sexta-feira, dezembro 31, 2010

O chão que pisas, sou eu.

Disfarça o sabor a sangue na boca. E tenta andar em pé, com as dores de quem tem os joelhos partidos, os calcanhares desfeitos, a carne a colar-se no chão, os ossos a baterem no chão e as pessoas a pensarem que o batuque é da sola dos sapatos. As pessoas, a pensarem que pensam e a comerem pensamentos mastigados pelos olhos.
Cuidado quando tentares fazer um sorriso. Há o perigo de te sair um esgar esquisito, capaz de pôr a chorar qualquer criancinha tenrinha. Cuidado quando apertares a mão a alguém, capaz de lhe partires alguns ossos para lhe tentar mudar a linha do destino. Não vai resultar, sabes disso. Cuidado quando entrares no autocarro, capaz de comeres à dentada os bancos e talvez o motorista e os passageiros, e depois vomitá-los agarrado ao pneu, canibalismo bulímico, o sabor a sangue dos outros misturado com o teu, misturado com o vómito e a bílis e as cores novas que se criam nessa poça aos teus pés. Quase poético, o vómito esverdeado-acinzentado, se não se tivesse transformado num lagarto emprenhado de lombrigas a correr pela cidade fora. Por esta cidade fora, por esta cidade dentro, nesta cidade sepultado por debaixo do alcatrão negro, por de cima dos alicerces podres, dos ninhos das ratazanas.

O corpo, nauseabundo, a espalhar-se no chão, sem espanto, nem coragem, nem força, nem vertigens.

quinta-feira, dezembro 30, 2010

Tábua de crenças II (2010)

Acredito na insistência e na teimosia. Porque as coisas criam-se e constróem-se nas rotinas do dia-a-dia, nas horas iguais às outras horas e não nos momentos geniais de inspiração metafísica.

Acredito nos momentos geniais de inspiração metafísica, mas, pelo sim pelo não, que é melhor não contar com eles.

Acredito que as pessoas não mudam mas sei que evoluem e se tranformam. Acredito que tenho que me lembrar mais vezes que o fazem apenas por processos internos de descoberta e não porque alguém lhes oferece as respostas que precisam embrulhadas em papel verde e laçarote vermelho em cima.

Acredito nos recomeços como forma coerente de evoluir no mesmo percurso.

Acredito que a chuva a bater no rosto ajuda nesses recomeços.

Acredito na consistência do ser, dos acontecimentos e dos processos, como forma de tomada de decisão mais livre e acertada. Acredito na inconsciência como forma de sentir a liberdade na pele.

Acredito no auto-controle e na racionalidade como forma de perceber e fazer. E nos sentimentos e como forma de ser, sentir e querer.
Acredito nas escolhas por opção. E nas inevitabilidades, por emoção.

Acredito profundamente nos paradoxos. E em que os paradoxos podem trazer coerência.

Acredito na boa vontade como valor alicerce para o entendimento entre pessoas. Tudo o resto vem depois. Se a boa vontade não for comum, mais nada poderá ser contruido em comum.

Acredito que os gestos das pessoas valem mais do que as suas palavras.
Acredito nas palavras, fora das pessoas. E nos cheiros que trazem.

Acredito que é possível ver-se mais do que aquilo que se vê. E para isso, basta olhar de verdade.

Acredito em planos e estratégias.
E na falta deles e delas.

Acredito no silêncio da minha casa. E no barulho das conversas soltas entornadas em copos de vinho, servidas como aperitivos para as descobertas dos sentidos - da vida e dos sensoriais.

Acredito que é na variedade que se encontra o conhecimento. E que acreditarei sempre nisto, ou que espero acreditar sempre nisto.

Acredito que tenho as mãos cheias de nada e que vão continuar assim até morrer. Que nunca irei agarrar nada mas que há momentos em que posso tocar em algumas coisas - tal como emoções, sentimentos, pessoas, sonhos - e até segurá-los um bocadinho, saber-lhes as formas, consistências, texturas, antes de voltar a ficar com as mãos cheias de nada.

"Acredito que aquilo em que acreditamos faz de nós aquilo que somos e que é uma ajuda lembrar disso quando nós próprios nos sentimos perdidos."
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Em 2003 escrevi um texto chamado "tábua de crenças", pode ser lido aqui.

Em 2010 andava às voltas com ele, que seria altura de escrever um novo, mas não me saía. E no natal, a minha mãe ofereceu-me com um metro de altura. E eu gostei mesmo, mas decidi que antes do final de 2010 teria que escrever um novo. E escrevi.

terça-feira, dezembro 28, 2010

*

Estou preocupada.
Perdi um asterisco.

Não sei onde o deixei, já procurei:
nos bolsos das calças
nos bolsos dos casacos
nos bolsos da bolsa
no carro
no chão do carro
nas almofadas do sofá
por debaixo das almofadas do sofá
no hall do prédio
no caminho que fiz daqui-até-ali

e não o encontro.

Perdi um asterisco e faz-me falta.
Não tanta quanto um ponto final, ou uma vírgula, é certo. Mas faz-me falta, o asterisco. Posso substitui-lo por BêJotaÉsse, mas não é a mesma coisa.

Preferia ter perdido outra coisa qualquer. Nunca se escolhem as coisas que se perdem.
Se alguém encontrar o meu asterisco, que me avise. É meio despenteado e tem um ar desconfiado quando não conhece as pessoas, mas depois é todo ternurento e meiguinho. É cor-de-rosa, para mal dos meus pecados que não gosto do cor-de-rosa, mas era a promoção que havia na loja do chinês, de asteriscos sem olhos em bico, só cor-de-rosas. E cheira a algodão-doce.

Eu sei, assim descrito nem parece que era meu. Mazéra, mazéra.

Se calhar foi isso.
Por não parecer meu.
Se calhar não o perdi, foi ele que se foi embora.

Fui abandonada por um asterisco.
E nem carta de despedida deixou.
Nem me avisou que ia lá fora comprar tabaco.

Se alguém encontrar o meu asterisco, que fique com ele.
Não o quero de volta.

Vou arranjar outro para mim,
um que seja líquido,
que seja feito de água:

Quero entornar asteriscos nas varandas dos vizinhos de cima.

segunda-feira, dezembro 27, 2010

linhas cruzadas em becos

"So many people live within unhappy circumstances
and yet will not take the initiative to change their situation
because they are conditioned to a life of security,
conformity, and conservatism, all of which may appear
to give one peace of mind, but in reality nothing is more dangerous
to the adventurous spirit within a man than a secure future.
The very basic core of a man's living spirit is his passion for adventure.
The joy of life comes from our encounters with new experiences,
and hence there is no greater joy than to have an endlessly
changing horizon, for each day to have a new and different sun."

Chris McCandless



O dia amanhece do lado de fora da janela. Um casal de adolescentes recém-apaixonados e recém-desvirgindados prende-se em suor e cansaço num abraço carinhoso. O teu despertador toca, mais 5 minutos, pensas. Os adolescentes adormecem no mesmo tempo em que te convences que tens mesmo que sair da cama. Entrar no banho. Escolher roupa que vestir, saltos que usar, não esquecer de combinar a mala nem de levar o laptop. O sr. Zé da pastelaria já abriu portas há que tempo, serve o café ao sexto cliente do dia, e um bolinho acabado de fazer. Vestes as calças e o botão aperta a custo, engordei?, e o sexto cliente do dia limpa as migalhas da boca e põe-se a caminho do escritório, mesmo aqui ao lado. Vai-se despedir hoje, que está farto de ser mal tratado por um chefe antipático, que tem ido a entrevistas várias, que finalmente a sorte lhe sorriu e agora sorri ele, dono de uma liberdade que se vai encostar a uma nova rotina.

O casaco, onde deixaste o casaco? ah, está no carro, falta o computador e duas trancas à porta que esta cidade confia mas não é de confiança. E passa na rua uma menina com o cabelo em trança, galochas para a chuva e dona de todas as poças enquanto a mãe reclama, na verdade porque há muito que não se encontra com o pai na cama, que lhes terá acontecido, é stress do trabalho, é stress do trabalho, nada preocupante, todos os casais passam por isto.

Guias pelo meio da cidade, passam edifícios, janelas, alcatrão, carros. Passam sonhos, desejos, medos, esperanças, expectativas. Semáforo vermelho, velho desdentado com a revista dos pobrezinhos, uma moeda, uma moeda, e tu que não e ele que segue para o outro carro, tal como seguiu a sua triste vida depois de ter enterrado dois filhos, depois de se ter apercebido que os outros três por ele não se interessam nada, que a culpa foi sua, que devia ter batido menos na mulher que tinha, que devia ter bebido menos e já resultava mas se conseguir vender só 2 revistas hoje já pode ir buscar um copo d3 ao António do bairro, que já não lhos vende fiados, mas se pagar o primeiro talvez lhe ofereça o segundo.

Entras no escritório, cumprimentas o porteiro, cumprimentas o segurança, sorris para os colegas com quem te cruzas no corredor. Cruzadas estão também as raças dos 5 cães que acabaram de ser paridos num quintal do outro lado da estrada e que amanhã, quando forem descobertos, vão fazer as felicidades do filho mais novo e angustiar a mãe não-tão-velha.

O dia de trabalho passa-te rápido, com muitos afazeres e decisões, planos e estratégias, vendas e compras. Lá fora os tempos do mesmo dia são outros: lento para os velhos colados à televisão, incrivelmente veloz para as crianças no infantário, praticamente parado no velório da igreja, em imperfeita pausa na sala de espera das urgências do hospital, ligeirinho nas carteiras e nos bares das universidades, curto na instituição de solidariedade social, onde curtas são também as mãos que dão quando comparadas com as que se estendem.

Ao jantar, enches 4 copos de vinho com histórias de tempos que passaram há pouco tempo, mas que vos parece muito, nessa mesa de amizades e frases adivinhadas, aventuras partilhadas, gostos reconhecidos. Ao jantar regressa a casa o marido ingenuamente encornado, o pai taxista muito suado, o filho estroina sempre animado, a criança ranhosa já de ar ensonado. Do outro lado do mundo nasce o dia e algumas vidas preparam-se para sair da cama, outras entram nela em horas desorientadas, os ciclos empurrados na rotação de uma terra que não sendo de ninguém é de toda a gente.

Pela janelas vês outra janela de luz acesa, o sabor do vinho adoça-te o pensamento, o dia correu-te bem com direito a elogio do chefe e palmadinha nas costas. Daqui amanhã espera-te uma promoção, daqui amanhã casas-te e tens filhos, daqui amanhã envelheces e não sabes o que te aconteceu. Há outra saída? Há outra alternativa melhor?

É o ritmo da vida, de todas as vidas, os rumos que tem que levar. Olhas à volta, uma já casada, o outro é para o ano, a terceira não está para lá encaminhada, mas há-de estar, há-de estar, que é isso que se faz.

Como explicar então que de repente o vinho te deixe um sabor amargo a insatisfação?

(Todas as outras vidas com que nos cruzamos sem saber, todas sem excepção, são pessoas que tentaram fazer delas o melhor possível, dentro do que souberam, dentro do que puderam. Mas esqueceram-se de se saberem vivas, esqueceram-se de se saberem existentes. Acontece, às vezes. Estar vivo não é o contrário de estar morto, pode-se estar vivo sem se estar, por desconhecimento desse facto.)

domingo, dezembro 26, 2010

Dona Perpétua

Corria o ano de 2004 e lembro-me de dona Perpétua que não corria para lado nenhum. Corríamos também nós, atrás de uma bola chutada com força a mais, à frente de um cão vadio que nos acompanhava por um dia, debaixo de um sol que nascia tarde demais para a nossa excitação de aproveitar até ao tutano todas aquelas férias de verão na vila.

D. Perpétua não corria, mas tinha por norma um passo apressado quando passava por nós. Mas parava-se, quando eu lhe falava, e eu falava-lhe mais por simpatia do que por educação, tenho que confessar. Gostava de dona Perpétua, que morava na casa abaixo da dos meus avós e ás vezes me convidava a entrar para uma queijada-quentinha-acabada-de-fazer. Enquanto a trincava com gosto, demorava-me a olhar para as coisas na sala, tinha muitas coisas, a sala de dona Perpétua. Mais de 500 molduras com fotos de caras que eu não conhecia, dizia 500 mas a noção de 500 na cabeça de uma criança são apenas muitas e não verdadeiramente 500. Mais do que as que eu sabia contar: 500. Eram fáceis as contas naquela altura, e era fácil saber que também eram mais de 500 as caixinhas de loiça de dona Perpétua. Umas até tinham coisas dentro, botões de casacos que já não existiam, papéis de contas já saldadas, bilhetes de coisas que já tinha visto, sei lá que mais. Dona Perpétua não me deixava abrir as caixinhas porque eu tinha as mãos sujas de queijadas e podia partir alguma, então ela às vezes abria umas para eu ver.

Que eram recordações, explicava-me, e eu também gostava dela por aquele sorriso triste que ela fazia quando o dizia. Ou quando falava dos filhos, estão lá na capital grande, dizia, e são senhores importantes, e sorria, um sorriso diferente de quando o Júlio marcava um penalti, ou quando o Pedro descobria mais um ninho com passarinhos lá dentro.

Dona Perpétua dizia que não sabia quando era a próxima vez que ia ver os filhos importantes. Eu estranhava, será que a minha mãe também conhece outros meninos que nunca me viram? Se calhar dona Perpétua vai buscar os filhos no intervalo da escola, só que eu é que só cá estou nas férias, pensava. Mas estranhava que ela não soubesse quando acabavam as aulas, a minha mãe sabia. Mas não ligava muito, "e aquela? o que tem?" apontava para outra caixinha, uma agulha com uma linha branca, dona Perpétua já não se lembrava que bainha ou remendo teria servido.

"Sabes, eles crescem e vão-se embora de casa, é assim a vida" dizia-me, e eu percebia, que eu também já era crescido e tinha saído de casa logo de manhãzinha para vir jogar à bola.

terça-feira, dezembro 21, 2010

Pai Natal, toda a verdade!

Depois de muito pensar - aprox. 3 a 5 minutos - achei que devia revelar a verdade nua e crua sobre o máximo representante da quadra natalícia! Chegou a altura de pôr cobro a uma farsa que dura há demasiado tempo e - que como pessoa desocupada que sou - sinto-me na obrigação de denunciar! Espanta-me apenas que nunca ninguém tenha pensado nisto, já que a os factos estiveram sempre à vista. Nunca, até ao dia de hoje, tinha prestado muita atenção ao que estou prestes a revelar e confesso que a minha perspicácia - que sempre considerei im-pe-cá-vel!!! - levou a melhor de mim durante os meus hu hum ... 21 anos de existência. Bastou uma soma de todos os factos para chegar à conclusão de que:

O PAI NATAL SÓ PODE SER GAY!!

Se não, como explicar:
- As botas pretas de cano alto! Um homem a sério não usa calças para dentro das botas a não ser que seja pescador (e isso são galochas!!);
- O desejo incontrolável de comer biscoitos caseiros com copinhos de leite branco? ("Ai ai, o que me apetecia mesmo era dar uma penaltada num copo de leitinho mimosa!!")
- O cinto largo, também ele em pele preta, a fazer pandan com as botas de cano alto! Além disso, onde já se viu um pançudo que aperta o cinto debaixo do peito e não no princípio do baixo ventre deixando o rêgo a descoberto?
- Só contrata trabalhadores pequeninos e alegres, vestidos de calções, suspensórios e collants às riscas!! Já para não falar de que o meio de transporte dele é um trenó puxado por renas!!! Homem que é homem arranja pêcherons ou minotauros ou outra coisa qualquer máscula que rosne ou grunha.... agora renas voadoras com narizinhos encarnados...

Enfim, ou é gay ou tem uma mulher muito autoritária...



A desgraça de dona Graça

Dona Graça era senhora de braços enérgicos e roliços. Suas pulseiras douradas tilintavam nos movimentos elegantes e decididos, eram a banda sonora das vírgulas e pontos finais de suas frases.

Como se costuma dizer, dona Graça enchia uma sala - de vozes altas, de gargalhadas bem dadas, de frases afectadas, de gestos pensados e de gordura adiposa. E usava túnicas soltas e vestidos leves, para disfarçar o peso, se bem que este não lhe pesava, nem na energia, nem na leveza do seu ser, nem nos recônditos da sua consciência quando se deliciava com qualquer sobremesa cheia de creme.

Alegre, quase sempre, a verdade é que dona Graça não era descontraída. Tinha preocupações, dona Graça: com os filhos e as filhas que parira, o marido que a escolhera, os sobrinhos que lhe tinha dado, as vizinhas com que lidava, as associações a que presidia e os jantares de festa que promovia.

Não parava muito tempo para pensar, entretida nos seus afazeres, ritmo constante da vida sucessiva, pontuada nos tilintares de suas bugigangas: mais um baptizado para ensaiar, uma festa de beneficiência para orquestrar, um problema inconfessado de um sobrinho que por um olhar tinha adivinhado, tudo-tudo-tudo-tudo dona Graça resolvia. Mesmo quando as pessoas, coitadas, se zangavam com ela - injustas, as pessoas, que não percebiam que ela só as queria ajudar. E ingratas, porque nunca lhe agradeciam convenientemente. Não que dona Graça quisesse agradecimentos, "mas já viu óh Rosarinho? Tanto que eu fiz por ele e nem um 'obrigado tia' decente. Nem os pais dele, já viu?"

A vida de dona Graça resolveu gracejar com ela num pretérito inacabado, em meados do ano passado. Foi por razões de uma ida ao Brasil - viagem habitual que já há uns anos não repetia. Não levava o marido, não, que os homens para estas coisas são uns chatos; um grupo de amigas, que as compras tem que ser feitas e a diversão fica muito mais garantida.

No terceiro dia da estadia, deparou-se dona Graça com uma Casmerodius albus. De porte elegante, graciosidade no andar, magestidade no olhar e asas que pareciam feitas de nuvens. A verdade é que dona Graça já tinha visto outras garças, mas nunca deste tamanho. E irritou-se: bochecas encardidas do encarnado, gotas de suor a escorregarem entre as moles mamas, pulseiras e berlicoques a pontuar e a exclamar os tremeliques da irritação patentes nos braços e nas mãos.

Deu-se conta dona Graça, que o érre do seu nome e do da criatura estavam trocados, que era ela, a Graça que tinha voz esganiçada e era a outra, a garça, que era cheia de graça na vida livre que vivia. Deu-se conta dona Graça, que não podia voar, que estava presa à teia que lhe tinham cuspido, que nunca tinha questionado o que tinha querido, que nunca se tinha lembrado de acordar e sair da cama feita de lençóis de expectativas, normas, códigos e suposições.

Deu-se conta dona Graça, que os anos que tinha e não confessava haviam sido dispendidos em energias inúteis, esforços inglórios, traduzidos em resultados nulos nas suas importâncias. E as suas rugas não eram as testemunhas de um caminho preenchido, eram antes a marca acusadora de uma vida tão pouco tentadora.

E a irritação subiu-lhe à fronte e a garça defronte nem a olhava e dona Graça em desgraça rebentou de irritação.

Depois de recolherem os seus pedaços espalhados, puderam apontar no relatório médico a causa da morte: "consciência tardia". E o médico que o escreveu olhou para o enfermeiro e desabafou, que é este dos poucos casos em que mais vale nunca que tarde.

segunda-feira, dezembro 20, 2010

De um mal-me-quer para o mundo

Meu amor,

Escrevo-te aqui de Lisboa para te dar uma notícia grave: o Inverno chegou.
As pessoas andam de cara feia e ombros encolhidos, a tentar proteger-se do frio e da chuva. Os dias amanhecem sem sol e o tejo já se cobriu daquela cor cinzenta escura de quem não dá cavaco a ninguém.

À minha volta, os outros mal-me-queres encolhem-se em protestos. Nunca percebi isto de protestar encolhido, entre-dentes. Acho que têm medo, mas não sei do quê. Acusam-me de falta de prudência ou juízo, mas acho que eles tem medo das histórias que se inventam sozinhos.

Daqui de onde estou, continuo a esticar-me em direcção ao céu. Nem sempre é fácil, mas também não é difícil. Conheço o sabor da chuva, já. E das solas de sapatos. Eles não, e apontam-me as marcas que vou ganhando. Não serei o mal-me-quer mais bonito da primavera, não sei se chego à primavera.

Tu sabes, nunca foi à primavera que quis chegar. Foi sempre ao ponto mais alto da mais alta montanha, ao fundo mais negro do buraco mais escuro.

O outro dia conheci uma mulher que era esposa, logo por detrás de ser mãe e antes de ser meio casal. Saiu à rua com as pernas de trazer por casa e os olhos cheios daquela solidão que se entranha nos ossos. Trazia um miúdo pela mão e a falta de si pela outra. Não estou certo que ela saiba da sua existência. Nem da sua inexistência. Talvez também se tenha inventado medos, antes de se coser com as linhas das expectativas alheias. Não sei se ela se acusa de ter escolhido o caminho mais fácil, sem saber que entrou no labirinto mais difícil. Ou se se congratula por ter conseguido cumprir o plano que alguém planeou para ela.

Às vezes acho que o mundo anda trocado. Mas depois aparece um daqueles dias de inverno com sol e esqueço-me disso.

Acho que amanhã vou ter contigo. Os outros mal-me-queres desta calçada não só não querem vir comigo, como já me disseram que não podia. Porque nunca nenhum tinha levantado as suas raízes, porque temos folhas e não asas. Eu ouvi-os, mas não os percebi. De resto, estavam outra vez a protestar encolhidos.

Pelas minhas contas, devo chegar à hora de jantar. Mas não tenhas trabalho a preparar nada de especial, se me arrancares as folhas uma por uma é suficiente. E prometo que a que vai sobrar, será um bem-me-quer.

quinta-feira, dezembro 16, 2010

Progenitorices!

Acabadinha de chegar a casa:

Eu: "Mãe a internet não está a funcionar."
Mãe: "Telefona para a linha de apoio Meo"
Eu: "Qual é o número?"
Mãe: "Vê aí na net."

Não há como não adorá-la...

Os homens andam atrasados, os bichos não. (parte I)

"O tempo pergunta ao tempo quanto tempo o tempo têm. O tempo responde ao tempo que o tempo tem tanto tempo, quanto o tempo tempo tem."

Talvez aquilo que temos de mais real na nossa vida, o tempo - o que temos e o que nos falta. E aquilo que mais temos de fictício na nossa vida - o tempo, concepção humana sobre a evolução natural dos organismos vivos e não vivos.

O tempo não existe fora de nós. Os animais não têm tempo, tem necessidades biológicas, tem comportamentos, tem uma evolução física que faz uma curva semelhante à da distribuição normal. (Sim, tenho noções de estatística.)

Os homens estão presos ao tempo. O tempo de estudar, o de comer, o de se divertir, o de trabalhar. Os homens andam atrasados, os bichos não. O Homem dividiu uma evolução em partes desiguais entre si, iguais entre outras. Arranjou "marcos", quando o sol aparecer ali é de dia, quando desaparecer dali é de noite. O período espacial (e não temporal) que vai do sol ir daqui até ali fica dividido assim. Quando o sol aparecer daqui-ali X vezes, chamamos-lhe assado. E quando forem 365 vezes, chamamos-lhe frito. Ah, mas depois ele não aparece ali de vez em quando, quando era suposto. Não faz mal, aí deixamos que ele apareça mais uma vez, de 4 em 4 vezes das outras. Ah, tá bem.

Estrutura, medida, uniformização, conceptualização - o tempo.

Problema: tempo flexível.

- Uhm? O tempo não é flexível, todos os minutos duram o mesmo.
- Mentira. Tive minutos na minha vida que demoraram mais de 3 horas. E tive horas na minha vida que duraram menos de dois minutos.

E todas as noites me duram mais do que os dias. As noites tem outro tempo que o tempo dos dias, outro ritmo, outra passagem. Os dias passam a correr, as noites arrastam-se com a lentidão de quem não tem ninguém à espera, de quem não tem contas que prestar.

- Ah, isso não é o tempo que duram, é a percepção que tu tens da sua duração.

- A percepção que eu tenho que uma coisa que não existe, mas que se faz sentir, fortemente, real. E chamas percepção àquilo que sinto e não à invenção de algo "criado" mas que afinal existe.

- Ah, não é assim tão simples.
- Pois não. Especialmente nos tempos desencontrados.

- Nos quê?? O tempo é sempre igual para toda a gente, estamos todos no dia não sei quantos do mês não sei que mais do ano tal. E são precisamente x horas. Se estamos no mesmo sítio, o meu tempo é igual ao teu.
- Sim, mas eu queria ficar contigo agora e tu achas que se eu te tivesse aparecido em outro tempo, poderiamos ter ficado mas agora não. Como se os nossos caminhos tivessem cruzados, mas em tempos diferentes.
- Ah, mas isso não é o tempo, isso é a oportunidade.
- Desperdiçada num tempo que não é o meu nem o teu.

- É, é, a nossa concepção temporal é a mesma.
- Mentira. Este ano para mim passou a correr. Este ano para ti demorou-se uma eternidade. O ano passado aconteceu-me isto, mas parece que foi há 20 anos atrás, que isto sempre existiu na minha vida. O meu tempo não é igual ao tempo que "uso" para me relacionar com as pessoas. Esse tempo imposto é uma plataforma comum de referenciação. Mas o meu tempo é diferente do teu. E pior, o meu tempo não está ao meu dispôr como quero.

- Estás a atrofiar, e eu estou sem tempo para te ouvir.

Quanto tempo terá o meu tempo para esperar por ti?
Quanto tempo dura a vertigem de uma queda, no desconhecimento do solo onde vai aterrar e do quanto vai doer?


quarta-feira, dezembro 15, 2010

Variações infinitas de um blog'ere

Escrever. Where? É suposto escrever aqui. Onde? Onde puder. Não, essa é outra, já existe. Onde? Aqui. What? Right there. Escrever aqui. Writehere. Espera, tem que rimar. Tem que ficar assim…redondinho. Redondinho pronto. Writethere. E agora? Agora já tenho um nome, tenho que escolher uma cor. Não pode ser preto, não pode ser azul. Dizem-me: escreve. escreve o que quiseres, assim sem limites, vamos abrir espaço às variações infinitas que se alimentam por dentro num diálogo de sombras desgarradas. Mas não posso escolher a cor. Primeira ilusão de liberdade. Posso escrever mas não escolher a cor. Claro que podes. Podes escolher todas menos…pronto, todas menos. Ou “todas” ou “menos” seria mais simpático. Mas depois seria pouco bonito da minha parte querer mais do que posso, querer todas as cores quando me basta apenas uma. Mas eu não quero todas. Só queria preto (eu sei, preto nem sequer é uma cor, mas eu queria na mesma) ou azul. E agora dizem-me que sou insatisfeita que só quero o que não posso ter. Posso escrever. O que é que eu quero mais? Que raio de pergunta, eu quero escolher a cor. Mas podes escolher! Ai posso? Podes. Preto? Ai…Pronto azul. Mau. Ok Ok. Cinzento. Vá lá…não consegues ser um bocadinho mais criativa? Há muitas cores, há tantas…e passas a vida a queixar-te das dualidades obtusas que deixam o mundo inteiro de fora. Que deixam o dentro, de fora. Preto ou branco. Certo ou errado. Isto ou aquilo. VERDE. Escrevo a verde. Vais-me reconhecer assim? Vou. Se escreveres a verde eu vou-te reconhecer. Mesmo no meio de tantas linhas, tantas palavras, tantas…sim. Verde. Podes começar, a verde. Posso-me preparar primeiro? Tenho que me descobrir verde, tenho que saber primeiro o que é sentir verde, falar verde, ser verde, para que seja verde o post que me pedes. Está bem. Vai então. E volta. Verde. Encontramo-nos daqui a….não importa. Sabes que volto. E como é que…vais saber? Vais saber. Não te esqueças. O meu nome, a verde, entre taparueres e ondepudwheres, em variações infinitas de silencio e cor. Até já.




terça-feira, dezembro 14, 2010

D. Constância

D. Constância viva feliz e tranquila, na casa ao lado da casa onde nascera, há 56 anos atrás.

Usava e abusava das saias pelo joelho - se gostava de um modelo, comprava os que houvesse de cores diferentes. Ou iguais, se gostava mesmo-mesmo. E não era só com as saias, era também com os casacos, camisas e sapatos.

Todos os dias saía de casa as 7h28 da manhã. Passava pela pastelaria e dizia "Bom Dia", sem ter que fazer nenhum pedido. Um saco com 2 pãezinhos integrais lhe era estendido, ao mesmo tempo que um café curto em chávena fria. 2 pãezinhos integrais, iguais ao outro que tinha tomado esta manhã ao pequeno-almoço, levado no dia anterior - um para o lanche do próprio dia, um para o pequeno-almoço do dia seguinte. O do lanche com fiambre, o do pequeno-almoço com queijo.

D. Constância fazia dos hábitos e rotinas a sua personalidade. Cortava a margarina sempre a direito, barrava a manteiga sempre do mesmo lado. Antes de sair de casa, a volta era sempre a mesma: entrar no quarto e ver se a janela estava fechada, passar na cozinha e ver se havia louça suja fora do lava-loiças, passar na sala e ver se tinha desligado a televisão, apanhar as chaves e sair. Em mais de 50 anos não se lembrava da última vez que tinha fechado a janela do quarto, arrumado loiça ou desligado algo na sala nesta volta antes de sair. Mas continuava a fazê-la, pelo sim pelo não, porque era assim que saía de casa.

Tinha outras manias, arrumava os livros por ordem de alturas, guardava todas as caixas e caixinhas que lhe vinham parar às mãos. Para o caso de um dia precisar delas, e tinha um armazém de caixas vazias, que não eram precisas, debaixo da cama.

Adormecia sempre na mesma posição e acordava sempre da mesma maneira.

Habituou-se aos mesmos caminhos, aos dias repetidos, às frases iguais. E habituou-se também às mesmas palavras, as mesmas terminologias - reduziu o seu mundo de propósito e reduziu o seu pensamento na consequência.

Vivia tranquila, D. Constância, mas houve um dia que na sua cabeça se começou a desenvolver uma terrível patologia. Alzheimer, mal degenerativo de consequências nefastas. Padrões repetitivos, perdas de memória... mas D. Constância não deu por isso, nem ninguém das suas lides. Morreu com a doença por diagnosticar, nos dias iguais, frases habituais e caminhos repetidos.

domingo, dezembro 12, 2010

das urbes que urgem

Não sei se já fez um ano desde que moro em alcântara.

- Bom dia dona Teresa, as minhas revistas já chegaram?
- Chegou esta Sofia, as outras ainda não sairam.

Não foi com bons olhos que vi a mudança de Campo de Ourique para Alcântara. Estava acostumada aos velhos no jardim e aos cães que já conhecia pelo nome.

- Bom dia sr. Fernando
- Boa tarde Sofia, então e um guarda-chuva? Olha que isto vai começar a chover bem.

Mas os domingos em alcântara são um bocadinho diferentes dos domingos em campo de ourique. Têm outro cheiro e os ruídos de uma ponte ao fundo, com carros e comboios mais espaçados do que nos dias de semana.

- Bom dia Rui
- Olá Sofia, então o queixo está melhor? Sandes de ovo e café, toma. Vais-te sentar?

Não sei se já fez um ano desde que moro em alcântara. Mas conheço os nomes e as caras. Toda a gente me trata por tu. E pelo nome. Não preciso dizer o que quero no café. E na papelaria encomendam um exemplar de 3 revistas diferentes só para mim.

- Olá Sofia, já tratou do problema do gás?
- Já sim dona Maria, era do esquentador.

Al-qantara, quer dizer ponte. E gosto das pontes entre pessoas, das ilhas que cada um de nós é (sim, com falta de concordância gramatical e tudo) e das conversas para tentar chegar a essas margens estreitas, inalcançáveis na realidade, agarradas nas ilusões.

Já fiz arder as pontes que estabeleci, à procura que pelo menos esse fogo me iluminasse o caminho que destruí. Mas al-qantara não arde, deixa-se envolver num nevoeiro só seu enquanto fica a olhar para um abraço prometido de uma estátua que não dá nem um passo para se aproximar.

Não sei se já fez um ano, desde que moro em Alcântara. E há sempre Londres, Paris e New York com promessas de outros domingos com outros cheiros, cores e ruídos.

Hoje não. Hoje fico aqui.

sexta-feira, dezembro 10, 2010

tales from real life

Abre o congelador.
Tira uma caixa de petit gatoux.
Tira lá de dentro os dois que sobram, põe num prato, enfia no microondas.

Abre o lixo, retira a caixa que lá pôs mesmo agora.
Vê quanto tempo tem que por no microondas.
Mete esse tempo.

Micro pára.
Não estão feitos, mete mais um pouco. Micro pára. Não estão feitos, mete mais um bocado. Micro pára. Acha que estão, agarra numa colher, começa a comer.

Agora não sabe se há-de bater com a cabeça nas paredes por nem conseguir aquecer petit gatoux no microondas ou se há-de congratular-se a si própria por ter "criado" um novo quente-e-frio.

quarta-feira, dezembro 08, 2010

a briga do costume

- Não é na racionalidade que encontras as verdades. Essa é que é a grande falácia do nosso tempo - a sociedade valoriza a objectividade, a racionalidade, o equilíbrio... já viste como andamos todos tão à procura do equilíbrio para "estarmos bem"?

Sentiu o chão fugir-lhe dos pés quando reconheceu o seu perfil. Deixou de haver tempo, espaço, paredes, terra, ar. Fora dos lugares, tornou-se uma trepadeira fragilizada por alguma tormenta, em desespero para não se deixar cair, a usar de toda a sua força daninha para sobreviver. Sem fôlego, sem respiração, parado sem uma pausa para descansar dessa quietude.

- Ah, o realismo, o racionalismo, o figurativismo até!.. o raciocínio lógico-dedutivo, sabes qual é o mal? É que quando as coisas entram na nossa lógica, a gente acha que são verdade. Encaixamos os "factos" na "lógica", para lhe conferir significados que compreendemos. E depois diz-se, "isto faz-me sentido". Como se a verdade tivesse que fazer sentido na nossa lógica. Ora, a haver uma "verdade" qualquer, existe fora de nós, existe fora das nossas convenções - é isso que criamos, convenções, e depois assumimos que são verdade. Mas são inventadas, como qualquer história de embalar ou lenda, para justificar algo e torná-lo compreensível para nós. Não te parece arrogante, que só aquilo que entra na nossa lógica possa ser verdade?

Sabia de cor os seus movimentos há já algum tempo. Conhecia a forma como afastava o cabelo, o trejeito das ondas que ele fazia quando ela soltava risos ou inclinava a cabeça naquele seu jeito típico. Conhecia-lhe a dança das mãos, o modo como davam um terço de volta e voltavam à posição inicial, a forma como o indicador e o dedo do meio se agitavam ligeiramente em assuntos mais problemáticos, o encosto do polegar ao anel do outro dedo em momentos mais distraídos. Sentia-se implodir por dentro cada vez que ela passava os 4 dedos pela testa, por dentro do cabelo, afastando-o da cara e abrindo mais os olhos a seguir. Sentia-se explodir por fora quando esses dois olhos o fitavam de frente. Que falta de noção, criticava-se, sempre que se apanhava a tremelicar por isso. Que estupidez, criticava-se, que agora com esta idade é que me havia de dar para isto. Que tenho que me controlar, convencia-se, sem conseguir desviar o olhar.

- Portanto, tenho a dizer-te, não é pelo raciocínio que vamos encontrar verdades. Não é. As verdades humanas, pelo menos. As científicas, vá, vamos descobrindo umas coisas na forma de como as coisas funcionam, mas também nunca será pelo método científico que descobriremos o porquê das coisas funcionarem. Isso pertence a outro reino, um sítio onde te garanto que não vai ser pela lógica que se entra. Por isso é que os sofistas foram o que foram, o poder argumentativo mais importante que a verdade intrínseca. A lógica, apesar de tudo, não deixa de ser um sofismo. Menos simplista, mas um sofismo. A gente anda a procurar a razão com a ferramenta errada - a razão. Já viste a ironia?

Queria tocar-lhe. Ás vezes acontecia, casualmente. Um encosto de ombro, um toque rápido na mão, um beijinho de "olá tudo bem". E ele ficava com aquele arrepio na pele, com aquela coisa agarrada à garganta, a tentar manter a casualidade da coisa, a tentar aguentar o impacto do terramoto interno que lhe varria o estomago, o baixo ventre e as virilhas. Queria agarrá-la com as duas mãos, segurá-la, abraçá-la, senti-la. Queria agarrar também todos esses impulsos, manietá-los, amordaçá-los, impedir de denunciar as suas vontades tão óbvias quanto despropositadas.

- E, se não é pela razão, então tem que ser pela emoção. Sabes que pela emoção também se aprende. Afinal de contas, nós somos seres sensitivos. Animais biológicos, condicionados pelos limites fisicos e hormonais da nossa percepção. Mas se calhar não é bem limitados, é mais libertos pelos limites fisicos e hormonais dos nossos sentidos. São eles que são a porta de entrada, mas as emoções, essas nascem cá de dentro, da reacção ao estímulo. Se nos conseguirmos libertar da raciocinalidade para encontrar uma forma mais "natural" de sentir, então estamos mais perto de alguma verdade. Mas não, continuamos a querer as razões, as causas, as análises, os equilibrios. Isso é que nos lixa tudo, isso é que nos afasta de "percebermos" as coisas. "Percebermos", assim, entre aspas, porque não é perceber-perceber com a cabeça, é perceber-perceber com os sentimentos. Percebes?

Ela olhou na direcção dele. E sorriu-lhe, inconsequente. E ele, desastrado, fez um esgar de volta a pensar que tinha que lá ir, que teria que lhe falar e não sabia de quê, não sabia como. Queria agarrá-la mas agora só queria fugir-lhe e tinha que lá ir dizer olá. Casualmente. E ela a falar com outros, e ela a sorrir-lhe, e as mãos dela na dança que ele lhe sabia, e o cabelo dela com os trejeitos que ele reconhecia e o cheiro dela, que se lhe iria colar ao nariz, aos olhos, à garganta, à noite e ao sono que não haveria de vir. Mas não podia dar parte fraca, não podia nunca denunciar-se, não iria nunca denunciar-se. Como é que faziam as pessoas para se falarem? Ah, já se lembrou. Coragem, são 30 segundos, 30 segundos não são nada, 30 segundos são mais do que 10 eternidades juntas.

- A gente tem que se deixar ir. O mal é que não deixamos. Sempre a planear. Sempre a analisar. Sempre a querer saber porquê e a dar justificações para o que sentimos. Tu, vai por mim, quando tiveres a rebentar nas mãos uma emoção qualquer muito forte, deixa-a rebentar toda até te arrancar as unhas. Seja boa ou má. Como diz o nandinho, sentir tudo de todas as maneiras. Vais ver que aí vais ter mais noção das coisas como elas são. Mesmo quando não fizerem sentido. Ou especialmente quando não fizerem sentido. Nunca fazem mesmo.

- É... é isso, é... quer dizer, não sei... equilíbrio é bom, ajuda um gajo a andar mais... equilibrado. epah, espera aí, vou falar a uma amiga, já volto.

segunda-feira, dezembro 06, 2010

Olá, teste, um dois, um, dois, som!!

Caros leitores do excelentíssimo blog Tapar Where,

Depois de várias investidas, disfarçadas de dicas e inuendos, a autora do blog - Exma. Sr.ª Taparuere - encurralada que se sentiu decidiu-se finalmente pelo suicídio literário e "convidou-me" a botar faladura no seu blog!!
A princípio fui invadida por uma felicidade imensa que, 5 segundos passados, foi substituída pela inigualável e sempre inoportuna sensação de pânico!
Para quem não sabe, esta sensação de pânico não escolhe idades, raças ou sexos atacando sem piedade todos aqueles que são colocados sob as encadeantes e assustadoras luzes da ribalta - ainda que neste caso seja somente para dizer disparates num blog...
Desengane-se quem pensa que se está, neste caso, perante uma qualquer sensação de pânico tal como aquela que dá a um traseunte que, absorvido pelos seus pensamentos, passa por um portão de ferro de onde salta um rotweiler que tenta - felizmente sem sucesso! - atacar quem passa; neste caso, o traseunte experiencia apenas uma descarga de adrelina fulminante que pode, na pior das hipóteses, dar origem a um gritinho histérico, que será tanto mais embaraçoso quanto maior for o número de pessoas presentes no local onde se dá o acontecimento!
Não! A sensação de pânico de que vos falo constitui a modalidade mais agressiva de todas as sensações de pânico porque contém em si um encadear de sintomas, maioritariamente fisícos que levam sempre e invariávelmente ao mesmo triste desfecho!
Começa por se sentir uma vontade de rir incontrolável que é imediatamente seguida por suores frios e quentes que atacam de forma intermitente todos os poros do corpo, denotando-se uma maior incidência na zona lombar e nas palmas das mãos. Tais sintomas, já de si desagradáveis, são acompanhados de um tremor incontrolável que faz toldar o raciocínio da mente mais preparada! O fenómeno continua o seu percurso, desta leva passando para o interior do corpo atacado - nomeadamente para o seu intestino grosso - onde atinge o seu climax no já costumeiro mas mesmo assim inadvertido cocó nervoso!
Na minha primeira entrada no Tapar Where não podia deixar de partilhar aquilo que me vai na alma (ou algures no interior do meu corpo)!
Hostilidades abertas, aqui vos deixo com a promessa de que mais disparates virão...

Cumprimentos a todos


As coisas boas vêm aos pares

Novidades fresquinhas neste blog, duas colaborações novas para trazerem novos universos, histórias e divagações.

Não sei como vão assinar nem o que vão querer ser aqui, suponho que o tempo e a participação ajude a definir. Assim, sem regras, sem limites, sem objectivos, uma nova fase no blog, muitas novas frases no blog, meio experimental, meio indefinida, que cada sentimento perdido ou encontrado no vento lhe ponha e lhe traga o que tiver guardado nos bolsos e apetecer partilhar, da forma como quiser.

:)

domingo, dezembro 05, 2010

O assalto

Antes, guardava todas as certezas e as respostas do mundo, devidamente etiquetadas e separadas em caixinhas de cores diferentes. Depois, bom, depois assaltaram-lhe a casa e levaram-lhe muitas coisas que sempre lhe tinham existido na vida e destruiram outras na passagem. A gaveta das respostas foi uma: abriram-na à força, remexeram-lhe as caixinhas, atiraram-nas ao chão e partiram-se, misturaram-se, desfizeram-se em pedaços, resquícios, restos, despojos quebrados.

Quando chegou entrou em pânico. Levaram-lhe as certezas, porque podiam ser vendidas no mercado negro, levaram-lhe as intensidades e as gargalhadas - mas essas, mais tarde, mas só mais tarde, ela viria a descobrir que podiam ser substituídas por outras parecidas, quase iguais e até novas e diferentes - e arruinaram-lhe as respostas.

Quando viu os pedaços quebrados pelo chão, tentou reconstruí-las. Refazê-las. colá-las, limpá-las, arrumá-las de novo. Pacientemente, juntando pedaços soltos. Não conseguiu, e já passou tanto tempo. Horas sem respostas, dias sem respostas, semanas sem respostas, meses cheios de perguntas apenas. Não conseguiu e em vez de respostas arrumadas em caixinhas guarda agora incoerências dispersas nas gavetas. Mas continua, todos os dias, a dedicar umas horas solitárias para ver se as consegue arranjar.
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