terça-feira, abril 05, 2011

Colchão de Perdição - Parte II

"Não quero saber se lá dormiram os teus bisavós, o Ghandi ou o General De Gaulle! Aquele colchão é uma MERDA! Só faltava ser em talha dourada para preencher todos os requisitos de uma peça digna de museu! Eu quero, NÃO! Eu exijo um colchão novo. Com molas, com capa dupla, com acolchoado anti-choque, com aquecimento central se os houver! Porque é que não podiam ter dado o colchão ao teu irmão Duarte?? Hã? Ele nunca dorme em casa, mesmo. Mas não! Tudo o que é lixo tinha que vir para nós. Vê lá se te deram a chaise-long que eu tanto elogiei?? Ou o louceiro que está a apodrecer na casa dos arrumos e que tanta falta nos faz?..."


Apesar da relutância em livrar-se da peça na qual todos os seus antepassados tinham dormido, Simão tinha que admitir que os argumentos da sua mulher não eram totalmente desprovidos de sentido. Com efeito, as mazelas fisícas provocadas pelo desconfortável colchão começavam a transparecer nos olhos remelentos e encovados de ambos. No trabalho, Simão revelava quebras de produtividade, chegava atrasado e esquecia-se constatemente dos seus compromissos. Além disso havia ainda aquele incidente em casa dos Sousas, sobre o qual nenhum dos dois ousava falar...


Os Sousas eram um casal que Simão e Teresa tinham conhecido nas aulas de pintura para casais, e com o qual tinham tido a maior das empatias. Não era só o facto de os Sousas terem os mesmos ideais de vida de Simão e Teresa (o que era bem ilustrado pelo facto de serem os únicos dois casais a frequentarem o curso de pintura para casais) mas era muito mais que isso: era generosidade que demonstravam na hora de partilhar as cores. O magenta era a cor mais disputada entre Simão e Pedro ("Para fazer os enchimentos dos hipópotamos!" diziam em uníssono.) mas Pedro, nunca se parecia importar de pintar o seu hipópotamo de rosa cristal - deixando o magenta para Simão - sempre que só existia uma bisnaga de magenta no cesto das cores!!


A relação entre os casais evoluía a um ritmo saudável até que os Sousas decidiram oferecer um jantar em sua casa para os seus amigos mais chegados. Tudo corria lindamente: o mais soberbo dos vinhos regou o serão de uma chuva púrpura e inebriante. E a mais suculenta das carnes abriu caminho na sala de jantar e desfilou diante dos olhos ávidos dos convidados, tentando-os. Tentando-os como uma bailarina de cabaret tenta os boémios e cadeleiros ao levantar o saiote diante das suas fronhas embasbacadas. E a companhia? Oohh a companhia...de fazer inveja aos von Oysters und Caviar, os vizinhos socialites que viviam no apartamento em frente de Simão e Teresa.

Depois de todo aquele vinho Teresa desculpou-se e levantou-se para ir à casa-de-banho. Percebeu momentos mais tarde que nunca alcançaria o seu destino...
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