Já fomos, já deixamos de ser, talvez estejamos de volta. Poderá ser o regresso do mito. O mito que nunca o foi.
quinta-feira, janeiro 06, 2011
what's a dream?
Ouviu no vento que batia na janela o seu nome. Não estranhou, conhecia o apelo. Dois passos, mão no puxador, um clique. O vidro frio saiu-lhe da frente e o bairro que conhecia desenrolou-se-lhe aos pés descalços. Como é diferente esta terra, nas madrugadas, pensou. Ou será que é diferente esta terra, nos dias com máscaras coladas? Não se debateu muito sobre a questão, não tinha pressa mas segurava urgências. Abriu os braços e tirou os pés do chão, levantou voo pela madrugada dentro, de mãos dadas com o vento que a chamava, de olhos abertos para uma terra iluminada pela luz prata da lua. Passou por cima do seu bairro, passou por cima da sua cidade, olhou os becos escuros, uma ou outra pessoa que passava sem reparar na sombra dela reflectida no chão. Passou por cima dos rios e das pontes, viu alguns carros solitários nas auto-estradas, sorriu-se para a lua e fez festas às nuvens.
O mundo - o mundo que achava que ela lhe pertencia - sonhava inteiro, só ela estava acordada no céu das rimas arritmadas.
Quando o sol começou a querer ameaçar nascer, soube que já era hora de o mundo voltar a ter horas, o regresso ao seu quarto impunha-se, a volta à sua cama era um imperativo. Não queria ser descoberta, olhada de soslaio como a louca que passava as madrugadas a voar. Entrou pela mesma janela por onde havia saído, correu o vidro e puxou o trinco. Deitou-se na cama e fechou os olhos. Era agora a altura dela sonhar, sonhar que se levantava e tinha um trabalho, sonhar que tinha obrigações e responsabilidades, sonhar que tinha preocupações e amizades. Mais logo acordaria de novo e poderia voltar a voar, sem ninguém ver, sem ninguém suspeitar.
quarta-feira, janeiro 05, 2011
Dona Gardênia e sua borboleta
Quando passava nos corredores, o perfume que usava por lá ficava, muito após a sua passagem. Pairava no ar e paráva quem por lá andava. Uns reconheciam-no imediatamente, outros abriam as narinas com olhos de admiração e sobrancelhas de espanto.
Dona Gardênia de sorriso fácil, escondia em sua casa um tesouro pouco secreto. "A minha paixão desde criança", dizia enquanto mostrava uma enorme colecção de borboletas. Havia-as de todas as cores, tamanhos e feitios. Cuidadosamente espetadas em alfinetes, de asas bem abertas, de cores e padrões mais ou menos definidos, de olhos secos e vazios. Era a sua amada colecção de cadáveres de borboletas.
Numa caixa mais pequena, guardava as mais raras e belas. Azuis, vermelhas, laranjas, verdes. De círculos nas asas, simétricas - "para simularem olhos de predadores maiores, é uma técnica de defesa da natureza", explicava Dona Gardênia, de beiços embevecidos, de olhos humedecidos.
Dona Gardênia tinha também álbuns cheios de fotos - de expedições e outras loucuras, pelas Áfricas, Ásias, Américas, Europas. Continentes onde havia andado, de botas altas castanhas, coletes largos verdes, olhos argutos esfomeados e redes variadas à mão. A farda da silenciosa e lenta caça de novos exemplares coleccionáveis.
Havia uma coisa curiosa, na caixa mais pequena das borboletas encantadas - um espaço vazio, um alfinete sem cadáver por baixo, um corpo ausente. Uma borboleta por preencher, era a que faltava na sua colecção. Uma e apenas uma. Já não era nova, Dona Gardênia, mas sempre tinha sido ambiciosa. Não iria deixar a colecção inacabada, seria a sua última expedição, mas seria também a borboleta mais valiosa. E com a vantagem que, desta vez, não seria preciso viajar para muito longe. A noite já estava escolhida e seria precisamente hoje. Dentro de duas linhas, para ser mais precisa.
Quando Dona Gardênia achou que faltava pouco para a caçada da última e mais valiosa borboleta, levantou-se calmamente do sofá, sem desligar a televisão. Os passos entre a sala e o quarto foram seguros e calmos, a forma de vestir também. Não iria de botas castanhas e colete verde, a borboleta mais especial não habitava a mesma natureza cheia de vida onde tinha colectado as restantes de sua colecção. Era preta a farda desta noite. Confortável, sem ser larga, sapatos silenciosos, cabelos longos apanhados por baixo de um gorro de preta lã. Dona Gardênia estava pronta para ser a única detentora do mundo da espécie de borboletas mais rara.
Lanterna numa mão, martelo na outra. Ao ver-se ao espelho, sorriu. Dona Gardênia parecia um ladrão e não uma hábil e ambiciosa coleccionadora de insectos coloridos.
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A polícia bateu-lhe à porta logo pela manhã. A porta não foi aberta, seguiu-se o arrombamento, 10 homens fardados empunhando pistolas a correrem pela sala, a correrem até ao quarto, a chegarem ao escritório. Dona Gardênia, sem gorro nem cabelo alinhado, sentada no chão. A cara marcada por lágrimas, as mãos e a roupa cheias de sangue, a caixa das borboletas mais preciosas ao lado, caída, meia destruída, desalinhada.
Foi presa e condenada.
Prisão perpétua pelo homícidio de um casal de jovens namorados, com requintes de malvadez. Que os tinha estripado, arrancado o estômago e os intestinos, revolto e aberto orgãos, na busca desesperada de umas tais "borboletas no estômago dos apaixonados".
Não as encontrou e a sua colecção ficou para sempre inacabada.
sexta-feira, dezembro 31, 2010
O chão que pisas, sou eu.
Disfarça o sabor a sangue na boca. E tenta andar em pé, com as dores de quem tem os joelhos partidos, os calcanhares desfeitos, a carne a colar-se no chão, os ossos a baterem no chão e as pessoas a pensarem que o batuque é da sola dos sapatos. As pessoas, a pensarem que pensam e a comerem pensamentos mastigados pelos olhos.
Cuidado quando tentares fazer um sorriso. Há o perigo de te sair um esgar esquisito, capaz de pôr a chorar qualquer criancinha tenrinha. Cuidado quando apertares a mão a alguém, capaz de lhe partires alguns ossos para lhe tentar mudar a linha do destino. Não vai resultar, sabes disso. Cuidado quando entrares no autocarro, capaz de comeres à dentada os bancos e talvez o motorista e os passageiros, e depois vomitá-los agarrado ao pneu, canibalismo bulímico, o sabor a sangue dos outros misturado com o teu, misturado com o vómito e a bílis e as cores novas que se criam nessa poça aos teus pés. Quase poético, o vómito esverdeado-acinzentado, se não se tivesse transformado num lagarto emprenhado de lombrigas a correr pela cidade fora. Por esta cidade fora, por esta cidade dentro, nesta cidade sepultado por debaixo do alcatrão negro, por de cima dos alicerces podres, dos ninhos das ratazanas.
O corpo, nauseabundo, a espalhar-se no chão, sem espanto, nem coragem, nem força, nem vertigens.
quinta-feira, dezembro 30, 2010
Tábua de crenças II (2010)
terça-feira, dezembro 28, 2010
*
Perdi um asterisco.
Não sei onde o deixei, já procurei:
nos bolsos das calças
nos bolsos dos casacos
nos bolsos da bolsa
no carro
no chão do carro
nas almofadas do sofá
por debaixo das almofadas do sofá
no hall do prédio
no caminho que fiz daqui-até-ali
e não o encontro.
Perdi um asterisco e faz-me falta.
Não tanta quanto um ponto final, ou uma vírgula, é certo. Mas faz-me falta, o asterisco. Posso substitui-lo por BêJotaÉsse, mas não é a mesma coisa.
Preferia ter perdido outra coisa qualquer. Nunca se escolhem as coisas que se perdem.
Se alguém encontrar o meu asterisco, que me avise. É meio despenteado e tem um ar desconfiado quando não conhece as pessoas, mas depois é todo ternurento e meiguinho. É cor-de-rosa, para mal dos meus pecados que não gosto do cor-de-rosa, mas era a promoção que havia na loja do chinês, de asteriscos sem olhos em bico, só cor-de-rosas. E cheira a algodão-doce.
Eu sei, assim descrito nem parece que era meu. Mazéra, mazéra.
Se calhar foi isso.
Por não parecer meu.
Se calhar não o perdi, foi ele que se foi embora.
Fui abandonada por um asterisco.
E nem carta de despedida deixou.
Nem me avisou que ia lá fora comprar tabaco.
Se alguém encontrar o meu asterisco, que fique com ele.
Não o quero de volta.
Vou arranjar outro para mim,
um que seja líquido,
que seja feito de água:
Quero entornar asteriscos nas varandas dos vizinhos de cima.
segunda-feira, dezembro 27, 2010
linhas cruzadas em becos
Chris McCandless
O dia amanhece do lado de fora da janela. Um casal de adolescentes recém-apaixonados e recém-desvirgindados prende-se em suor e cansaço num abraço carinhoso. O teu despertador toca, mais 5 minutos, pensas. Os adolescentes adormecem no mesmo tempo em que te convences que tens mesmo que sair da cama. Entrar no banho. Escolher roupa que vestir, saltos que usar, não esquecer de combinar a mala nem de levar o laptop. O sr. Zé da pastelaria já abriu portas há que tempo, serve o café ao sexto cliente do dia, e um bolinho acabado de fazer. Vestes as calças e o botão aperta a custo, engordei?, e o sexto cliente do dia limpa as migalhas da boca e põe-se a caminho do escritório, mesmo aqui ao lado. Vai-se despedir hoje, que está farto de ser mal tratado por um chefe antipático, que tem ido a entrevistas várias, que finalmente a sorte lhe sorriu e agora sorri ele, dono de uma liberdade que se vai encostar a uma nova rotina.
O casaco, onde deixaste o casaco? ah, está no carro, falta o computador e duas trancas à porta que esta cidade confia mas não é de confiança. E passa na rua uma menina com o cabelo em trança, galochas para a chuva e dona de todas as poças enquanto a mãe reclama, na verdade porque há muito que não se encontra com o pai na cama, que lhes terá acontecido, é stress do trabalho, é stress do trabalho, nada preocupante, todos os casais passam por isto.
Guias pelo meio da cidade, passam edifícios, janelas, alcatrão, carros. Passam sonhos, desejos, medos, esperanças, expectativas. Semáforo vermelho, velho desdentado com a revista dos pobrezinhos, uma moeda, uma moeda, e tu que não e ele que segue para o outro carro, tal como seguiu a sua triste vida depois de ter enterrado dois filhos, depois de se ter apercebido que os outros três por ele não se interessam nada, que a culpa foi sua, que devia ter batido menos na mulher que tinha, que devia ter bebido menos e já resultava mas se conseguir vender só 2 revistas hoje já pode ir buscar um copo d3 ao António do bairro, que já não lhos vende fiados, mas se pagar o primeiro talvez lhe ofereça o segundo.
Entras no escritório, cumprimentas o porteiro, cumprimentas o segurança, sorris para os colegas com quem te cruzas no corredor. Cruzadas estão também as raças dos 5 cães que acabaram de ser paridos num quintal do outro lado da estrada e que amanhã, quando forem descobertos, vão fazer as felicidades do filho mais novo e angustiar a mãe não-tão-velha.
O dia de trabalho passa-te rápido, com muitos afazeres e decisões, planos e estratégias, vendas e compras. Lá fora os tempos do mesmo dia são outros: lento para os velhos colados à televisão, incrivelmente veloz para as crianças no infantário, praticamente parado no velório da igreja, em imperfeita pausa na sala de espera das urgências do hospital, ligeirinho nas carteiras e nos bares das universidades, curto na instituição de solidariedade social, onde curtas são também as mãos que dão quando comparadas com as que se estendem.
Ao jantar, enches 4 copos de vinho com histórias de tempos que passaram há pouco tempo, mas que vos parece muito, nessa mesa de amizades e frases adivinhadas, aventuras partilhadas, gostos reconhecidos. Ao jantar regressa a casa o marido ingenuamente encornado, o pai taxista muito suado, o filho estroina sempre animado, a criança ranhosa já de ar ensonado. Do outro lado do mundo nasce o dia e algumas vidas preparam-se para sair da cama, outras entram nela em horas desorientadas, os ciclos empurrados na rotação de uma terra que não sendo de ninguém é de toda a gente.
Pela janelas vês outra janela de luz acesa, o sabor do vinho adoça-te o pensamento, o dia correu-te bem com direito a elogio do chefe e palmadinha nas costas. Daqui amanhã espera-te uma promoção, daqui amanhã casas-te e tens filhos, daqui amanhã envelheces e não sabes o que te aconteceu. Há outra saída? Há outra alternativa melhor?
É o ritmo da vida, de todas as vidas, os rumos que tem que levar. Olhas à volta, uma já casada, o outro é para o ano, a terceira não está para lá encaminhada, mas há-de estar, há-de estar, que é isso que se faz.
Como explicar então que de repente o vinho te deixe um sabor amargo a insatisfação?
(Todas as outras vidas com que nos cruzamos sem saber, todas sem excepção, são pessoas que tentaram fazer delas o melhor possível, dentro do que souberam, dentro do que puderam. Mas esqueceram-se de se saberem vivas, esqueceram-se de se saberem existentes. Acontece, às vezes. Estar vivo não é o contrário de estar morto, pode-se estar vivo sem se estar, por desconhecimento desse facto.)
domingo, dezembro 26, 2010
Dona Perpétua
terça-feira, dezembro 21, 2010
Pai Natal, toda a verdade!
O PAI NATAL SÓ PODE SER GAY!!
Se não, como explicar:
- As botas pretas de cano alto! Um homem a sério não usa calças para dentro das botas a não ser que seja pescador (e isso são galochas!!);
- O desejo incontrolável de comer biscoitos caseiros com copinhos de leite branco? ("Ai ai, o que me apetecia mesmo era dar uma penaltada num copo de leitinho mimosa!!")
- O cinto largo, também ele em pele preta, a fazer pandan com as botas de cano alto! Além disso, onde já se viu um pançudo que aperta o cinto debaixo do peito e não no princípio do baixo ventre deixando o rêgo a descoberto?
- Só contrata trabalhadores pequeninos e alegres, vestidos de calções, suspensórios e collants às riscas!! Já para não falar de que o meio de transporte dele é um trenó puxado por renas!!! Homem que é homem arranja pêcherons ou minotauros ou outra coisa qualquer máscula que rosne ou grunha.... agora renas voadoras com narizinhos encarnados...
Enfim, ou é gay ou tem uma mulher muito autoritária...
A desgraça de dona Graça
Como se costuma dizer, dona Graça enchia uma sala - de vozes altas, de gargalhadas bem dadas, de frases afectadas, de gestos pensados e de gordura adiposa. E usava túnicas soltas e vestidos leves, para disfarçar o peso, se bem que este não lhe pesava, nem na energia, nem na leveza do seu ser, nem nos recônditos da sua consciência quando se deliciava com qualquer sobremesa cheia de creme.
Alegre, quase sempre, a verdade é que dona Graça não era descontraída. Tinha preocupações, dona Graça: com os filhos e as filhas que parira, o marido que a escolhera, os sobrinhos que lhe tinha dado, as vizinhas com que lidava, as associações a que presidia e os jantares de festa que promovia.
Não parava muito tempo para pensar, entretida nos seus afazeres, ritmo constante da vida sucessiva, pontuada nos tilintares de suas bugigangas: mais um baptizado para ensaiar, uma festa de beneficiência para orquestrar, um problema inconfessado de um sobrinho que por um olhar tinha adivinhado, tudo-tudo-tudo-tudo dona Graça resolvia. Mesmo quando as pessoas, coitadas, se zangavam com ela - injustas, as pessoas, que não percebiam que ela só as queria ajudar. E ingratas, porque nunca lhe agradeciam convenientemente. Não que dona Graça quisesse agradecimentos, "mas já viu óh Rosarinho? Tanto que eu fiz por ele e nem um 'obrigado tia' decente. Nem os pais dele, já viu?"
A vida de dona Graça resolveu gracejar com ela num pretérito inacabado, em meados do ano passado. Foi por razões de uma ida ao Brasil - viagem habitual que já há uns anos não repetia. Não levava o marido, não, que os homens para estas coisas são uns chatos; um grupo de amigas, que as compras tem que ser feitas e a diversão fica muito mais garantida.
No terceiro dia da estadia, deparou-se dona Graça com uma Casmerodius albus. De porte elegante, graciosidade no andar, magestidade no olhar e asas que pareciam feitas de nuvens. A verdade é que dona Graça já tinha visto outras garças, mas nunca deste tamanho. E irritou-se: bochecas encardidas do encarnado, gotas de suor a escorregarem entre as moles mamas, pulseiras e berlicoques a pontuar e a exclamar os tremeliques da irritação patentes nos braços e nas mãos.
Deu-se conta dona Graça, que o érre do seu nome e do da criatura estavam trocados, que era ela, a Graça que tinha voz esganiçada e era a outra, a garça, que era cheia de graça na vida livre que vivia. Deu-se conta dona Graça, que não podia voar, que estava presa à teia que lhe tinham cuspido, que nunca tinha questionado o que tinha querido, que nunca se tinha lembrado de acordar e sair da cama feita de lençóis de expectativas, normas, códigos e suposições.
Deu-se conta dona Graça, que os anos que tinha e não confessava haviam sido dispendidos em energias inúteis, esforços inglórios, traduzidos em resultados nulos nas suas importâncias. E as suas rugas não eram as testemunhas de um caminho preenchido, eram antes a marca acusadora de uma vida tão pouco tentadora.
E a irritação subiu-lhe à fronte e a garça defronte nem a olhava e dona Graça em desgraça rebentou de irritação.
Depois de recolherem os seus pedaços espalhados, puderam apontar no relatório médico a causa da morte: "consciência tardia". E o médico que o escreveu olhou para o enfermeiro e desabafou, que é este dos poucos casos em que mais vale nunca que tarde.
segunda-feira, dezembro 20, 2010
De um mal-me-quer para o mundo
Escrevo-te aqui de Lisboa para te dar uma notícia grave: o Inverno chegou.
As pessoas andam de cara feia e ombros encolhidos, a tentar proteger-se do frio e da chuva. Os dias amanhecem sem sol e o tejo já se cobriu daquela cor cinzenta escura de quem não dá cavaco a ninguém.
À minha volta, os outros mal-me-queres encolhem-se em protestos. Nunca percebi isto de protestar encolhido, entre-dentes. Acho que têm medo, mas não sei do quê. Acusam-me de falta de prudência ou juízo, mas acho que eles tem medo das histórias que se inventam sozinhos.
Daqui de onde estou, continuo a esticar-me em direcção ao céu. Nem sempre é fácil, mas também não é difícil. Conheço o sabor da chuva, já. E das solas de sapatos. Eles não, e apontam-me as marcas que vou ganhando. Não serei o mal-me-quer mais bonito da primavera, não sei se chego à primavera.
Tu sabes, nunca foi à primavera que quis chegar. Foi sempre ao ponto mais alto da mais alta montanha, ao fundo mais negro do buraco mais escuro.
O outro dia conheci uma mulher que era esposa, logo por detrás de ser mãe e antes de ser meio casal. Saiu à rua com as pernas de trazer por casa e os olhos cheios daquela solidão que se entranha nos ossos. Trazia um miúdo pela mão e a falta de si pela outra. Não estou certo que ela saiba da sua existência. Nem da sua inexistência. Talvez também se tenha inventado medos, antes de se coser com as linhas das expectativas alheias. Não sei se ela se acusa de ter escolhido o caminho mais fácil, sem saber que entrou no labirinto mais difícil. Ou se se congratula por ter conseguido cumprir o plano que alguém planeou para ela.
Às vezes acho que o mundo anda trocado. Mas depois aparece um daqueles dias de inverno com sol e esqueço-me disso.
Acho que amanhã vou ter contigo. Os outros mal-me-queres desta calçada não só não querem vir comigo, como já me disseram que não podia. Porque nunca nenhum tinha levantado as suas raízes, porque temos folhas e não asas. Eu ouvi-os, mas não os percebi. De resto, estavam outra vez a protestar encolhidos.
Pelas minhas contas, devo chegar à hora de jantar. Mas não tenhas trabalho a preparar nada de especial, se me arrancares as folhas uma por uma é suficiente. E prometo que a que vai sobrar, será um bem-me-quer.
quinta-feira, dezembro 16, 2010
Progenitorices!
Os homens andam atrasados, os bichos não. (parte I)
Talvez aquilo que temos de mais real na nossa vida, o tempo - o que temos e o que nos falta. E aquilo que mais temos de fictício na nossa vida - o tempo, concepção humana sobre a evolução natural dos organismos vivos e não vivos.
O tempo não existe fora de nós. Os animais não têm tempo, tem necessidades biológicas, tem comportamentos, tem uma evolução física que faz uma curva semelhante à da distribuição normal. (Sim, tenho noções de estatística.)
Os homens estão presos ao tempo. O tempo de estudar, o de comer, o de se divertir, o de trabalhar. Os homens andam atrasados, os bichos não. O Homem dividiu uma evolução em partes desiguais entre si, iguais entre outras. Arranjou "marcos", quando o sol aparecer ali é de dia, quando desaparecer dali é de noite. O período espacial (e não temporal) que vai do sol ir daqui até ali fica dividido assim. Quando o sol aparecer daqui-ali X vezes, chamamos-lhe assado. E quando forem 365 vezes, chamamos-lhe frito. Ah, mas depois ele não aparece ali de vez em quando, quando era suposto. Não faz mal, aí deixamos que ele apareça mais uma vez, de 4 em 4 vezes das outras. Ah, tá bem.
Estrutura, medida, uniformização, conceptualização - o tempo.
Problema: tempo flexível.
- Uhm? O tempo não é flexível, todos os minutos duram o mesmo.
- Mentira. Tive minutos na minha vida que demoraram mais de 3 horas. E tive horas na minha vida que duraram menos de dois minutos.
E todas as noites me duram mais do que os dias. As noites tem outro tempo que o tempo dos dias, outro ritmo, outra passagem. Os dias passam a correr, as noites arrastam-se com a lentidão de quem não tem ninguém à espera, de quem não tem contas que prestar.
- Ah, isso não é o tempo que duram, é a percepção que tu tens da sua duração.
- A percepção que eu tenho que uma coisa que não existe, mas que se faz sentir, fortemente, real. E chamas percepção àquilo que sinto e não à invenção de algo "criado" mas que afinal existe.
- Ah, não é assim tão simples.
- Pois não. Especialmente nos tempos desencontrados.
- Nos quê?? O tempo é sempre igual para toda a gente, estamos todos no dia não sei quantos do mês não sei que mais do ano tal. E são precisamente x horas. Se estamos no mesmo sítio, o meu tempo é igual ao teu.
- Sim, mas eu queria ficar contigo agora e tu achas que se eu te tivesse aparecido em outro tempo, poderiamos ter ficado mas agora não. Como se os nossos caminhos tivessem cruzados, mas em tempos diferentes.
- Ah, mas isso não é o tempo, isso é a oportunidade.
- Desperdiçada num tempo que não é o meu nem o teu.
- É, é, a nossa concepção temporal é a mesma.
- Mentira. Este ano para mim passou a correr. Este ano para ti demorou-se uma eternidade. O ano passado aconteceu-me isto, mas parece que foi há 20 anos atrás, que isto sempre existiu na minha vida. O meu tempo não é igual ao tempo que "uso" para me relacionar com as pessoas. Esse tempo imposto é uma plataforma comum de referenciação. Mas o meu tempo é diferente do teu. E pior, o meu tempo não está ao meu dispôr como quero.
- Estás a atrofiar, e eu estou sem tempo para te ouvir.
Quanto tempo terá o meu tempo para esperar por ti?
Quanto tempo dura a vertigem de uma queda, no desconhecimento do solo onde vai aterrar e do quanto vai doer?
quarta-feira, dezembro 15, 2010
Variações infinitas de um blog'ere
terça-feira, dezembro 14, 2010
D. Constância
Usava e abusava das saias pelo joelho - se gostava de um modelo, comprava os que houvesse de cores diferentes. Ou iguais, se gostava mesmo-mesmo. E não era só com as saias, era também com os casacos, camisas e sapatos.
Todos os dias saía de casa as 7h28 da manhã. Passava pela pastelaria e dizia "Bom Dia", sem ter que fazer nenhum pedido. Um saco com 2 pãezinhos integrais lhe era estendido, ao mesmo tempo que um café curto em chávena fria. 2 pãezinhos integrais, iguais ao outro que tinha tomado esta manhã ao pequeno-almoço, levado no dia anterior - um para o lanche do próprio dia, um para o pequeno-almoço do dia seguinte. O do lanche com fiambre, o do pequeno-almoço com queijo.
D. Constância fazia dos hábitos e rotinas a sua personalidade. Cortava a margarina sempre a direito, barrava a manteiga sempre do mesmo lado. Antes de sair de casa, a volta era sempre a mesma: entrar no quarto e ver se a janela estava fechada, passar na cozinha e ver se havia louça suja fora do lava-loiças, passar na sala e ver se tinha desligado a televisão, apanhar as chaves e sair. Em mais de 50 anos não se lembrava da última vez que tinha fechado a janela do quarto, arrumado loiça ou desligado algo na sala nesta volta antes de sair. Mas continuava a fazê-la, pelo sim pelo não, porque era assim que saía de casa.
Tinha outras manias, arrumava os livros por ordem de alturas, guardava todas as caixas e caixinhas que lhe vinham parar às mãos. Para o caso de um dia precisar delas, e tinha um armazém de caixas vazias, que não eram precisas, debaixo da cama.
Adormecia sempre na mesma posição e acordava sempre da mesma maneira.
Habituou-se aos mesmos caminhos, aos dias repetidos, às frases iguais. E habituou-se também às mesmas palavras, as mesmas terminologias - reduziu o seu mundo de propósito e reduziu o seu pensamento na consequência.
Vivia tranquila, D. Constância, mas houve um dia que na sua cabeça se começou a desenvolver uma terrível patologia. Alzheimer, mal degenerativo de consequências nefastas. Padrões repetitivos, perdas de memória... mas D. Constância não deu por isso, nem ninguém das suas lides. Morreu com a doença por diagnosticar, nos dias iguais, frases habituais e caminhos repetidos.
domingo, dezembro 12, 2010
das urbes que urgem
sexta-feira, dezembro 10, 2010
tales from real life
Tira uma caixa de petit gatoux.
Tira lá de dentro os dois que sobram, põe num prato, enfia no microondas.
Abre o lixo, retira a caixa que lá pôs mesmo agora.
Vê quanto tempo tem que por no microondas.
Mete esse tempo.
Micro pára.
Não estão feitos, mete mais um pouco. Micro pára. Não estão feitos, mete mais um bocado. Micro pára. Acha que estão, agarra numa colher, começa a comer.
Agora não sabe se há-de bater com a cabeça nas paredes por nem conseguir aquecer petit gatoux no microondas ou se há-de congratular-se a si própria por ter "criado" um novo quente-e-frio.
quarta-feira, dezembro 08, 2010
a briga do costume
segunda-feira, dezembro 06, 2010
Olá, teste, um dois, um, dois, som!!
As coisas boas vêm aos pares
Não sei como vão assinar nem o que vão querer ser aqui, suponho que o tempo e a participação ajude a definir. Assim, sem regras, sem limites, sem objectivos, uma nova fase no blog, muitas novas frases no blog, meio experimental, meio indefinida, que cada sentimento perdido ou encontrado no vento lhe ponha e lhe traga o que tiver guardado nos bolsos e apetecer partilhar, da forma como quiser.
:)