sexta-feira, março 04, 2011

Rio(te) sem beira

É sexta-feira. E nos dedos escorrega-me a sensação de agarrar qualquer coisa que não toco…ainda. Soubesses tu o caminho até Marte, até Vénus, até Plutão. Quisesses tu saber a frequência dos planetas e dos pássaros que voam na rota da abstracção. Não há nuvens. Mas há muito branco por onde viajar. Viagens de ida sem volta porque as voltas, as voltas meu amor, dão-se todas nos caminhos feitos de mãos encontradas. Encontradas, não dadas, como nos contaram antes. Porque há muito tempo que me deste as tuas mãos e eu ainda não as encontro. Por exemplo. Hoje quando acordei tinha a certeza que a claridade vinda de dentro eras tu. Lembro-me de me assegurar dos teus dedos depositados debaixo da minha almofada, como presentes secretamente esperados nas manhãs que acordam sem o primeiro dente.

Já não somos crianças, eu sei. Mas há ainda dentes que caiem em forma de embrião e manhãs de presentes secretos com sabor a desejo. Eu ia jurar que me recolheste as pálpebras. Mas foi, talvez, um dente caído como folha de Outono onde se escorrega em alegria vã. Amanheço sem segredos debaixo da almofada. Tenho o desejo em linha de espera que não posso atender. Seria mais fácil ver-te numa distância pouco precisa. Pouco precisa, como quem não faz tanta falta assim. Como o primeiro dente.

Sabes o que tinha debaixo da almofada nessa manhã de quatro anos? Ou de cinco, ou seis. Não me lembro da idade. Só me lembro do dente a menos e do caderno a mais, da Mafalda. Ainda o tenho. Escrevi-me até à exaustão ainda sem me saber escrever ou dizer. Depois desse dente caíram mais. Mas maior foi o ritmo da chegada dos cadernos. Hoje já não têm a Mafalda na capa. Essa ficou-me na ponta dos dedos e na tinta escorrida para adivinhar o mundo. Para lhe descascar as capas. Pretas hoje. Para te adivinhar aqui. Escrevo-me ainda para te agarrar agora. Mas escorregas-me como água em contra-corrente.

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