quarta-feira, agosto 19, 2015

monologos de inverno, no verao

Em Piccadily Circus grafittaram um anjo por cima dos azulejos brancos que indicam o caminho para a saída. No Panamá, uma senhora a quem restam 5 dentes acordou gritando pela noite fora, que um demónio lhe entrou pelo sonho adentro,
só pode ser premonição, algo terrível vai acontecer,
é o que vai dizer á vizinha dentro de umas horas, e a outra a benzer-se, e a outra a benzer-se como se isso apagasse o pesadelo já tido. 

Por aqui chove-me pelo jantar adentro, ouvi dizer que em Santa Luzia puseram uma estátua de um menino agarrado á pilinha, como se fosse brussels mas sem a originalidade de ser a primeira ou a vigésima quarta mil. Sabes quantas santas luzias existem no mundo? Se bem me lembro, em dubrovnick havia uma esplanada igual aquela do bairro do alto, onde estive uma vez a ver se te via aparecer na curva e não vieste e perdi um sapo. Perdi um sapo mas ganhei um novo sitio para ficar, exactamente quando me vim embora e nunca tive como tu essa fé inabalável nos recomeços de continuidade. As vezes não é uma questão de fé, ás vezes é uma questão do que é, tão certo como as ruas de Roma cheias de vespas de luz acesa, tão certo quanto o toque certeiro que se ouve em marraquesh, tão certo quanto os Hamer terem inventado um pequeno instrumento que os guerreiros levavam nas caçadas e que servia para colher as lágrimas que lhes escorriam por estarem do lado de lá do horizonte que conheciam. As viagens nunca foram fáceis, e no entanto sempre se fizeram por mais do que obrigação. Em português de portugal, "assentar" tanto quer dizer ficar no mesmo sitio como ganhar juízo. Já em português do brasil é dar algo para um santo. Vá-se lá perceber o espírito humano, vá-se lá perceber apenas uma pessoa no mundo inteiro, e a outra a benzer-se agora mesmo, agora mesmo.
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