quinta-feira, setembro 04, 2014

As coisas que quero depois de ti

23 anos sem ti, 48 anos contigo.
Houve um tempo em que moço bravo feito abria o peito às ideias revolucionárias, mais ou menos revolucionárias - se tiver que ser sincero - mas abraçava as causas - pelo menos até ser hora de jantar, conheceste a minha mãe, sabes que sempre foi chata com as horas de jantar, mesmo depois de homem feito - desfrutava de uma liberdade curiosa de ir ver o mundo. Lembras-te quando queria que nos mudássemos para a França e tu dizias "Mas Manel, e depois como os entendemos? E como arranjo os coentros para fazer açordas, que tu tanto gostas e eu não sei se há coentros na França e a tua mãe está doente e precisa de ti Manel, e agora que o gaiato é pequeno é que queres ir, deixa-o crescer mais um tempo, depois nem fala português nem sabe a que sabem coentros Manel" e sempre gostei do meu nome na tua boca, a forma como dizias "Manel" tinha o carinho dos nossos abraços e não havia tempo nem espaço para abraçar mais nada além de ti e das barrigas que iam crescendo uma depois das outras. 5 filhos, já viste, e 2 até são doutores mas está tudo orientado e todos tem os teus olhos e quando dizem "Pai" também há carinho mas não há os teus olhos a olharem para mim assim, como fazias quando dizias "Hoje não há açorda, não te chega já de pão, pão todos os dias a todas as horas? E vai-te pentear homem, andas sempre despenteado, não te deixei um pente no casão para não andares assim desgrenhado?".

Houve um tempo em que moço bravo abria o peito a sonhar com sítios lá longe, mais longe do que para trás daquele cabeço, até ir ver o mar, e fomos ver o mar os dois, lembras-te, e tu dizias que cheirava estranho e rias descalça com a saia levantada por debaixo do joelho e sempre tiveste uns artelhos lindos, mesmo quando a má circulação não perdoou, mesmo quando se te inchavam as pernas no verão e as artroses te criaram um ritmo novo, e tu dizias "não faz mal Manel, olha para elas que nem roupa trazem, coitadinhas que devem ter frio, com elas ali naquelas coisas tão apertadinhas ninguém me olha os artelhos Manel" e dizias que o som do mar era bonito mas dava vontade de fazer xixi e eu nunca te disse que não há nenhum som mais bonito do que quando te rias e dava vontade de saber todas as histórias engraçadas do mundo para que nunca parasses de te rir.

Houve um tempo em que moço bravo queria ir para a capital, que lá é que há a vida, e fomos à capital e tu vaidosa com um lenço novo ao pescoço e nunca tínhamos vistos tantos carros e as estátuas são muito altas, para que fazem as estátuas tão altas se não dá para as olhar de frente, a da paróquia tem um sorriso triste e um alto estranho numa bochecha e tu dizias que devia ser um abcesso de pedra e eu nunca soube para que pensavas tu sobre aquelas coisas porque as estátuas não tem abcessos nem tristezas, e para que as querias olhar de frente porque desde que pudesse olhar de frente para ti não havia nada mais que eu quisesse ver.

Houve um tempo em que moço bravo queria fazer coisas e fizemos 48 anos de casamento e tu a cortares os alhos, e tu a cortar cebola, e os teus lenços ainda na gaveta e os nossos filhos que aparecem menos com os olhos iguais aos teus, fizeram-se uns belos moços, sabes que sim, mas eu não sei cortar alhos nem cebolas e escondo-lhes as lágrimas na almofada, que estas coisas não são para se amostrar, o que pensariam, e já sei, que tenho 48 anos para recordar e que fomos felizes dizem eles, mas depois de ti não quero isso, depois de ti não quero muito, as coisas que quero depois de ti é que o mundo se esqueça de mim, que o sol não nos entre pela casa adentro e que os corvos me venham buscar pela janela do nosso quarto durante a próxima madrugada em que não estejas a dormir comigo. Daqui a bocadinho.

quarta-feira, setembro 03, 2014

Dona Lena

Dona Lena era financeira e dizia números crescidos - separados com vírgulas do grandes que eram - dizia indicadores,
volumes,
métricas
e pensava sentimentos - separados pela ausência de tempo para os sentir, do forte que eram - pensava sonhos,
ilusões,
esperanças que nem chegava a acalentar no breve escorrer dos dias corridos ou voados - ai, não são voados de sentir o vento na cara, são tipo voados em motores barulhentos e com cheiro a óleos ou cadáveres de pássaros esmigalhados - não sei se me estou a explicar, não tenho tempo para me explicar //

se tinha tempo para olhar uma nuvem, nem a via, por isso gostava de cheiros, não se perde tempo a avaliar cheiros, quando se dá conta deles é porque já foram vistos sem se dar conta disso, é ver sem ter que perder tempo a olhar, é ouvir o que não foi dito, é uma forma de cumplicidade unilateral, secreta, escondida, guardada cá dentro, e

Dona Lena dizia,

Dizia que a felicidade não era isto, mas dizia-o a sorrir em suspiros, dizia coisas demais e sabia-o, mas calar é morrer ou encontrar pelo menos um silêncio que põe a nú todas as incertezas e inseguranças e fragilidades e não há nada mais frágil do que o próprio silêncio, portanto mais vale dizer que a felicidade não é isto, e dizê-lo a sorrir em suspiros, enquanto se corre sem tempo para se explicar o inexplicável, para traduzir o intraduzível, Dona Lena dizia,

Um dia mudo tudo, um dia mudo o mundo para ter tempo para mudar também, um dia deslargo tudo para poder não mudar nunca mais, um dia descalço-me de vez para não poder correr, um dia deixo-me cair de verdade para aprender a voar a sentir o vento na cara.

segunda-feira, setembro 01, 2014

"that's not relevant"

O Sr. António vestia cinzento com cinzento: três botões no casaco e mais outros três do lado de dentro da garganta; umas calças meio roçadas nos bolsos de tanto tentar guardar as mãos e as memórias que elas seguravam; umas meias pretas bem esticadas, para não destoar do que se esperava dele.

Tinha a sua rotina diária há já tempo que chegasse para a ter querido mudar e depois desistido de ideias revolucionárias. Aliás, a única revolução em que havia querido participar, o Sr. António, foi na tentativa de mudar o rumo a um coração estrangeiro mas não lhe chegaram os protestos e gritos de guerra - o amor é um lugar frágil - mais a mais quando só há meia ponte que nos desune, Sr. António.

O Sr. António aprendeu o cheiro e a cor dos dias repetidos, um que vai e o outro que volta,
quando foi que aquilo aconteceu?
ontem?
a semana passada?
há 3 anos?;
o Sr. António aprendeu até a apreciar o sabor do vento constante, uma doce bolina amainada, um quentinho pouco ardente, uma euforia adiada.

"O mal foi que nos perdemos" pensava de mãos nos bolsos, passo apressado, olhar no chão, "mas será que nos perdemos mesmo ou que nunca nos encontrámos, será que é possível duas pessoas encontrarem-se de facto no espaço do que se diz, do que se quer dizer, do que se entende, do que nos prende..." e chegava a casa vindo de mais um dia, gestos seguros na fechadura, uma mulher que o esperava - a sua mulher - um beijo na testa e a cabeça do lado de lá de um qualquer horizonte longínquo, "se calhar nunca me amou, fui só eu que o achei, talvez nunca se tenha apaixonado, fui eu que o achei, mas então porque me olhava como olhava e já nem me consigo bem lembrar da sua cara, mas também, que saudades eram as suas que nunca se mediram em urgências" - Qualquer coisa para o jantar querida! - "que leveza nas palavras a levou a voar daqui para fora, que queria, que procurava, onde não cheguei..?" - Carne, sim, pode ser! - "e eu que achei que poderíamos ser felizes até ao fim dos dias" - Arroz, prefiro arroz! Ligaste ao canalizador? - "e até tinha razão, afinal de contas seremos talvez os dois felizes até ao fim dos dias" - Está bem, terça feira, eu estou cá - "só que um longe do outro".
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