quarta-feira, fevereiro 01, 2017

dia de folga

Dizia o que queria e o que não queria, há algum tempo já que era assim. Antes disso, antes desse tempo, não dizia nada, calava e guardava nos bolsos do casaco, segurava e escondia nos bolsos das calças, punha para dentro e guardava no bolso da barriga. Agora não, e nem sabia explicar quando tinha sido o clique da mudança, se é que tinha havido um. Provavelmente não tinha havido nenhum, tinha lido algures que estas coisas são gra-du-ais, são de-va-ga-ri-nho, fazem-se como uma menina se faz mulher ou um rapaz se faz homem: sem se aperceber, sem se dar conta, sem querer e até sem crer. Quando se olham, já o são mas é o mundo que os vê que sabe disso, eles não, olham-se para dentro e não se vêem homem e mulher, olham-se para fora e ficam sem saber onde pôr os braços - se esticados ao lado do corpo, se nos bolsos, a tocarem nas coisas que calaram. Era por isso que às vezes lhe entrava esta raiva, não tinha pedido isto, não tinha querido nada disto, não tinha sonhado nada disto e agora tinha coisas que o mundo achava que ela tinha que fazer. E como as fazer. Comportadamente. Educadamente. Polidamente. Nesses dias apetecia-lhe gritar com o mundo e com qualquer pessoa que se lhe aparecesse à frente, nesses dias apetecia-lhe agarrar em tudo o que tinha guardado nos bolsos e aventá-los com força às cabeças que se lhe aparecessem à frente, mas não podia. Já podia dizer o que queria e o que não queria, mas não podia andar por aí a escorraçar raivas do corpo. O mundo não é um lugar de raivas, não pode ser um lugar de raivas. Raivas geram raivas e não se pode estar vivo sem se ter a noção do impacto que temos. Do quanto mexemos na vida dos outros, do quanto contagiamos os outros - com gripes, com raivas, com espirros, com sorrisos. Na maior parte desses dias - os agressivos e os de espirros, não os sorridentes - o melhor que há a fazer é esconder-se dentro de quatro paredes, afinal de contas uma raiva ocasional não é diferente de uma gripe, pensou, e ligou para o trabalho a dizer que hoje não podia ir contagiar pessoas.
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