segunda-feira, dezembro 22, 2014

questões de fé

eu era capaz de acreditar que tu consegues, pondo os dois pés no chão com muita força, fazer abrandar o mundo da sua vertigem egoísta. eu era capaz de acreditar que te basta querer para fazer o tempo passar mais devagar, capaz de acreditar que as ondas do mar se espaçam para que tu mergulhes, como se até o oceano suspirasse só com a ideia de te abraçar. eu era capaz de acreditar que tu trazes o verão debaixo da pele, que esticas os braços para trazer ou afastar nuvens, conforme precisa quem se fica pouco acima da tua cintura. eu era capaz de acreditar que há sonhos enrodilhados no teu cabelo e que os veria se pudesse entrelaçar nele os meus dedos enquanto te deixas adormecer. eu até era capaz de acreditar que emprestas o teu cheiro aos raios de sol nos dias frios de inverno e que as lareiras existem para tentar recriar o carinho e calor que se sente quando se responde a um sorriso teu. eu era capaz de acreditar que a hora em que a noite se faz dia tem o mesmo nome que tu e que os pássaros emigram porque foste tu quem os ensinou a voar.

eu era capaz de acreditar que as razões do mundo tem mais a ver contigo do que com física ou ciência ou química e que a religião, digo a fé, nasceu na verdade de um toque suave da ponta dos teus dedos. eu era capaz de acreditar nisto tudo, mesmo sabendo que tu não. 

sexta-feira, dezembro 19, 2014

Historinhazinha

Sempre havia sido sozinho na vida.
Saiu de casa cedo de mais, aprendeu a desembaraçar-se cedo de mais, entendeu que nem ás paredes se contam segredos mas que é dentro das suas quatro paredes que existe o maior sossego desta vida. No entanto, foi só depois de adulto, depois de se ter apaixonado e juntado trapinhos, que percebeu enfim o que era realmente a solidão.

quarta-feira, dezembro 17, 2014

4328 Horas

Onze mil, quinhentos e vinte e quatro dias de vida. Mais dia, menos dia, não sou boa de contas e também não me lembro deles todos.

Quatro mil, trezentas e vinte e oito horas, mais hora menos hora, não sou boa de contas e também não estiveste em todas elas. Dentro destas horas couberam cento e setenta e seis marés - mais maré menos maré - que levaram e trouxeram seiscentas e vinte e três mil, quatrocentas e cinquenta e duas ondas. É muita onda, ainda para mais porque só vimos umas dezenas a rebentarem-se-nos ao pé.

Foram 72 horas de lua cheia o que daria três dias inteiros de lua cheia, mas é uma parvoíce porque toda a gente sabe que foram antes 6 noites, que é como quem diz, 6 “meios-dias”. Seis “meios-dias” de lua cheia e nem 2 minutos de consciência dela. 
Mas não faz mal, hão-de haver mais porvir. 
Afinal de contas, a lua existe desde que o mundo é mundo, toda a gente que existe, toda a gente que já existiu, toda a humanidade desde os primórdios olha, de vez em quando, para a mesma lua. E normalmente suspira. Também há quem sorria.

Dois frascos de perfume, mais coisa menos coisa, porque lá em casa ainda sobra o cheiro agarrado aos tecidos. Uma mão cheia de gargalhadas, outra mão cheia de lágrimas, temos duas mãos, que mais haveria para agarrar em cada uma delas?

Oitenta e seis mil, quatrocentas e vinte e três canções, mais canção menos canção, e destas oitenta e seis mil e muitas há 3 que podíamos cantar em conjunto. Sem que mais ninguém ouvisse, que eu canto mal que dói.


Mil quatrocentos e 96 caracteres, agora mais uns quantos, e na verdade não há nem uma frase ou palavra que te saiba dizer. Mas há mais dias, e horas, há mais marés cheias de ondas, haverá mais “meios-dias” de lua cheia, frascos de perfume, canções e caracteres. 

E, se calhar, nem serão tão diferentes dos que existiram dentro das quatro mil, trezentas e vinte e oito horas, passadas na mesma margem de dois rios diferentes – o da ilusão e o da fé. 
Quem diria que não eram o mesmo.

quinta-feira, novembro 20, 2014

dizias que era impossível viver no país de deus,
que se podia sim atravessar o gramado de deus em bicicleta e eu fiquei com a ideia de risos misturados com grasnares de aves coloridas,
fiquei com a ideia de que o vento tinha um sabor adocicado,
fiquei com a ideia de que eras sombra feita de sal e que o cercado estava muito mais perto e que o gramado de deus devia ser muito mais extenso e que as bicicletas deviam ser mais lentas e nunca, nunca, te cheguei a dizer adeus.

dizias que havia um sítio onde estava sempre sol, que era só atravessar as nuvens - olha la, sempre sol - e que não seria nunca preciso mais nada alem de saber isto. passaram-se anos até te dizer que tens razão - tens razão - e os meus pais ainda dormem lá atrás, e aqui embaixo há um muçulmano que se prepara para as orações da manhã, daquele lado uma argentina chega a casa embrigada, meias rasgadas, o nascer de uma aurora, e algures ali há um chinês sozinho que aperta melhor a gravata ao espelho e respira fundo outra vez, que se prepara para causar boa impressão, de mãos nos bolsos não vá alguém notar que lhe tremem.

não sei se é o mundo que não chega,
se é o mundo que nos sobra,
nem tampouco sei das cores da tua camisa, das emoções dos teus olhos,
havia um sorriso - acho que havia um sorriso - dentro do lado do aceno. tu dizias adeus, em tom alegre e eu deixei-me só ficar surpreendida por um fim que não antevi e pela leveza do teu aceno. não sei que histórias contam as pedras do outros lugares, não sei que chão pisam as pessoas cujos medos e ansiedades não conheço, nunca te cheguei a dizer adeus mas aprendi a andar de bicicleta devagarinho e com as mãos nos bolsos.




segunda-feira, novembro 17, 2014

demasiado prática, Dona Teresa, demasiado prática...

Dona Teresa tinha a certeza que das estórias românticas que guardamos, sobram mais do que memórias espalmadas em páginas de livros velhos. Mas esse mais, do que é feito?

Dona Teresa sabia que não eram as saudades - essas têm prazo de validade, tempo limite, metem-se-nos primeiro dentro do corpo mas acabam por escorrer para dentro de uma arca qualquer, encontradas por acaso aquando a procura incessante de um telemóvel velho de substituição e – ai o que é isto, ai que giro – sorriso nostálgico e - volta a aventá-las lá para dentro.

Dona Teresa sabia que também não era a tristeza, essa desvanece-se entre um ou outro empurrão de um amigo, um vá tens que vir, vá anda lá, e mais cedo ou mais tarde, com maior ou menor sabor a álcool, já está.

 Dona Teresa tinha a certeza que das estórias, aquilo que realmente nos sobra, são as manias novas, vícios pequenos, tiques e esquisitices, velhos hábitos adotados numa nova existência, de um lado passam para o outro.

- Sabes – dizia Dona Teresa – eu tive uma vez um namorado que não saia de casa sem saber onde estava a estrela polar e… olha, e está ali – e apontava por cima do ombro sem sequer olhar.

- E.. Sabes… - dizia Dona Teresa – o a seguir dizia que as cuecas devem estar na mesma gaveta do que as meias, mas aquelas á frente destas e… bom, e não precisas de ir ver a minha gaveta. E havia aqueloutro, que cada vez que mastigava tinha que mastigar 15 vezes e é por isso que reclamas que como devagar quando estamos a conversar. E o pior – continuava dona Teresa – foi o seguinte, que mesmo depois de termos acabado me veio dizer que guardava as meias com as cuecas, e estas à frente daquelas e que mastigava 15 vezes antes de engolir e que essas coisas o faziam pensar em mim.


- É que sabes… - continuava Dona Teresa – as saudades e a tristeza, as lágrimas e recordações, as memórias e outras histórias, acabam por ir passando. Mas as maniazinhas e esquisitices, essas ficam contigo até já nem te lembrares de onde vieram. Menos romântico do que prático e até ver nunca encontrei ninguém que considerasse isso na escolha de um parceiro. Não é curioso?

quinta-feira, setembro 04, 2014

As coisas que quero depois de ti

23 anos sem ti, 48 anos contigo.
Houve um tempo em que moço bravo feito abria o peito às ideias revolucionárias, mais ou menos revolucionárias - se tiver que ser sincero - mas abraçava as causas - pelo menos até ser hora de jantar, conheceste a minha mãe, sabes que sempre foi chata com as horas de jantar, mesmo depois de homem feito - desfrutava de uma liberdade curiosa de ir ver o mundo. Lembras-te quando queria que nos mudássemos para a França e tu dizias "Mas Manel, e depois como os entendemos? E como arranjo os coentros para fazer açordas, que tu tanto gostas e eu não sei se há coentros na França e a tua mãe está doente e precisa de ti Manel, e agora que o gaiato é pequeno é que queres ir, deixa-o crescer mais um tempo, depois nem fala português nem sabe a que sabem coentros Manel" e sempre gostei do meu nome na tua boca, a forma como dizias "Manel" tinha o carinho dos nossos abraços e não havia tempo nem espaço para abraçar mais nada além de ti e das barrigas que iam crescendo uma depois das outras. 5 filhos, já viste, e 2 até são doutores mas está tudo orientado e todos tem os teus olhos e quando dizem "Pai" também há carinho mas não há os teus olhos a olharem para mim assim, como fazias quando dizias "Hoje não há açorda, não te chega já de pão, pão todos os dias a todas as horas? E vai-te pentear homem, andas sempre despenteado, não te deixei um pente no casão para não andares assim desgrenhado?".

Houve um tempo em que moço bravo abria o peito a sonhar com sítios lá longe, mais longe do que para trás daquele cabeço, até ir ver o mar, e fomos ver o mar os dois, lembras-te, e tu dizias que cheirava estranho e rias descalça com a saia levantada por debaixo do joelho e sempre tiveste uns artelhos lindos, mesmo quando a má circulação não perdoou, mesmo quando se te inchavam as pernas no verão e as artroses te criaram um ritmo novo, e tu dizias "não faz mal Manel, olha para elas que nem roupa trazem, coitadinhas que devem ter frio, com elas ali naquelas coisas tão apertadinhas ninguém me olha os artelhos Manel" e dizias que o som do mar era bonito mas dava vontade de fazer xixi e eu nunca te disse que não há nenhum som mais bonito do que quando te rias e dava vontade de saber todas as histórias engraçadas do mundo para que nunca parasses de te rir.

Houve um tempo em que moço bravo queria ir para a capital, que lá é que há a vida, e fomos à capital e tu vaidosa com um lenço novo ao pescoço e nunca tínhamos vistos tantos carros e as estátuas são muito altas, para que fazem as estátuas tão altas se não dá para as olhar de frente, a da paróquia tem um sorriso triste e um alto estranho numa bochecha e tu dizias que devia ser um abcesso de pedra e eu nunca soube para que pensavas tu sobre aquelas coisas porque as estátuas não tem abcessos nem tristezas, e para que as querias olhar de frente porque desde que pudesse olhar de frente para ti não havia nada mais que eu quisesse ver.

Houve um tempo em que moço bravo queria fazer coisas e fizemos 48 anos de casamento e tu a cortares os alhos, e tu a cortar cebola, e os teus lenços ainda na gaveta e os nossos filhos que aparecem menos com os olhos iguais aos teus, fizeram-se uns belos moços, sabes que sim, mas eu não sei cortar alhos nem cebolas e escondo-lhes as lágrimas na almofada, que estas coisas não são para se amostrar, o que pensariam, e já sei, que tenho 48 anos para recordar e que fomos felizes dizem eles, mas depois de ti não quero isso, depois de ti não quero muito, as coisas que quero depois de ti é que o mundo se esqueça de mim, que o sol não nos entre pela casa adentro e que os corvos me venham buscar pela janela do nosso quarto durante a próxima madrugada em que não estejas a dormir comigo. Daqui a bocadinho.

quarta-feira, setembro 03, 2014

Dona Lena

Dona Lena era financeira e dizia números crescidos - separados com vírgulas do grandes que eram - dizia indicadores,
volumes,
métricas
e pensava sentimentos - separados pela ausência de tempo para os sentir, do forte que eram - pensava sonhos,
ilusões,
esperanças que nem chegava a acalentar no breve escorrer dos dias corridos ou voados - ai, não são voados de sentir o vento na cara, são tipo voados em motores barulhentos e com cheiro a óleos ou cadáveres de pássaros esmigalhados - não sei se me estou a explicar, não tenho tempo para me explicar //

se tinha tempo para olhar uma nuvem, nem a via, por isso gostava de cheiros, não se perde tempo a avaliar cheiros, quando se dá conta deles é porque já foram vistos sem se dar conta disso, é ver sem ter que perder tempo a olhar, é ouvir o que não foi dito, é uma forma de cumplicidade unilateral, secreta, escondida, guardada cá dentro, e

Dona Lena dizia,

Dizia que a felicidade não era isto, mas dizia-o a sorrir em suspiros, dizia coisas demais e sabia-o, mas calar é morrer ou encontrar pelo menos um silêncio que põe a nú todas as incertezas e inseguranças e fragilidades e não há nada mais frágil do que o próprio silêncio, portanto mais vale dizer que a felicidade não é isto, e dizê-lo a sorrir em suspiros, enquanto se corre sem tempo para se explicar o inexplicável, para traduzir o intraduzível, Dona Lena dizia,

Um dia mudo tudo, um dia mudo o mundo para ter tempo para mudar também, um dia deslargo tudo para poder não mudar nunca mais, um dia descalço-me de vez para não poder correr, um dia deixo-me cair de verdade para aprender a voar a sentir o vento na cara.

segunda-feira, setembro 01, 2014

"that's not relevant"

O Sr. António vestia cinzento com cinzento: três botões no casaco e mais outros três do lado de dentro da garganta; umas calças meio roçadas nos bolsos de tanto tentar guardar as mãos e as memórias que elas seguravam; umas meias pretas bem esticadas, para não destoar do que se esperava dele.

Tinha a sua rotina diária há já tempo que chegasse para a ter querido mudar e depois desistido de ideias revolucionárias. Aliás, a única revolução em que havia querido participar, o Sr. António, foi na tentativa de mudar o rumo a um coração estrangeiro mas não lhe chegaram os protestos e gritos de guerra - o amor é um lugar frágil - mais a mais quando só há meia ponte que nos desune, Sr. António.

O Sr. António aprendeu o cheiro e a cor dos dias repetidos, um que vai e o outro que volta,
quando foi que aquilo aconteceu?
ontem?
a semana passada?
há 3 anos?;
o Sr. António aprendeu até a apreciar o sabor do vento constante, uma doce bolina amainada, um quentinho pouco ardente, uma euforia adiada.

"O mal foi que nos perdemos" pensava de mãos nos bolsos, passo apressado, olhar no chão, "mas será que nos perdemos mesmo ou que nunca nos encontrámos, será que é possível duas pessoas encontrarem-se de facto no espaço do que se diz, do que se quer dizer, do que se entende, do que nos prende..." e chegava a casa vindo de mais um dia, gestos seguros na fechadura, uma mulher que o esperava - a sua mulher - um beijo na testa e a cabeça do lado de lá de um qualquer horizonte longínquo, "se calhar nunca me amou, fui só eu que o achei, talvez nunca se tenha apaixonado, fui eu que o achei, mas então porque me olhava como olhava e já nem me consigo bem lembrar da sua cara, mas também, que saudades eram as suas que nunca se mediram em urgências" - Qualquer coisa para o jantar querida! - "que leveza nas palavras a levou a voar daqui para fora, que queria, que procurava, onde não cheguei..?" - Carne, sim, pode ser! - "e eu que achei que poderíamos ser felizes até ao fim dos dias" - Arroz, prefiro arroz! Ligaste ao canalizador? - "e até tinha razão, afinal de contas seremos talvez os dois felizes até ao fim dos dias" - Está bem, terça feira, eu estou cá - "só que um longe do outro".

terça-feira, julho 22, 2014

(Aos 5 disseram-lhe que podia ser o que quisesse, aos 15 que tinha que escolher bem, aos 20 que era altura de começar a pensar, aos 30 que tinha que assentar e ser o mesmo que toda a gente.) 

17:00 horas de um tempo a reclamar por uma camisola de malha, 
17:00 horas de um dia com cheiro a chuva a entranhar a terra, a engravidar a terra,
17:00 de um dia em que os caminhos se cruzam e descruzam tanto hoje como ontem, como amanhã e antes disso e as possibilidades são aquelas que se desenham com a ponta dos dedos, que se recriam no ar em gestos entusiasmados, que se acendem em velas de cheiros em serões mais cansados, que se atiram pela janela fora, em fins-de-dia mais desaustinados.

(Imaginas um futuro como forma de te escapares deste presente, um dia tudo será assim, um dia todos os dias serão um bom serão do lado de dentro do teu abraço, um dia a maior preocupação a ter é o que faço para o jantar. E sonhas as paisagens distantes que nunca viste mas imaginas dentro de um dia qualquer que talvez um dia chegará.)



 Photo credits here

terça-feira, junho 24, 2014

Dizia "o tempo está embrulhado" enquanto se embrulhava e tropeçava nas palavras aquelas, as que não queria juntar numa frase mas que lhe sobravam dos bolsos, a espreitarem, a escorregarem, a ficarem perdidas pelo chão da rua e nas entre-almofadas do sofá, caídas em conversas com sabor a vinho e temperaturas de medos. Dizia "o tempo está embrulhado" e deixava o olhar preso numa nuvem de cor ameaçadora, engolia as fragilidades lembradas como quem já as tinha remendado com linhas e fita cola, esboçava um sorriso pontual como quem sabe que a vírgula se coloca entre estas duas palavras e prendia os atacadores dos sapatos às pedras da rua porque não queria voar, nem pairar, nem nenhuma história que lhe fizesse tirar os pés do chão - afinal o tempo está mesmo embrulhado, já viste a cor daquela nuvem? nem é chuva, o que aí vem é tempestade, não preferes um guarda-chuva? não, deixa estar, os atacadores amarrados às pedras chegam - e chegava também o cheiro a terra molhada, vindo das entranhas do mundo, que as coisas que se escondem dos olhos aparecem do lado de dentro dos outros sentidos. A outra? A outra sentou-se no chão, mesmo ao lado, e pensou apenas que não são precisas amarras para se poder ficar, a cor ameaçadora da nuvem até pode parecer prateado e ser bonita, um dia os teus atacadores desatam-se sozinhos e vamos embora de mãos dadas ver outra coisa qualquer. Até lá, fico-me por aqui contigo.

sexta-feira, junho 20, 2014

O muro do Sr. Fernando e as histórias de um mundo

Tinha 14 anos o Sr. Fernando quando começou a desconfiar que a vida é feita para perder. Foi pela altura da morte do seu primeiro fiel amigo - chamava-se Leão, era um golden retrivier de pêlo quase branco e o Sr. Fernando, que na altura ainda não era senhor e tinha quase a mesma idade do cão, ficou a saber pela primeira vez como era chegar a uma casa mesmo vazia. 

O Sr. Fernando aos 15 anos não quis outro cão, que depois morre-se-me, que o que ganhamos agora perdemos depois, e aos 17 anos fugiu da possibilidade da primeira namorada a sério, que as outras de "brincar" já lhe tinham causado danos, que elas vêm mas vão, e que não preciso nem de namorada nem de cão. Mas esta ideia não lhe durou muito - a rapariga insistiu com beleza suficiente, pouco tempo depois até começaram a fazer os planos de serem felizes para sempre, deram nome ao primeiro, segundo e terceiro filho e disseram adeus a meio de um programa de Erasmus que criou mais distância entre Lisboa e Roma do que a que separa Pequim da Madragoa.

Para levantar a cabeça e endireitar o peito, o Sr. Fernando pôs a mochila às costas e a tristeza nos bolsos - saiu de Roma à procura do mundo, conheceu gente de lugares com nomes estranhíssimos, aprendeu que se sobrevive sem escova de dentes por uns dias, que é possível ser feliz com a mesma t-shirt outros tantos, descobriu que um abraço é um abraço em qualquer nacionalidade, aprendeu a dizer “Olá” em 14 línguas diferentes e “Adeus” em 15 – a vida é sempre a perder, concluiu.

Voltou para casa o Sr. Fernando, de olhos águados mas sorridentes, contava aos miúdos da rua que o ouviam as aventuras vividas em terras mais ou menos duras e concluía, agora é isto, emprego das 9h as 5h e saber que a vida é sempre a perder – perder pessoas, perder lugares, perder vontades, perder até a agilidade do que somos ou fomos, mas não seremos amanhã.

Porque amanhã, Sr Fernando, amanhã é dia de começar outra vez, amanhã é dia de ganhar antes de perder porque o que não perde Sr. Fernando são os sorrisos que desenhou e as memórias que criou. E o Sr. Fernando intrigado, que sabes tu da vida, entre videojogos na tv e jogos de futebol na rua? E o que ele sabe Sr. Fernando, é que o Sr. Fernando por ser quem mais perdeu é também o melhor contador de histórias do bairro e o que mais viveu.

segunda-feira, junho 02, 2014

4:00 da manhã, a água na cara entre lavar e afogar, um reflexo distante no espelho e tu a procura do teu próprio olhar, como foi que chegaste até aqui, as mãos na bancada e é raiva a sair-te pela boca, pelos olhos, pelo nariz, pelos ouvidos, as mãos na bancada e os dedos a tentar cravar pedra, preciso sair da minha cabeça e o nariz franzido mesmo antes de um respirar fundo em tons de cinzento e preto. Podia desistir, podia mandar isto tudo para o caralho, podia fazer uma mala pequena e recomeçar noutro sítio qualquer. Sem nome, sem cara, sem defeitos, quanto tempo se consegue manter um anonimato, quanto pesa largar o que nos sustenta, de que são feitas as raízes que não queremos? Como se sossegam as inquietudes nocturnas, a que sabe o céu onde não chegas, quanto te sufoca a escuridão? Novo suspiro, são fases, são faces que nem sabias que tinhas e a cama nem fria nem quente, nem aconchega nem desespera, nem tecto nem chão nem janela nem porta, não há posição, não há saída.

quarta-feira, maio 07, 2014


Uma fenda desenhada no alcatrão, irregular e descompassada, uma fenda a mostrar que o alcatrão também cede, pontos de pressão desenhados num chão que pisa, pontos de pressão a subirem-lhe pelos pés, a marcarem-lhe as pernas, a atravessar-lhe o dorso, irregular e descompassada, as frinchas a rasgarem-lhe a pele pelo lado de dentro, estilhaços que sobram, descolam, se desprendem, que caem num chão de alcatrão marcado por uma fenda desenhada que aponta o caminho. Se não der para negar, se calhar é para seguir, que caminhos se despontam do lado de dentro daquilo que quebrou, que lado é o lado de dentro daquilo que quebrou...?

terça-feira, abril 15, 2014

Dona Mena

Dona Mena tinha a elegância suave de alguns anos de ballet e muitos mais de doçura, tinha gestos alargados e falava PAU-SA-DA-MEN-TE, sem se deixar arrastar nas conclusões, sem se deixar aprisionar nas teorias. Sabia que o caminho era para a frente mas sentia nas pernas e nas costas o cansaço das correrias de outros tempos - tempos em que o mundo era casa e mudar era a vizinhança não desejada mas enfrentada com a coragem e confiança de quem tem nos pés a certeza dos caminhos e nos braços as asas dos sonhobjectivos.

Dona Mena, nos serões de lua cheia, olhava-se ao espelho entristecida e pensava para si mesma como a magreza lhe dava um aspecto frágil e convencia-se dos anos que tinha e das fraquezas traduzidas em artroses e das mazelas que dizia é-da-idade, que já-não-sou-o-que-era, e olha-para-isto, e que-foi-que-me-aconteceu, e será-que-fui-sempre-assim, e um ai-eu-nem-consigo-chegar-ali...

Era só quando adormecia que o espírito de dona Mena se voltava a levantar seguro, entre todas as histórias que já tinha passado e todas as que ainda vinham - e que ela ia negando, quando acordada - "ai-sei-lá-se-chego-lá". Era o que dona Mena fazia, negava-se a si mesma as forças que já tinha usado, nas desculpas das encruzilhadas da vida, que "antes tinha condições e agora não", que "antes tinha apoio e agora não", que "antes subia umas escadas a correr e agora não". Mas dona Mena ainda se lembra de si mesma às 3h da manhã sozinha numa cidade francesa, uma mala,17 anos de idade, 1.700 km de distancia de tudo o que ela conhecia. Entre o medo abandonado a decidir o que fazer, transformado na certeza de ser dona da sua vida na manhã seguinte, dona Mena tem ainda na ponta dos dedoss o resto adocicado de um croissant misturado com as rédeas da sua vida.

Na verdade quem a conhece sabe que dona Mena nasceu guerreira da paz e que é exactamente isso que continua a ser todos os dias, mesmo quando o tenta negar ou ainda quando não se lembra de saber que o é.

quarta-feira, março 26, 2014

Dona Brites

Dona Brites nascera de parto planeado, um bébé desejado e assinalado no calendário dos grandes marcos da vida, "primeiro casar, depois 1 ano para nós, empregos estáveis, a primeira criança, ao fim de 2 anos a segunda, mudar para uma casa maior, ter a terceira". E a vida que se desenhara no papel foi-se construindo a par e passo, sem altercações de maior, sem tempestades do lado de cá do horizonte e poucas vezes as gaivotas vinham a terra.

Dona Brites cresceu por isso ponderada e sensata, cheia de cautelas e cuidados, um senso que aos 5 anos de idade lhe punha um dedo espetado no ar enquanto dizia cheia de certezas aquilo que ela própria podia ou não fazer. "Oh mãe, não achas que já é hora de me ires por a dormir?" inquiria Dona Brites de sobrancelha carregada, "Oh mãe, hoje não devia ser peixe em vez de carne?".

Ficou conhecida e reconhecida pelos "nãos" que distribuía, Dona Brites sempre assertiva, "tu não podes fazer isso, tu não deves fazer aquilo, isto é mau, aquilo é bom, tu vê lá nas que te metes, eu se fosse a ti não fazia isso".

Cresceu rápido Dona Brites, sempre seguindo as tendências da moda sem exageros - as calças à boca de sino eram de sininho, as saias curtinhas eram curtas, os vestidos balão eram enchidos sem fôlego, os estampados de cores suaves.

Sem surpresas Dona Brites casou na altura devida com o homem certo, teve 3 filhos devidamente espaçados e adequadamente alegrados, e depois de muitos natais abençoados, festas de anos e baptizados, Dona Brites morreu sensatamente durante a noite, sem acordar, sem gritos, estremecimentos, dor ou até consciência de si. Na lápide do cemitério escreveram em letras bonitas, "Aqui jaz Dona Brites, esposa dedicada e mãe amada, que desta vida nada levou nem muitas marcas deixou".

segunda-feira, março 24, 2014

Tem um sorriso a mais de que não precise?

Andava pelas ruas com olhos e bolsos vazios, mendigava para não roubar, dizia a quem o quisesse ouvir, mas dizia pouco entre as gentes apressadas de telemóveis nas mãos, músicas nos carros, vidros fechados. "Tem um sorriso a mais de que não precise?" perguntava enquanto batia nas janelas, acenavam-lhe que não por detrás dos vidros dos carros, por detrás dos vidros escuros dos óculos, "tem um abraço a mais que possa dispensar?" e nem olhavam para ele enquanto passavam apressados para os seus afazeres, "tem uma festinha na cara que me possa dar?, um sorrisinho, vá lá amigo, não mendigo porque gosto, é porque preciso..." e logo o senhor mudava de lugar na paragem do autocarro, diziam que não e afastavam-se, e ele por ai continuava, de bolsos vazios a mendigar um pedacinho de amor.

terça-feira, março 11, 2014

A menina que comia arco-íris

Não tinha cor preferida, gostava do amarelo e do verde, do azul, do cinzento, do rosa ou vermelho, a qualquer hora, em qualquer dia. Isto era o que ela explicava quando lhe perguntavam de ar assombrado, mas a sério que comes arco-íris?

Vinha-lhe de pequena esta estranha mania - e são deliciosos, devias provar! - e mesmo que os pais lhe ralhassem de nada servia. Mas oh mãe, eu gosto tanto, eu sei querida mas daqui a nada vamos almoçar e depois não tens fome, e de olhos desiludidos limpava o azul do lábio inferior e guardava o resto do amarelo para comer à sobremesa.

Os amigos perguntavam-lhe, mas tu não sabes que o bom do arco-íris é que podes encontrar um pote de ouro no fim? e a menina sorria e dizia que tu é que não sabes o bom do arco-íris, é o começo e o meio e o fim... o fim só serve para deixar um gosto doce na boca e a gente com vontade de comer mais.

Quem não a conhecia tomava-a muitas vezes por pintora ou artista de algum género, manchas de cores várias nas mãos e às vezes uma ou outra nódoa na camisola - olha sujaste-te a pintar hoje na escola - e ela nem negava que às vezes os arco-íris pingavam e nem sempre havia um guardanapo no bolso para a ocasião.

Foi quando soube desta história que percebi de onde lhe vinha o brilho nos olhos e a alegria que trazia nos bolsos e agora quando a vejo de vez em quando toda deliciada, a mastigar discretamente e sem barulho, não consigo não sorrir porque já me contou do seu segredo.

quarta-feira, fevereiro 26, 2014

Dona Clara

Dona Clara sorria com lábios de luz, quer o sol se estivesse a levantar ou a pôr, quer o calor do verão lhe aquecesse a alma ou o frio do inverno lhe esfriasse os pés. Dona Clara gostava de se desdobrar em amabilidade para não ganhar vínculos de amargura, era um lago de calmaria onde até os peixes nadavam desapressados.

Tinha tiques encantadores, Dona Clara, que sempre que sorria inclinava levemente a cabeça para o seu lado direito, uma perspectiva diagonal de quem desabafa, ou seria para deixar livre o ombro esquerdo, nunca soube dizer, nunca soube encostar os pensamentos atrelados de céus muito pouco estrelados.

Mas um dia Dona Clara, ouviu falar que havia uma crise no país, ouviu falar de uma crise na europa, ouviu as queixas do vizinho de cima, do do lado, do senhor da padaria, sempre com um sorriso, Dona Clara, já leu o jornal hoje, isto assim não tem remédio, já sabe do meu sobrinho que é médico e recebe 500$, já não há profissões dignas, já sabe do leiteiro ali da esquina, abriu falência a semana passada, e tanto foi o queixume que Dona Clara ouviu que o pescoço se lhe prendeu num torcicolo desalmado e Dona Clara menos calma concluiu que era esse o seu último dia útil do mês.

terça-feira, fevereiro 04, 2014

D. Litéria

Dona Litéria dizia "relva" e cuspia pedacinhos verdes entre as palavras, dizia "céu" e um pedacinho de baba azulada a escorrer-lhe pelo canto da boca que limpava apressada com as costas da mão," ai que grande peso que carrego", suspirava, e logo os joelhos se dobravam e os ombros descaíam.

Dona Litéria dizia que gostava de beber da sabedoria dos antigos e logo se engasgava a meio da frase, pirulito desprevenido como um gole de mar, ah, tanto mar que há nas ilhas que são os homens e Dona Litéria a ser ilha engasgada, a tossir que nem um cão e a abanar a cauda, pode um piano abanar a cauda Dona Litéria? e Dona Litéria tocava música desafinada enquanto pensava nos desafinos da vida que são os desencontros e Dona Litéria já estava atrasada para o próximo, aquele que foi com o outro que haveria de ser o seu marido, risonho e habituado às esquisitices de Dona Litéria. A relação? A relação foi fácil, ela apaixonou-se no momento em que recebeu o mapa com os caminhos para o seu coração e um aviso, "vê lá não descarriles" e Dona Litéria a ser comboio fiável, sempre seguindo os caminhos trilhados, sempre na linha Dona Litéria e mesmo assim às vezes o marido zangava-se, "são facadas no meu coração!" e logo Dona Litéria ia correndo buscar o algodão com betadine e voltava para ficar baralhada, não vejo nada, não vejo nada.

Dona Litéria enviuvou num dia e demorou exactamente 5 dias, 3 horas e 27 minutos até morrer de saudade, claro.
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