quinta-feira, novembro 17, 2011


Sabia de cor as cores das suas mãos quando cruzava os dedos em apertados gritos mudos. Era estranho, como se quisesse agarrar a raiva dentro das palmas e por vezes tivesse medo que a força lhe faltasse. Apertava os lábios também, sempre o mesmo gesto, a expressão crua nos olhos. Crua de existência. 

- Que outras terras achas que pisas que te asseguram seguros chãos?

Ninguém fala assim quando em vez de palavras guarda nuvens cinzentas na cabeça. Ninguém fala mesmo, intraduções de coisas indefinidas. Raios de tentativas de explicações a soçobrarem pelos ossos, a rebentarem por dentro da pele, a baterem insistentemente contra o mesmo invólucro selado, impossível saírem por esses cortes tentativas.

- Que outras terras achas que pisas que te asseguram seguros chãos?

Como se não fossemos existência em vazio. Como se houvesse mesmo a possibilidade de assegurar ou de nos segurarmos a alguma coisa. Um cajado, havia senhores que tinham cajados, havia um tempo infantil que achava que jamais o mundo se poderia desequilibrar se tivesse apoiado num cajado firmemente cravado no chão. As mãos sob o queixo. As respostas sob as mãos. 

- Que rios são esses que tentas travar sem fazeres de ti barragem?

A fluidez dos dias, dos momentos, das pedras, dos "sim", dos agora. A fluidez imparável da falta do concreto, a fluidez do cimento e do betão, não há nada indestrutível, não há nada que dure agarrado ao lodo escorregadio do que já foi. Uma lágrima tem menos fluidez do que essa promessa. Há no vento uma aspereza maior do que nesse muro. É preciso, seria preciso, aprender a andar assim. Sem chão nos pés, sem mãos no cajado. Pior que um bebé de ano. Trôpego, não bebas mais, não mastigues a bebida, não mastigues essa raiva. Sôfrego, já não há, fluiu-se. 

- Anda, vamos embora. Amanhã também é dia.

Não são os dias que importam, são as noites. Quando as coisas fluidas ganham algum peso. Quando a gente se ilude a pensar que há coisas importantes e que vão durar. As noites são uma merda, por isso digo-te bom dia, alegria, e construo uma casa de nevoeiro - o material de onde nascem todos os outros.


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