sexta-feira, janeiro 15, 2010

"YOU ARE WELCOME TO ELSINORE"

Não me sai da cabeça o poema do título, hoje.

E o dia começa chuvoso, deste lado do tejo não há margem sul à vista, embrulhada em cinzento, lisboa é uma ilha sem margens, como todos os homens são ilhas, a tentarem criar pontes que às vezes barricam outra vez. Às vezes as barricadas tem peso a mais e fica uma ponte a menos.

Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos morte
violar-nos
tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo


"As pessoas doiem-se, sabias? Não é por mal nem por bem, não é por orgulhos nem teimosias nem maus entendidos. As pessoas às vezes magoam-se tanto, umas às outras, umas com as outras, umas nas outras... e mesmo assim guardam-se carinho, e é por isso que se dóiem."

entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas
portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício


"Mas há formas de encurtar distâncias entre duas almas sabias? Tocarem-se mesmo não podem - nem são físicas! - mas pode-se encurtar as distâncias. É com sussurros, a distância entre uns lábios que sussurram e um ouvido que se ajeita para escutar é a distância mais curta entre duas almas."

Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós
e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição


"Não.. quando as pessoas se dóiem... é mais fundo do que isso. Olhas nos olhos de quem te dói e só te magoa. Por ti, por essa pessoa, pelo espaço que se criou e que não vai fechar. Pela injustiça de esse espaço existir, sequer. O espaço não existe, o espaço é a inexistência de algo, é a inexistência de.... de...."


Entre nós e as palavras, surdamente,
as mão e as paredes de Elsinore


"As pessoas passam a vida a tentar tocar as almas umas das outras, e a tentar que os outros toquem as suas. É por isso que trocam abraços, e um abraço mais apertado é para tentar pôr as almas mais perto, apertam-se mesmo, trocam contactos físicos para mostrar que querem proximidade, estão na verdade a tentar chegar a algo que não se chega."

E há palavras nocturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos connosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmos só amor só solidão desfeita


"Ultimamente têm-me doído muita gente."

Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar


"Mas os sussurros são melhores para encurtar a distância entre duas almas."

(um sorriso doído)
"Mas os sussurros também são feitos de palavras..."
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