segunda-feira, abril 04, 2011

Colchão de Perdição - Parte I

O velho colchão de penas fora-lhes oferecido como presente de casamento, pelos avós maternos de Simão. Na altura, deslumbrados com a perspectiva de uma vida a dois, Simão e Teresa descuraram o facto de não se usarem, já, colchões sem molas. Mesmo que tivessem pensado nisso teriam chegado à conclusão de que não poderiam fazer uma tal desfeita aos avós de Simão que tão orgulhosos estavam de verem o seu neto dormir no exacto colchão que tinha pertencido aos seus falecidos pais.

Cedo o colchão começou a revelar as suas qualidades. Não era só a ondulação provocada pela distribuição heterogénea das plumas, que dava ao casal a estranha sensação de dormir num areal. Não era também, a concavidade natural que se formava no meio do colchão e que para ali empurrava e mantinha apriosionados, os corpos de Simão e Teresa. O pior de tudo era o circunstancialismo que impedia que um se mexesse sem perturbar o outro. Noite após noite Simão e Teresa dormiam colados, cara com cara, pele com pele, corpo com corpo.


Nos primeiros meses de casamento, apesar das noites mal dormidas, o casal compensava e substituia o sono traquilo por longas noites de paixão. Se um se mexia acordando o outro, a iminência do contacto fisíco, acabava por levá-los a fazer amor. Até chamavam ao colchão, em tom jocoso: "o indutor de sexo". As idas à casa-de banho, eram também bastante toleradas no princípio com um: "Claro amor! E eu lá ia deixar que a minha florzinha silvestre ficasse aflita uma noite inteira? Queres que vá contigo e te faça companhia, para não te sentires sozinha?" ou com um: "Querido? Estás a dormir? Se precisares de ir à casa-de-banho dizes-me não dizes?"...

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