sexta-feira, outubro 29, 2010

meia-noite.
ela olha à sua volta e lembra-se de todas as vezes que ouviu que a maior parte das vezes, a felicidade existe mesmo ao nosso lado. ao estender da mão, ao alcance da mão, e não damos por ela.

sorri.

lembra-se de todas as vezes que ouviu que, felicidade é aquilo que encontras quando dás a volta ao mundo à procura dela mas é no regresso a casa que ela te espera.

bebeu mais um trago do vinho adocicado, de olhos presos no cenário em que vivia.

teve certezas.
os conformistas dizem muita merda. e decidiu-se em partir para ir à procura da felicidade. Não para a encontrar, mas para a construir em qualquer outro sítio que não este, que não ao alcance da sua mão.

domingo, outubro 24, 2010

faithless

Chuva. E um céu escuro e fechado tapava a saída do mundo. Pelo menos aquela única saída que sempre tinha sido considerada possível. Nestes dias ficava calada e tentava evitar as pessoas. Não era por mal, nem por bem, na verdade. Nem sempre se tem o domínio dos próprios gestos, nunca se tem o domínio dos próprios pensamentos. É só que, sem saída, não sabia para onde ir. Como se as pessoas tivessem sempre que estar a ir para algum lado, pensava. Mas estão, de facto... entre planos, metas e objectivos, à procura da conquista seguinte, que antecede a outra a seguir. E os falhanços pelo meio, que é bom errar e é no erro que se aprende... o erro tornou-se também um objectivo, olha que bem. E faz sentido, e é consensual.

O sentido. As lógicas. Os "factos". Chamam-se "factos" àquelas lógicas de argumentação que nos fazem sentido. Desde a religião que tudo tem um sentido. Assim, num céu sem saída, a única religião possível é a religião pagã. E sorria.

Era por isto que não gostava de estar com pessoas quando chovia na sua cabeça e um céu escuro e fechado lhe tapava a saída de um outro mundo que não aquele onde o sol brilhava, do lado de fora da sua janela.

sábado, outubro 23, 2010

...

Uma artista.
Não, uma bailarina.
Pode ser, as bailarinas não são artistas?
Não embirres comigo. Escreve.

"Era uma bailarina que mesmo fora de palcos andava em bicos de pés pela vida..."

Chega lá esse cigarro para lá. Porque é que tens que estar sempre a fumar quando escreves?
Sei lá. Para me concentrar. Deixa-me continuar.

"Tinha um sorriso do tamanho do mundo, um olhar vibrante, daqueles que vê um bocadinho mais fundo e com mais atenção do que os outros..."

Isso não diz nada sobre ela.
Claro que diz.
Não diz nada. E ela não tinha já deixado de dançar?
Voltou. Escreve tu agora.
Não quero, continua lá. E afasta o cigarro.

"Tinha deixado quase todas as suas raízes noutra terra e as que trouxe começavam agora a definhar, passado tanto tempo. Ainda assim, dançava, como último reduto seguro de uma essência que não estava certa de conhecer..."

Isso também não diz.
Claro que diz. Lê lá com atenção.
Tá bem, tanto faz. Continua.
Não sei para onde. Nem ela sabe. Queres ver?

"Às vezes perdia-se nos ritmos das músicas diferentes que encenava. Ou talvez não se perdesse, encontrava-se todos os dias na multiplicidade de gestos que desenhava no ar."


Ahahahaha! Isso foi porque se acabou o cigarro?
Não... a história é que vai a meio e precisa de tempo para acontecer, e eu preciso de tempo para a conhecer.
Estás a pensar no quê?
Não sei. Em que só digo asneiras.

segunda-feira, outubro 18, 2010

A gente habitua-se

A gente habitua-se, desde criança, a dizer "obrigado" e "se faz favor". A não gritar, a ser bem comportado, a dar beijinho ordeiramente depois de nos mandarem, mesmo sem conhecermos aquela cara de lado nenhum. A gente habitua-se, a cumprir as expectativas que nos depositam e que não escolhemos. A gente habitua-se a fazer letra redondinha e a decorar matérias que não percebemos na escola, sem saber para que servem.

A gente habitua-se à ideia de ter que escolher qualquer coisa "para ser" na vida, e escolhemos e continuamos a cumprir as expectativas da nota X no exame Y, do estágio A no sítio B. A gente habitua-se, a passar de estágio para estágio, a viver com menos de 1000 euros no bolso, a sonhar com um contrato, geração rasca, geração à rasca.

A gente habitua-se a estar fechado 10 horas por dia em sítios que não são as nossas casas, com pessoas que nos obrigaram a conhecer, a fazer tarefas que não escolhemos, a ver o sol e o vento passar do lado de fora da janela.

A gente habitua-se a perder o verde das árvores, a não sentir o cheiro de terra molhada, a ver o horizonte largo que acaba na vista do prédio da frente. No trabalho e em casa.

A gente habitua-se às relações que temos, aos amigos que temos, às desilusões que sofremos, "a vida é assim" dizemos, enquanto nos habituamos a que seja outra vez assim.

A gente habitua-se a sair do trabalho e a almoçar em pé e sozinho, no meio de estranhos que evitamos olhar nos olhos, que evitam olhar-nos nos olhos. E a gente habitua-se a sair do trabalho e a irmos para casa, comer qualquer coisa em frente à tv e a sentir o serão passar, para no dia seguinte acordar e espreitar mais uma fila de trânsito, mais uns atrasos, mais o sol a passar na janela.

A gente habitua-se a que o amor se gaste, a gente habitua-se a que as conversas acabem, a gente habitua-se aos tópicos práticos e funcionais e aos silêncios que já não traduzem o conforto e a cumplicidade entre duas pessoas. Significam outra coisa qualquer, mas a gente habitua-se a eles também.

A gente habitua-se à vida e a tudo o que não gostamos na vida. Para não lutarmos por coisas perdidas, porque olhamos à volta e vemos gente habituada, para não nos desgastarmos deixamos que a vida se gaste sem que a gente faça outra coisa nela senão habituarmo-nos.

Terá mesmo que ser assim?




(li um texto parecido com isto em algum sítio, não me lembro onde, não me lembro de quem, sei que não me sai da cabeça há uns dias e acabei por ir escrevendo, parecido, igual, diferente, não sei. não é cópia, não é plágio, também não é ideia original minha, confessadamente.)

terça-feira, outubro 12, 2010

"Your idea of me is fabricated with materials you have borrowed from other people and from yourself. What you think of me depends on what you think of yourself. Perhaps you create your idea of me out of materials you would like to eliminate from your idea of yourself. Perhaps your idea of me is a reflection of what other people think of you. Or perhaps what you think of me is simply what you think I think of you?"

(ou, o eu na construção do tu e vice-versa, ou, uma nota mental de mim para mim.)

segunda-feira, outubro 11, 2010

...

Chegou e trazia as mãos vazias dentro de uns bolsos cheios de nada. Olhou à sua volta e viu gente. Teve vergonha das suas mãos vazias, dos nadas que lhe rebentavam pelas costuras, das palavras ocas com que tentava traduzir os silêncios que a recheavam. Pensou que este não era o seu lugar, teve todas as certezas do mundo que este não era o seu lugar enquanto via à sua volta os movimentos seguros de quem não se sabe repleto de pequenas brisas perfumadas a efémero. Assim de fácil, assim de inexistente, assim de intocável.

Foi ficando, porque foi, por acaso, porque não tinha mais onde ir.

E foi enchendo os seus bolsos de outros nadas de outras pessoas, de outros silêncios e intraduções de outras gentes, de tantos vazios como o seu, cheios de vontade de dar o que não existe.

Aos poucos, quem sabe, isto lhe começa a fazer sentido.
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