas não lhe chegaram os protestos e gritos de guerra - o amor é um lugar frágil - mais a mais quando só há meia ponte que nos desune, Sr. António.

O Sr. António aprendeu o cheiro e a cor dos dias repetidos, um que vai e o outro que volta,
quando foi que aquilo aconteceu?
ontem?
a semana passada?
há 3 anos?;
o Sr. António aprendeu até a apreciar o sabor do vento constante, uma doce bolina amainada, um quentinho pouco ardente, uma euforia adiada.

"O mal foi que nos perdemos" pensava de mãos nos bolsos, passo apressado, olhar no chão, "mas será que nos perdemos mesmo ou que nunca nos encontrámos, será que é possível duas pessoas encontrarem-se de facto no espaço do que se diz, do que se quer dizer, do que se entende, do que nos prende..." e chegava a casa vindo de mais um dia, gestos seguros na fechadura, uma mulher que o esperava - a sua mulher - um beijo na testa e a cabeça do lado de lá de um qualquer horizonte longínquo, "se calhar nunca me amou, fui só eu que o achei, talvez nunca se tenha apaixonado, fui eu que o achei, mas então porque me olhava como olhava e já nem me consigo bem lembrar da sua cara, mas também, que saudades eram as suas que nunca se mediram em urgências" - Qualquer coisa para o jantar querida! - "que leveza nas palavras a levou a voar daqui para fora, que queria, que procurava, onde não cheguei..?" - Carne, sim, pode ser! - "e eu que achei que poderíamos ser felizes até ao fim dos dias" - Arroz, prefiro arroz! Ligaste ao canalizador? - "e até tinha razão, afinal de contas seremos talvez os dois felizes até ao fim dos dias" - Está bem, terça feira, eu estou cá - "só que um longe do outro".

sexta-feira, junho 20, 2014

O muro do Sr. Fernando e as histórias de um mundo

Tinha 14 anos o Sr. Fernando quando começou a desconfiar que a vida é feita para perder. Foi pela altura da morte do seu primeiro fiel amigo - chamava-se Leão, era um golden retrivier de pêlo quase branco e o Sr. Fernando, que na altura ainda não era senhor e tinha quase a mesma idade do cão, ficou a saber pela primeira vez como era chegar a uma casa mesmo vazia. 

O Sr. Fernando aos 15 anos não quis outro cão, que depois morre-se-me, que o que ganhamos agora perdemos depois, e aos 17 anos fugiu da possibilidade da primeira namorada a sério, que as outras de "brincar" já lhe tinham causado danos, que elas vêm mas vão, e que não preciso nem de namorada nem de cão. Mas esta ideia não lhe durou muito - a rapariga insistiu com beleza suficiente, pouco tempo depois até começaram a fazer os planos de serem felizes para sempre, deram nome ao primeiro, segundo e terceiro filho e disseram adeus a meio de um programa de Erasmus que criou mais distância entre Lisboa e Roma do que a que separa Pequim da Madragoa.

Para levantar a cabeça e endireitar o peito, o Sr. Fernando pôs a mochila às costas e a tristeza nos bolsos - saiu de Roma à procura do mundo, conheceu gente de lugares com nomes estranhíssimos, aprendeu que se sobrevive sem escova de dentes por uns dias, que é possível ser feliz com a mesma t-shirt outros tantos, descobriu que um abraço é um abraço em qualquer nacionalidade, aprendeu a dizer “Olá” em 14 línguas diferentes e “Adeus” em 15 – a vida é sempre a perder, concluiu.

Voltou para casa o Sr. Fernando, de olhos águados mas sorridentes, contava aos miúdos da rua que o ouviam as aventuras vividas em terras mais ou menos duras e concluía, agora é isto, emprego das 9h as 5h e saber que a vida é sempre a perder – perder pessoas, perder lugares, perder vontades, perder até a agilidade do que somos ou fomos, mas não seremos amanhã.

Porque amanhã, Sr Fernando, amanhã é dia de começar outra vez, amanhã é dia de ganhar antes de perder porque o que não perde Sr. Fernando são os sorrisos que desenhou e as memórias que criou. E o Sr. Fernando intrigado, que sabes tu da vida, entre videojogos na tv e jogos de futebol na rua? E o que ele sabe Sr. Fernando, é que o Sr. Fernando por ser quem mais perdeu é também o melhor contador de histórias do bairro e o que mais viveu.

terça-feira, abril 15, 2014

Dona Mena

Dona Mena tinha a elegância suave de alguns anos de ballet e muitos mais de doçura, tinha gestos alargados e falava PAU-SA-DA-MEN-TE, sem se deixar arrastar nas conclusões, sem se deixar aprisionar nas teorias. Sabia que o caminho era para a frente mas sentia nas pernas e nas costas o cansaço das correrias de outros tempos - tempos em que o mundo era casa e mudar era a vizinhança não desejada mas enfrentada com a coragem e confiança de quem tem nos pés a certeza dos caminhos e nos braços as asas dos sonhobjectivos.

Dona Mena, nos serões de lua cheia, olhava-se ao espelho entristecida e pensava para si mesma como a magreza lhe dava um aspecto frágil e convencia-se dos anos que tinha e das fraquezas traduzidas em artroses e das mazelas que dizia é-da-idade, que já-não-sou-o-que-era, e olha-para-isto, e que-foi-que-me-aconteceu, e será-que-fui-sempre-assim, e um ai-eu-nem-consigo-chegar-ali...

Era só quando adormecia que o espírito de dona Mena se voltava a levantar seguro, entre todas as histórias que já tinha passado e todas as que ainda vinham - e que ela ia negando, quando acordada - "ai-sei-lá-se-chego-lá". Era o que dona Mena fazia, negava-se a si mesma as forças que já tinha usado, nas desculpas das encruzilhadas da vida, que "antes tinha condições e agora não", que "antes tinha apoio e agora não", que "antes subia umas escadas a correr e agora não". Mas dona Mena ainda se lembra de si mesma às 3h da manhã sozinha numa cidade francesa, uma mala,17 anos de idade, 1.700 km de distancia de tudo o que ela conhecia. Entre o medo abandonado a decidir o que fazer, transformado na certeza de ser dona da sua vida na manhã seguinte, dona Mena tem ainda na ponta dos dedoss o resto adocicado de um croissant misturado com as rédeas da sua vida.

Na verdade quem a conhece sabe que dona Mena nasceu guerreira da paz e que é exactamente isso que continua a ser todos os dias, mesmo quando o tenta negar ou ainda quando não se lembra de saber que o é.

quarta-feira, março 26, 2014

Dona Brites

Dona Brites nascera de parto planeado, um bébé desejado e assinalado no calendário dos grandes marcos da vida, "primeiro casar, depois 1 ano para nós, empregos estáveis, a primeira criança, ao fim de 2 anos a segunda, mudar para uma casa maior, ter a terceira". E a vida que se desenhara no papel foi-se construindo a par e passo, sem altercações de maior, sem tempestades do lado de cá do horizonte e poucas vezes as gaivotas vinham a terra.

Dona Brites cresceu por isso ponderada e sensata, cheia de cautelas e cuidados, um senso que aos 5 anos de idade lhe punha um dedo espetado no ar enquanto dizia cheia de certezas aquilo que ela própria podia ou não fazer. "Oh mãe, não achas que já é hora de me ires por a dormir?" inquiria Dona Brites de sobrancelha carregada, "Oh mãe, hoje não devia ser peixe em vez de carne?".

Ficou conhecida e reconhecida pelos "nãos" que distribuía, Dona Brites sempre assertiva, "tu não podes fazer isso, tu não deves fazer aquilo, isto é mau, aquilo é bom, tu vê lá nas que te metes, eu se fosse a ti não fazia isso".

Cresceu rápido Dona Brites, sempre seguindo as tendências da moda sem exageros - as calças à boca de sino eram de sininho, as saias curtinhas eram curtas, os vestidos balão eram enchidos sem fôlego, os estampados de cores suaves.

Sem surpresas Dona Brites casou na altura devida com o homem certo, teve 3 filhos devidamente espaçados e adequadamente alegrados, e depois de muitos natais abençoados, festas de anos e baptizados, Dona Brites morreu sensatamente durante a noite, sem acordar, sem gritos, estremecimentos, dor ou até consciência de si. Na lápide do cemitério escreveram em letras bonitas, "Aqui jaz Dona Brites, esposa dedicada e mãe amada, que desta vida nada levou nem muitas marcas deixou".

segunda-feira, março 24, 2014

Tem um sorriso a mais de que não precise?

Andava pelas ruas com olhos e bolsos vazios, mendigava para não roubar, dizia a quem o quisesse ouvir, mas dizia pouco entre as gentes apressadas de telemóveis nas mãos, músicas nos carros, vidros fechados. "Tem um sorriso a mais de que não precise?" perguntava enquanto batia nas janelas, acenavam-lhe que não por detrás dos vidros dos carros, por detrás dos vidros escuros dos óculos, "tem um abraço a mais que possa dispensar?" e nem olhavam para ele enquanto passavam apressados para os seus afazeres, "tem uma festinha na cara que me possa dar?, um sorrisinho, vá lá amigo, não mendigo porque gosto, é porque preciso..." e logo o senhor mudava de lugar na paragem do autocarro, diziam que não e afastavam-se, e ele por ai continuava, de bolsos vazios a mendigar um pedacinho de amor.

quarta-feira, fevereiro 26, 2014

Dona Clara

Dona Clara sorria com lábios de luz, quer o sol se estivesse a levantar ou a pôr, quer o calor do verão lhe aquecesse a alma ou o frio do inverno lhe esfriasse os pés. Dona Clara gostava de se desdobrar em amabilidade para não ganhar vínculos de amargura, era um lago de calmaria onde até os peixes nadavam desapressados.

Tinha tiques encantadores, Dona Clara, que sempre que sorria inclinava levemente a cabeça para o seu lado direito, uma perspectiva diagonal de quem desabafa, ou seria para deixar livre o ombro esquerdo, nunca soube dizer, nunca soube encostar os pensamentos atrelados de céus muito pouco estrelados.

Mas um dia Dona Clara, ouviu falar que havia uma crise no país, ouviu falar de uma crise na europa, ouviu as queixas do vizinho de cima, do do lado, do senhor da padaria, sempre com um sorriso, Dona Clara, já leu o jornal hoje, isto assim não tem remédio, já sabe do meu sobrinho que é médico e recebe 500$, já não há profissões dignas, já sabe do leiteiro ali da esquina, abriu falência a semana passada, e tanto foi o queixume que Dona Clara ouviu que o pescoço se lhe prendeu num torcicolo desalmado e Dona Clara menos calma concluiu que era esse o seu último dia útil do mês.

terça-feira, fevereiro 04, 2014

D. Litéria

Dona Litéria dizia "relva" e cuspia pedacinhos verdes entre as palavras, dizia "céu" e um pedacinho de baba azulada a escorrer-lhe pelo canto da boca que limpava apressada com as costas da mão," ai que grande peso que carrego", suspirava, e logo os joelhos se dobravam e os ombros descaíam.

Dona Litéria dizia que gostava de beber da sabedoria dos antigos e logo se engasgava a meio da frase, pirulito desprevenido como um gole de mar, ah, tanto mar que há nas ilhas que são os homens e Dona Litéria a ser ilha engasgada, a tossir que nem um cão e a abanar a cauda, pode um piano abanar a cauda Dona Litéria? e Dona Litéria tocava música desafinada enquanto pensava nos desafinos da vida que são os desencontros e Dona Litéria já estava atrasada para o próximo, aquele que foi com o outro que haveria de ser o seu marido, risonho e habituado às esquisitices de Dona Litéria. A relação? A relação foi fácil, ela apaixonou-se no momento em que recebeu o mapa com os caminhos para o seu coração e um aviso, "vê lá não descarriles" e Dona Litéria a ser comboio fiável, sempre seguindo os caminhos trilhados, sempre na linha Dona Litéria e mesmo assim às vezes o marido zangava-se, "são facadas no meu coração!" e logo Dona Litéria ia correndo buscar o algodão com betadine e voltava para ficar baralhada, não vejo nada, não vejo nada.

Dona Litéria enviuvou num dia e demorou exactamente 5 dias, 3 horas e 27 minutos até morrer de saudade, claro.