segunda-feira, novembro 22, 2010

a vida e a morte de D. Prudência

D. Prudência tinha idade indefinida e gostava de passar despercebida. Os seus passos eram sempre silenciosos e os seus movimentos repletos de tranquilidade.
D. Prudência gostava de vestir sorrisos apaziguadores e calças a rondar os beiges.
Era dada a cores neutras e pouco dada a dores intensas. Nunca tinha chorado em soluços, não sabia quando tinha dado a última gargalhada. Nem a primeira.

As pessoas no bairro simpatizavam com D. Prudência, isto é, cumprimentavam-na sempre que a viam. O que não era sempre que ela estava, às vezes passavam por ela sem ver, mas D. Prudência não levava a mal e dizia "bom dia" ou "boa tarde" na mesma. Falava baixinho porém e ficava na mesma sem resposta. Se o seu interlocutor se apercebia, ficava aflito, "D. Prudência, bom dia, nem a via, desculpe lá!" e logo D. Prudência corava com tanto alarido. E isto porque as pessoas simpatizavam verdadeiramente com ela, e ela simpatizava verdadeiramente com todos os equilíbrios da vida. "Que é isso que é importante, o equilíbrio" dizia baixinho a quem a conseguia ouvir.

D. Prudência, em toda a sua vida, só teve um azar, o mesmo que foi responsável pela sua partida deste mundo. Apaixonou-se dona Prudência, numa tarde em que o sol se punha em tons de vermelho e lhe apresentaram um homenzinho de gabardine igual à de outros milhões. Verdade seja dita, foi paixão à primeira vista que durou um serão inteiro, entre conversas, brincadeiras e sorrisinhos. Durou precisamente até à altura em que D. Prudência percebeu e se apercebeu de que não ia conseguir manter o equilíbrio, de que não queria manter o equilíbrio, que só queria perder-se num abraço, encontrar a sua pele naquela pele e enterrar os seus lábios naqueles lábios. Deixar-se sentir tudo de todas as maneiras.

Foi demais para D. Prudência, que logo ali esticou o pernil, quando o coração lhe explodiu dentro do peito, sem conseguir aguentar a intensidade do momento.

Enterraram-na num caixão de madeira, sem artifícios nem rebites bonitinhos, num canto ao lado do canto mais sossegado do cemitério. Raramente tem visitas, nem sempre as pessoas se lembram de lá ir. Quando se lembram, no entanto, ficam na dúvida se teria sido melhor D. Prudência nunca se ter apaixonado, ainda que isso a tenha matado.
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