quarta-feira, fevereiro 23, 2011

acto VIIX

Frases soltas num inglês vestido de sotaques de díspares nacionalidades. "Que está um dia lindo para se ficar a ver do lado de cá da janela", inglês despido de pretensões de gramáticas correctas. E está, e há dias assim, a ficar a ver o sol com a cara encostada ao vidro frio, tudo o que se poderia agarrar com as pontas dos dedos preso numa superfície nua de sentimentos.

Há qualquer coisa de mais verdadeiro na aceitação pura e dura da incompreensão plena de pessoas. Porque não falamos a mesma língua, porque não temos sequer os mesmos significados para as palavras iguais que usamos, porque as destrezas em que pensamos se perdem na intradutabilidade das experiências diferentes que passámos, em contextos tão longíquos uns dos outros, em contextos inexistentes nas cabeças uns dos outros. Frases soltas num inglês vestido de sotaques, despido de pretensões, sem procurar chegar a lado nenhum maior do que este ou aquele sorriso cortês, a aceitação da incompreensão numa cerveja partilhada, numas amendoas que foram ao forno, numa canja portuguesa com gengibre.

E a mão encostada ao vidro sem tocar no mundo que vejo.
E as pontes tão frágeis quanto a fina placa de gelo que cobre um rio lá ao fundo, entre os patos. Não terão frio, os patos?
Não terias tu frio, do lado de lá do vidro?

Talvez deixar-se ficar assim mais um pouco, mão no vidro, testa encostada na janela e um suspiro a embaciar a vista que numa língua estrangeira tráz impresso apenas um "se....".

quinta-feira, fevereiro 10, 2011

reflexo

O mundo inteiro era suficiente, quando te enfiavas em casa de olhos vendados a tentar ver com os outros sentidos o que te tornava na pessoa que não eras. O mundo inteiro era suficiente e cabia todo dentro da casa, cabia todo dentro de ti, quando te enfiavas em casa, de olhos vendados a tentar encher o corpo com o mundo que não tinhas.

Passaram anos desde essa altura e agora falas das inevitabilidades planeadas por forças habitacionais da tua mente. Sem saberes de que é isso que falas, quando dizes "o ar tem cor de chumbo com peso de algodão doce". Estranhas, no entanto, quando estás num sítio com eco, gritas "não" e escutas na volta interiores de recipientes incipentes que transbordam líquidos de que desconheces o nome.

Creio que foi por isso que deixaste de escutar.

Poderias ter escolhido deixar de gritar "não" e tentar com outra coisa qualquer, mas se te dissesse que foi escolha tua, irias desenrolar um novelo de fios eléctricos enrodilhados, na tentativa de explicar os impulsos nada causais mas sempre causísticos que se tornaram as inevitabilidades amarrantes que te esculpem enquanto te desculpas na inacção.

São tretas, sabias?

Posso dizer-to assim,
posso dizer-te "Bang",
posso dizer-te o que quiser porque
continuas a enfiar-te em casa de olhos vendados para olhar um mundo inteiro que te cabe dentro e se escoa pela janela quando te distrais.

Só tu não o sabes, quando te escondes do lado de trás da desculpabilização fácil.

segunda-feira, fevereiro 07, 2011

Dona Ema

Dona Ema estava casada há já 20 anos, e bem casada diziam na vizinhança, quando o seu marido passava apressado, levando as crianças ora para a escola, ora da escola, ora para os seus infantis afazeres, ora de passeio nos seus desportivos prazeres. Dona Ema estava casada havia 20 anos, e havia mais de 25 que o seu marido cuidava dele, dela, da casa, dos filhos, das contas, das necessidades, das futilidades. Só não cuidava do cão, mas isso era porque Dona Ema sempre tinha tido um invulgar medo de cães e portanto a família não tinha nenhum.

Dona Ema também vivia atarefada, agradecendo no entanto e nos entretantos, a preciosa ajuda que o marido prestava. Não era bem porque tivesse muitas coisas para fazer, era mais porque o seu estado de existência era naturalmente a correr. Corria para aqui, corria para ali, não se podia esquecer disto ou daquilo, ai que já estava atrasada para o outro. Acabava por ser a sua principal actividade, andar pelo corredor, encontrar esta ou a outra pessoa, subir e descer escadas e agora falta um papel, espera que vou beber um café, e faltava depois o tempo para fazer mais alguma coisa. No trabalho não lhe levavam a mal, já lá estava há muito tempo, fazia parte da casa. "Lá vai Dona Ema falar com alguém, lá vem Dona Ema além, viste a Dona Ema, não vi, mas espera um pouco que ela não deve demorar a voltar aqui."

Dona Ema que passava veloz, tinha na cabeça vários planos e sonhos, objectivos por concretizar, vontades por planear. Não tinha tempo para elas, mas, ah, se pudesse, quando tivesse tempo Dona Ema iria fazer tudo de uma vez, tudo o que andava a adiar, tudo o que podia sempre esperar.

Foi por isso que Dona Ema passou a vida a ser uma possibilidade por concretizar.

sexta-feira, fevereiro 04, 2011

coisas que sei fazer.

Sei fazer crepes e panquecas.

Sei assobiar alto, com os dedos na boca.

Sei fazer festas a cães, bem feitas, daquelas que os põem a abanar uma pata.

Sei fazer piadinhas secas.

Sei fazer um jantar sem ter que cozinhar nadinha.

Sei estacionar o carro em sítios onde as pessoas que estão dentro do carro acham que ele não cabe.

Sei tocar uma música na viola (mas preciso que me avisem quando é para mudar de nota).

Sei atar os atacadores dos sapatos de 2 maneiras diferentes. Bom, uma não é mesmo atar-atar, mas também conta.

Sei fazer o pino, dentro e fora de água. Mas fora de água não o aguento muito tempo.

Sei falar inglês e espanhol. Mas falo melhor espanhol do que inglês.

Sei brincar com gatos e despertar-lhe a curiosidade. Menos com a Farrusca, essa não quer brincadeiras, quer é festas porque é o gato-cão.

Sei beber de dois copos ao mesmo tempo, seguros só com uma mão, a fazer cascata.

Sei jogar matraquilhos e marcar golos da baliza.

Sei fazer merda.

Sei escrever com a mão esquerda.

Sei andar de mota, bicicleta e a cavalo.

quarta-feira, fevereiro 02, 2011

trági-sit-com

Primeiro acto:
A lamacenta queda. Não a lamacenta aterragem - é a queda que é suja, húmida e pegajosa.
Começa limpa, no tropeço da vida, mas imediatamente se suja no ar. Repleta de resquícios de formas indefinidas, salganhada amontoada, bolos disformes de matérias anónimas. Vai-se enchendo no movimento imprevisível mas obediente à gravidade.

Há dois tempos separados, o de quem vê e o de quem cái.
A lamaçenta queda, para quem vê, é rápida e barulhenta. Foi um "Truz!" momentâneo cuja velocidade não permitiu a gravação mental de pormenores inequívocos. Caberá ao cérebro de quem viu colmatar falhas visuais com pedaços dispersos de outros acontecimentos fortuitos e longíquos que agora servirão para complementar este, sem distinção das suas origens. Tanto pior para o individuo que tentar contar a sua versão ao outro individuo cujo acaso também lhe permitiu a assistência do mesmo acontecimento.

A lamacenta queda, para quem cái, é lenta e silenciosa. Há um "Truz!" no final, mas é desfasado do acontecimento e longíquo dele. Para quem cái, a lamacenta queda traduz o significado de eternidade, mas só por um bocadinho que dura muito. Dura o suficiente para a percepção tomar-se conta de todos os detalhes e pormenores - o movimento descontrolado do corpo, a sujidade que se lhe junta e cobre, as formas que toma na vertigem da queda desamparada na reflexa deslocação que se lhe imprime. Dura também o suficiente para que o individuo reveja mentalmente as circunstâncias que o trouxeram a este sujo desamparo, vistas de vários pontos terrestres e agrestes diferentes.

Segundo acto:

A nobre aterragem. Não é o nobre levantar - é a aterragem que é nobre, cheia de verticalidade.
O final da lamacenta queda é pontuada por um "Truz!", ponto final parágrafo de um momento, barra travessão do momento seguinte. A aterragem horizontal faz-se na verticalidade da situação - a possível, entenda-se. O indivíduo que cái teve tempo reflexivo e reflectivo suficiente para se aperceber da situação, das suas causas, das suas várias possíveis consequências segundo plano probabilístico desenhado pelo modelo matemático da hipergeométrica distribuição. Teve tempo para ponderar a dimensão da amostra e registar os casos de sucesso conhecidos dentro dessa amostra. Derivado destes factores, consegue transformar a sua aterragem desajeitada num momento de nobreza e honra. Para fazê-lo, cairá TO-TAL-MEN-TE desamparado e descordenado, sem qualquer tentativa de colocar as mãos à frente da cara ou de proteger a cabeça. De facto, a nobreza da aterragem dependerá também do momento de contacto das mãos e dos joelhos com o solo. Quanto mais nobre, mais tarde será esse contacto.

Terceiro acto:

O a-levantar-se. Não é o levantar-se - é o a-levantar-se.
O levantar-se seria digno e comandado pelas necessidades e possibilidades motoras do indivíduo. O a-levantar-se exige mais do que isso, exige ao individuo que se alevante como possa. Se puder. Se não puder, será na mesma considerado como se tendo alevantado. Para todos os efeitos, o domínio da percepção sobre os acontecimentos fortuitos imprime na objectividade visionária a incapacidade separativa da realidade objectiva tatuada na pele da ilusão casualística.


A banda sonora dos três actos será contínua e seguirá o seguinte modelo:
plóc-fzzzzzzzzzzzzzzzzzzztttt-Truz!

Fim.
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