quinta-feira, novembro 20, 2014

dizias que era impossível viver no país de deus,
que se podia sim atravessar o gramado de deus em bicicleta e eu fiquei com a ideia de risos misturados com grasnares de aves coloridas,
fiquei com a ideia de que o vento tinha um sabor adocicado,
fiquei com a ideia de que eras sombra feita de sal e que o cercado estava muito mais perto e que o gramado de deus devia ser muito mais extenso e que as bicicletas deviam ser mais lentas e nunca, nunca, te cheguei a dizer adeus.

dizias que havia um sítio onde estava sempre sol, que era só atravessar as nuvens - olha la, sempre sol - e que não seria nunca preciso mais nada alem de saber isto. passaram-se anos até te dizer que tens razão - tens razão - e os meus pais ainda dormem lá atrás, e aqui embaixo há um muçulmano que se prepara para as orações da manhã, daquele lado uma argentina chega a casa embrigada, meias rasgadas, o nascer de uma aurora, e algures ali há um chinês sozinho que aperta melhor a gravata ao espelho e respira fundo outra vez, que se prepara para causar boa impressão, de mãos nos bolsos não vá alguém notar que lhe tremem.

não sei se é o mundo que não chega,
se é o mundo que nos sobra,
nem tampouco sei das cores da tua camisa, das emoções dos teus olhos,
havia um sorriso - acho que havia um sorriso - dentro do lado do aceno. tu dizias adeus, em tom alegre e eu deixei-me só ficar surpreendida por um fim que não antevi e pela leveza do teu aceno. não sei que histórias contam as pedras do outros lugares, não sei que chão pisam as pessoas cujos medos e ansiedades não conheço, nunca te cheguei a dizer adeus mas aprendi a andar de bicicleta devagarinho e com as mãos nos bolsos.




segunda-feira, novembro 17, 2014

demasiado prática, Dona Teresa, demasiado prática...

Dona Teresa tinha a certeza que das estórias românticas que guardamos, sobram mais do que memórias espalmadas em páginas de livros velhos. Mas esse mais, do que é feito?

Dona Teresa sabia que não eram as saudades - essas têm prazo de validade, tempo limite, metem-se-nos primeiro dentro do corpo mas acabam por escorrer para dentro de uma arca qualquer, encontradas por acaso aquando a procura incessante de um telemóvel velho de substituição e – ai o que é isto, ai que giro – sorriso nostálgico e - volta a aventá-las lá para dentro.

Dona Teresa sabia que também não era a tristeza, essa desvanece-se entre um ou outro empurrão de um amigo, um vá tens que vir, vá anda lá, e mais cedo ou mais tarde, com maior ou menor sabor a álcool, já está.

 Dona Teresa tinha a certeza que das estórias, aquilo que realmente nos sobra, são as manias novas, vícios pequenos, tiques e esquisitices, velhos hábitos adotados numa nova existência, de um lado passam para o outro.

- Sabes – dizia Dona Teresa – eu tive uma vez um namorado que não saia de casa sem saber onde estava a estrela polar e… olha, e está ali – e apontava por cima do ombro sem sequer olhar.

- E.. Sabes… - dizia Dona Teresa – o a seguir dizia que as cuecas devem estar na mesma gaveta do que as meias, mas aquelas á frente destas e… bom, e não precisas de ir ver a minha gaveta. E havia aqueloutro, que cada vez que mastigava tinha que mastigar 15 vezes e é por isso que reclamas que como devagar quando estamos a conversar. E o pior – continuava dona Teresa – foi o seguinte, que mesmo depois de termos acabado me veio dizer que guardava as meias com as cuecas, e estas à frente daquelas e que mastigava 15 vezes antes de engolir e que essas coisas o faziam pensar em mim.


- É que sabes… - continuava Dona Teresa – as saudades e a tristeza, as lágrimas e recordações, as memórias e outras histórias, acabam por ir passando. Mas as maniazinhas e esquisitices, essas ficam contigo até já nem te lembrares de onde vieram. Menos romântico do que prático e até ver nunca encontrei ninguém que considerasse isso na escolha de um parceiro. Não é curioso?
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