quarta-feira, maio 04, 2011

"Post"ulado íntimo ou intimidado

by tap.

*este post não respeita o novo acordo ortográfico e não tem pena disso.


Creio que houve alguém que decidiu fazer uma pausa na necessidade de dormir e passou a noite a pintar a manhã de cinzento. Creio também que fez um bom trabalho, confesso que não sabia que havia tantos tons diferentes do mesmo cinzento. Não me chateia porque não me chateia cor nenhuma, afinal de contas todas as cores têm o mesmo direito à existência. Lá porque há outras mais exibicionistas não significa que um subtil cinzento tenha menos valor ou importância. Que seria do mundo sem o cinzento? Certamente um lugar pior, mais que não fosse pela incrível barreira entre o preto e o branco, para sempre incompreendidos um pelo outro, um para o outro.

Não que isto seja totalmente verdade ou conclusivo de alguma coisa. Ultimamente não me tem sido fácil chegar a conclusões. Nem difícil, não tenho chegado a muitas simplesmente. Mas cheguei a esta, portanto tenho alcançado algumas. Se calhar pintaram-lhes o cinzento por cima. Ou se calhar tem a ver com as palavras que se me partiram antes de sairem pelos dedos. È porque não as tenho procurado muito, ultimamente não chego a conclusões porque não tenho pensado com palavras. Tenho pensado mais com imagens e sentimentos e fragmentos de momentos que se deslargaram das letras mas ganharam cheiros e temperatura. Não estou bem certa sobre os porquês. È difícil pensar nos porquês em imagens e sentimentos, não costumam ser cinzentos os porquês, ou se calhar costumam e eu é que não lhes sei a cor. Porque é difícil pensar nos porquês em imagens, se fosse fácil saber-lhes-ia a cor.

É por isso que me faz alguma falta voltar às palavras e deixá-las escorrer pelos dedos, mas a verdade é que parece que nestes últimos tempos as palavras desabaram por mim adentro e ficaram lá no fundo meio partidas.

Nos entretantos das outras formas de pensar talvez vá ver se as encontre, mas receio dar com elas partidas e rachadas e amontoadas indistintamente. Tenho cenas e coisas misturadas, descobertas e redescobertas, é mais uma lanterna na cabeça e a falta de uma picareta na mão para tentar perceber sem ter que esgravatinhar nos muros. Racional e lógicamente, se não os derrubar, eles não caem, mas sem ser racional e lógicamente talvez assim os derrube na mesma. Afinal de contas, quanta razão e lógica existe num muro? Muito pouca, creio. Se ele não souber que esta não é a forma comum de o derrubar, pode ser que se deixe cair na mesma. Sei que não vale a pena tentar impôr ao muro a minha razão e lógica. Seria quase como estar a falar com uma parede e isso toda a gente sabe que é muito pouco útil.

terça-feira, maio 03, 2011

O Processo

O Processo

Tinham sido criteriosamente seleccionados entre a multiplicidade dos seus pares recentemente saídos do forno de torragem; as características demonstradas durante o processo de torrefacção (tonalidade, tamanho, consistência, junção das duas metades) eram responsáveis pela sua escolha e integração naquele núcleo restrito e honroso. Antes deles, outros tantos tinham seguido o mesmo destino, prestando um contributo incomparável na satisfação e alegria da raça humana. Cada um deles representaria, depois de terminado o processo de transformação, uma explosão de puro prazer só comparável à ingestão de outro igual a si.

Hordas de amendoins encontravam-se aglomeradas em gigantescas plataformas de alumínio aguardando ansiosamente instruções. Profissionais de topo, munidos dos meios tecnológicos mais inovadores, asseguravam, a todo o tempo, que apenas os mais aptos e os de melhor qualidade passariam as várias fases do processo de transformação. Cada uma das fases, tinha sido meticulosamente estudada e desenvolvida, ao longo dos anos, com o único objectivo de criar, nada menos do que a mais pura das perfeições comprimida numa massa de forma oval cujo diâmetro não ultrapassava os 5 mm.

Um burburinho de fundo percorria as fileiras de amendoins, deixando a atmosfera carregada de nervosismos e ansiedades. Cada um dos candidatos sentia sobre si o peso da responsabilidade de pertencer àquela elite. Todos tentavam lidar com a consciência gritante de que, até estar terminada a sua transformação, nada lhes garantiria que chegariam ao final. Todas as fases eram críticas e muitos candidatos sucumbiam aos nervos, separando-se irremediavelmente em duas metades. Nessa triste eventualidade o amen-doim seria automaticamente excluído do processo e condenado a trabalhar como assistente nos processos de transformação dos amendoins bem sucedidos. Era uma provação pela qual nenhum desejava passar e cujas consequências nefastas se alastrariam às gerações futuras que nasceriam da mesma planta.

O Revestimento

Um amen-doim de ar carrancudo e desmotivado aproximou-se das fileiras fazendo cessar abruptamente o barulho das conversas. O silêncio que se instalou era pesado e sufocante gerando uma sensação de desconforto nos corpos comprimidos dos amendoins. Segurando um bloco de notas, numa das suas metades, e um altifalante (que produzia um enervante zunido de cada vez que era apontado ao chão) na outra, o amen-doim passou em vista as várias folhas do bloco de notas onde estavam contidos os nomes de todos os amendoins que seriam chamados à fase de revestimento. Quando terminou, levantou os olhos do bloco e percorreu com olhar as longas fileiras de amendoins, naqueles que pareceram os 5 minutos mais longos da história. Aclarando a garganta disse:

Boa tarde a todos. O meu nome é Matias e sou o vosso orientador. Gostaria de começar por dar-vos as boas-vindas à nossa família. Vocês chegaram onde poucos amendoins ousaram chegar; e a vossa pertença a este grupo representa a frustração de todos aqueles que nunca conseguiram, nem conseguirão, qualificar-se. Espero que mantenham isso em mente durante todas as fases da transformação pois, é uma honra e um orgulho fazerem parte de uma equipa de profissionais empenhada, há anos, em prestar um serviço de excelência e qualidade na satisfação do homem.

Em reacção ao discurso de Matias, três amendoins cederam à pressão rachando-se em duas metades; todos os outros à sua volta deram três pulinhos e afastaram-se, numa atitude de desprezo e indiferença. Após uma breve pausa, para certificar-se de que os candidatos desqualificados eram removidos, Matias continuou:

Ao meu chamamento deverão dirigir-se à passadeira rolante que podem ver à vossa frente. No fim da mesma, serão atirados em queda livre para dentro da tina e mergulhados no líquido aí contido.

A tina, um grande recipiente em forma de funil, continha no seu interior um líquido sedoso e aveludado de coloração castanha (também conhecido por chocolate) cuidadosamente confeccionado com os produtos mais naturais e frescos existentes na natureza. Uma vez ingerido transmitiria ao cérebro humano a ideia de três bofetadas em catadupa, seguidas da visão de um LED roxo e rosa ostentando, intermitentemente, a mensagem DELICIOSAMENTE ORGÁSMICO.

Devem, em todas as alturas, permanecer calmos e relaxados. Essa atitude vai assegurar uma melhor absorção e colagem do chocolate ao vosso corpo de forma a atingirem o volume exigido e garantir passagem à fase seguinte. Um bom processo de revestimento deverá deixar-vos, aproximadamente, duas gramas mais pesados e com 4mm de diâmetro (em vez dos habituais 2 mm). Aconselho-vos a manterem a calma em todas as alturas e a desfrutarem da experiência até ao fim. Deixem-se levar sem pensar no como e no porquê. Absorvam a experiência sem pensar nela, sem tentar entendê-la...caso contrário, vão ficar rígidos e perder a agilidade necessária para atravessarem o líquido denso sem se racharem. Não é necessário recordar-vos o que acontece àqueles que não seguem os estes conselhos e se separam em duas metades. No fim desta fase, outros colegas estarão à vossa espera para aferir quais os que se qualificam para a fase de coloração. Desejo a todos, a melhor das sortes.

Matias iniciou a chamada:

Manuel, Mário, Martim, Miguel, Manfredo, Marcelo, Márcio,, Marcos, Mateus, Maurício, Mauro, Moisés, Marcelino, Milton, Morfeus, Murilo, Marílio, Manolo, Mizael, Margarido...

Ao ouvirem aos seus nomes, todos os amendoins identificados pularam apressadamente para cima da passadeira tentando relembrar e cumprir ipsis verbis as orientações dadas por Matias. Infelizmente, para Moisés, a atitude relaxada e calma durou apenas o tempo da viagem na passadeira rolante; o seu cérebro traiu-o com imagens de si depois de transformado e a sua ligação interior, outrora consistente, cedeu fazendo com que se dividisse em duas metades.

A Coloração

Tal como lhes fora prometido, um grupo de amen-doins com ar atarefado, aguardava a saída dos candidatos da tina. Munidos com fitas métricas, medidores de densidade e capacetes com lupa microscópica e lanternas incorporadas, acercaram-se dos candidatos revestidos e procederam aos devidos testes com perícia irrepreensível. O cenário era agora decorado por uma gigante rede construída em fibra de carbono por baixo da qual se encontravam 3 turbinas hiper-ventiladoras (ou, o mesmo é dizer, ventoinhas super-potentes) cuja função não era outra senão a de expeditar o processo de secagem e tornar o revestimento mais consistente.

Moisés, e todos amendoins que, como ele, não aguentaram a pressão, foram convidados a abandonar a rede de secagem e encaminhado para o departamento de Afectação de Recursos Falhados, a fim de ocuparem os lugares dos Matias deste mundo. Todos os outros, depois de terem sido classificados de "revestidos com louvor" foram novamente encaminhados a uma nova passadeira rolante no fim da qual os esperava a Câmara de Coloração.

As Câmaras de Coloração, situadas no fim das passadeiras rolantes, eram compartimentos de forma cilíndrica revestidos com mini-jactos (semelhantes a crias de chuveiro) dos quais sairia - com isócrona sintonia - uma fórmula composta de corantes e conservantes, estrategicamente desenvolvida para proporcionar nada menos que uma capa estaladiça e crocante, cujo aspecto final despertariam a lúxuria no ser humano mais indiferente e amorfo.

Cada "revestido com louvor" receberia exactamente 5 gramas do preparado e deveria ficar aleatoriamente tingido de uma das muitas cores existentes no arco-íris. Mais uma vez o discurso de Matias calcurreou as mentes de todos os que se preparavam para a coloração...

Para os que tiverem a felicidade de chegar à fase de coloração, lembrem-se de que, deverão manter, sempre, os olhos e a boca fechados e os vossos corpos devem ao longo de todo o percurso, permanecer imóveis. O mínimo movimento pode comprometer todo o processo de coloração, o que vos desqualificará automaticamente. A escolha da cor final de cada um é prerrogativa do nosso sistema pelo que não quero ver espertinhos a tentarem mudar de passadeira na esperança de se tornarem amarelos ou vermelhos. O facto das mascotes do grupo serem dessa cor é casual e não lhes atribui preferência no gosto humano. O John Lehnon dos Beatles - uma banda musical famosa dos anos 60 - só comia os castanhos! Os nossos serviços primam porque todas as cores constituem um universo de facto e os radicalismos colorais são altamente desaconselhados e podem contribuir para a vossa exclusão do processo.

Miguel, que já se encontrava na passadeira, relembrava as recomendações de Matias. ...fechar os olhos, abrir a boca e manter-me imóvel, fechar os olhos... ou seria abrir os olhos e fechar a boca? Manter-me imóvel era de certeza... vou abrir os olhos para ver se estou imóvel....Os jactos dispararam.

A Marca

Amen-doins de carimbo numa metade e tinteiro branco na outra, encontravam-se alinhados no fim das câmaras de coloração prontos para colocar a Marca nos seus pares que tinham terminado com sucesso a transformação. A Marca era simplesmente um m. Um só m não fazia a diferença mas todos juntos eram os vários m's. Por isso ficaram conhecidos como m & m's e destacaram-se para sempre!

segunda-feira, maio 02, 2011

Dona Gertrudes

Dona Gertrudes gerava amiúdes zangas e discussões, daquelas de fazer nascer relâmpagos e trovões. Trabalhava de facto e de fato mas achava-se no direito de opinar sobre a fraca capacidade de trabalhar dos colegas que ás vezes se deixavam ficar de olhar perdido do lado de lá das janelas. Vestia preto ou cinzento, não sossegava nem por momentos, falava alto e barafustava e a toda a gente irritava.

Trazia várias pulseiras que tilintavam nos seus gestos pouco modestos, a voz era confiante e segura, escondia na sua eficiência alguma parte de amargura.

Foi das maiores festas da empresa, aquela da sua reforma, com todos a festejarem o facto de se ir embora.
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