segunda-feira, abril 15, 2013

os mares das gentes


Os mares, os oceanos que se tocam e trocam, em divisões planeadas e escritas à mão, em contratos que contém sal proveniente de diferentes desejos e vontades. As pessoas trazem mundos e mares dentro de si, a colapsarem e a colidirem como ondas em rochas, a rebentarem fora de tempo, a gritar o agora contra o eterno. A gritarem o que sabem contra o que querem, a gritarem não os limites que encerram mas os limites que transbordam. A quererem transbordar-se de si em voz, em palavras, em toques. Ansiando quem as transborde, acossando-as com tempestades e ondas mais altas que prédios, as construções humanas, as convenções a fecharem passagens, a calarem segredos.

conheço um pedinte que tem um segredo que dói. O que ele precisa dói-lhe tanto que não pede, grita e ofende quem passa - o desespero enraivecido, não porque lhe seja devido mas porque nasceu da necessidade mais visceral que o acossou. "Pobre diabo" penso quando  o vejo, cheia dos direitos e legitimidades que ele (não) tem das exigencias que o atormentam. Pede o errado, pede moedas em vez de sorrisos, pede dinheiro em vez de atenção e sabe de antemão que nunca jamais alguém valorizá alguma coisa dele, pobre diabo abandonado a uma sorte contra a qual não foi capaz de lutar. o mar dele a rebentar-se em quem passa. E não consegue expressar-se melhor, porque não pode, todas as vezes que se afundou, todos os caminhos que não fez, todas as paisagens que não visitou e as pessoas que o olham a cobrar-lhe isso, devias ser mais assim porque devias saber melhor. Um dia destes aparece morto. afogado numa esquina entre ruas, sem ninguém perceber como foi possivel.
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