segunda-feira, novembro 28, 2011

Atitudes activas Vs passivas


Ouvi dizer que não sabes o que fazer.
Ouvi dizer que continuas em quietude no mesmo canto, de braços cruzados, sem saber o que fazer.

Creio que essa posição te é confortável, enquanto te manténs na indecisão a vida vai passando por ti e tomando ela as decisões que são tuas. "São coisas que me acontecem" dizes com alguma raiva, em sussurro por entre os dentes. Sem saber que a culpa é tua por não tomares nenhuma atitude.

Mas se agora sussurras de dentes semi-cerrados por causa disso, tenho uma má noticia para te dar: vai piorar. A sério. Porque vais sofrer de uma grande crise de pós-meia idade (que é quando disseres que estás na meia idade mas na verdade já a passaste). E não vais fazer nada sobre isso, e depois envelheces e já se sabe como é essa velhice, amarga e azeda a dizer mal dos tempos modernos e bem dos tempos que mais ninguém se lembra - aqueles em que podias ter feito alguma coisa e não fizeste - e depois morres nas amarguras porque a tua vida afinal não fez diferença nenhuma (e na verdade a vida não foi tua, foi dela sozinha porque sozinha se decidiu) e depois reencarnas numa minhoca lenta e começas a rastejar por uma varanda cheia de humidade e há uma gaja que também não decide a vida dela que te vê e como também não tem a atitude que te faltou, em vez de te matar com uma pisadela fica só histérica a atirar-te sapatos do outro lado da varanda a acabas uma minhoca meia morta a dizer mal das duas vidas que não viveu. E vamos ter sinceridade, isso é triste.

Portanto, se não queres acabar como uma minhoca moribunda durante 58 horas, mais vale fazeres alguma coisa agora.

sábado, novembro 26, 2011

Um casal atípico

Segunda-feira, 7:30 da manhã, na casa de Ana e Jaime em Campo de Ourique.

Jaime percorre a casa toda em passo apressado. Procura as suas chaves de casa. Já desesperado decide acordar Ana para o ajudar a encontrá-las.

- Anaaaa, viste as minhas chaves?
- Vi. E até podia dizer-te onde elas estão se não tivesse sido atacada por uma perguicite tão grande que nem consigo falar. Só para teres uma ideia, a explicação que te acabo de dar sobre o cansanço arruinou com as minhas reservas de energia e vai-me levar, pelo menos, uma hora antes de conseguir articular qualquer palavra.
- Vá lá Ana, pára de brincar. Assim vou chegar tarde ao emprego. Tenho uma reunião de equipa às 8:30 e ainda nem revi a minha apresentação.
- Não estou a brincar! O que te digo é muito sério. Não consegues ver como arrasto a voz quando falo?... No entanto - porque te amo acima de todas as coisas - estou disposta a fazer um sacrifício. Mas para isso também vou precisar de ver alguma boa vontade da tua parte... afinal quem perdeu as chaves foste tu.
- Vá lá Ana! Não tenho tempo para jogos. Diz-me duma vez onde estão as chaves e pára de brincar.
- Como te digo, se queres reaver as tuas chaves tens que demonstrar uma intenção realmente séria de as reaver.
- E como é que esperas que eu faça isso?
- Bem, tens que jogar o jogo das perguntas: tens direito a três perguntas; nenhuma delas pode ser "Onde é que estão as chaves?". Por cada pergunta inteligente que fizeres recebes pistas que te levarão direitinho ao teu objectivo... a argúcia e perspicácia são, portanto, qualidades altamente valorizadas neste desafio. Pronto?
- Sim, tenho outro remédio?
- Isso é uma pergunta?
- Não! Era eu que estava a pensar alto, desculpa. Posso começar de princípio?
- Sim, mas a partir de agora não há mais desculpas. Não te esqueças que o tempo está a contar.
- Ok, ok. Então vamos lá. (Jaime inspira fundo olha para Ana e começa.) Já te disse hoje que te amo?
- Ainda não tinhas mencionado, não. As chaves estão algures no andar de baixo.
- Queres ir jantar fora logo à noite e ir ao cinema ver um filme à tua escolha?
- Aceito o convite...talvez fosse bom limitares a tua busca à zona da sala.
- Achas que logo à noite posso fazer-te uma massagem para estrear os óleos que comprámos na nossa viagem à Tailândia?
- Também reparaste que estão a ganhar pó na dispensa?... acho que as chaves estão caídas entre as almofadas do sofá.
Jaime beija Ana na boca e sai apressado descendo as escadas de duas em duas.. quando chega à sala vira o sofá de ponta a ponta sem vislumbrar ponta de chaves.
- Anaaaa, não estão aqui.
- Então não sei. Pensei que as tinha visto aí caídas.
...
Fim.

segunda-feira, novembro 21, 2011

O amor é uma construção a dois.

Querido Diário,
Conheci um rapaz espectacular. Tem cabelo desalinhado, usa t-shirts pretas de rock, tem montes de estilo e conversas super-interessantes. Não entendo tudo o que diz mas adoro a expressão dele!

Querido Diário,
Hoje passamos a tarde juntos,  ele fala-me de coisas que nunca tinha ouvido, conhece imenso sobre tudo, tem perspectivas muito interessantes sobre qualquer assunto. Nunca me vai ligar, que interesse poderia eu ter para ele? Ah, mas como adoro aquele cabelo despenteado!

Querido Diário,
tenho novidades das últimas semanas. Temos saído muito e conversado. Já conheço alguns amigos dele, tem todos conversas diferentes dos meus. E opiniões, é gente que sabe do que fala!


Querido diário,
tenho namorado. Adoro andar com ele e apresentá-lo a toda a gente. As pessoas ficam sempre muito impressionadas com o ar dele, porque ele é diferente em tudo. Do cabelo por pentear, as t-shirts de rock, as calças rasgadas...

Querido diário,
tivemos um jantar de anos de uma amiga minha. Ele também foi, é mais do que oficial que namoramos. Estou tão feliz! Só foi pena que algumas pessoas o olharam de lado, pudera, ele tem um estilo tão diferente...

Querido diário,
amanhã vamos ter outro jantar de anos de outra amiga minha. Felizmente consegui convence-lo a pentear-se e a vestir uma camisa. Vai fazer um sucesso, com as conversas interessantes que tem, vais ver! Só espero que não fale muito de assuntos chocantes, às vezes não percebo porque tem que ter opiniões tão duras sobre tudo. E são meio esquisitas, era muito mais fácil se pensasse o mesmo que os meus amigos em alguns assuntos...

Querido diário,
ontem ele veio cá jantar. Veio de camisa e calças sem estarem rasgadas. Não falou muito das conversas mais esquisitas que às vezes tem, que foi para não chocar muito a minha família. Correu bem... acho eu. Ele gostou! Os meus pais não disseram nada de especial, mas acho que não desgostaram.

Querido diário,
hoje tivemos uma discussão. Tudo porque me apareceu cá em casa todo despenteado - apesar de estar com um novo corte de cabelo muito mais giro! - e eu pedi para se pentear para irmos ao cinema. Não percebo qual é o problema dele, afinal não lhe custava nada e fica-lhe muito melhor!

Querido diário,
acabei o meu namoro. Não sei o que se passou com ele, mas ele mudou muito neste tempo. Não é mais o rapaz por quem me apaixonei. Não tem mais a garra que tinha a falar do que falava, parece que perdeu o brilho! E ás vezes tem um ar meio apatetado, a camisa sai-lhe para fora e parece meio tóino. Mudou demais neste tempo de namoro, não entendo. Se calhar é só de estar a ficar mais maduro, mas acho que estamos a crescer para caminhos diferentes.

quinta-feira, novembro 17, 2011


Sabia de cor as cores das suas mãos quando cruzava os dedos em apertados gritos mudos. Era estranho, como se quisesse agarrar a raiva dentro das palmas e por vezes tivesse medo que a força lhe faltasse. Apertava os lábios também, sempre o mesmo gesto, a expressão crua nos olhos. Crua de existência. 

- Que outras terras achas que pisas que te asseguram seguros chãos?

Ninguém fala assim quando em vez de palavras guarda nuvens cinzentas na cabeça. Ninguém fala mesmo, intraduções de coisas indefinidas. Raios de tentativas de explicações a soçobrarem pelos ossos, a rebentarem por dentro da pele, a baterem insistentemente contra o mesmo invólucro selado, impossível saírem por esses cortes tentativas.

- Que outras terras achas que pisas que te asseguram seguros chãos?

Como se não fossemos existência em vazio. Como se houvesse mesmo a possibilidade de assegurar ou de nos segurarmos a alguma coisa. Um cajado, havia senhores que tinham cajados, havia um tempo infantil que achava que jamais o mundo se poderia desequilibrar se tivesse apoiado num cajado firmemente cravado no chão. As mãos sob o queixo. As respostas sob as mãos. 

- Que rios são esses que tentas travar sem fazeres de ti barragem?

A fluidez dos dias, dos momentos, das pedras, dos "sim", dos agora. A fluidez imparável da falta do concreto, a fluidez do cimento e do betão, não há nada indestrutível, não há nada que dure agarrado ao lodo escorregadio do que já foi. Uma lágrima tem menos fluidez do que essa promessa. Há no vento uma aspereza maior do que nesse muro. É preciso, seria preciso, aprender a andar assim. Sem chão nos pés, sem mãos no cajado. Pior que um bebé de ano. Trôpego, não bebas mais, não mastigues a bebida, não mastigues essa raiva. Sôfrego, já não há, fluiu-se. 

- Anda, vamos embora. Amanhã também é dia.

Não são os dias que importam, são as noites. Quando as coisas fluidas ganham algum peso. Quando a gente se ilude a pensar que há coisas importantes e que vão durar. As noites são uma merda, por isso digo-te bom dia, alegria, e construo uma casa de nevoeiro - o material de onde nascem todos os outros.


sexta-feira, outubro 07, 2011

Três grandes grupos de mentirosos: Caçadores, Políticos e Pescadores

- Mas de verdade que há pesca boa no Tejo?

- Claro que há menina... claro que há... deixe-me contar-lhe uma história. Comecei a pescar no Tejo, aqui mesmo à beira de Alcântara, quando tinha 7 anos. Vinha com o meu pai e tinha que ficar em silêncio o tempo todo. Mas sabe como é, a gente ganha-lhe o gosto. Assim como assim, o meu pai também era homem de poucas palavras. Não se chegava a zangar comigo quando a linha se partia. Dava-me um calduço e já está. E sorria quando eu apanhava um peixe. No Tejo há pesca boa menina, já cá apanhei uma corvina de 2,5 kl. Charroucos também aparecem. E taínhas, taínhas há com fartura. Ás vezes também aparecem robalos menina, às vezes também aparecem robalos, mas aparece mais vezes lixo. Há muito lixo no Tejo menina, imagine que o outro dia vim à pesca e apanhei com uma multa. Que são precisas licenças, que é preciso ir tratar de papéis, no tempo do meu pai não havia nada disso. Hoje em dia apanha-se mais lixo desse. Bu-ro-cra-cia chamam-lhe os especialistas, é lixo é o que é. E ali mais abaixo costumava estar outro pescador todas as manhãs de sábado que já não vem por causa disso, apanhou uma burocracia tão grande que desistiu disto. É triste menina, a gente desistir das coisas que gosta por causa dos entraves que encontramos.

Mas também se apanham coisas melhores agora. O outro dia apanhei um bocadinho de nostalgia, mas coisa miúda, coisa miúda. Fui dar com um antigo companheiro lá da escola, veja lá menina, está na frança mas veio cá uns dias e teve que vir ao tejo. Ainda deu para desenrolar umas histórias e apanhar umas lembranças. Também cheiram a peixe as lembranças, mas não só. A pão acabado de fazer ou a cozido nos dias de festa.

É.. é verdade que ainda há pesca boa no tejo menina. Se não a gente já não vinha para aqui... e às vezes até aparecem robalos.

quinta-feira, setembro 15, 2011

história que toda a gente conhece

Mariazinha tem 3 anos e quer a sua chupeta. A mãe afasta-a, porque sabe que Mariazinha se vai magoar nela, com os seus novos dentinhos. Mariazinha não sabe das razões nem dos porquês, quer a sua chupeta e quer-la tanto que dos pulmões nascem furacões que abanam as paredes da casa e transformam os cérebros dos pais em papa. Mariazinha consegue a sua chupeta e magoa-se nela com os seus novos dentinhos. Não sabe ainda que não adianta chorar sobre a chupeta derramada, mas adiante na história que a chupeta em si não nos interessa.

 Mariazinha tem 7 anos e quer subir ao muro da escola. A professora não deixa, que te vais magoar Mariazinha!, e Mariazinha aproveita todos os intervalos em que a professora está distraída para acenar aos coleguinhas do alto do muro branco. Sobe uma, sobe duas, sobe vinte, Mariazinha é a rainha da escola quando a professora não vê, até ao dia em que a professora se zanga com o namorado ao telefone e volta mais cedo, dá de caras com Mariazinha no muro, grita alto e assusta-a, Mariazinha dá de caras com o chão do intervalo. Mariazinha magoa-se uma vez em 50 e deixa de ser rainha da escola.

Mariazinha tem 12 anos e mais de 7 amigas com quem partilha segredos. Que o rapaz mais giro da escola é o Rui, ai Mariazinha não se gosta de um rapaz de 14 anos. Mas ele tem estilo e as calças abaixo do rabo, os risinhos das amigas são quase histéricos quando ele passa até que lhe passa a vontade de trocar olhares com Mariazinha. Das 7 amigas, uma foi fazer conversinha - ai Mariazinha que te deu para confiares nas 7, os números perfeitos são apenas bíblicos - Mariazinha chora as traições e outras intenções, Mariazinha só tem uma amiga com quem partilha segredos.

Mariazinha tem 17 de média e 17 de idade. São os exames nacionais e Mariazinha estuda e estuda e estuda e passa e passa e chumba. 2 exames brilhantes, um exame de merda - ai Mariazinha, tão boa aluna que tu eras e ainda acabas a lavar degraus. Pode ser que não, que a segunda opção da faculdade não era a de empregada doméstica, mas pobre Mariazinha, nunca acerta, nunca acerta.

Mariazinha tem quase 30 anos e sabe que quem não arrisca não petisca, mas tem tanto medo Mariazinha que se vai desculpando que os petiscos engordam e se calhar é melhor não.

Mariazinha Mariazinha, um dia destes digo-te que se não fosses tão parva eras estúpida que nem uma porta. Sem demérito para a porta, que ainda é mais estúpida que tu porque se fecha sempre como se fosse a última vez. Até ao dia em que quebra e é substituída por outra mais prudente.

Moral da história?
É no equilíbrio que está a virtude.

Largamos a Mariazinha e recomeçamos?

Osho, Zén, Chin e Yang eram quatro amigos muito equilibrados, tão equilibrados equilibrados que podiam vir a ser os melhores trapezistas do mundo inteiro e arredores. Mas nunca o seriam, a vida no trapézio é um risco sobre uma linha e quando há mais risco do que segurança não se está no equilíbrio. Por isso eram outra coisa, gestores de coisas - um de comunicação, outro de recursos, outro de humanos e outro de gestão. Sim, gestor de gestão, hoje em dia também fazem falta. Em equilíbrio lá se casaram na idade devida com raparigas equilibradamente giras e interessantes, a tentarem equilibrarem-se em cima das suas andas, ai perdão, sapatos de saltos muitos altos. Nem demais nem de menos, nem muito apaixonados nem muito enjoados. Um deles casou com a Mariazinha e viveram equilibradamente felizes, moderadamente satisfeitos, só tinham - por mera coincidência - um problema na vida: a porta de sua casa nunca aguentava muito tempo, estava sempre a partir-se e a ter que ser substítuida.

É assim com as intensidades da vida.

segunda-feira, setembro 05, 2011

...

A língua transformada em granito quando dizes "tens a maturidade emocional de um cachorro de 3 meses" mas não me atiras a bola de volta.

As flores de papel arrastadas pelo vento das pálas de um moinho em ruína, rua fora, ao longo da costa, para longe. É o tempo dos varredores de rua, cabeças viradas ao chão, não sei de que cor têm os olhos. Só sei do irritante barulho das vassouras feitas de ramos mortos a rasparem nas pedras da calçada, são de granito, como a língua.

É o tempo do fim das festas, dizem os varredores sem falar.
É o tempo do fim das festas, diz o cachorro sem abanar a cauda.
As pedras, essas não dizem nada. Ficam-se com o seu tempo e o seu peso, as histórias que calam e a vontade de aprenderem a voar, que nunca será de facto uma possibilidade. Mas também, assim como assim, não precisam de mais nada.

terça-feira, julho 26, 2011

Às vezes, só às vezes, deixas o tempo escorregar-te no corpo para te lembrares das histórias que já não existem. Como as de umas mãos muito velhas que te davam umas palmadas desajeitadas no cimo da cabeça e tinham marcadas nas palmas as histórias incontáveis da vida, em vez de linhas sobre o futuro e promessas escondidas.

As mãos - todos os erros, todos os sucessos, todas as desistências e os momentos inesperados que tentaram agarrar, os outros que largaram, as vezes que tocaram em coisas, objectos, outras pessoas e depois se esqueceram dessas formas, dessas temperaturas, dessas densidades. Para se lembrarem de outras.

Ás vezes também me lembro de coisas. Lembro-me que esta cidade cheia de luz não é de verdade terra de ninguém. Se alguém lhe pertencer serão os pombos, não as pessoas que a cruzam e a (re)conhecem. Porque as pessoas que a cruzam apenas conhecem os sítios que são pisados todos os dias por centenas de milhares de pés apressados, mudos, pés que não reparam nos sítios porque os lugares não são deles e mudam um bocadinho, todos os dias, sozinhos, sem ninguém que se aperceba de uma erva a florir entre a calçada ou mais um pedaço de madeira que apodrece porque estes lugares não são de ninguém.

O outro dia disseram-me que as coisas são de quem trata delas, que essa é a única pertença possível (e mesmo assim não chega).

Quase todos os dias sabes o que deves fazer, quando acordas de manhã e o dia se espreguiça à tua frente e na tua cabeça as vozes de recomendações, exigências, responsabilidades e planos. Para chegar a algum sítio, para fazer o que deves fazer, porque é assim. Porque a vida às vezes não nos guarda tempo para aquilo que gostamos e é assim que o tempo se nos escorre pelo corpo numa cidade que não é de ninguém e sem mãos que guardem as histórias e memórias que o tempo apagou.

Não quero deslargar as pequenas histórias cruzadas que não se vão tornar no elenco principal. Porque acho que essas é que são o principal, sem os deveres e responsabilidades e pressupostos com alguém a dizer-me "não faças isso que o caminho é por ali" e esse caminho é aquele onde a vida não nos guarda tempo para as coisas que queremos mais (que queríamos mais, quando as mãos forem velhas e tiverem traçados os erros e segredos incontáveis).

quarta-feira, julho 20, 2011

NOTICIA DE ÚLTIMA HORA: Mãe entra na cozinha depois de ausência de mais de 30 anos!

Após a tentativa falhada de confecção de um bacalhau com natas, a gastronomicamente insensível foi apanhada a tentar remediar o prato que, momentos antes, fora dado a provar a Joana, a filha mais nova. (os nomes utilizados nesta reportagem são fictícios e qualquer semelhança com uma realidade perto de si é puramente acidental) .



Joana, sempre se mostrou condescendente com os "dotes" culinários da sua mãe adoptando sempre uma postura de encorajamento, fruto do seu incomensurável amor filial. Chegou mesmo “a oferecer-lhe um O Livro do Pantagruel para guiá-la nos momentos de escuridão culinária”, conta com um sorriso triste nos lábios. A sua mãe, no entanto, nunca abriu o livro e decidiu aventurar-se no novo e inexplorado mundo da culinária.

José seu marido, conta-nos como tentou evitar o sucedido “Eu vi logo que ia sair dali disparate. Quando a minha mulher põe uma ideia nova na cabeça o melhor a fazer é afastarmo-nos. Eu e a minha filha mais velha não arriscámos e comemos bifes grelhados com ovo a cavalo, mas a Joana não quis ouvir-nos…

Mais para agradar a sua mãe do que por vontade de se submeter a tal provação Joana terá consentido no uso do seu paladar a fim de aferir a qualidade do prato. O testemunho de dor partilhado com o nosso repórter ilustram bem os momentos de terror passados por esta flha que reconhece agora a má opção de ter rejeitado o bife grelhado confeccionado pelo seu pai.


Horror, angústia e desepero foram as palavras escolhidas pela vítima para descrever a experiência: “O meu mundo, tal como o conhecia, desmoronou-se à minha volta no momento em que dei a primeira garfada. A minha mente foi invadida por imagens flash das minhas vivências passadas: recordei a minha infância, os meus pais a jogarem comigo ao peão e um dia de sol na praia.

Com o olhar vago e os braços envolvendo fortemente o seu corpo Joana, leva-nos friamente a reviver os momentos abaladores de que foi vitíma: “A violência do primeiro contacto da pasta seca e farelenta com as papilas fungiformes despoletaram uma dor lacinante que percorreu cada centimetro do meu corpo. Senti o subtil sabor do bacalhau tentar vencer e impôr-se diante da quantidade desproporcional de batata – esmigalhada ao acaso e sem arte ”.

Desproporcional foi também o polvilhamento do pão ralado que dava ao prato um aspecto assustadoramente semelhante à cabeleira do Mick Jagger. Quase como se o cantor tivesse decidido cortar o cabelo e atirá-lo para dentro de um pirex. “Numa tentativa de esconder o que estava a sentir comecei a mastigar mais depressa para pôr termo ao meu sofrimento. Sei agora que só piorei as coisas...”. Segundo apurámos junto do Dr. Mimoso da Silva, abalizado nutricionista: “A mastigação rápida faz libertar todos os aromas e odores contidos nos alimentos exponenciando o seu sabor aos níveis máximos”.

Infelizmente a experiência não terminava ali e o preparado iniciou a sua descida em direcção ao estômago a um ritmo “morbidamente lento” para utilizar palavras de Joana. “Era como se os sucos gástricos do meu estômago estivessem conscientes do marasmo gastronómico que acabara de se instalar no meu estômago e se tivessem recusado a actuar, assim como uma greve gástrica….”

Felizmente a história de Joana tem um final feliz. Ao fim de seis longas horas de digestão de apenas 4 gr de bolo alimentar Joana conseguiu vencer a estupro alimentício de que foi alvo e o seu estado clínico é, agora, estável.

Até ao fecho da edição pudémos confirmar junto de amigos próximos da familia que o alimento se encontra agora perto do recto onde será finalmente expelido do corpo. A relação entre Joana e sua mãe também foi reatada, não sem a promessa por parte desta última de não mais entrar ou aproximar-se de uma cozinha enquanto a sua condição de culinariamente toldada permanecer.

sábado, julho 09, 2011

Assunto a explorar

Nunca o próprio ser conseguirá passar a
Fronteira entre as coisas como elas são e como nós as sentimos.

terça-feira, junho 28, 2011

mini-conto

Aos 2 anos já se entretinha com as próprias mãos, enrolava sorrisos entre os dedos deitada no berço. Aos 3 começou a brincar com o mundo das cores da alegria, em joguinhos e plataformas de marca que os tios lhe ofereciam. Aos 5 construia casas de expectativas, aos 6 vestia as suas bonecas de tristezas ou felicidades, conforme o dia. Aos 7 resolvia puzzles de nostalgias, aos 8 lia livros de saudades, aos 9 ensinava às outras crianças como se brincar aos orgulhos e humilhações. Foi crescendo, mas nunca deixou de brincar com os sentimentos.

sexta-feira, junho 24, 2011

Dona Bia

Dona Bia vivia atarefada entre duas histórias paralelas. De um amor para o outro, correrias escondidas e memórias secretas. Um malabarismo constante, acompanhado de arritmias pontuais, um ou outro susto elegante, formas aprendidas para disfarçar mais.

Dona Bia dividia-se para multiplicar os beijinhos, Dona Bia entretia-se a somar carinhos.

Sabia Dona Bia, que não podia durar eternamente, mas acreditava piamente que o fim seria sempre adiável.

Mas não sabia Dona Bia que a solidão que sentia se agravava a diário. Impedida da sua verdade desabafar, dia-a-dia mais se enterrava num fosso emaranhado de cruzamentos abafados.

Não sei eu quando será que Dona Bia se vai aperceber que este é um caminho seguro para a sua solidão lhe continuar a doer.

sexta-feira, junho 17, 2011

...

Dias entalados fora das geografias, à procura de um tempo para respirar fundo, à procura do espaço de um abraço. Horas de gritos contidos, de gestos parados antes de tentarem acontecer, sem saber como desatar a garganta, sem saber calar as lágrimas. Podia ser qualquer outra coisa, e distraia-se um bocadinho de roda das possibilidades em volta. Sem na verdade querer agarrar nenhuma, logo à noite para adormecer, em vez de contar ovelhas, contarei possibilidades. E sorria, porque os sorrisos tristes valem tanto quanto os outros, adivinhando uma lua cheia a espreguiçar-se num horizonte em alguma parte do mundo. Naquela parte do mundo segredada entre lençóis.

segunda-feira, junho 06, 2011

Fábulas urbanas improváveis

Hoje nasceu-me uma flor no braço.

Não sei de que semente, não sei que tipo de flor irá tornar-se.

Não me causou muito espanto, ao vê-la percebi que tem vindo a ser ajardinada há já algum tempo, eu é que não me apercebi.

O botão é quadrado e as pétalas que lhe apareceram são pequenas e triangulares. Ainda sem cor definida. Creio que irão ficar maiores.

As raízes são fortes, mas não estão à vista.

As pessoas olharam-me com estranheza. Não estão habituadas a que nasçam flores nos braços das outras pessoas. Eu já sabia que as pessoas podiam ser terra, não tinha antevisto a possibilidade de serem férteis para flores. Nem que eu pudesse ser terra.

Amanhã rego-a, para que fique viçosa. Se me nasceu uma flor no braço, por algum motivo será. Talvez me avise que o Outono possa chegar antes de tempo e fique Inverno no Verão, ou talvez faça do meu braço uma Primavera cheia de borboletas.

Temo no entanto a possibilidade que ganhe espinhos. Suspeito que me rasgariam a pele o que poderia ser incómodo, se me doesse. Se não doer, quem sabe, será só mais uma forma para que nasçam outras flores no mesmo corpo.

Se eu própria vier a ganhar raízes, espero não perder a mobilidade. Mas sempre gostei de sentir o vento nos ramos e nas pétalas... ai, nos braços e cabelo.

sexta-feira, junho 03, 2011

"NightLands"

"Às 5h30 da manhã o céu começa a desbotar. A parte debaixo do céu escorre de preto para azul, são espessas as linhas que mergulham do lado de lá do horizonte, mas a tua respiração mantém-se igual.

Ás 6h10 da manhã, o azul enche-se de vento, torna-se quase transparente e tu dás meia volta sobre ti e largas um suspiro profundo. Todo o ar que existe no quarto dentro de ti, todo o ar que existe no mundo a sair de ti.

A esta hora desconfio que o céu vai escorrer até deixar de existir, que o branco-vazio vai encher o que descansa assente em cima do horizonte, que o único espaço seguro é este sítio inexistente onde estás enquanto dormes.

Ás 7h00 da manhã já é mesmo dia e tu não sabes. Eu sei que é dia, mas não sei exactamente de onde é que ele apareceu. Mesmo tendo visto a transformação da luz pelo espaço da persiana que ontem não fechaste. Sei outras coisas, sei que mudaste o tom da respiração mesmo agora, que é menos profunda, que tem menos pausas. Suponho que o teu sono esteja a perder peso e tento quase não me mexer e quase não respirar, para não correr o risco de te acordar. Corro outros riscos, mas que não me dão tantas insónias.

É antes das 8h00 que os teus olhos abrem mas o teu corpo ainda é a minha terra. E vai ser durante mais um bocado, antes de se encher da consciência de ti e dos afazeres que te esperam, do lado de lá da janela que nos olha."

in NightLands, by Hipnos.

quarta-feira, maio 04, 2011

"Post"ulado íntimo ou intimidado

by tap.

*este post não respeita o novo acordo ortográfico e não tem pena disso.


Creio que houve alguém que decidiu fazer uma pausa na necessidade de dormir e passou a noite a pintar a manhã de cinzento. Creio também que fez um bom trabalho, confesso que não sabia que havia tantos tons diferentes do mesmo cinzento. Não me chateia porque não me chateia cor nenhuma, afinal de contas todas as cores têm o mesmo direito à existência. Lá porque há outras mais exibicionistas não significa que um subtil cinzento tenha menos valor ou importância. Que seria do mundo sem o cinzento? Certamente um lugar pior, mais que não fosse pela incrível barreira entre o preto e o branco, para sempre incompreendidos um pelo outro, um para o outro.

Não que isto seja totalmente verdade ou conclusivo de alguma coisa. Ultimamente não me tem sido fácil chegar a conclusões. Nem difícil, não tenho chegado a muitas simplesmente. Mas cheguei a esta, portanto tenho alcançado algumas. Se calhar pintaram-lhes o cinzento por cima. Ou se calhar tem a ver com as palavras que se me partiram antes de sairem pelos dedos. È porque não as tenho procurado muito, ultimamente não chego a conclusões porque não tenho pensado com palavras. Tenho pensado mais com imagens e sentimentos e fragmentos de momentos que se deslargaram das letras mas ganharam cheiros e temperatura. Não estou bem certa sobre os porquês. È difícil pensar nos porquês em imagens e sentimentos, não costumam ser cinzentos os porquês, ou se calhar costumam e eu é que não lhes sei a cor. Porque é difícil pensar nos porquês em imagens, se fosse fácil saber-lhes-ia a cor.

É por isso que me faz alguma falta voltar às palavras e deixá-las escorrer pelos dedos, mas a verdade é que parece que nestes últimos tempos as palavras desabaram por mim adentro e ficaram lá no fundo meio partidas.

Nos entretantos das outras formas de pensar talvez vá ver se as encontre, mas receio dar com elas partidas e rachadas e amontoadas indistintamente. Tenho cenas e coisas misturadas, descobertas e redescobertas, é mais uma lanterna na cabeça e a falta de uma picareta na mão para tentar perceber sem ter que esgravatinhar nos muros. Racional e lógicamente, se não os derrubar, eles não caem, mas sem ser racional e lógicamente talvez assim os derrube na mesma. Afinal de contas, quanta razão e lógica existe num muro? Muito pouca, creio. Se ele não souber que esta não é a forma comum de o derrubar, pode ser que se deixe cair na mesma. Sei que não vale a pena tentar impôr ao muro a minha razão e lógica. Seria quase como estar a falar com uma parede e isso toda a gente sabe que é muito pouco útil.

terça-feira, maio 03, 2011

O Processo

O Processo

Tinham sido criteriosamente seleccionados entre a multiplicidade dos seus pares recentemente saídos do forno de torragem; as características demonstradas durante o processo de torrefacção (tonalidade, tamanho, consistência, junção das duas metades) eram responsáveis pela sua escolha e integração naquele núcleo restrito e honroso. Antes deles, outros tantos tinham seguido o mesmo destino, prestando um contributo incomparável na satisfação e alegria da raça humana. Cada um deles representaria, depois de terminado o processo de transformação, uma explosão de puro prazer só comparável à ingestão de outro igual a si.

Hordas de amendoins encontravam-se aglomeradas em gigantescas plataformas de alumínio aguardando ansiosamente instruções. Profissionais de topo, munidos dos meios tecnológicos mais inovadores, asseguravam, a todo o tempo, que apenas os mais aptos e os de melhor qualidade passariam as várias fases do processo de transformação. Cada uma das fases, tinha sido meticulosamente estudada e desenvolvida, ao longo dos anos, com o único objectivo de criar, nada menos do que a mais pura das perfeições comprimida numa massa de forma oval cujo diâmetro não ultrapassava os 5 mm.

Um burburinho de fundo percorria as fileiras de amendoins, deixando a atmosfera carregada de nervosismos e ansiedades. Cada um dos candidatos sentia sobre si o peso da responsabilidade de pertencer àquela elite. Todos tentavam lidar com a consciência gritante de que, até estar terminada a sua transformação, nada lhes garantiria que chegariam ao final. Todas as fases eram críticas e muitos candidatos sucumbiam aos nervos, separando-se irremediavelmente em duas metades. Nessa triste eventualidade o amen-doim seria automaticamente excluído do processo e condenado a trabalhar como assistente nos processos de transformação dos amendoins bem sucedidos. Era uma provação pela qual nenhum desejava passar e cujas consequências nefastas se alastrariam às gerações futuras que nasceriam da mesma planta.

O Revestimento

Um amen-doim de ar carrancudo e desmotivado aproximou-se das fileiras fazendo cessar abruptamente o barulho das conversas. O silêncio que se instalou era pesado e sufocante gerando uma sensação de desconforto nos corpos comprimidos dos amendoins. Segurando um bloco de notas, numa das suas metades, e um altifalante (que produzia um enervante zunido de cada vez que era apontado ao chão) na outra, o amen-doim passou em vista as várias folhas do bloco de notas onde estavam contidos os nomes de todos os amendoins que seriam chamados à fase de revestimento. Quando terminou, levantou os olhos do bloco e percorreu com olhar as longas fileiras de amendoins, naqueles que pareceram os 5 minutos mais longos da história. Aclarando a garganta disse:

Boa tarde a todos. O meu nome é Matias e sou o vosso orientador. Gostaria de começar por dar-vos as boas-vindas à nossa família. Vocês chegaram onde poucos amendoins ousaram chegar; e a vossa pertença a este grupo representa a frustração de todos aqueles que nunca conseguiram, nem conseguirão, qualificar-se. Espero que mantenham isso em mente durante todas as fases da transformação pois, é uma honra e um orgulho fazerem parte de uma equipa de profissionais empenhada, há anos, em prestar um serviço de excelência e qualidade na satisfação do homem.

Em reacção ao discurso de Matias, três amendoins cederam à pressão rachando-se em duas metades; todos os outros à sua volta deram três pulinhos e afastaram-se, numa atitude de desprezo e indiferença. Após uma breve pausa, para certificar-se de que os candidatos desqualificados eram removidos, Matias continuou:

Ao meu chamamento deverão dirigir-se à passadeira rolante que podem ver à vossa frente. No fim da mesma, serão atirados em queda livre para dentro da tina e mergulhados no líquido aí contido.

A tina, um grande recipiente em forma de funil, continha no seu interior um líquido sedoso e aveludado de coloração castanha (também conhecido por chocolate) cuidadosamente confeccionado com os produtos mais naturais e frescos existentes na natureza. Uma vez ingerido transmitiria ao cérebro humano a ideia de três bofetadas em catadupa, seguidas da visão de um LED roxo e rosa ostentando, intermitentemente, a mensagem DELICIOSAMENTE ORGÁSMICO.

Devem, em todas as alturas, permanecer calmos e relaxados. Essa atitude vai assegurar uma melhor absorção e colagem do chocolate ao vosso corpo de forma a atingirem o volume exigido e garantir passagem à fase seguinte. Um bom processo de revestimento deverá deixar-vos, aproximadamente, duas gramas mais pesados e com 4mm de diâmetro (em vez dos habituais 2 mm). Aconselho-vos a manterem a calma em todas as alturas e a desfrutarem da experiência até ao fim. Deixem-se levar sem pensar no como e no porquê. Absorvam a experiência sem pensar nela, sem tentar entendê-la...caso contrário, vão ficar rígidos e perder a agilidade necessária para atravessarem o líquido denso sem se racharem. Não é necessário recordar-vos o que acontece àqueles que não seguem os estes conselhos e se separam em duas metades. No fim desta fase, outros colegas estarão à vossa espera para aferir quais os que se qualificam para a fase de coloração. Desejo a todos, a melhor das sortes.

Matias iniciou a chamada:

Manuel, Mário, Martim, Miguel, Manfredo, Marcelo, Márcio,, Marcos, Mateus, Maurício, Mauro, Moisés, Marcelino, Milton, Morfeus, Murilo, Marílio, Manolo, Mizael, Margarido...

Ao ouvirem aos seus nomes, todos os amendoins identificados pularam apressadamente para cima da passadeira tentando relembrar e cumprir ipsis verbis as orientações dadas por Matias. Infelizmente, para Moisés, a atitude relaxada e calma durou apenas o tempo da viagem na passadeira rolante; o seu cérebro traiu-o com imagens de si depois de transformado e a sua ligação interior, outrora consistente, cedeu fazendo com que se dividisse em duas metades.

A Coloração

Tal como lhes fora prometido, um grupo de amen-doins com ar atarefado, aguardava a saída dos candidatos da tina. Munidos com fitas métricas, medidores de densidade e capacetes com lupa microscópica e lanternas incorporadas, acercaram-se dos candidatos revestidos e procederam aos devidos testes com perícia irrepreensível. O cenário era agora decorado por uma gigante rede construída em fibra de carbono por baixo da qual se encontravam 3 turbinas hiper-ventiladoras (ou, o mesmo é dizer, ventoinhas super-potentes) cuja função não era outra senão a de expeditar o processo de secagem e tornar o revestimento mais consistente.

Moisés, e todos amendoins que, como ele, não aguentaram a pressão, foram convidados a abandonar a rede de secagem e encaminhado para o departamento de Afectação de Recursos Falhados, a fim de ocuparem os lugares dos Matias deste mundo. Todos os outros, depois de terem sido classificados de "revestidos com louvor" foram novamente encaminhados a uma nova passadeira rolante no fim da qual os esperava a Câmara de Coloração.

As Câmaras de Coloração, situadas no fim das passadeiras rolantes, eram compartimentos de forma cilíndrica revestidos com mini-jactos (semelhantes a crias de chuveiro) dos quais sairia - com isócrona sintonia - uma fórmula composta de corantes e conservantes, estrategicamente desenvolvida para proporcionar nada menos que uma capa estaladiça e crocante, cujo aspecto final despertariam a lúxuria no ser humano mais indiferente e amorfo.

Cada "revestido com louvor" receberia exactamente 5 gramas do preparado e deveria ficar aleatoriamente tingido de uma das muitas cores existentes no arco-íris. Mais uma vez o discurso de Matias calcurreou as mentes de todos os que se preparavam para a coloração...

Para os que tiverem a felicidade de chegar à fase de coloração, lembrem-se de que, deverão manter, sempre, os olhos e a boca fechados e os vossos corpos devem ao longo de todo o percurso, permanecer imóveis. O mínimo movimento pode comprometer todo o processo de coloração, o que vos desqualificará automaticamente. A escolha da cor final de cada um é prerrogativa do nosso sistema pelo que não quero ver espertinhos a tentarem mudar de passadeira na esperança de se tornarem amarelos ou vermelhos. O facto das mascotes do grupo serem dessa cor é casual e não lhes atribui preferência no gosto humano. O John Lehnon dos Beatles - uma banda musical famosa dos anos 60 - só comia os castanhos! Os nossos serviços primam porque todas as cores constituem um universo de facto e os radicalismos colorais são altamente desaconselhados e podem contribuir para a vossa exclusão do processo.

Miguel, que já se encontrava na passadeira, relembrava as recomendações de Matias. ...fechar os olhos, abrir a boca e manter-me imóvel, fechar os olhos... ou seria abrir os olhos e fechar a boca? Manter-me imóvel era de certeza... vou abrir os olhos para ver se estou imóvel....Os jactos dispararam.

A Marca

Amen-doins de carimbo numa metade e tinteiro branco na outra, encontravam-se alinhados no fim das câmaras de coloração prontos para colocar a Marca nos seus pares que tinham terminado com sucesso a transformação. A Marca era simplesmente um m. Um só m não fazia a diferença mas todos juntos eram os vários m's. Por isso ficaram conhecidos como m & m's e destacaram-se para sempre!

segunda-feira, maio 02, 2011

Dona Gertrudes

Dona Gertrudes gerava amiúdes zangas e discussões, daquelas de fazer nascer relâmpagos e trovões. Trabalhava de facto e de fato mas achava-se no direito de opinar sobre a fraca capacidade de trabalhar dos colegas que ás vezes se deixavam ficar de olhar perdido do lado de lá das janelas. Vestia preto ou cinzento, não sossegava nem por momentos, falava alto e barafustava e a toda a gente irritava.

Trazia várias pulseiras que tilintavam nos seus gestos pouco modestos, a voz era confiante e segura, escondia na sua eficiência alguma parte de amargura.

Foi das maiores festas da empresa, aquela da sua reforma, com todos a festejarem o facto de se ir embora.

sexta-feira, abril 15, 2011

pura tagarelice

by tap.

Sabes... o outro dia vi um pardal gordo. Suponho que ele não sabe que estamos em crise. Os pássaros sem dono são selvagens, podem-se dar ao luxo de serem gordos e terem penas cheias de brilho. Os cães de rua são vadios, não podem ser outra coisa senão magrinhos e desgrenhadamente sujos. Aposto que nunca tinhas pensado nisto, pois não? Eu também não, mas o outro dia vi um pardal gordo e agora lembrei-me disso. Pelo menos acho que vi... mas não sei bem. Já reparaste como nos últimos tempos tudo se confunde? Entre realidade e ilusão, entre experiência directa ou indirecta, entre os videos do youtube e montagens de photoshop de coisas que não existem em mais nenhum sítio senão nesta janela, mesmo quando as coisas que deviam estar do lado de lá da janela, às vezes saltam para cá. E têm saltado muito. E cada vez há mais pessoas que não são bem pessoas às vezes, que andam máscaras e fatos e são personagens surrealistas a fazerem parte do nosso quotidiano... sabes... sabes do que falo? Deixa, não é importante, deixa-me só falar a saber que me ouves. Mas isto é mesmo assim, tem-se visto, as pessoas estão a tentar recriar no mundo real coisas do mundo virtual. Estamos a diminuir fronteiras das impossibilidades, um fenómeno dos nossos tempos. E mesmo assim, sabes outra coisa...? È que eu gostava de te oferecer um passaporte para outra realidade, uma inventada por nós, um sítio onde os cães pudessem estar gordos e terem as penas cheias de brilho e tu sorrisses sempre a ver as coisas cheias de... beleza? Não, não tem que ser beleza. Há coisas feias que são caricatas ou queridas ou... ou até bonitas... por causa de serem feias. È um tosco que tem uma essência genuína. Tu gostas disso, de coisas toscas mas genuínas.

Não sei onde se tiram esses passaportes. Mas se calhar a ideia é estúpida. Afinal de contas, aqui há pardais gordos que não sabem que estamos em crise, se calhar há cães vadios que se acham selvagens também. Gatos há, de certezinha absoluta. Já conheci uns quantos assim. A sério, conheci mesmo, não te rias.

Não sei mesmo onde se tiram esses passaportes. Talvez consiga descobrir. Deixa-me vestir um sorriso, calçar uma vontade, abootoar a atenção e sair para a rua, dizer bom dia ao sol, e ir à procura. Queres vir? Se calhar ainda encontramos aqui coisas diferentes e depois não precisamos do passaporte para nada. Anda, vem.




segunda-feira, abril 11, 2011

roupa velha ou jardineira, ou outra coisa do género.

by tap.

Transformava a chuva em estórias que lhe nasciam das poças acumuladas na terra e entravam pelas frinchas da janela, acompanhadas pelo cheiro de raizes agradecidas. Era quase um passatempo silencioso, os enredos cresciam-lhe viçosos na cabeça, adornados por pétalas de várias cores e tamanhos. Depois, exorcizava-as a custo do corpo, para que se plantassem numa folha de papel. O processo estava pois condenado à partida, como pode o espírito de uma matéria querer prender-se ao cadáver de si mesmo?


Pelo meio restava-lhe misturar a água do mar com pedaços da sua alma, cheia de tatuagens, e deixar o preparado escorrer-lhe pelas bochechas. Dizia que havia de dar sentido à existência dos lenços brancos, já que não entendia as razões de criação das peúgas da mesma cor.

Era isso que fazia com frequência e desesperava as pessoas - juntava tudo na mesma panela, misturava, remisturava, adicionava mais e mexia. E diziam-lhe que não, que cebolas e limão não se regam com chocolate, que o alho não serve para temperar fritos de peixe com maracujá e canela, que a melancia não combina com carne de porco e mel. E quando parava para olhar o quem lhe dizia estas coisas, só via bocas a abrirem e a fecharem, produtoras de sons que criavam imagens esfumadas à frente dos seus olhos mas das quais não conseguia retirar sentidos.

Ás vezes enchiam-lhe o espírito urgências e ansiedades descontroladas, pressas imediatas presas no corpo, a rebentar com o corpo. Nessas vezes não sabia que fazer consigo, segurava-se simplesmente atrás de uma janela, a tentar respirar, palmas das mãos abertas de encontro ao vidro, a tentar respirar. A tentar lembrar-se de como se respirava.

Se calhar as outras bocas a mexerem tinham razão e há coisas que não servem para serem misturadas, para se juntarem, para se contaminarem mutuamente acrescentando-se novos cheiros e cores. Se calhar todas as coisas tem pelo menos um limite, inultrapassável, uma barreira que separa o que pode ser contagiado daquilo que haverá sempre de permanecer intocado. Mas se sim, então para que há ideias como a da inter-subjectividade? Ou para que há a primavera e o outono, estações de transição?

E depois, invariavelmente, mais tarde ou mais cedo, começava a chover e a chuva podia ser transformada novamente em estórias, enquanto a noite de fazer arder a neve não chegasse.



quarta-feira, abril 06, 2011

Colchão de Perdição - Parte III

Ligeiramente embriagada Teresa percorreu o longo corredor de casa dos Sousas. Tentou servir-se do olfacto para descobrir qual a porta que correspondia à casa-de-banho, inspirando longas golfadas de ar e movimentando os braços num movimento circular e constante - exactamente igual ao bater de asas de um cisne - de forma a ajudar os odores da casa a penetrarem as suas narinas. Infelizmente o vinho levava já alguma vantagem e Teresa acabou por desistir e fazer uso do velho método abrir-todas-as-portas-até-encontrar-a-divisão-que-se-procura. Esse, apesar de mais longo, nunca falhava.

Decidiu-se a entrar na terceira porta do corredor. Toda a gente sabe que a casa-de-banho nunca fica logo ao pé da sala de jantar. No momento em que abriu a porta tudo o que viu foi um grande NADA. Apenas uma massa escura e compacta que ocupava toda a divisão. De repente, sentiu que as luzes do corredor desapareciam e que o mobiliário, antes meticulosamente arrumado, começava a mover-se em direcção ao grande vazio. Consciente do que tinha diante de si, fechou a porta num ímpeto. Será possível?!? Uma sala com um buraco negro?!? Mas isso seria demasiado perfeito!! Os Sousas são mesmo um espectáculo! Ou isso ou alguém já memeu buito, LOL! Das duas maneiras, adoro-os e é exactamente isso o que tenciono dizer-lhes da próxima vez que os vir!

Teresa recompôs-se, ajeitando a saia e o cabelo, e seguiu caminho em busca da casa-de-banho perdida. O que estaria por detrás da porta n.º 2? Ao abri-la percebeu que tinha entrado no quarto dos seus anfitriões. Por impulso, mais que por outra coisa qualquer, voltou a fechar a porta e preparava-se para continuar a sua demanda, não tivessem os seus olhos capturado a imagem da cama do casal situada exactamente no centro da divisão. Fora traída pelos seus próprios olhos!

Movida pela curiosidade, Teresa voltou a abrir a porta estacando diante da maravilhosa visão. A cama, um futon em madeira de mogno, não foi aquilo que chamou à atenção de Teresa, mas sim o colchão que repousava tranquilamente no seu centro. A olho nu percebeu estar perante um exemplar original e único de um Ortoclass de Espuma D45 Pillow Top, com espuma poliuretano 100% D45 e tecido com tratamento anti-ácaro, anti-mofo e anti-alérgico. Teria que analisar melhor, mas se tivesse que apostar, diria que o belo exemplar incluía ainda respiros nas faixas laterais para proporcionar circulação de ar no interior do colchão. Teresa nem queria acreditar na relíquia que tinha à sua frente. Santa Madre de todas as Madres! Bendita a hora em que decidi inscrever-me e ao Simão nas aulas de pintura para casais!

Se Teresa tivesse ficado por ali, limitando-se a apreciar mentalmente a sua descoberta, a sua vida e a de Simão teriam seguido com normalidade. Mas não foi isso que aconteceu e o casal viveria para o comprovar.

Teresa olhou em redor, e percebendo que continuava sozinha, deslizou, hesitante, para dentro do quarto fechando a porta atrás de si. O que aconteceu a seguir permanece até hoje uma incógnita para Teresa. A pessoa dentro daquela sala não era mais Teresa, mas outra.

Entretanto na sala de jantar, Simão perguntava-se se estaria tudo bem com Teresa. Tinham passado 5 minutos e ela não tinha regressado. Preocupado, decidiu ir procurá-la, deixando os convidados a tomar digestivos e a preparar a noite de jogos que se seguiria. Já no corredor Simão viu a luz que vinha da porta do quarto dos Sousas e dirigiu-se até lá. A imagem que surgiu diante dos seus olhos, fez com que as suas pupilas se dilatassem e a sua pulsação aumentasse para o dobro. Estava a ter uma descarga de adrenalina.

Teresa jazia deitada na cama, completamente imóvel. Dormia profundamente. As almofadas outrora adornos de cama, espalhavam-se caoticamente pelo quarto e o edredon tinha sido puxado e cobria o corpo da sua mulher. Simão chamou por Teresa acordando-a ao seu transe. Teresa, o que estás a fazer?!? Sai imediatamente daí! Mas Teresa, que entretanto tinha despertado, não quis ouvir Simão, limitando-se a abanar a cabeça e a abraçar o colchão. Não Simão, não percebes? É um Ortoclass de Espuma D45 Pillow Top. Um Ortoclass de Espuma D45 Pillow Top!! O rei dos colchões...e é meu. É todo meu!!!

Desesperado Simão dirigiu-se à cama para de lá tirar Teresa, mas a precipitação fez com que tropeçasse numa das almofadas espalhadas pelo quarto e caísse amparado, mesmo em cima do Ortoclass de Espuma D45 Pillow Top.

O contacto com a superfície sedosa e macia do colchão induziu Simão num estado de transe. Primeiro sentiu-se flutuar em nuvens de algodão doce, ao lado de felizes hipópotamos magenta que comiam chupa-chupas deitados em chaise-longs. Teresa estava com eles e todos eram um só ser, feliz, completo e perfeito.

Quando vieram a si, Simão e Teresa, não sabiam quanto tempo tinha passado e como tinham ido ali parar. O ruído dos convidados vindo da sala trouxera-os de volta à realidade e perceberam pelo som das gargalhadas e do ambiente de festa que ninguém tinha dado pela sua falta. Num estilhaço de segundo saltaram da cama e falaram aquele idioma só dominado pelos casais mais cúmplces, a língua dos olhos. Entreolharam-se longamente, naquilo que mais parecia o jogo de ver quem-desvia-primeiro-o-olhar, e decidiram que tudo tinha que ser reposto de volta à normalidade antes que alguém descobrisse o que tinham feito.

A noite chegara ao fim e o pequeno incidente tinha passado despercebido aos anfitriões e aos convidados que continuavam entretidos a jogar charadas no momento em que Teresa e Simão se juntaram a eles na sala. O regresso a casa foi feito em silêncio. Envergonhados com as suas acções nenhum dos dois se atrevia a falar sobre o assunto. No entanto, apenas uma ideia ocupava os pensamentos dos dois: tinham que voltar a deitar-se naquele colchão.

terça-feira, abril 05, 2011

Colchão de Perdição - Parte II

"Não quero saber se lá dormiram os teus bisavós, o Ghandi ou o General De Gaulle! Aquele colchão é uma MERDA! Só faltava ser em talha dourada para preencher todos os requisitos de uma peça digna de museu! Eu quero, NÃO! Eu exijo um colchão novo. Com molas, com capa dupla, com acolchoado anti-choque, com aquecimento central se os houver! Porque é que não podiam ter dado o colchão ao teu irmão Duarte?? Hã? Ele nunca dorme em casa, mesmo. Mas não! Tudo o que é lixo tinha que vir para nós. Vê lá se te deram a chaise-long que eu tanto elogiei?? Ou o louceiro que está a apodrecer na casa dos arrumos e que tanta falta nos faz?..."


Apesar da relutância em livrar-se da peça na qual todos os seus antepassados tinham dormido, Simão tinha que admitir que os argumentos da sua mulher não eram totalmente desprovidos de sentido. Com efeito, as mazelas fisícas provocadas pelo desconfortável colchão começavam a transparecer nos olhos remelentos e encovados de ambos. No trabalho, Simão revelava quebras de produtividade, chegava atrasado e esquecia-se constatemente dos seus compromissos. Além disso havia ainda aquele incidente em casa dos Sousas, sobre o qual nenhum dos dois ousava falar...


Os Sousas eram um casal que Simão e Teresa tinham conhecido nas aulas de pintura para casais, e com o qual tinham tido a maior das empatias. Não era só o facto de os Sousas terem os mesmos ideais de vida de Simão e Teresa (o que era bem ilustrado pelo facto de serem os únicos dois casais a frequentarem o curso de pintura para casais) mas era muito mais que isso: era generosidade que demonstravam na hora de partilhar as cores. O magenta era a cor mais disputada entre Simão e Pedro ("Para fazer os enchimentos dos hipópotamos!" diziam em uníssono.) mas Pedro, nunca se parecia importar de pintar o seu hipópotamo de rosa cristal - deixando o magenta para Simão - sempre que só existia uma bisnaga de magenta no cesto das cores!!


A relação entre os casais evoluía a um ritmo saudável até que os Sousas decidiram oferecer um jantar em sua casa para os seus amigos mais chegados. Tudo corria lindamente: o mais soberbo dos vinhos regou o serão de uma chuva púrpura e inebriante. E a mais suculenta das carnes abriu caminho na sala de jantar e desfilou diante dos olhos ávidos dos convidados, tentando-os. Tentando-os como uma bailarina de cabaret tenta os boémios e cadeleiros ao levantar o saiote diante das suas fronhas embasbacadas. E a companhia? Oohh a companhia...de fazer inveja aos von Oysters und Caviar, os vizinhos socialites que viviam no apartamento em frente de Simão e Teresa.

Depois de todo aquele vinho Teresa desculpou-se e levantou-se para ir à casa-de-banho. Percebeu momentos mais tarde que nunca alcançaria o seu destino...

segunda-feira, abril 04, 2011

A lenda da Berlenga ou o 1o moinho do mundo

by taparuere

Reza a lenda que na ilha da Berlenga mais pequena, também chamada de Berlenguita, nasceu uma miúda de olhos sorridentes que gostava de dançar sobre mar nas noites de lua cheia e queria transformar o mundo nos dias de sol.

Não vivia sozinha, nesse tempo lendário de onde não ficaram resquícios escritos. Habitavam na Berlenguita uma pequena comunidade de pessoas que conseguiam ver e ouvir o vento e falar a língua dos animais marinhos.

A miúda, que é a razão da nossa lenda, tinha vontade de fazer coisas, mas não sabia quais. E às vezes tinha vontade, mas quando pensava em começar a fazê-las era sempre poder fazer tanta coisa ao mesmo tempo que acabava por nunca fazer nada.

Assim se passavam os dias e os meses, com ela a pensar naquilo que poderia melhorar mas sem acabar por terminar nada, quando deu à costa da Berlenguita um cavalo marinho bem-falante. Falava e barafustava, com a terra dos homens - dos outros homens, aquela terra daqueles que se esquecem que vivem em ilhas e lhes chamam continentes - como se o seu pedaço de terra não estivesse também no meio do mar. Aqueles homens que se esquecem de organizar os 5 sentidos que têm e que aprendem a ver com ouvidos, a olhar com as mãos e a sentir com a cabeça. Que vivem naquela terra que parece terra de malucos, com eles a tentarem falar pelo gosto e a esquecerem-se do cheiro do tacto. Que precisam de algo, que os faça pôr os sentidos no sítio certo, que os faça usar aquilo que guardam sem uso dentro deles. E foi-se embora, o cavalo falante barafustador, e ainda se ouvia quando se afastava a rezingar pelas ondas fora.

A miúda ficou-se a pensar naquilo, nas terras que lhe serviam de horizonte e nos homens que viam com os ouvidos e ouviam com as mãos para sentir com a cabeça. Nada daquilo se passava na Berlenguita e ela sabia qual a razão. A razão era a pedra de Berlenguita, acaso feito ilha, ilha feita pedra-raiz-dos-seres, uma das essências da natureza a aparecer de soslaio na tona do mar. Esta era a pedra da criação que tinha dado origem ao mundo e aos humanos, a ferramenta que a dançarina miúda sabia que poderia repor os sentidos nos sítios. Mas, como conseguir espalhar na ilha gigante, chamada de continente, a pedra mágica e tão consistente?

Pôs-se a pensar durante os entardeceres. Precisava de uma forma qualquer de desgaste, uma máquina que fosse roendo ou desgastando, para da pedra dura tirar pedaços pequenos e soltos, partículas que soltas no vento levassem aos homens que o não escutavam as respostas que não procuravam. E para essa forma de desgaste, precisava de tempo contínuo, algo que nunca parasse e andasse, sempre, andasse, sem nunca sair do sítio. Pegou num pau de bico e fez desenhos na areia, uma forma, outra forma, um meio, outro meio, e por debaixo do seu cabelo as ideias multiplicavam-se. Encontrava várias respostas no vento, quando se lhe bloqueava o raciocínio e fixava os seus olhos brilhantes no horizonte de terra. Via passar o vento, multi-colorido-transparente, a encorajá-la e a prometer-lhe ajuda.

Da construção que tomou em mãos nasceu o primeiro moinho da história das lendas, com grandes palas a rodar dia e noite, a fazer girar pedra sobre a pedra e a transformar o duro em farinha. Quando o montinho de pedra-raiz-dos-seres transformada em farinha já cabia nas duas mãos em concha da corajosa e perspicaz miúda, ela soube que tinha chegado a hora de a soltar em frente às pálas do moinho. Nova função para a mesma construção, e chamar pelo vento para que levasse o pó mágico aos homens do continente que na sua grandeza se tinha esquecido do seu rebordo banhado pelo mar, como todas as ilhas.

Diz-se que os homens ganharam nessa época novo entendimento. Mas diz-se que às vezes o perdem, esquecendo-se de ver com os olhos e ouvir com os ouvidos. Seja como for, a Berlenguita vai ficando cada vez mais pequena e os ambientalistas culpam o aquecimento global, os geólogos os fenómenos naturais de desgaste do mar, os biólogos a introdução de novas espécies em ambientes não-hostis e sei lá que mais.

Eu, pessoalmente, não acredito em lendas e quando olho para as Berlengas nunca vi lá nenhum moinho. Mas já conheci gente de olhos brilhantes a quererem fazer coisas sem saber o quê... e tenho a sensação que seja o que for, será da mesma matéria que as lendas feitas histórias que provocam esse teu sorrir.

Colchão de Perdição - Parte I

O velho colchão de penas fora-lhes oferecido como presente de casamento, pelos avós maternos de Simão. Na altura, deslumbrados com a perspectiva de uma vida a dois, Simão e Teresa descuraram o facto de não se usarem, já, colchões sem molas. Mesmo que tivessem pensado nisso teriam chegado à conclusão de que não poderiam fazer uma tal desfeita aos avós de Simão que tão orgulhosos estavam de verem o seu neto dormir no exacto colchão que tinha pertencido aos seus falecidos pais.

Cedo o colchão começou a revelar as suas qualidades. Não era só a ondulação provocada pela distribuição heterogénea das plumas, que dava ao casal a estranha sensação de dormir num areal. Não era também, a concavidade natural que se formava no meio do colchão e que para ali empurrava e mantinha apriosionados, os corpos de Simão e Teresa. O pior de tudo era o circunstancialismo que impedia que um se mexesse sem perturbar o outro. Noite após noite Simão e Teresa dormiam colados, cara com cara, pele com pele, corpo com corpo.


Nos primeiros meses de casamento, apesar das noites mal dormidas, o casal compensava e substituia o sono traquilo por longas noites de paixão. Se um se mexia acordando o outro, a iminência do contacto fisíco, acabava por levá-los a fazer amor. Até chamavam ao colchão, em tom jocoso: "o indutor de sexo". As idas à casa-de banho, eram também bastante toleradas no princípio com um: "Claro amor! E eu lá ia deixar que a minha florzinha silvestre ficasse aflita uma noite inteira? Queres que vá contigo e te faça companhia, para não te sentires sozinha?" ou com um: "Querido? Estás a dormir? Se precisares de ir à casa-de-banho dizes-me não dizes?"...

segunda-feira, março 21, 2011

Exercícios musculares habituais, parte XVII:

by taparuere.

Exercícios musculares habituais, parte XVII:

XVII partiu para longe. Preparou-se para a viagem carregando malas e sacos de bens essenciais que o iriam ajudar em todos os momentos especiais. Limpou os binóculos e preparou o mapa, calçou as botas novas especialmente compradas para todas as caminhadas, encheu o peito de ar e preparou-se para viajar.

XVII olhou em volta, cheio de orgulho, nas construções que a sua vida fizera. Um relógio novo no pulso, dois computadores na mala, uma máquina fotográfica topo de gama e uma gama completa de tipos de livros e cadernos para fintar a memória.

Quando partiu, nem se despediu e foi XVI e XVIII os que o viram pela janela a arrastar as malas e sacos até à primeira esquina... e depois voltar para trás.
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Quase que toca a densidade do destino.
Toca e foge.
Foge para a toca.
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Tentou atentar na tentação. Ou não?
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Acho que ia atrás...

- Da rapariga do brinco de pérola?
- Não, de uma rapariga com brinco de lágrima.
- Mas feito de pérola? É a mesma!
- Não... ou então sim, mas onde vês pérola vejo lágrima.
- Ora, mas é a mesma coisa.
- Não é se onde vires força eu vir coragem de tentar disfarçar, não é se onde vires teimosia eu vir a necessidade de se agarrar às suas certezas para que o mundo não se lhe desabe, não é se onde vires sorrisos eu vir céu azul em qualquer dia chuvoso, não é se onde vires braços eu vir casa.
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E mesmo assim descobriu...

Por debaixo de um sol brilhante podem nascer as maiores tempestades,
Por debaixo de um mar tranquilo podem rebentar as maiores ondas,
Por debaixo de um ar pacífico podem travar-se as mais sangrentas batalhas,
Pelo meio de uma brisa pode chegar o cheiro da viagem.
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Sei de uma toca
em forma de lágrima
à beira mar,
onde as maiores
tempestades
rebentam com cheiro
a viagem em casa.
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terça-feira, março 15, 2011

- O que queres ser, quando fores grande?
- Seguradora de pássaros bébés.
- Desculpa?
- Sim, quero ser seguradora de pássaros bébés.
- Porquê?
- Estou desconfiada que é o mais próximo que tenho para tentar aprender a segurar momentos, sopros de brisas, cheiros e cumplicidades.

sexta-feira, março 04, 2011

Rio(te) sem beira

É sexta-feira. E nos dedos escorrega-me a sensação de agarrar qualquer coisa que não toco…ainda. Soubesses tu o caminho até Marte, até Vénus, até Plutão. Quisesses tu saber a frequência dos planetas e dos pássaros que voam na rota da abstracção. Não há nuvens. Mas há muito branco por onde viajar. Viagens de ida sem volta porque as voltas, as voltas meu amor, dão-se todas nos caminhos feitos de mãos encontradas. Encontradas, não dadas, como nos contaram antes. Porque há muito tempo que me deste as tuas mãos e eu ainda não as encontro. Por exemplo. Hoje quando acordei tinha a certeza que a claridade vinda de dentro eras tu. Lembro-me de me assegurar dos teus dedos depositados debaixo da minha almofada, como presentes secretamente esperados nas manhãs que acordam sem o primeiro dente.

Já não somos crianças, eu sei. Mas há ainda dentes que caiem em forma de embrião e manhãs de presentes secretos com sabor a desejo. Eu ia jurar que me recolheste as pálpebras. Mas foi, talvez, um dente caído como folha de Outono onde se escorrega em alegria vã. Amanheço sem segredos debaixo da almofada. Tenho o desejo em linha de espera que não posso atender. Seria mais fácil ver-te numa distância pouco precisa. Pouco precisa, como quem não faz tanta falta assim. Como o primeiro dente.

Sabes o que tinha debaixo da almofada nessa manhã de quatro anos? Ou de cinco, ou seis. Não me lembro da idade. Só me lembro do dente a menos e do caderno a mais, da Mafalda. Ainda o tenho. Escrevi-me até à exaustão ainda sem me saber escrever ou dizer. Depois desse dente caíram mais. Mas maior foi o ritmo da chegada dos cadernos. Hoje já não têm a Mafalda na capa. Essa ficou-me na ponta dos dedos e na tinta escorrida para adivinhar o mundo. Para lhe descascar as capas. Pretas hoje. Para te adivinhar aqui. Escrevo-me ainda para te agarrar agora. Mas escorregas-me como água em contra-corrente.

quinta-feira, março 03, 2011

beira Rio-me

Dizes, hoje tudo é outra coisa qualquer. E por detrás dos olhos escorrem-te peixes, soltos num rio de palavras que fez do céu um chão de tons de violeta.
Dizes, hoje é tudo qualquer outra coisa. E por detrás dos cabelos soltam-se pássaros que esvoaçam dentro dos lagos que te escorrem pelas mãos.
Digo que acredito nos novelos vermelhos que vejo desenliarem-se na tua boca, quando o telhado da casa da frente bate telhas para descolar-se dos muros. Escondemo-nos por detrás das janelas cegas, não sei com que cores se pinta o mundo lá fora, só tenho um lápis cor de laranja que a única coisa que diz é traço.
Foi ontem que vimos as nuvens dançar o tango? Rio-me e digo-te que não, que sabes bem que as nuvens não dançam o tango, é a valsa meu amor, com cheiro a hortelã pimenta e tempero de gengibre.
Se me deres as mãos, as duas, inventamos palavras daquelas que parecem gomas. Daquelas que não se conseguem parar de comer, umas atrás das outras depois daquelas antes de estas. E tiras um fio de novelo vermelho que ficou preso entre os dentes, olhas com admiração e espanto mas sabes que qualquer coisa é tudo, hoje.
Foi ontem que as paredes se encheram de relva do lado de dentro? Digo-te sim, logo depois daquele sino enorme ter feito as paredes da igreja velha ruir. Relva e malmequeres, respondes que sim, malmequeres, mal-me-queres.

quarta-feira, fevereiro 23, 2011

acto VIIX

Frases soltas num inglês vestido de sotaques de díspares nacionalidades. "Que está um dia lindo para se ficar a ver do lado de cá da janela", inglês despido de pretensões de gramáticas correctas. E está, e há dias assim, a ficar a ver o sol com a cara encostada ao vidro frio, tudo o que se poderia agarrar com as pontas dos dedos preso numa superfície nua de sentimentos.

Há qualquer coisa de mais verdadeiro na aceitação pura e dura da incompreensão plena de pessoas. Porque não falamos a mesma língua, porque não temos sequer os mesmos significados para as palavras iguais que usamos, porque as destrezas em que pensamos se perdem na intradutabilidade das experiências diferentes que passámos, em contextos tão longíquos uns dos outros, em contextos inexistentes nas cabeças uns dos outros. Frases soltas num inglês vestido de sotaques, despido de pretensões, sem procurar chegar a lado nenhum maior do que este ou aquele sorriso cortês, a aceitação da incompreensão numa cerveja partilhada, numas amendoas que foram ao forno, numa canja portuguesa com gengibre.

E a mão encostada ao vidro sem tocar no mundo que vejo.
E as pontes tão frágeis quanto a fina placa de gelo que cobre um rio lá ao fundo, entre os patos. Não terão frio, os patos?
Não terias tu frio, do lado de lá do vidro?

Talvez deixar-se ficar assim mais um pouco, mão no vidro, testa encostada na janela e um suspiro a embaciar a vista que numa língua estrangeira tráz impresso apenas um "se....".

quinta-feira, fevereiro 10, 2011

reflexo

O mundo inteiro era suficiente, quando te enfiavas em casa de olhos vendados a tentar ver com os outros sentidos o que te tornava na pessoa que não eras. O mundo inteiro era suficiente e cabia todo dentro da casa, cabia todo dentro de ti, quando te enfiavas em casa, de olhos vendados a tentar encher o corpo com o mundo que não tinhas.

Passaram anos desde essa altura e agora falas das inevitabilidades planeadas por forças habitacionais da tua mente. Sem saberes de que é isso que falas, quando dizes "o ar tem cor de chumbo com peso de algodão doce". Estranhas, no entanto, quando estás num sítio com eco, gritas "não" e escutas na volta interiores de recipientes incipentes que transbordam líquidos de que desconheces o nome.

Creio que foi por isso que deixaste de escutar.

Poderias ter escolhido deixar de gritar "não" e tentar com outra coisa qualquer, mas se te dissesse que foi escolha tua, irias desenrolar um novelo de fios eléctricos enrodilhados, na tentativa de explicar os impulsos nada causais mas sempre causísticos que se tornaram as inevitabilidades amarrantes que te esculpem enquanto te desculpas na inacção.

São tretas, sabias?

Posso dizer-to assim,
posso dizer-te "Bang",
posso dizer-te o que quiser porque
continuas a enfiar-te em casa de olhos vendados para olhar um mundo inteiro que te cabe dentro e se escoa pela janela quando te distrais.

Só tu não o sabes, quando te escondes do lado de trás da desculpabilização fácil.

segunda-feira, fevereiro 07, 2011

Dona Ema

Dona Ema estava casada há já 20 anos, e bem casada diziam na vizinhança, quando o seu marido passava apressado, levando as crianças ora para a escola, ora da escola, ora para os seus infantis afazeres, ora de passeio nos seus desportivos prazeres. Dona Ema estava casada havia 20 anos, e havia mais de 25 que o seu marido cuidava dele, dela, da casa, dos filhos, das contas, das necessidades, das futilidades. Só não cuidava do cão, mas isso era porque Dona Ema sempre tinha tido um invulgar medo de cães e portanto a família não tinha nenhum.

Dona Ema também vivia atarefada, agradecendo no entanto e nos entretantos, a preciosa ajuda que o marido prestava. Não era bem porque tivesse muitas coisas para fazer, era mais porque o seu estado de existência era naturalmente a correr. Corria para aqui, corria para ali, não se podia esquecer disto ou daquilo, ai que já estava atrasada para o outro. Acabava por ser a sua principal actividade, andar pelo corredor, encontrar esta ou a outra pessoa, subir e descer escadas e agora falta um papel, espera que vou beber um café, e faltava depois o tempo para fazer mais alguma coisa. No trabalho não lhe levavam a mal, já lá estava há muito tempo, fazia parte da casa. "Lá vai Dona Ema falar com alguém, lá vem Dona Ema além, viste a Dona Ema, não vi, mas espera um pouco que ela não deve demorar a voltar aqui."

Dona Ema que passava veloz, tinha na cabeça vários planos e sonhos, objectivos por concretizar, vontades por planear. Não tinha tempo para elas, mas, ah, se pudesse, quando tivesse tempo Dona Ema iria fazer tudo de uma vez, tudo o que andava a adiar, tudo o que podia sempre esperar.

Foi por isso que Dona Ema passou a vida a ser uma possibilidade por concretizar.

sexta-feira, fevereiro 04, 2011

coisas que sei fazer.

Sei fazer crepes e panquecas.

Sei assobiar alto, com os dedos na boca.

Sei fazer festas a cães, bem feitas, daquelas que os põem a abanar uma pata.

Sei fazer piadinhas secas.

Sei fazer um jantar sem ter que cozinhar nadinha.

Sei estacionar o carro em sítios onde as pessoas que estão dentro do carro acham que ele não cabe.

Sei tocar uma música na viola (mas preciso que me avisem quando é para mudar de nota).

Sei atar os atacadores dos sapatos de 2 maneiras diferentes. Bom, uma não é mesmo atar-atar, mas também conta.

Sei fazer o pino, dentro e fora de água. Mas fora de água não o aguento muito tempo.

Sei falar inglês e espanhol. Mas falo melhor espanhol do que inglês.

Sei brincar com gatos e despertar-lhe a curiosidade. Menos com a Farrusca, essa não quer brincadeiras, quer é festas porque é o gato-cão.

Sei beber de dois copos ao mesmo tempo, seguros só com uma mão, a fazer cascata.

Sei jogar matraquilhos e marcar golos da baliza.

Sei fazer merda.

Sei escrever com a mão esquerda.

Sei andar de mota, bicicleta e a cavalo.
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