segunda-feira, junho 18, 2012

acende mais um cigarro enquanto a lua se passeia no céu. de um lado para o outro, acompanhada de fumo viciado que não vê. soma mais uma noite às outras em que existiu de olhos abertos, a pensar na inexistência inviável. soma mais uma canção àquelas que quando tocam fazem doer a pele.
acende mais um cigarro e vê as ruas vazias, marcadas pela vida do dia, esquecidas na morte da noite. daqui a pouco há que recomeçar, mas não se lembra o quê ou como se faz.
houve uma altura em que ainda assim, estes eram momentos de alívio, mas agora somam-se as preocupações - e amanhã como acordo, com que cara acordo, eu que já não sei que cara tenho, que cara visto, como abro olhos olhos, como escrevo os pontos finais a meio dos textos, como digo sim com os sins entalados na garganta.

nos entretantos desenha formas fluídas com o fumo do cigarro. fluidez do fumo a contrariar o peso dos ombros, dos braços, dos dedos que seguram um vicio que ha muito lhe deixa a cabeça pesada, o corpo pesado.

"devia ser outra hora aqui" e vê um carro perdido que passa, perdido nas suas próprias histórias, desconhecendo a existência do seu cigarro, deixando-a na inexistência que procurava e que tampouco lhe traz alivio.



segunda-feira, junho 11, 2012

Dizia: a miopia é uma soda, e bebia-a de um trago, sabendo que não era dos olhos que falava. 


Dizia: há caminhos estreitos que vão desaguar em rios, e olhava a chuva sabendo que não era das poças enlameadas que falava.

Ás vezes sentava-se na relva e ficava com o fundilho das calças esverdeadas. Pensava que era uma forma de trazer o cheiro da primavera para casa mas nunca conseguiu nada mais do que dois ou três sermões irritados, em versão de "olha para isto, sujas-me os sofás e ainda me dás uma trabalheira para lavar essas calças". Foi assim que descobriu que as calças se lavavam mas não ganhou curiosidade pelo processo. O mundo a chatear com as rotinas comezinhas de afazeres, mas há muito que lhe nasciam penas no corpo e queria era dedicar-se a outra coisa. Talvez à agricultura de sonhos, talvez à pesca de sorrisos, talvez à criação de nuvens, qualquer outra coisa que não à lavagem de calças. Um dia decidiu-se a coleccionar cheiros, no dia seguinte quis cozinhar solidões, ao terceiro dia pensou em construções de idiossincrasias e ao quarto teve mesmo que fazer uma máquina de roupa, estendê-la e passá-la a ferro. E o pior não era isso, o pior eram as burocracias que lhe exigiam: que fazes parte do mundo e não podes andar a voar a 20cm do chão. Pousa os pés e vai preencher uma declaração de vida acinzentada, não te esqueças do imposto de alegria, vá que depois tens que lhe juntar o anexo de maturidade responsável e ainda a declaração de rendimentos com saldo negativo de felicidade.

Por isso, comia muitas vezes chocolates, na tentativa de se lhe adocicar as esperanças que começavam a definhar em poças enlameadas onde não havia reflexos possíveis.