sexta-feira, junho 20, 2014

O muro do Sr. Fernando e as histórias de um mundo

Tinha 14 anos o Sr. Fernando quando começou a desconfiar que a vida é feita para perder. Foi pela altura da morte do seu primeiro fiel amigo - chamava-se Leão, era um golden retrivier de pêlo quase branco e o Sr. Fernando, que na altura ainda não era senhor e tinha quase a mesma idade do cão, ficou a saber pela primeira vez como era chegar a uma casa mesmo vazia. 

O Sr. Fernando aos 15 anos não quis outro cão, que depois morre-se-me, que o que ganhamos agora perdemos depois, e aos 17 anos fugiu da possibilidade da primeira namorada a sério, que as outras de "brincar" já lhe tinham causado danos, que elas vêm mas vão, e que não preciso nem de namorada nem de cão. Mas esta ideia não lhe durou muito - a rapariga insistiu com beleza suficiente, pouco tempo depois até começaram a fazer os planos de serem felizes para sempre, deram nome ao primeiro, segundo e terceiro filho e disseram adeus a meio de um programa de Erasmus que criou mais distância entre Lisboa e Roma do que a que separa Pequim da Madragoa.

Para levantar a cabeça e endireitar o peito, o Sr. Fernando pôs a mochila às costas e a tristeza nos bolsos - saiu de Roma à procura do mundo, conheceu gente de lugares com nomes estranhíssimos, aprendeu que se sobrevive sem escova de dentes por uns dias, que é possível ser feliz com a mesma t-shirt outros tantos, descobriu que um abraço é um abraço em qualquer nacionalidade, aprendeu a dizer “Olá” em 14 línguas diferentes e “Adeus” em 15 – a vida é sempre a perder, concluiu.

Voltou para casa o Sr. Fernando, de olhos águados mas sorridentes, contava aos miúdos da rua que o ouviam as aventuras vividas em terras mais ou menos duras e concluía, agora é isto, emprego das 9h as 5h e saber que a vida é sempre a perder – perder pessoas, perder lugares, perder vontades, perder até a agilidade do que somos ou fomos, mas não seremos amanhã.

Porque amanhã, Sr Fernando, amanhã é dia de começar outra vez, amanhã é dia de ganhar antes de perder porque o que não perde Sr. Fernando são os sorrisos que desenhou e as memórias que criou. E o Sr. Fernando intrigado, que sabes tu da vida, entre videojogos na tv e jogos de futebol na rua? E o que ele sabe Sr. Fernando, é que o Sr. Fernando por ser quem mais perdeu é também o melhor contador de histórias do bairro e o que mais viveu.
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