segunda-feira, novembro 19, 2012

Dona Selena


"Se pudesse ia, 
se soubesse cantava, 
se houvesse ficava, 
se quisessem dançava, 
se sonhasse saltava, 
se mais houvesse menos lá chegava..."

Assim pensava Dona Selena, entre ruas cruzadas e atalhos paralelos, entre possibilidades remotas e condicionantes internas, entre ilusões e obrigações.

Na cidade conheciam-na bem, especialmente os lojistas, "Bom dia Dona Selena, que procura hoje?", ah, procuraria um vestido se houvesse aí uma festa aonde ir, mas um vestido amarelo se vocês tivessem, mas se este fosse mais curto era perfeito para um casamento ou baptizado!.. Mas não há, diga-me lá, quero uma camisola, se tiverem do meu tamanho, se houver com flores verdes, se amanhã estiver sol quero ir de verde, se for mesmo fazer greve porque como as coisas estão, ah, se eu tivesse partido quando era nova, agora é que era, quando era nova, se tivesse ido não tinha esta vida...

E não teria esta vida, se tivesse partido quando o namorado lhe propôs, se tivesse agarrado nas malas com as duas mãos em vez de ter ficado de mãos atadas a pensar e se não arranjo trabalho, e se deixas de gostar de mim, e se tenho saudades, e se me acontece algo e tenho que ir ao hospital, e se de repente sou feliz e não sei...?

Não lhe serviram de nada as hesitações quando nas noites mais frias Dona Selena começava as suas divagações, desliando e enliando compridos fios de possibilidades sobre se era para ser, como teria corrido, se tivesse ido, onde estaria, como seria. Não sabe Dona Selena que numa vida paralela existe outra ela, deitada noutra cama e com outra vida que nas noites mais frias pondera como seria se tivesse ficado, se tivesse lutado, se se tivesse agarrado ao que conhecia.
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