terça-feira, outubro 03, 2006

A saga do pêlo varrido

Sempre nos disseram que o tempo tudo cura – mas nunca nos dizem quanto tempo é. Já lá vai mais do que o tempo que achei que ia ser suficiente mas continua a doer-me na alma olhar para um qualquer feixe de luz que espreita incauto pelas frisas da persiana e não vislumbrar um ou dois pêlos amarelo-reluzente a boiar no ar agitado por uma cauda-chicote.

O dia decisivo: “toma lá 2 pares de calças, um livro e dá cá o cão. Agora trabalhas e não tens tempo para ele”. E não tinha, e não tenho, e fiquei lida e vestida, escrava capitalista cavando com as mãos o meu lugar ao sol e sem cão. Agora sinto-lhe a falta no pêlo – sinto-lhe até a falta do pêlo e os dias passam cinzentos apenas mais animados pela voz meiguinha da minha paulinha – Gabriela Paulinha dos Santos (GPS) que me vai dizendo em doce tom autoritário “vire à esquerda” “Vire à direita” enquanto eu lhe desabafo minhas mágoas e dores. Ela ouve e comenta “Na rotunda siga em frente, segunda saída” e eu sei que neste tom de quem manda está o segredo da vida que continua. A minha Paulinha tem razão, para a frente é que é caminho mas é ao lado (a 200km para o lado!) que o meu cão saltita e pulula alegre e feliz, perseguindo ovelhas e galinhas enquanto os meus dias continuam sem alergias nem pêlos no chão da casa.

Um dia destes vou-te buscar de volta – assim que tiver tempo de novo!
Enviar um comentário
Ocorreu um erro neste dispositivo