quinta-feira, setembro 15, 2011

história que toda a gente conhece

Mariazinha tem 3 anos e quer a sua chupeta. A mãe afasta-a, porque sabe que Mariazinha se vai magoar nela, com os seus novos dentinhos. Mariazinha não sabe das razões nem dos porquês, quer a sua chupeta e quer-la tanto que dos pulmões nascem furacões que abanam as paredes da casa e transformam os cérebros dos pais em papa. Mariazinha consegue a sua chupeta e magoa-se nela com os seus novos dentinhos. Não sabe ainda que não adianta chorar sobre a chupeta derramada, mas adiante na história que a chupeta em si não nos interessa.

 Mariazinha tem 7 anos e quer subir ao muro da escola. A professora não deixa, que te vais magoar Mariazinha!, e Mariazinha aproveita todos os intervalos em que a professora está distraída para acenar aos coleguinhas do alto do muro branco. Sobe uma, sobe duas, sobe vinte, Mariazinha é a rainha da escola quando a professora não vê, até ao dia em que a professora se zanga com o namorado ao telefone e volta mais cedo, dá de caras com Mariazinha no muro, grita alto e assusta-a, Mariazinha dá de caras com o chão do intervalo. Mariazinha magoa-se uma vez em 50 e deixa de ser rainha da escola.

Mariazinha tem 12 anos e mais de 7 amigas com quem partilha segredos. Que o rapaz mais giro da escola é o Rui, ai Mariazinha não se gosta de um rapaz de 14 anos. Mas ele tem estilo e as calças abaixo do rabo, os risinhos das amigas são quase histéricos quando ele passa até que lhe passa a vontade de trocar olhares com Mariazinha. Das 7 amigas, uma foi fazer conversinha - ai Mariazinha que te deu para confiares nas 7, os números perfeitos são apenas bíblicos - Mariazinha chora as traições e outras intenções, Mariazinha só tem uma amiga com quem partilha segredos.

Mariazinha tem 17 de média e 17 de idade. São os exames nacionais e Mariazinha estuda e estuda e estuda e passa e passa e chumba. 2 exames brilhantes, um exame de merda - ai Mariazinha, tão boa aluna que tu eras e ainda acabas a lavar degraus. Pode ser que não, que a segunda opção da faculdade não era a de empregada doméstica, mas pobre Mariazinha, nunca acerta, nunca acerta.

Mariazinha tem quase 30 anos e sabe que quem não arrisca não petisca, mas tem tanto medo Mariazinha que se vai desculpando que os petiscos engordam e se calhar é melhor não.

Mariazinha Mariazinha, um dia destes digo-te que se não fosses tão parva eras estúpida que nem uma porta. Sem demérito para a porta, que ainda é mais estúpida que tu porque se fecha sempre como se fosse a última vez. Até ao dia em que quebra e é substituída por outra mais prudente.

Moral da história?
É no equilíbrio que está a virtude.

Largamos a Mariazinha e recomeçamos?

Osho, Zén, Chin e Yang eram quatro amigos muito equilibrados, tão equilibrados equilibrados que podiam vir a ser os melhores trapezistas do mundo inteiro e arredores. Mas nunca o seriam, a vida no trapézio é um risco sobre uma linha e quando há mais risco do que segurança não se está no equilíbrio. Por isso eram outra coisa, gestores de coisas - um de comunicação, outro de recursos, outro de humanos e outro de gestão. Sim, gestor de gestão, hoje em dia também fazem falta. Em equilíbrio lá se casaram na idade devida com raparigas equilibradamente giras e interessantes, a tentarem equilibrarem-se em cima das suas andas, ai perdão, sapatos de saltos muitos altos. Nem demais nem de menos, nem muito apaixonados nem muito enjoados. Um deles casou com a Mariazinha e viveram equilibradamente felizes, moderadamente satisfeitos, só tinham - por mera coincidência - um problema na vida: a porta de sua casa nunca aguentava muito tempo, estava sempre a partir-se e a ter que ser substítuida.

É assim com as intensidades da vida.

segunda-feira, setembro 05, 2011

...

A língua transformada em granito quando dizes "tens a maturidade emocional de um cachorro de 3 meses" mas não me atiras a bola de volta.

As flores de papel arrastadas pelo vento das pálas de um moinho em ruína, rua fora, ao longo da costa, para longe. É o tempo dos varredores de rua, cabeças viradas ao chão, não sei de que cor têm os olhos. Só sei do irritante barulho das vassouras feitas de ramos mortos a rasparem nas pedras da calçada, são de granito, como a língua.

É o tempo do fim das festas, dizem os varredores sem falar.
É o tempo do fim das festas, diz o cachorro sem abanar a cauda.
As pedras, essas não dizem nada. Ficam-se com o seu tempo e o seu peso, as histórias que calam e a vontade de aprenderem a voar, que nunca será de facto uma possibilidade. Mas também, assim como assim, não precisam de mais nada.
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