terça-feira, junho 07, 2016

O Rui e os Dias*


Ele era boa pessoa, fazia os updates automáticos quando o tablet pedia, removia sempre o software em segurança, tinha uma conta poupança onde punha re-ligio-sa-men-te todos os meses uns bons 50 euros. Pedia recibos nos cafés, ia votar sempre que era preciso, desde que não estivesse a chover muito ou se as votações calhassem em período de férias, claro. Há muito que tinha deixado de discutir política e mesmo futebol discutia "com jeitinho", isto é, sem fazer muito alarido. Vá, uma laracha ou outra, um ou outro gozo com os amigos do clube rival, mas eles, eles acabavam sempre por ir buscar o campeonato de há 5 anos ou outro qualquer anterior e mais datas e nomes de jogadores que ele nem se lembrava e ele encolhia os ombros com meio sorriso e largava a conversa.

Estava inscrito num ginásio, um dia destes havia de voltar a começar a ir; quando se lembrava em algumas manhãs, até bebia um copo de àgua de um trago - tinha lido que fazia bem ao corpo, não custava tentar.
Gostava pouco de mudanças - da última vez que tinha sido obrigado a mudar de casa, durante um ano inteiro ia, de vez em quando, parar à porta do prédio antigo. Só quando a chave não funcionava na entrada cá de baixo é que se lembrava que já não morava ali e arrepiava caminho para a casa certa. "Que tontice" pensava, com um breve abanar de cabeça mas sem mais auto-crítica do que esses 3 segundos que lhe durava o pensamento. Às vezes ia jantar fora, normalmente com a equipa do trabalho, e depois um copo ao bairro alto. Reparava nas miúdas e nas mais graúdas que por lá rondavam mas era parco a fazer conversa. Já não ia para novo e as aventuras de uma noite que tivera eram mais que suficientes para se gabar aos colegas.

 Hoje em dia aborrecia-o um bocado a manhã seguinte, entre roupa fora do sítio e lençóis com restos de maquilhagem. E ter que arrumar a casa e lavar os lençóis mesmo que não fosse dia disso, não, já tinha outra idade, já tinha outras prioridades, pensava para si mesmo. Além disso, aquela nova colega do trabalho - ele achava que havia ali uma química. Nova que já não era bem nova, fazia parte da outra equipa vai para dois anos; nunca tinham propriamente feito nada fora do trabalho nem trocado emails ou mensagens sobre outros temas além dos que lhes eram directamente responsabilidade corporativa. Mas às vezes, antes ou depois de uma reunião, ela fazia um bocadinho de conversa sobre o fim de semana seguinte e por duas vezes quando ela passou por ele a caminho da impressora, lhe pôs a mão no ombro. Não precisava mais espaço para passar, mas mesmo assim pôs. Havia ali uma química, ele sabia, mas mesmo assim não achava que era de fazer algo por isso. As coisas haveriam de acontecer naturalmente, se tivessem que acontecer. E enquanto aconteciam ou não, acontecia a vida a escorregar por entre os dias mais ou menos organizados. Se lhe perguntassem se era feliz diria que sim, vá, normalmente feliz, afinal de contas que razão tinha para ser infeliz? Nenhuma, portando deveria ser feliz, sim.

*publicado em primeira mao aqui:https://quemcontaumconto.pt/o-rui-e-os-dias 

quinta-feira, junho 02, 2016

Insónia com reflexos

Alguém passa na rua, passos apressados, está um frio que se entranha. São 02:17 da manhã e a qualquer hora neste bairro há sempre alguém que chega ou vai - os silêncios da noite são intervalos nas histórias das pessoas que não conhecemos – e está visto que não vou mesmo conseguir dormir. Levanto-me da cama, amanhã o dia custará mais mas pensar nisso costuma apenas tornar a noite ainda mais longa. Acendo um cigarro de frente para ti, o intervalo nas histórias das pessoas que não conhecemos faz sentir que o bairro se deixou suspender, talvez fora do mundo, e aqui dentro o que vejo é apenas tanta interrogação no lado de dentro do teu olhar.
Tão longe e distante, criou-se tanto espaço entre nós. 

Na minha cabeça há muito que as incertezas se divertem a estorvar os outros pensamentos, queria-te pedir para me levares de volta a quando éramos mais fortes, a quando olhávamos as dificuldades com um sorriso trocista e segurávamos a respiração num folêgo antes de arregaçar as mangas, como quem mergulha de muito alto. Olho as tuas sobrancelhas, olho o teu nariz, olho os teus lábios. Conheço-os de cor, se soubesse desenhar poderia desenhá-los de memória e no entanto enquanto os olho agora, não tenho sequer a mínima sensação de familiaridade. 
Estás diferente. 
Estamos diferentes. 
Suspiro fundo, não tenho a certeza que possamos voltar ao que fomos sabes? E vejo que no teu olhar também há dor, não sei como fazer para voltarmos a ter a coragem que tínhamos, e vejo que os teus lábios também se contraem de tristeza, não sei como havemos de fazer... na rua passa um carro - há sempre alguém que chega ou vai - passo a mão pela franja desalinhada, suspiro fundo. 

Às vezes há que desistir e isto nem sequer são horas. Olho-me uma vez mais no espelho e penso para comigo que pode ser que talvez um dia me encontre.
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