quarta-feira, abril 06, 2011

Colchão de Perdição - Parte III

Ligeiramente embriagada Teresa percorreu o longo corredor de casa dos Sousas. Tentou servir-se do olfacto para descobrir qual a porta que correspondia à casa-de-banho, inspirando longas golfadas de ar e movimentando os braços num movimento circular e constante - exactamente igual ao bater de asas de um cisne - de forma a ajudar os odores da casa a penetrarem as suas narinas. Infelizmente o vinho levava já alguma vantagem e Teresa acabou por desistir e fazer uso do velho método abrir-todas-as-portas-até-encontrar-a-divisão-que-se-procura. Esse, apesar de mais longo, nunca falhava.

Decidiu-se a entrar na terceira porta do corredor. Toda a gente sabe que a casa-de-banho nunca fica logo ao pé da sala de jantar. No momento em que abriu a porta tudo o que viu foi um grande NADA. Apenas uma massa escura e compacta que ocupava toda a divisão. De repente, sentiu que as luzes do corredor desapareciam e que o mobiliário, antes meticulosamente arrumado, começava a mover-se em direcção ao grande vazio. Consciente do que tinha diante de si, fechou a porta num ímpeto. Será possível?!? Uma sala com um buraco negro?!? Mas isso seria demasiado perfeito!! Os Sousas são mesmo um espectáculo! Ou isso ou alguém já memeu buito, LOL! Das duas maneiras, adoro-os e é exactamente isso o que tenciono dizer-lhes da próxima vez que os vir!

Teresa recompôs-se, ajeitando a saia e o cabelo, e seguiu caminho em busca da casa-de-banho perdida. O que estaria por detrás da porta n.º 2? Ao abri-la percebeu que tinha entrado no quarto dos seus anfitriões. Por impulso, mais que por outra coisa qualquer, voltou a fechar a porta e preparava-se para continuar a sua demanda, não tivessem os seus olhos capturado a imagem da cama do casal situada exactamente no centro da divisão. Fora traída pelos seus próprios olhos!

Movida pela curiosidade, Teresa voltou a abrir a porta estacando diante da maravilhosa visão. A cama, um futon em madeira de mogno, não foi aquilo que chamou à atenção de Teresa, mas sim o colchão que repousava tranquilamente no seu centro. A olho nu percebeu estar perante um exemplar original e único de um Ortoclass de Espuma D45 Pillow Top, com espuma poliuretano 100% D45 e tecido com tratamento anti-ácaro, anti-mofo e anti-alérgico. Teria que analisar melhor, mas se tivesse que apostar, diria que o belo exemplar incluía ainda respiros nas faixas laterais para proporcionar circulação de ar no interior do colchão. Teresa nem queria acreditar na relíquia que tinha à sua frente. Santa Madre de todas as Madres! Bendita a hora em que decidi inscrever-me e ao Simão nas aulas de pintura para casais!

Se Teresa tivesse ficado por ali, limitando-se a apreciar mentalmente a sua descoberta, a sua vida e a de Simão teriam seguido com normalidade. Mas não foi isso que aconteceu e o casal viveria para o comprovar.

Teresa olhou em redor, e percebendo que continuava sozinha, deslizou, hesitante, para dentro do quarto fechando a porta atrás de si. O que aconteceu a seguir permanece até hoje uma incógnita para Teresa. A pessoa dentro daquela sala não era mais Teresa, mas outra.

Entretanto na sala de jantar, Simão perguntava-se se estaria tudo bem com Teresa. Tinham passado 5 minutos e ela não tinha regressado. Preocupado, decidiu ir procurá-la, deixando os convidados a tomar digestivos e a preparar a noite de jogos que se seguiria. Já no corredor Simão viu a luz que vinha da porta do quarto dos Sousas e dirigiu-se até lá. A imagem que surgiu diante dos seus olhos, fez com que as suas pupilas se dilatassem e a sua pulsação aumentasse para o dobro. Estava a ter uma descarga de adrenalina.

Teresa jazia deitada na cama, completamente imóvel. Dormia profundamente. As almofadas outrora adornos de cama, espalhavam-se caoticamente pelo quarto e o edredon tinha sido puxado e cobria o corpo da sua mulher. Simão chamou por Teresa acordando-a ao seu transe. Teresa, o que estás a fazer?!? Sai imediatamente daí! Mas Teresa, que entretanto tinha despertado, não quis ouvir Simão, limitando-se a abanar a cabeça e a abraçar o colchão. Não Simão, não percebes? É um Ortoclass de Espuma D45 Pillow Top. Um Ortoclass de Espuma D45 Pillow Top!! O rei dos colchões...e é meu. É todo meu!!!

Desesperado Simão dirigiu-se à cama para de lá tirar Teresa, mas a precipitação fez com que tropeçasse numa das almofadas espalhadas pelo quarto e caísse amparado, mesmo em cima do Ortoclass de Espuma D45 Pillow Top.

O contacto com a superfície sedosa e macia do colchão induziu Simão num estado de transe. Primeiro sentiu-se flutuar em nuvens de algodão doce, ao lado de felizes hipópotamos magenta que comiam chupa-chupas deitados em chaise-longs. Teresa estava com eles e todos eram um só ser, feliz, completo e perfeito.

Quando vieram a si, Simão e Teresa, não sabiam quanto tempo tinha passado e como tinham ido ali parar. O ruído dos convidados vindo da sala trouxera-os de volta à realidade e perceberam pelo som das gargalhadas e do ambiente de festa que ninguém tinha dado pela sua falta. Num estilhaço de segundo saltaram da cama e falaram aquele idioma só dominado pelos casais mais cúmplces, a língua dos olhos. Entreolharam-se longamente, naquilo que mais parecia o jogo de ver quem-desvia-primeiro-o-olhar, e decidiram que tudo tinha que ser reposto de volta à normalidade antes que alguém descobrisse o que tinham feito.

A noite chegara ao fim e o pequeno incidente tinha passado despercebido aos anfitriões e aos convidados que continuavam entretidos a jogar charadas no momento em que Teresa e Simão se juntaram a eles na sala. O regresso a casa foi feito em silêncio. Envergonhados com as suas acções nenhum dos dois se atrevia a falar sobre o assunto. No entanto, apenas uma ideia ocupava os pensamentos dos dois: tinham que voltar a deitar-se naquele colchão.
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