terça-feira, dezembro 21, 2010

A desgraça de dona Graça

Dona Graça era senhora de braços enérgicos e roliços. Suas pulseiras douradas tilintavam nos movimentos elegantes e decididos, eram a banda sonora das vírgulas e pontos finais de suas frases.

Como se costuma dizer, dona Graça enchia uma sala - de vozes altas, de gargalhadas bem dadas, de frases afectadas, de gestos pensados e de gordura adiposa. E usava túnicas soltas e vestidos leves, para disfarçar o peso, se bem que este não lhe pesava, nem na energia, nem na leveza do seu ser, nem nos recônditos da sua consciência quando se deliciava com qualquer sobremesa cheia de creme.

Alegre, quase sempre, a verdade é que dona Graça não era descontraída. Tinha preocupações, dona Graça: com os filhos e as filhas que parira, o marido que a escolhera, os sobrinhos que lhe tinha dado, as vizinhas com que lidava, as associações a que presidia e os jantares de festa que promovia.

Não parava muito tempo para pensar, entretida nos seus afazeres, ritmo constante da vida sucessiva, pontuada nos tilintares de suas bugigangas: mais um baptizado para ensaiar, uma festa de beneficiência para orquestrar, um problema inconfessado de um sobrinho que por um olhar tinha adivinhado, tudo-tudo-tudo-tudo dona Graça resolvia. Mesmo quando as pessoas, coitadas, se zangavam com ela - injustas, as pessoas, que não percebiam que ela só as queria ajudar. E ingratas, porque nunca lhe agradeciam convenientemente. Não que dona Graça quisesse agradecimentos, "mas já viu óh Rosarinho? Tanto que eu fiz por ele e nem um 'obrigado tia' decente. Nem os pais dele, já viu?"

A vida de dona Graça resolveu gracejar com ela num pretérito inacabado, em meados do ano passado. Foi por razões de uma ida ao Brasil - viagem habitual que já há uns anos não repetia. Não levava o marido, não, que os homens para estas coisas são uns chatos; um grupo de amigas, que as compras tem que ser feitas e a diversão fica muito mais garantida.

No terceiro dia da estadia, deparou-se dona Graça com uma Casmerodius albus. De porte elegante, graciosidade no andar, magestidade no olhar e asas que pareciam feitas de nuvens. A verdade é que dona Graça já tinha visto outras garças, mas nunca deste tamanho. E irritou-se: bochecas encardidas do encarnado, gotas de suor a escorregarem entre as moles mamas, pulseiras e berlicoques a pontuar e a exclamar os tremeliques da irritação patentes nos braços e nas mãos.

Deu-se conta dona Graça, que o érre do seu nome e do da criatura estavam trocados, que era ela, a Graça que tinha voz esganiçada e era a outra, a garça, que era cheia de graça na vida livre que vivia. Deu-se conta dona Graça, que não podia voar, que estava presa à teia que lhe tinham cuspido, que nunca tinha questionado o que tinha querido, que nunca se tinha lembrado de acordar e sair da cama feita de lençóis de expectativas, normas, códigos e suposições.

Deu-se conta dona Graça, que os anos que tinha e não confessava haviam sido dispendidos em energias inúteis, esforços inglórios, traduzidos em resultados nulos nas suas importâncias. E as suas rugas não eram as testemunhas de um caminho preenchido, eram antes a marca acusadora de uma vida tão pouco tentadora.

E a irritação subiu-lhe à fronte e a garça defronte nem a olhava e dona Graça em desgraça rebentou de irritação.

Depois de recolherem os seus pedaços espalhados, puderam apontar no relatório médico a causa da morte: "consciência tardia". E o médico que o escreveu olhou para o enfermeiro e desabafou, que é este dos poucos casos em que mais vale nunca que tarde.

segunda-feira, dezembro 20, 2010

De um mal-me-quer para o mundo

Meu amor,

Escrevo-te aqui de Lisboa para te dar uma notícia grave: o Inverno chegou.
As pessoas andam de cara feia e ombros encolhidos, a tentar proteger-se do frio e da chuva. Os dias amanhecem sem sol e o tejo já se cobriu daquela cor cinzenta escura de quem não dá cavaco a ninguém.

À minha volta, os outros mal-me-queres encolhem-se em protestos. Nunca percebi isto de protestar encolhido, entre-dentes. Acho que têm medo, mas não sei do quê. Acusam-me de falta de prudência ou juízo, mas acho que eles tem medo das histórias que se inventam sozinhos.

Daqui de onde estou, continuo a esticar-me em direcção ao céu. Nem sempre é fácil, mas também não é difícil. Conheço o sabor da chuva, já. E das solas de sapatos. Eles não, e apontam-me as marcas que vou ganhando. Não serei o mal-me-quer mais bonito da primavera, não sei se chego à primavera.

Tu sabes, nunca foi à primavera que quis chegar. Foi sempre ao ponto mais alto da mais alta montanha, ao fundo mais negro do buraco mais escuro.

O outro dia conheci uma mulher que era esposa, logo por detrás de ser mãe e antes de ser meio casal. Saiu à rua com as pernas de trazer por casa e os olhos cheios daquela solidão que se entranha nos ossos. Trazia um miúdo pela mão e a falta de si pela outra. Não estou certo que ela saiba da sua existência. Nem da sua inexistência. Talvez também se tenha inventado medos, antes de se coser com as linhas das expectativas alheias. Não sei se ela se acusa de ter escolhido o caminho mais fácil, sem saber que entrou no labirinto mais difícil. Ou se se congratula por ter conseguido cumprir o plano que alguém planeou para ela.

Às vezes acho que o mundo anda trocado. Mas depois aparece um daqueles dias de inverno com sol e esqueço-me disso.

Acho que amanhã vou ter contigo. Os outros mal-me-queres desta calçada não só não querem vir comigo, como já me disseram que não podia. Porque nunca nenhum tinha levantado as suas raízes, porque temos folhas e não asas. Eu ouvi-os, mas não os percebi. De resto, estavam outra vez a protestar encolhidos.

Pelas minhas contas, devo chegar à hora de jantar. Mas não tenhas trabalho a preparar nada de especial, se me arrancares as folhas uma por uma é suficiente. E prometo que a que vai sobrar, será um bem-me-quer.

quinta-feira, dezembro 16, 2010

Progenitorices!

Acabadinha de chegar a casa:

Eu: "Mãe a internet não está a funcionar."
Mãe: "Telefona para a linha de apoio Meo"
Eu: "Qual é o número?"
Mãe: "Vê aí na net."

Não há como não adorá-la...

Os homens andam atrasados, os bichos não. (parte I)

"O tempo pergunta ao tempo quanto tempo o tempo têm. O tempo responde ao tempo que o tempo tem tanto tempo, quanto o tempo tempo tem."

Talvez aquilo que temos de mais real na nossa vida, o tempo - o que temos e o que nos falta. E aquilo que mais temos de fictício na nossa vida - o tempo, concepção humana sobre a evolução natural dos organismos vivos e não vivos.

O tempo não existe fora de nós. Os animais não têm tempo, tem necessidades biológicas, tem comportamentos, tem uma evolução física que faz uma curva semelhante à da distribuição normal. (Sim, tenho noções de estatística.)

Os homens estão presos ao tempo. O tempo de estudar, o de comer, o de se divertir, o de trabalhar. Os homens andam atrasados, os bichos não. O Homem dividiu uma evolução em partes desiguais entre si, iguais entre outras. Arranjou "marcos", quando o sol aparecer ali é de dia, quando desaparecer dali é de noite. O período espacial (e não temporal) que vai do sol ir daqui até ali fica dividido assim. Quando o sol aparecer daqui-ali X vezes, chamamos-lhe assado. E quando forem 365 vezes, chamamos-lhe frito. Ah, mas depois ele não aparece ali de vez em quando, quando era suposto. Não faz mal, aí deixamos que ele apareça mais uma vez, de 4 em 4 vezes das outras. Ah, tá bem.

Estrutura, medida, uniformização, conceptualização - o tempo.

Problema: tempo flexível.

- Uhm? O tempo não é flexível, todos os minutos duram o mesmo.
- Mentira. Tive minutos na minha vida que demoraram mais de 3 horas. E tive horas na minha vida que duraram menos de dois minutos.

E todas as noites me duram mais do que os dias. As noites tem outro tempo que o tempo dos dias, outro ritmo, outra passagem. Os dias passam a correr, as noites arrastam-se com a lentidão de quem não tem ninguém à espera, de quem não tem contas que prestar.

- Ah, isso não é o tempo que duram, é a percepção que tu tens da sua duração.

- A percepção que eu tenho que uma coisa que não existe, mas que se faz sentir, fortemente, real. E chamas percepção àquilo que sinto e não à invenção de algo "criado" mas que afinal existe.

- Ah, não é assim tão simples.
- Pois não. Especialmente nos tempos desencontrados.

- Nos quê?? O tempo é sempre igual para toda a gente, estamos todos no dia não sei quantos do mês não sei que mais do ano tal. E são precisamente x horas. Se estamos no mesmo sítio, o meu tempo é igual ao teu.
- Sim, mas eu queria ficar contigo agora e tu achas que se eu te tivesse aparecido em outro tempo, poderiamos ter ficado mas agora não. Como se os nossos caminhos tivessem cruzados, mas em tempos diferentes.
- Ah, mas isso não é o tempo, isso é a oportunidade.
- Desperdiçada num tempo que não é o meu nem o teu.

- É, é, a nossa concepção temporal é a mesma.
- Mentira. Este ano para mim passou a correr. Este ano para ti demorou-se uma eternidade. O ano passado aconteceu-me isto, mas parece que foi há 20 anos atrás, que isto sempre existiu na minha vida. O meu tempo não é igual ao tempo que "uso" para me relacionar com as pessoas. Esse tempo imposto é uma plataforma comum de referenciação. Mas o meu tempo é diferente do teu. E pior, o meu tempo não está ao meu dispôr como quero.

- Estás a atrofiar, e eu estou sem tempo para te ouvir.

Quanto tempo terá o meu tempo para esperar por ti?
Quanto tempo dura a vertigem de uma queda, no desconhecimento do solo onde vai aterrar e do quanto vai doer?


quarta-feira, dezembro 15, 2010

Variações infinitas de um blog'ere

Escrever. Where? É suposto escrever aqui. Onde? Onde puder. Não, essa é outra, já existe. Onde? Aqui. What? Right there. Escrever aqui. Writehere. Espera, tem que rimar. Tem que ficar assim…redondinho. Redondinho pronto. Writethere. E agora? Agora já tenho um nome, tenho que escolher uma cor. Não pode ser preto, não pode ser azul. Dizem-me: escreve. escreve o que quiseres, assim sem limites, vamos abrir espaço às variações infinitas que se alimentam por dentro num diálogo de sombras desgarradas. Mas não posso escolher a cor. Primeira ilusão de liberdade. Posso escrever mas não escolher a cor. Claro que podes. Podes escolher todas menos…pronto, todas menos. Ou “todas” ou “menos” seria mais simpático. Mas depois seria pouco bonito da minha parte querer mais do que posso, querer todas as cores quando me basta apenas uma. Mas eu não quero todas. Só queria preto (eu sei, preto nem sequer é uma cor, mas eu queria na mesma) ou azul. E agora dizem-me que sou insatisfeita que só quero o que não posso ter. Posso escrever. O que é que eu quero mais? Que raio de pergunta, eu quero escolher a cor. Mas podes escolher! Ai posso? Podes. Preto? Ai…Pronto azul. Mau. Ok Ok. Cinzento. Vá lá…não consegues ser um bocadinho mais criativa? Há muitas cores, há tantas…e passas a vida a queixar-te das dualidades obtusas que deixam o mundo inteiro de fora. Que deixam o dentro, de fora. Preto ou branco. Certo ou errado. Isto ou aquilo. VERDE. Escrevo a verde. Vais-me reconhecer assim? Vou. Se escreveres a verde eu vou-te reconhecer. Mesmo no meio de tantas linhas, tantas palavras, tantas…sim. Verde. Podes começar, a verde. Posso-me preparar primeiro? Tenho que me descobrir verde, tenho que saber primeiro o que é sentir verde, falar verde, ser verde, para que seja verde o post que me pedes. Está bem. Vai então. E volta. Verde. Encontramo-nos daqui a….não importa. Sabes que volto. E como é que…vais saber? Vais saber. Não te esqueças. O meu nome, a verde, entre taparueres e ondepudwheres, em variações infinitas de silencio e cor. Até já.




terça-feira, dezembro 14, 2010

D. Constância

D. Constância viva feliz e tranquila, na casa ao lado da casa onde nascera, há 56 anos atrás.

Usava e abusava das saias pelo joelho - se gostava de um modelo, comprava os que houvesse de cores diferentes. Ou iguais, se gostava mesmo-mesmo. E não era só com as saias, era também com os casacos, camisas e sapatos.

Todos os dias saía de casa as 7h28 da manhã. Passava pela pastelaria e dizia "Bom Dia", sem ter que fazer nenhum pedido. Um saco com 2 pãezinhos integrais lhe era estendido, ao mesmo tempo que um café curto em chávena fria. 2 pãezinhos integrais, iguais ao outro que tinha tomado esta manhã ao pequeno-almoço, levado no dia anterior - um para o lanche do próprio dia, um para o pequeno-almoço do dia seguinte. O do lanche com fiambre, o do pequeno-almoço com queijo.

D. Constância fazia dos hábitos e rotinas a sua personalidade. Cortava a margarina sempre a direito, barrava a manteiga sempre do mesmo lado. Antes de sair de casa, a volta era sempre a mesma: entrar no quarto e ver se a janela estava fechada, passar na cozinha e ver se havia louça suja fora do lava-loiças, passar na sala e ver se tinha desligado a televisão, apanhar as chaves e sair. Em mais de 50 anos não se lembrava da última vez que tinha fechado a janela do quarto, arrumado loiça ou desligado algo na sala nesta volta antes de sair. Mas continuava a fazê-la, pelo sim pelo não, porque era assim que saía de casa.

Tinha outras manias, arrumava os livros por ordem de alturas, guardava todas as caixas e caixinhas que lhe vinham parar às mãos. Para o caso de um dia precisar delas, e tinha um armazém de caixas vazias, que não eram precisas, debaixo da cama.

Adormecia sempre na mesma posição e acordava sempre da mesma maneira.

Habituou-se aos mesmos caminhos, aos dias repetidos, às frases iguais. E habituou-se também às mesmas palavras, as mesmas terminologias - reduziu o seu mundo de propósito e reduziu o seu pensamento na consequência.

Vivia tranquila, D. Constância, mas houve um dia que na sua cabeça se começou a desenvolver uma terrível patologia. Alzheimer, mal degenerativo de consequências nefastas. Padrões repetitivos, perdas de memória... mas D. Constância não deu por isso, nem ninguém das suas lides. Morreu com a doença por diagnosticar, nos dias iguais, frases habituais e caminhos repetidos.

domingo, dezembro 12, 2010

das urbes que urgem

Não sei se já fez um ano desde que moro em alcântara.

- Bom dia dona Teresa, as minhas revistas já chegaram?
- Chegou esta Sofia, as outras ainda não sairam.

Não foi com bons olhos que vi a mudança de Campo de Ourique para Alcântara. Estava acostumada aos velhos no jardim e aos cães que já conhecia pelo nome.

- Bom dia sr. Fernando
- Boa tarde Sofia, então e um guarda-chuva? Olha que isto vai começar a chover bem.

Mas os domingos em alcântara são um bocadinho diferentes dos domingos em campo de ourique. Têm outro cheiro e os ruídos de uma ponte ao fundo, com carros e comboios mais espaçados do que nos dias de semana.

- Bom dia Rui
- Olá Sofia, então o queixo está melhor? Sandes de ovo e café, toma. Vais-te sentar?

Não sei se já fez um ano desde que moro em alcântara. Mas conheço os nomes e as caras. Toda a gente me trata por tu. E pelo nome. Não preciso dizer o que quero no café. E na papelaria encomendam um exemplar de 3 revistas diferentes só para mim.

- Olá Sofia, já tratou do problema do gás?
- Já sim dona Maria, era do esquentador.

Al-qantara, quer dizer ponte. E gosto das pontes entre pessoas, das ilhas que cada um de nós é (sim, com falta de concordância gramatical e tudo) e das conversas para tentar chegar a essas margens estreitas, inalcançáveis na realidade, agarradas nas ilusões.

Já fiz arder as pontes que estabeleci, à procura que pelo menos esse fogo me iluminasse o caminho que destruí. Mas al-qantara não arde, deixa-se envolver num nevoeiro só seu enquanto fica a olhar para um abraço prometido de uma estátua que não dá nem um passo para se aproximar.

Não sei se já fez um ano, desde que moro em Alcântara. E há sempre Londres, Paris e New York com promessas de outros domingos com outros cheiros, cores e ruídos.

Hoje não. Hoje fico aqui.

sexta-feira, dezembro 10, 2010

tales from real life

Abre o congelador.
Tira uma caixa de petit gatoux.
Tira lá de dentro os dois que sobram, põe num prato, enfia no microondas.

Abre o lixo, retira a caixa que lá pôs mesmo agora.
Vê quanto tempo tem que por no microondas.
Mete esse tempo.

Micro pára.
Não estão feitos, mete mais um pouco. Micro pára. Não estão feitos, mete mais um bocado. Micro pára. Acha que estão, agarra numa colher, começa a comer.

Agora não sabe se há-de bater com a cabeça nas paredes por nem conseguir aquecer petit gatoux no microondas ou se há-de congratular-se a si própria por ter "criado" um novo quente-e-frio.

quarta-feira, dezembro 08, 2010

a briga do costume

- Não é na racionalidade que encontras as verdades. Essa é que é a grande falácia do nosso tempo - a sociedade valoriza a objectividade, a racionalidade, o equilíbrio... já viste como andamos todos tão à procura do equilíbrio para "estarmos bem"?

Sentiu o chão fugir-lhe dos pés quando reconheceu o seu perfil. Deixou de haver tempo, espaço, paredes, terra, ar. Fora dos lugares, tornou-se uma trepadeira fragilizada por alguma tormenta, em desespero para não se deixar cair, a usar de toda a sua força daninha para sobreviver. Sem fôlego, sem respiração, parado sem uma pausa para descansar dessa quietude.

- Ah, o realismo, o racionalismo, o figurativismo até!.. o raciocínio lógico-dedutivo, sabes qual é o mal? É que quando as coisas entram na nossa lógica, a gente acha que são verdade. Encaixamos os "factos" na "lógica", para lhe conferir significados que compreendemos. E depois diz-se, "isto faz-me sentido". Como se a verdade tivesse que fazer sentido na nossa lógica. Ora, a haver uma "verdade" qualquer, existe fora de nós, existe fora das nossas convenções - é isso que criamos, convenções, e depois assumimos que são verdade. Mas são inventadas, como qualquer história de embalar ou lenda, para justificar algo e torná-lo compreensível para nós. Não te parece arrogante, que só aquilo que entra na nossa lógica possa ser verdade?

Sabia de cor os seus movimentos há já algum tempo. Conhecia a forma como afastava o cabelo, o trejeito das ondas que ele fazia quando ela soltava risos ou inclinava a cabeça naquele seu jeito típico. Conhecia-lhe a dança das mãos, o modo como davam um terço de volta e voltavam à posição inicial, a forma como o indicador e o dedo do meio se agitavam ligeiramente em assuntos mais problemáticos, o encosto do polegar ao anel do outro dedo em momentos mais distraídos. Sentia-se implodir por dentro cada vez que ela passava os 4 dedos pela testa, por dentro do cabelo, afastando-o da cara e abrindo mais os olhos a seguir. Sentia-se explodir por fora quando esses dois olhos o fitavam de frente. Que falta de noção, criticava-se, sempre que se apanhava a tremelicar por isso. Que estupidez, criticava-se, que agora com esta idade é que me havia de dar para isto. Que tenho que me controlar, convencia-se, sem conseguir desviar o olhar.

- Portanto, tenho a dizer-te, não é pelo raciocínio que vamos encontrar verdades. Não é. As verdades humanas, pelo menos. As científicas, vá, vamos descobrindo umas coisas na forma de como as coisas funcionam, mas também nunca será pelo método científico que descobriremos o porquê das coisas funcionarem. Isso pertence a outro reino, um sítio onde te garanto que não vai ser pela lógica que se entra. Por isso é que os sofistas foram o que foram, o poder argumentativo mais importante que a verdade intrínseca. A lógica, apesar de tudo, não deixa de ser um sofismo. Menos simplista, mas um sofismo. A gente anda a procurar a razão com a ferramenta errada - a razão. Já viste a ironia?

Queria tocar-lhe. Ás vezes acontecia, casualmente. Um encosto de ombro, um toque rápido na mão, um beijinho de "olá tudo bem". E ele ficava com aquele arrepio na pele, com aquela coisa agarrada à garganta, a tentar manter a casualidade da coisa, a tentar aguentar o impacto do terramoto interno que lhe varria o estomago, o baixo ventre e as virilhas. Queria agarrá-la com as duas mãos, segurá-la, abraçá-la, senti-la. Queria agarrar também todos esses impulsos, manietá-los, amordaçá-los, impedir de denunciar as suas vontades tão óbvias quanto despropositadas.

- E, se não é pela razão, então tem que ser pela emoção. Sabes que pela emoção também se aprende. Afinal de contas, nós somos seres sensitivos. Animais biológicos, condicionados pelos limites fisicos e hormonais da nossa percepção. Mas se calhar não é bem limitados, é mais libertos pelos limites fisicos e hormonais dos nossos sentidos. São eles que são a porta de entrada, mas as emoções, essas nascem cá de dentro, da reacção ao estímulo. Se nos conseguirmos libertar da raciocinalidade para encontrar uma forma mais "natural" de sentir, então estamos mais perto de alguma verdade. Mas não, continuamos a querer as razões, as causas, as análises, os equilibrios. Isso é que nos lixa tudo, isso é que nos afasta de "percebermos" as coisas. "Percebermos", assim, entre aspas, porque não é perceber-perceber com a cabeça, é perceber-perceber com os sentimentos. Percebes?

Ela olhou na direcção dele. E sorriu-lhe, inconsequente. E ele, desastrado, fez um esgar de volta a pensar que tinha que lá ir, que teria que lhe falar e não sabia de quê, não sabia como. Queria agarrá-la mas agora só queria fugir-lhe e tinha que lá ir dizer olá. Casualmente. E ela a falar com outros, e ela a sorrir-lhe, e as mãos dela na dança que ele lhe sabia, e o cabelo dela com os trejeitos que ele reconhecia e o cheiro dela, que se lhe iria colar ao nariz, aos olhos, à garganta, à noite e ao sono que não haveria de vir. Mas não podia dar parte fraca, não podia nunca denunciar-se, não iria nunca denunciar-se. Como é que faziam as pessoas para se falarem? Ah, já se lembrou. Coragem, são 30 segundos, 30 segundos não são nada, 30 segundos são mais do que 10 eternidades juntas.

- A gente tem que se deixar ir. O mal é que não deixamos. Sempre a planear. Sempre a analisar. Sempre a querer saber porquê e a dar justificações para o que sentimos. Tu, vai por mim, quando tiveres a rebentar nas mãos uma emoção qualquer muito forte, deixa-a rebentar toda até te arrancar as unhas. Seja boa ou má. Como diz o nandinho, sentir tudo de todas as maneiras. Vais ver que aí vais ter mais noção das coisas como elas são. Mesmo quando não fizerem sentido. Ou especialmente quando não fizerem sentido. Nunca fazem mesmo.

- É... é isso, é... quer dizer, não sei... equilíbrio é bom, ajuda um gajo a andar mais... equilibrado. epah, espera aí, vou falar a uma amiga, já volto.

segunda-feira, dezembro 06, 2010

Olá, teste, um dois, um, dois, som!!

Caros leitores do excelentíssimo blog Tapar Where,

Depois de várias investidas, disfarçadas de dicas e inuendos, a autora do blog - Exma. Sr.ª Taparuere - encurralada que se sentiu decidiu-se finalmente pelo suicídio literário e "convidou-me" a botar faladura no seu blog!!
A princípio fui invadida por uma felicidade imensa que, 5 segundos passados, foi substituída pela inigualável e sempre inoportuna sensação de pânico!
Para quem não sabe, esta sensação de pânico não escolhe idades, raças ou sexos atacando sem piedade todos aqueles que são colocados sob as encadeantes e assustadoras luzes da ribalta - ainda que neste caso seja somente para dizer disparates num blog...
Desengane-se quem pensa que se está, neste caso, perante uma qualquer sensação de pânico tal como aquela que dá a um traseunte que, absorvido pelos seus pensamentos, passa por um portão de ferro de onde salta um rotweiler que tenta - felizmente sem sucesso! - atacar quem passa; neste caso, o traseunte experiencia apenas uma descarga de adrelina fulminante que pode, na pior das hipóteses, dar origem a um gritinho histérico, que será tanto mais embaraçoso quanto maior for o número de pessoas presentes no local onde se dá o acontecimento!
Não! A sensação de pânico de que vos falo constitui a modalidade mais agressiva de todas as sensações de pânico porque contém em si um encadear de sintomas, maioritariamente fisícos que levam sempre e invariávelmente ao mesmo triste desfecho!
Começa por se sentir uma vontade de rir incontrolável que é imediatamente seguida por suores frios e quentes que atacam de forma intermitente todos os poros do corpo, denotando-se uma maior incidência na zona lombar e nas palmas das mãos. Tais sintomas, já de si desagradáveis, são acompanhados de um tremor incontrolável que faz toldar o raciocínio da mente mais preparada! O fenómeno continua o seu percurso, desta leva passando para o interior do corpo atacado - nomeadamente para o seu intestino grosso - onde atinge o seu climax no já costumeiro mas mesmo assim inadvertido cocó nervoso!
Na minha primeira entrada no Tapar Where não podia deixar de partilhar aquilo que me vai na alma (ou algures no interior do meu corpo)!
Hostilidades abertas, aqui vos deixo com a promessa de que mais disparates virão...

Cumprimentos a todos


As coisas boas vêm aos pares

Novidades fresquinhas neste blog, duas colaborações novas para trazerem novos universos, histórias e divagações.

Não sei como vão assinar nem o que vão querer ser aqui, suponho que o tempo e a participação ajude a definir. Assim, sem regras, sem limites, sem objectivos, uma nova fase no blog, muitas novas frases no blog, meio experimental, meio indefinida, que cada sentimento perdido ou encontrado no vento lhe ponha e lhe traga o que tiver guardado nos bolsos e apetecer partilhar, da forma como quiser.

:)

domingo, dezembro 05, 2010

O assalto

Antes, guardava todas as certezas e as respostas do mundo, devidamente etiquetadas e separadas em caixinhas de cores diferentes. Depois, bom, depois assaltaram-lhe a casa e levaram-lhe muitas coisas que sempre lhe tinham existido na vida e destruiram outras na passagem. A gaveta das respostas foi uma: abriram-na à força, remexeram-lhe as caixinhas, atiraram-nas ao chão e partiram-se, misturaram-se, desfizeram-se em pedaços, resquícios, restos, despojos quebrados.

Quando chegou entrou em pânico. Levaram-lhe as certezas, porque podiam ser vendidas no mercado negro, levaram-lhe as intensidades e as gargalhadas - mas essas, mais tarde, mas só mais tarde, ela viria a descobrir que podiam ser substituídas por outras parecidas, quase iguais e até novas e diferentes - e arruinaram-lhe as respostas.

Quando viu os pedaços quebrados pelo chão, tentou reconstruí-las. Refazê-las. colá-las, limpá-las, arrumá-las de novo. Pacientemente, juntando pedaços soltos. Não conseguiu, e já passou tanto tempo. Horas sem respostas, dias sem respostas, semanas sem respostas, meses cheios de perguntas apenas. Não conseguiu e em vez de respostas arrumadas em caixinhas guarda agora incoerências dispersas nas gavetas. Mas continua, todos os dias, a dedicar umas horas solitárias para ver se as consegue arranjar.

segunda-feira, novembro 29, 2010

A suspensão da vertigem. Como se num qualquer lugar ficassem guardadas as palavras por dizer, lado a lado com os sonhos por concretizar.Seria o sotão de um casarão imenso - as janelas do andar de cima fechadas e as escadas testemunhas.

"Quem consegue subir mais degraus? Quem consegue tocar na porta-que-nunca-se-abre-e-tem-um-monstro-e-espíritos-e-ainda-uma-bruxa-do-outro-lado?"

A porta quase tocada, última barreira entre o mundo e uma outra coisa habitada por seres que nunca ninguém viu mas que se ouvem nas noites em que cada estrela é uma pergunta a morar na mesma cabeça.

Quase toca, e foge.

Do lado de dentro a luz só entra pela fresta debaixo da porta, do lado de dentro há "ses" e "talvezes" e "deveria" que vêem as partículas de pó levantadas pelos passos apressados, pelos passos medricas mais corajosos.

Os fantasmas guardados, como se só existissem para brincadeiras de crianças antes de serem chamadas para o lanche, pelo menos até ao próximo anoitecer.

segunda-feira, novembro 22, 2010

a vida e a morte de D. Prudência

D. Prudência tinha idade indefinida e gostava de passar despercebida. Os seus passos eram sempre silenciosos e os seus movimentos repletos de tranquilidade.
D. Prudência gostava de vestir sorrisos apaziguadores e calças a rondar os beiges.
Era dada a cores neutras e pouco dada a dores intensas. Nunca tinha chorado em soluços, não sabia quando tinha dado a última gargalhada. Nem a primeira.

As pessoas no bairro simpatizavam com D. Prudência, isto é, cumprimentavam-na sempre que a viam. O que não era sempre que ela estava, às vezes passavam por ela sem ver, mas D. Prudência não levava a mal e dizia "bom dia" ou "boa tarde" na mesma. Falava baixinho porém e ficava na mesma sem resposta. Se o seu interlocutor se apercebia, ficava aflito, "D. Prudência, bom dia, nem a via, desculpe lá!" e logo D. Prudência corava com tanto alarido. E isto porque as pessoas simpatizavam verdadeiramente com ela, e ela simpatizava verdadeiramente com todos os equilíbrios da vida. "Que é isso que é importante, o equilíbrio" dizia baixinho a quem a conseguia ouvir.

D. Prudência, em toda a sua vida, só teve um azar, o mesmo que foi responsável pela sua partida deste mundo. Apaixonou-se dona Prudência, numa tarde em que o sol se punha em tons de vermelho e lhe apresentaram um homenzinho de gabardine igual à de outros milhões. Verdade seja dita, foi paixão à primeira vista que durou um serão inteiro, entre conversas, brincadeiras e sorrisinhos. Durou precisamente até à altura em que D. Prudência percebeu e se apercebeu de que não ia conseguir manter o equilíbrio, de que não queria manter o equilíbrio, que só queria perder-se num abraço, encontrar a sua pele naquela pele e enterrar os seus lábios naqueles lábios. Deixar-se sentir tudo de todas as maneiras.

Foi demais para D. Prudência, que logo ali esticou o pernil, quando o coração lhe explodiu dentro do peito, sem conseguir aguentar a intensidade do momento.

Enterraram-na num caixão de madeira, sem artifícios nem rebites bonitinhos, num canto ao lado do canto mais sossegado do cemitério. Raramente tem visitas, nem sempre as pessoas se lembram de lá ir. Quando se lembram, no entanto, ficam na dúvida se teria sido melhor D. Prudência nunca se ter apaixonado, ainda que isso a tenha matado.

sexta-feira, novembro 19, 2010

"querida, cheguei!"

supermodernidade, em vez de pós. Por causa das vertigens aceleradas no tempo, das velocidades incansáveis e das cidades que deixaram de dormir, por causa dos excessos. Tudo não chega, há mais além desse tudo, quero o que sobra de fora desse tudo. As cidades não dormem e tornaram-se sonâmbulas nas suas próprias esquinas, ilimitadas pelas possibilidades, dependentes dos seus não-lugares físicos.

E no entanto, no frenético excesso, os dias seguidos são espelhados, as semanas vizinhas idênticas, os meses fronteiriços praticamente iguais. Mas e os outros, mais afastados? 3 meses, e tudo muda. Dos anteriores 6? Não existe hoje nada. Nem vestígios, nem resquícios - uma ou outra memória meio desfocada que nem parece real. Ou se calhar é o hoje que não é real, ou se calhar foram duas existências paralelas, independentes, que nunca se cruzaram. Não pode ser, teve que haver continuidade obrigada pelo traço do tempo. É assim que a vida funciona, é assim que a lógica obriga. Teve que ser, teve que ser, teve que ser - se for dito muitas vezes pode ser que me acredite. Mas olho para tras e não vejo pontos de viragem. Estarão escondidos debaixo de algum tapete? Seja como for, é impossível um regresso.

Os regressos são sempre impossíveis, pela velocidade intransigente, o sentido é só um e é para ali, pára aí. E no entanto, todos os dias são espelhados, todos os dias são idênticos e todos os dias te sentes a regressar a casa. E anseias, em alguma parte do dia, esse momento em que chegas e anúncias a chegada, o regresso a casa, o retorno ao sítio de onde és, onde pertences. Mas os regressos são impossíveis. Será ilusão?

Só pode ser ilusão, pela vontade, pelo desejo de que seja um regresso. Como se se pertencesse a algum sítio. Daqui a 6 meses podes nem reconhecer a mesma casa, quando fores sair à noite e a encontrares pintada e arranjada de maneira diferente, com gestos diferentes, novo corte de cabelo e novas manias e palavras. Pode acontecer. Pode não acontecer. No entretanto, mantêm-se a ilusão, porque sabe bem.

Não me posso esquecer disto, que é ilusão, que os regressos não são possíveis... não me posso esquecer disto mas... está-me a saber bem.

quarta-feira, novembro 17, 2010

Sleep on needles

Ask me anything you like
I'll reveal everything
I will treasure the truth
You could know anything

I am but a fool to play unaware of things
If I'd treasured the truth
I would tell it to you
I'm coming down to tell you what I know
To say what's real, to let you know
Where I have been and how I had to

Sleep on needles
You'll believe you are hard
Sleep on needles
And hear only the truth

Am I likely to succeed with the way things are?
Judging by your smile
You are holding something back
I'm sleepless around midnight
There's a change in the wind
The remembrance of things you used to hold back
I come around each time your notes are high
To tear you down and drag you up
To let you know what's going on while I

Sleep on needles
You'll believe you are hard
Sleep on needles
And hear only the truth

http://www.youtube.com/watch?v=fGuijAGjlZU

quarta-feira, novembro 10, 2010

pára-doxo, pára.

20 mil horas submarinas. Que passam e trespassam, e conversas à solta num ambiente demasiado encharcado em tabaco e hálitos que comem de menos e bebem de mais.

E falas, e contas, as histórias dentro de outras histórias, do tipo que te disse que conhecia um tipo que era terra de ninguém no meio de toda a gente. Esse tipo - dizes - o segundo, um infeliz. Daqueles que tem a mania que não pertence a lado nenhum, que não se enquadra, que quer ser diferente e dá brilho aos símbolos do seu lado de fora.

Sabes - continuas - eu não percebo. È como se as pessoas estivessem à espera que houvesse mais, que houvesse algo mais e portanto não querem isto. Como se outro lugar fosse melhor, e não fossem as mesmas pessoas, as mesmas conversas repetidas, os mesmos olhares com os mesmos pedidos... Eu já tive em muito sítio, tu sabes - e nem sequer estás à espera de um sinal afirmativo da minha parte, pois não? - e posso-te dizer que no final do dia, é tudo mais ou menos a mesma coisa. Aqui ou em outro lado. E, vamos lá ver, se é isto que temos, não vale mais a pena agarrá-lo, que ficar à espera de outra coisa qualquer diferente que nunca vai existir? Que raio de insatisfação é essa? E depois, e depois as pessoas e aquela maniazinha de começarem todas as frases por "eu", sabes? E de fazer monólogos como se fossem diálogos, a reclamarem das vidas e das filosofias dos outros, como se só eles conseguissem suspeitar de um mundo novo, uma terra qualquer prometida, como se ouvissem um qualquer chamamento secreto... sei lá... Eu acho um desatino. Porque nem sequer se esforçam em fazer diferente ou em perceber. Não percebo - e fazes uma pausa, com o olhar preso num horizonte que se estende a 30 cm de distância. Eu não conseguia. Tenho que agarrar as coisas, tenho que pôr a mão na massa, tenho que fazer acontecer... percebes? Não fico à espera a queixar-me. Não anseio por uma terra prometida. É isto que temos. Eu não vou desistir, não posso.

Sorrio-te. Digo-te que sim, que as pessoas são assim. Que não estás mal, mas que remas contra a maré, que mais ninguém sabe disso, que guardas um segredo diferente do outro segredo do livro.

Suspiras. Não acredito em filosofias-cor-de-rosa, eu sei que estou sozinho nesta luta, dizes. E fazes aquele olhar, de quem acha que não é de lado nenhum, de quem acha que não pertence a lugar algum.

Quanto custa, deixar de acreditar(-te)?

domingo, novembro 07, 2010

bluuuuuuuurps.

duas da manhã e um céu desconhecido, apagado, escuro.


com tanto tempo de existência por aqui, estranha que seja desconhecido.


aquilo que se reconhece não tem só a ver com o tempo com que existe, tem a ver com aquilo que tu queres reconhecer como existente.


olha que não, segundo a filosofia budista, tudo o que fizeres durante 21 dias, se torna um hábito. segundo a praticidade oriental, o que se torna um hábito faz parte de ti. portanto, 21 dias chegam para te definirem.


ainda bem que eu nunca confiei nos budistas então. parecem sossegadinhos, mas nunca fiando.


os budistas não são questão de confiança!


achas tu.

quarta-feira, novembro 03, 2010

GPS

Desde o primeiro GPS que tive (que se chamava Gabriela Paulinha dos Santos) e que morreu nova (o Deus dos GPS's que a tenha, coitada) que efectivamente me tornei um pouco dependente do dito aparelho. Tanto em viagens compridas como em descobrir ruelas e ruínhas aconselhadas por alguém ou alguma publicação real ou virtual.

Dá-me mais jeito não ter que pensar. Vá. Acho que basicamente é isso, não ter que pensar, não ter que planear, não ter que procurar informação num sítio para o usar no outro sítio e guardá-la na memória durante esse espaço de tempo até que a sua utilidade expire de prazo. Pronto, dá-me mais jeito ser preguiçosa, no fundo.

Apesar de reconhecer a utilidade dos GPS's, acho que há com certeza muito espaço para evolução. Assim do estilo, um GPS-amigo, que faça conversa, jogue a jogos, introduza novos pedacinhos de conhecimento cultural / trivial e não me grite "vire à direita" como se mandasse em mim.

Assim, uma coisa mais social... "È aqui à direita pah", seguido de um "aqui, aqui, aqui!" e depois um "jááááá t'enganaste outra vez" parece-me que era um conjunto de frases que ouviria bastante.

se calhar não é assim grande ideia, não.