Diz-nos a lei de Murphy que "Mesmo o objeto mais inanimado tem movimento suficiente para ficar na sua frente e provocar uma canelada."
Sendo uma grande apreciadora deste tratado murphyano, na verdade não concordo com esta lei, pelo menos desta maneira simplista. Não é verdade que os objectos inanimados têm movimento suficiente para nos atingir de maneiras particularmente dolorosas. A verdade por detrás deste acontecimento frequente é muito mais aterrador e insuspeito.
Sei de fonte segura que há toda uma conspiração entre cadeiras, móveis, mesinhas de cabeceiras, cantos e pés das camas, etc etc etc, para aniquilarem e acabarem com todos os mindinhos do mundo. Não sei onde e quando começou esta guerra, mas sei que os estrategas e generais por trás dela são os insuspeitos tapetes.
Rasteirinhos e praticamente inexistentes naquela que é a percepção humana do espaço (especialmente de manhã ao sair da cama) são os tapetes que sempre levam os nossos mindinhos para perto dos agressivos móveis. Um pequeno "deslize" para que o imperceptível movimento se faça sentir de forma aguda e desesperante no desgraçado mindinho cuja única arma que dispõe é a da sobrevivência, para continuar a ser agredido.
Gostava realmente de saber o que despoletou esta guerra muda da qual os meus dois mindinhos dos pés são vítimas indefesas praticamente todos os dias. Qual foi o mindinho que hostilizou desta maneira um tapete que conseguiu mobilizar não apenas todos os outros tapetes como todos os móveis para a sua causa. Talvez um mindinho com uma unha demasiado comprida que tenha causado um buraco num tapete? Parece-me móbil insuficiente para a agressividade que todas as manhãs sinto. Talvez uma "tapeta" que tenha jurado amor eterno a um qualquer mindinho passageiro, ignorando para sempre o senhor tapete do outro lado da cama? Ou quiçá um mindinho gozão que tenha ofertado pelo natal a um tapete já com mau feitio os resquícios de uma pastilha elástica?
Não sei efectivamente a causa desta guerra muda e absurda da qual os meus mindinhos são vítimas todas as manhãs. Mas sei que ela existe, já me foi confessada por uma banquinha de cabeceira mais vulnerável, quando lhe apertei os cantos tal qual colarinhos e a obriguei a confessar-se. Foi o 7º ataque no mesmo dia e o mindinho roxo e choroso nada dizia. Foi ela que me confessou que a origem é tapetiana e efectivamente é sobre estes soldados que os nossos mindinhos são conduzidos ao seu cruel e agressivo destino.
Já fomos, já deixamos de ser, talvez estejamos de volta. Poderá ser o regresso do mito. O mito que nunca o foi.
segunda-feira, agosto 23, 2010
sexta-feira, agosto 20, 2010
Agendas sem adendas
Durante anos, meses, semanas e dias fui anti-agendas, (des)organizando a minha vida ao sabor dos ventos e dos eventos, sem outras questões além do que me apetecia no momento (e totalmente independente das coisas que me esquecia no tempo). Houve inclusivé uma altura em que o fazia de tal forma sistemática e inesperada que achei por bem assumir que nunca sabia onde ia dormir em todas as noites e portanto andava sempre de saco-cama e pijama na mala do carro. E deu jeito vezes sem conta. Hoje, o saco-cama ainda lá está, o pijama já não, mas o espírito diz que ainda se mantém. As responsabilidades é que não me deixam "esquecer" de tantas coisas.
Portanto, apesar de ainda lá ter o saco-cama, tive que repensar na minha filosofia anti-agendas e render-me à evidência que preciso de uma. Bonitinha e jeitosinha, com os dias mundiais de coisas que eu não sabia que tinham direito a dias mundiais assinalados, sempre na minha mala.
Não a comprei em Janeiro, foi para aí em Março... e demorei para aí 2 meses a perceber que para apontar as coisas nas agendas, significa que elas tem que ser combinadas com antecedência. Não serve atender um telefonema "queres vir cá jantar hoje" às 20h30 e sacar da agenda para escrever. Isto significa que, se quero combinar uma coisa com alguém, tenho que pensá-la para um dia específico e não para "daqui a cadinho". Foram dois meses de treino intensivo para entrar neste novo frame mental. Quando percebi o esquema, agarrei na agenda e marquei rapidamente os meus anos em Abril. Ficou porreiro, dia 27 de Abril, "Anos". E efectivamente não me esqueci que fazia anos dia 27 de Abril.
As outras coisas que ia apontando, também não me esquecia, que as pessoas habituadas à minha falta de memória, lá mandavam sms "então, amanhã ainda se mantém?". E eu feliz, com uma agenda que não me esqueço de preencher quando assim se justifica.
Mais uns meses se passaram e metade do mundo foi-se habituando a que eu tenha agenda e planeie as semanas. O que é porreiro, porque é para isso que ela serve. Mas, como o mundo se foi habituando, as pessoas começaram a deixar de me mandar as tais sms do "então e amanhã, ainda se mantém?". E, na prática, isto trouxe-me um novo problema: é que parece que metade da ciência de uma agenda é anotar as coisas que temos para fazer, mas a outra metade é consultar a agenda para nos relembrarmos do que lá marcámos.
Espero que não demore mais dois meses até me habituar a consultar a agenda de vez em quando, ou então ainda vou faltar a muita coisa que tinha combinado...
Para começar, acho que vou marcar na agenda uma nota para consultar a agenda. Assim como assim, lembrar-me de anotar lá as coisas já consigo...
Portanto, apesar de ainda lá ter o saco-cama, tive que repensar na minha filosofia anti-agendas e render-me à evidência que preciso de uma. Bonitinha e jeitosinha, com os dias mundiais de coisas que eu não sabia que tinham direito a dias mundiais assinalados, sempre na minha mala.
Não a comprei em Janeiro, foi para aí em Março... e demorei para aí 2 meses a perceber que para apontar as coisas nas agendas, significa que elas tem que ser combinadas com antecedência. Não serve atender um telefonema "queres vir cá jantar hoje" às 20h30 e sacar da agenda para escrever. Isto significa que, se quero combinar uma coisa com alguém, tenho que pensá-la para um dia específico e não para "daqui a cadinho". Foram dois meses de treino intensivo para entrar neste novo frame mental. Quando percebi o esquema, agarrei na agenda e marquei rapidamente os meus anos em Abril. Ficou porreiro, dia 27 de Abril, "Anos". E efectivamente não me esqueci que fazia anos dia 27 de Abril.
As outras coisas que ia apontando, também não me esquecia, que as pessoas habituadas à minha falta de memória, lá mandavam sms "então, amanhã ainda se mantém?". E eu feliz, com uma agenda que não me esqueço de preencher quando assim se justifica.
Mais uns meses se passaram e metade do mundo foi-se habituando a que eu tenha agenda e planeie as semanas. O que é porreiro, porque é para isso que ela serve. Mas, como o mundo se foi habituando, as pessoas começaram a deixar de me mandar as tais sms do "então e amanhã, ainda se mantém?". E, na prática, isto trouxe-me um novo problema: é que parece que metade da ciência de uma agenda é anotar as coisas que temos para fazer, mas a outra metade é consultar a agenda para nos relembrarmos do que lá marcámos.
Espero que não demore mais dois meses até me habituar a consultar a agenda de vez em quando, ou então ainda vou faltar a muita coisa que tinha combinado...
Para começar, acho que vou marcar na agenda uma nota para consultar a agenda. Assim como assim, lembrar-me de anotar lá as coisas já consigo...
sábado, agosto 07, 2010
O planeta dos inexperientes
já o disse a duas ou três pessoas, em algum momento, em alguns momentos de conversa.
Dos escritores que gosto - e são vários e diferentes - há um que em particular acrescenta novos pensamentos ao meu pensamento. Milan Kundera, de obra mais conhecida a insustentável leveza do ser (e devia ter sido escrita com maiúsculas e posta entre aspas, deixa lá), de outras obras menos reconhecidas mas igualmente boas, de muitas filosofias e teorias que deixam marcas nas pessoas que não o conhecem.
Tem ele uma teoria acerca do planeta dos inexperientes. Diz o senhor que devia ser este o nome do nosso planeta, que somos inexperientes na vida quando nascemos, mas somos inexperientes nas emoções quando somos adolescentes (e continuamos meio inexperientes nas emoções a vida toda, acrescentaria eu se tivesse alguma legitimidade para lhe acrescentar alguma coisa), que somos inexperientes adultos, a tentar comportarmonos como adultos e velhos inexperientes sem saber que é isto da velhice. E morremos, claro, inexperientes na morte.
A inexperiencia (que leva acento circunflexo num é, apesar de neste post n parecer) causa-nos medos e insegurança. Não sabemos o que dali vem (digo eu prestes a abdicar do til na palavra não, que já me enganei 3 vezes) não sabemos o resultado, não sabemos o que nos espera, temos medo do que possa vir, temos inseguranças na inexperiencia.
E, parece-me a mim, que todos os conflitos e mal-entendidos se devem a esta espécie de miúda, esta insegurança que, desculpem lá, mas cada vez mais acho que existe em toda a gente mas numas gentes melhor escondida do que noutras, e que activa imediatamente uma série de comportamentos defensivos, desconfianças, falta de entrega e por aí fora.
Os meus problemas vem quase todos desta insegurança, dos não saber. Os meus problemas causados por mim e os meus problemas causados pelos outros que habitam o meu mundo.
Quando se pensa isto, quando se acha que "eles" estão a fazer o que fazem por inseguranças inconfessadas, o certo é que tudo ganha novos contornos.
não sei se verdade universal, se verdade pessoal... mas parece-me que vou pensar mais nisto nos próximos tempos.
sexta-feira, julho 23, 2010
untitled document
Andava descalça pela rua crua, sem sentir o frio que lhe subia pelas pernas acima, sem se dar conta das plantas do caminho misturadas com as plantas dos pés, seiva com sangue, sangue com seiva e a poeira encrustada na estrada, encostada no corpo.
Andava descalça pela rua, mas não era como se fugisse de alguma coisa ou como se voltasse a sítio nenhum. Os passos certos e o destino incerto, andava para não se abandonar e no entanto há tanto que ela já não morava em si.
As pessoas que passaram apressadas fingiram que não a viram, ou talvez não a tenham visto mesmo e ninguém a interpelou nem perguntou para onde ia.
Andava descalça pela rua e foi assim que passou, como se não tivesse de facto passado mas tendo deixado no chão as marcas de um sangue misturado que tornou a rua diferente... por uns dias.
Depois? Depois ninguém sabe que lhe passou, para onde foi ou que fez. Ninguém lhe perguntou, ninguém se perguntou e o mundo continuou igual.
domingo, julho 04, 2010
Momento cultural do dia
Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão realque o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura
Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
Mario Cesariny
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão realque o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura
Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
Mario Cesariny
quarta-feira, junho 30, 2010
A lenda do farol de cáceres
Cáceres é uma cidade com mais histórias do que as que a História conta.
Em Cáceres há vestígios pré-históricos e em várias escavações foram encontradas pinturas de mãos humanas com a particularidade de ter o dedo mindinho amputado. Mas essa não é a nossa história de hoje (poderá ser a de amanhã, talvez).
A lenda que vos quero contar é a do farol de Cáceres, ou melhor, de Norba Caesarina, como se chama no século I a.C., e fazia parte do império romano.
A maior parte das lendas que chegam aos nossos dias, são histórias de amor. Curiosamente, não é o caso desta, já que o farol de Cáceres não foi erguido por motivos tão sentimentais.
Conta-se que em Norba Caesarina (Cáceres) habitava um rapaz novo e forte, que fez fortuna com porcos. Não só os comercializava nos grandes mercados romanos, como ainda tinha a estranha habilidade de os tratar em doenças que os outros romanos achavam já serem uma sentença de morte.
O rapaz, grande conhecedor de porcos e das suas habilidades, possuia vários, de várias raças e feitios. E vivia feliz entre o pastoreio dos porcos, a sua venda e o acolhimento de porcos tão doentes que em qualquer outro sitio morreriam. Ao aumentar a sua fortuna e ao receber porcos doentes que miraculosamente se salvavam, era o maior guardador de porcos da região.
Lidar com porcos tem destas coisas, as trufas e as escavações são frequentes. Então, um dia de manhã ao levantar-se e ao sair de casa para o habitual pastoreio dos seus porcos, o rapaz caiu num grande buraco por eles escavado, mesmo em frente à porta de casa. Ficou irritado com o buraco, mas rapidamente prosseguiu a sua vida e os seus afazeres.
Ao segundo dia, acordou cedinho pela manhã, saiu de casa sorridente e feliz e, esquecendo-se do buraco, voltou a cair nele.
Irritado pensou que tinha que tratar daquele buraco.
Ao terceiro dia espreguiçou-se, tomou o pequeno-almoço e saiu de casa para os seus afazeres. Caiu novamente no buraco.
Pensou, isto não pode voltar a acontecer, e ao quarto dia quando acordou lembrou-se, há um buraco à porta de casa. Não tomou banho, que não era costume dos romanos, mas tomou o seu pequeno-almoço e saiu de casa e voltou a cair no buraco.
Ao quinto dia, depois do pequeno-almoço lembrou-se, há um buraco à porta de casa, há um buraco à porta de casa, há um buraco à porta de casa e enquanto pensava que havia um buraco à porta de sua casa, caiu nele.
Ao sexto dia parou ao sair de casa e repetiu, há um buraco à porta de casa, e olhou para ele e sorriu. "Desta vez estou-te a ver" e um porco guinchou e o rapaz assustou-se e caiu no buraco.
Nessa tarde ao voltar a Cáceres pensou que a melhor maneira de no dia seguinte se aperceber do buraco era construir um farol que o iluminasse. E assim fez, numa tarde construiu um pequeno farol, colocou-lhe uma candeia e foi dormir, seguro que no dia seguinte não cairia no buraco.
Ao sétimo dia olhou para o farol, lembrou-se do buraco, tomou balanço e saltou por cima do buraco. O balanço não foi suficiente e o rapaz caiu novamente nele.
Ao oitavo dia, olhou para o farol, lembrou-se do buraco, tomou balanço e saltou por cima dele. Os pés bem assentes no chão, o buraco atrás e o rapaz tão contente que saltou e saltou de alegria... até cair no buraco.
Ao nono dia, o rapaz olhou para o farol, lembrou-se do buraco, tomou o balanço certo e saltou por cima do buraco. Lembrou-se do dia anterior, deu 3 ou 4 passos para a frente e saltou de alegria porque sabia que jamais voltaria a cair no buraco.
Ao décimo dia o rapaz acordou de manhã e espreguiçou-se, contente com o feito do dia anterior sabia que não cairia de novo no buraco, o farol cumpriu a sua missão. E foi quando se apercebeu que, a partir dali, se calhar era mais sensato sair pela porta da frente em vez de pela porta de trás.
Os anos passaram e o rapaz morreu. O farol foi reedificado muitos anos depois, no mesmo sítio, para nos relembrar que os seres humanos tem capacidade de raciocínio e aprendizagem com os erros, mas mais ou menos.
Aqui fica a história e a imagem do farol de Cáceres, fotografia tirada da sala da minha amiga Fresquinha. Obrigado pelos dias ai.
Em Cáceres há vestígios pré-históricos e em várias escavações foram encontradas pinturas de mãos humanas com a particularidade de ter o dedo mindinho amputado. Mas essa não é a nossa história de hoje (poderá ser a de amanhã, talvez).
A lenda que vos quero contar é a do farol de Cáceres, ou melhor, de Norba Caesarina, como se chama no século I a.C., e fazia parte do império romano.
A maior parte das lendas que chegam aos nossos dias, são histórias de amor. Curiosamente, não é o caso desta, já que o farol de Cáceres não foi erguido por motivos tão sentimentais.
Conta-se que em Norba Caesarina (Cáceres) habitava um rapaz novo e forte, que fez fortuna com porcos. Não só os comercializava nos grandes mercados romanos, como ainda tinha a estranha habilidade de os tratar em doenças que os outros romanos achavam já serem uma sentença de morte.
O rapaz, grande conhecedor de porcos e das suas habilidades, possuia vários, de várias raças e feitios. E vivia feliz entre o pastoreio dos porcos, a sua venda e o acolhimento de porcos tão doentes que em qualquer outro sitio morreriam. Ao aumentar a sua fortuna e ao receber porcos doentes que miraculosamente se salvavam, era o maior guardador de porcos da região.
Lidar com porcos tem destas coisas, as trufas e as escavações são frequentes. Então, um dia de manhã ao levantar-se e ao sair de casa para o habitual pastoreio dos seus porcos, o rapaz caiu num grande buraco por eles escavado, mesmo em frente à porta de casa. Ficou irritado com o buraco, mas rapidamente prosseguiu a sua vida e os seus afazeres.
Ao segundo dia, acordou cedinho pela manhã, saiu de casa sorridente e feliz e, esquecendo-se do buraco, voltou a cair nele.
Irritado pensou que tinha que tratar daquele buraco.
Ao terceiro dia espreguiçou-se, tomou o pequeno-almoço e saiu de casa para os seus afazeres. Caiu novamente no buraco.
Pensou, isto não pode voltar a acontecer, e ao quarto dia quando acordou lembrou-se, há um buraco à porta de casa. Não tomou banho, que não era costume dos romanos, mas tomou o seu pequeno-almoço e saiu de casa e voltou a cair no buraco.
Ao quinto dia, depois do pequeno-almoço lembrou-se, há um buraco à porta de casa, há um buraco à porta de casa, há um buraco à porta de casa e enquanto pensava que havia um buraco à porta de sua casa, caiu nele.
Ao sexto dia parou ao sair de casa e repetiu, há um buraco à porta de casa, e olhou para ele e sorriu. "Desta vez estou-te a ver" e um porco guinchou e o rapaz assustou-se e caiu no buraco.
Nessa tarde ao voltar a Cáceres pensou que a melhor maneira de no dia seguinte se aperceber do buraco era construir um farol que o iluminasse. E assim fez, numa tarde construiu um pequeno farol, colocou-lhe uma candeia e foi dormir, seguro que no dia seguinte não cairia no buraco.
Ao sétimo dia olhou para o farol, lembrou-se do buraco, tomou balanço e saltou por cima do buraco. O balanço não foi suficiente e o rapaz caiu novamente nele.
Ao oitavo dia, olhou para o farol, lembrou-se do buraco, tomou balanço e saltou por cima dele. Os pés bem assentes no chão, o buraco atrás e o rapaz tão contente que saltou e saltou de alegria... até cair no buraco.
Ao nono dia, o rapaz olhou para o farol, lembrou-se do buraco, tomou o balanço certo e saltou por cima do buraco. Lembrou-se do dia anterior, deu 3 ou 4 passos para a frente e saltou de alegria porque sabia que jamais voltaria a cair no buraco.
Ao décimo dia o rapaz acordou de manhã e espreguiçou-se, contente com o feito do dia anterior sabia que não cairia de novo no buraco, o farol cumpriu a sua missão. E foi quando se apercebeu que, a partir dali, se calhar era mais sensato sair pela porta da frente em vez de pela porta de trás.
Os anos passaram e o rapaz morreu. O farol foi reedificado muitos anos depois, no mesmo sítio, para nos relembrar que os seres humanos tem capacidade de raciocínio e aprendizagem com os erros, mas mais ou menos.
Aqui fica a história e a imagem do farol de Cáceres, fotografia tirada da sala da minha amiga Fresquinha. Obrigado pelos dias ai.
segunda-feira, maio 24, 2010
nostalgias de um tempo que passa
Há 10 anos atrás vim viver para Lisboa.
Quando fui ao supermercado pela primeira vez sozinha e com dinheiro "meu", fui verdadeiramente feliz. Já não tinha que pedir à minha mãe para me comprar este ou aquele chocolate, ou para levar duas latas de coca-cola, e arriscar-me a ouvir profundos "não, tu precisas é de te alimentar bem". Com tanta prateleira apelativa e todo o dinheiro do mundo disponível (entenda-se 300 euros por ser princípio do mês) dei efectivamente largas aos ímpetos que me assolaram. Comprei portanto uma lata de chantilí e vários frasquinhos de efeites de bolos coloridos e coca-cola. Fui para casa felicíssima, com um saco as 4 ou 5 coisas atrás enumeradas e passei a tarde no sofá a pôr directamente na boca o chantilí, as drageias coloridas e a beber coca-cola.
Hoje fui ao supermercado e tudo o que trouxe poderia ser comprado pela minha mãe. Pão em fatias, que tive a separar, para congelar, presunto, salada, fruta e sei lá que mais.
Suponho que o tempo passa e as pessoas crescem mesmo. Quando estava no sofá lambuzada de chantilí e drageias coloridas não previ que um dia ia ser tão racional e adulta assim, para só comprar coisas "normais".
Se calhar amanhã quando for ao supermercado, acho que vou deixar a menina da caixa intrigada com o sortido escolhido.
Quando fui ao supermercado pela primeira vez sozinha e com dinheiro "meu", fui verdadeiramente feliz. Já não tinha que pedir à minha mãe para me comprar este ou aquele chocolate, ou para levar duas latas de coca-cola, e arriscar-me a ouvir profundos "não, tu precisas é de te alimentar bem". Com tanta prateleira apelativa e todo o dinheiro do mundo disponível (entenda-se 300 euros por ser princípio do mês) dei efectivamente largas aos ímpetos que me assolaram. Comprei portanto uma lata de chantilí e vários frasquinhos de efeites de bolos coloridos e coca-cola. Fui para casa felicíssima, com um saco as 4 ou 5 coisas atrás enumeradas e passei a tarde no sofá a pôr directamente na boca o chantilí, as drageias coloridas e a beber coca-cola.
Hoje fui ao supermercado e tudo o que trouxe poderia ser comprado pela minha mãe. Pão em fatias, que tive a separar, para congelar, presunto, salada, fruta e sei lá que mais.
Suponho que o tempo passa e as pessoas crescem mesmo. Quando estava no sofá lambuzada de chantilí e drageias coloridas não previ que um dia ia ser tão racional e adulta assim, para só comprar coisas "normais".
Se calhar amanhã quando for ao supermercado, acho que vou deixar a menina da caixa intrigada com o sortido escolhido.
quarta-feira, maio 19, 2010
De todos os sonhos possíveis e impossíveis, quantos são os gritos que calam, que calas, quando a noite se põe e te sentes confortável numa ausência de luz que te segreda que tudo poderia ser isto?
Procuras respostas e escondes perguntas, deixando-te encontrar certezas que não existem, permitindo-te encontrar abrigos que caem nas primeiras chuvadas da estação.
Sabendo de todas as indefinições, chamas nomes às coisas e obriga-las a tornarem-se naquilo porque as chamas. Infrutífero, sabe-lo tão bem quanto o que acreditas nas suas impossíveis possibilidades.
Quanto mais será preciso para deixar o teu corpo arder nas chamas pelas que chamas e foges? O que mais será preciso para encontrares uma eufórica paz que te consuma na alegre destruição daquilo que anseias por não seres?
Todos os dias, todas as memórias, confusas. Diferem apenas no sonho do dia que nunca tiveste coragem para concretizar.
Procuras respostas e escondes perguntas, deixando-te encontrar certezas que não existem, permitindo-te encontrar abrigos que caem nas primeiras chuvadas da estação.
Sabendo de todas as indefinições, chamas nomes às coisas e obriga-las a tornarem-se naquilo porque as chamas. Infrutífero, sabe-lo tão bem quanto o que acreditas nas suas impossíveis possibilidades.
Quanto mais será preciso para deixar o teu corpo arder nas chamas pelas que chamas e foges? O que mais será preciso para encontrares uma eufórica paz que te consuma na alegre destruição daquilo que anseias por não seres?
Todos os dias, todas as memórias, confusas. Diferem apenas no sonho do dia que nunca tiveste coragem para concretizar.
segunda-feira, maio 10, 2010
Da vida deles V
- Mas como assim? Uma equipa de quê? - perguntou Jefferson a John, com curiosidade mais do que espanto.
- Então Jefferson, para termos mais impacto, temos que nos organizar de maneira a cobrir todas as frentes, a estarmos preparados e a poder prever o imprevisivel. Desta forma conseguimos uma vantagem aos outros candidatos que não vão estar tão bem preparados. - respondeu John, com os olhos a brilhar com o entusiasmo de quem sabe que teve uma ideia que só pode resultar.
- Então achas que isso vai assegurar mais sucesso?
- Acho Jefferson. Acho que a maioria das pessoas não planeia fracassar, fracassa por não planear. (John L. Beckley)
John L. Beckley 1757-1807
Com o crédito de ter sido o primeiro gestor de campanha política, com parâmetros semelhantes aos modernos, para Thomas Jefferson.
- Então Jefferson, para termos mais impacto, temos que nos organizar de maneira a cobrir todas as frentes, a estarmos preparados e a poder prever o imprevisivel. Desta forma conseguimos uma vantagem aos outros candidatos que não vão estar tão bem preparados. - respondeu John, com os olhos a brilhar com o entusiasmo de quem sabe que teve uma ideia que só pode resultar.
- Então achas que isso vai assegurar mais sucesso?
- Acho Jefferson. Acho que a maioria das pessoas não planeia fracassar, fracassa por não planear. (John L. Beckley)
John L. Beckley 1757-1807
Com o crédito de ter sido o primeiro gestor de campanha política, com parâmetros semelhantes aos modernos, para Thomas Jefferson.
segunda-feira, maio 03, 2010
Lições de humildade ou coisas que aprendi ultimamente e que não quero esquecer:
1º Analisamos todos os comportamentos das pessoas segundo o que achamos que fariamos em igual circunstância. E, no entanto, sabemos que não podemos querer que todas as pessoas sejam iguais a nós. Temos, obrigatoriamente, que aceitar as pessoas como elas são, mesmo quando nos fazem coisas que achamos que jamais lhes fariamos. A única coisa que nos cabe, que podemos fazer é, sabendo o que elas fizeram nessa situação (e que provavelmente voltarão a fazer em idênticas circunstâncias) é decidir "quem" queremos ser para elas.
2º Não se controlam nem manipulam sentimentos, nem os nossos nem alheios. Se não somos donos dos nossos sentimentos (e talvez sejam eles que são donos de nós) como podemos achar injusto que alguém não sinta por nós o que sentimos por essa pessoa? Ou como achamos que podemos "prender" alguém para toda a vida? Tudo o que podemos fazer é tentar alinhar as nossas acções com os sentimentos que queremos que alguém tenha por nós e esperar que resulte, e depois que resulte por um bocadinho, e depois esperar que dure mais um bocadinho e depois outro...
2º Não se controlam nem manipulam sentimentos, nem os nossos nem alheios. Se não somos donos dos nossos sentimentos (e talvez sejam eles que são donos de nós) como podemos achar injusto que alguém não sinta por nós o que sentimos por essa pessoa? Ou como achamos que podemos "prender" alguém para toda a vida? Tudo o que podemos fazer é tentar alinhar as nossas acções com os sentimentos que queremos que alguém tenha por nós e esperar que resulte, e depois que resulte por um bocadinho, e depois esperar que dure mais um bocadinho e depois outro...
quarta-feira, março 31, 2010
uma estátua qualquer
Mandaram-na erguer no princípio do século XX. De bronze luzidio, impressionou todo um país que se juntou para a inauguração. Forte, intocável, inantigível. Causou sincera admiração nos meses que se seguiram, com propositadas expedições só para a ver, apenas para a admirar. Fizeram-se comparações com o seu nome - saia sempre vencedora - quase se criou um ditado com sua referência.
Depois... depois aconteceu o que costuma acontecer nestas coisas. Tornou-se invisível aos olhos de quem ali passava, por sempre lá estar, algumas vezes incómodo pelo trabalho que dava a limpar e por fim mero depositório de merda de pombos que a usavam para cagar.
No final foi substituída, dos fracos não rezou a história e todas as suas forças não eram mais do que vulneráveis fragilidades. E quem o adivinharia?
"Ninguém, senhora, ninguém."
Depois... depois aconteceu o que costuma acontecer nestas coisas. Tornou-se invisível aos olhos de quem ali passava, por sempre lá estar, algumas vezes incómodo pelo trabalho que dava a limpar e por fim mero depositório de merda de pombos que a usavam para cagar.
No final foi substituída, dos fracos não rezou a história e todas as suas forças não eram mais do que vulneráveis fragilidades. E quem o adivinharia?
"Ninguém, senhora, ninguém."
quarta-feira, março 10, 2010
hum.
Postulado: Escrever é captar um momento e torná-lo relevante.
Exercício tecnológico: Escrever é sistematizar no teclado um determinado acontecimento, eternizando-o na Internet.
Exercício maternal: Escrever é segurar um frágil momento, cuidando-o e desenvolvendo-o para que ele encontre o seu caminho nas vidas de outras pessoas.
Exercício mágico: Escrever é tentar traduzir a magia de um momento, congelando-o num movimento de varinha de condão para que nunca perca a sua beleza.
Exercício psicológico: Escrever é traduzir os impulsos sistémicos, analisando e determinando as suas motivações e consequências, de modo a aprender e evoluir enquanto pessoas.
Exercício simples: escrever é isto.
Exercício tecnológico: Escrever é sistematizar no teclado um determinado acontecimento, eternizando-o na Internet.
Exercício maternal: Escrever é segurar um frágil momento, cuidando-o e desenvolvendo-o para que ele encontre o seu caminho nas vidas de outras pessoas.
Exercício mágico: Escrever é tentar traduzir a magia de um momento, congelando-o num movimento de varinha de condão para que nunca perca a sua beleza.
Exercício psicológico: Escrever é traduzir os impulsos sistémicos, analisando e determinando as suas motivações e consequências, de modo a aprender e evoluir enquanto pessoas.
Exercício simples: escrever é isto.
quinta-feira, fevereiro 25, 2010
Disney
Ah e tal, o mundo cor-de-rosa da Disney, a vida devia ser um conto de fadas como os filmes da Disney...
E suspiram, ansiando por um filme cor-de-rosa da Disney. E nem se apercebem!...
Ah, e gostava de ser uma princesa!... como, por exemplo, a Branca de Neve! Dizem. E nem se apercebem, que a Branca de Neve era uma ameaça sexual para a sua madrasta, que por isso a matou e portanto foi salva por um principe com base na sua única mais valia - uma carinha laroca. E provavelmente ser boazona. Tipo... ele nem falou com ela! Há mais evidente vontade de comer alguém do que nem falar com ela???
E a Cinderella? òptima capacidade de trabalho, completamente explorada pela sua entidade patronal (a madrasta e as irmãs) e no final acaba com um principe que... uhm.. err... a quer comer. Tipo, ya, dançaram uma beca, a seguir ela baza e ele fica com tanta tanta tesão que tem que a encontrar para... a comer. Mais uma vez, era boazona. Podia ter ambição profissional, já que era eficiente. Podia ter delineado todo um programa político e de gestão para o reino, ter-he falado nele, captado o interesse dele quer pela sua cultura geral, quer pela sua visão estratégica. Mas não, ele queria-a comer.
Ah, mas podemos falar na pequena sereia... aí todas as questões são outras. Ela muda a sua aparência fisica e tudo aquilo que é para agradar um homem. Em troca perde a capacidade de falar, e então? Assim como assim, ela não tem nada de jeito para dizer mesmo! Nem precisa porque... o principe só a quer.... comer.
Não quero ser ressabiada, nem femininista, nem nada esquisito... mas... hey! A Disney anda-nos a ensinar que basta um homem querer comer-nos!!
E suspiram, ansiando por um filme cor-de-rosa da Disney. E nem se apercebem!...
Ah, e gostava de ser uma princesa!... como, por exemplo, a Branca de Neve! Dizem. E nem se apercebem, que a Branca de Neve era uma ameaça sexual para a sua madrasta, que por isso a matou e portanto foi salva por um principe com base na sua única mais valia - uma carinha laroca. E provavelmente ser boazona. Tipo... ele nem falou com ela! Há mais evidente vontade de comer alguém do que nem falar com ela???
E a Cinderella? òptima capacidade de trabalho, completamente explorada pela sua entidade patronal (a madrasta e as irmãs) e no final acaba com um principe que... uhm.. err... a quer comer. Tipo, ya, dançaram uma beca, a seguir ela baza e ele fica com tanta tanta tesão que tem que a encontrar para... a comer. Mais uma vez, era boazona. Podia ter ambição profissional, já que era eficiente. Podia ter delineado todo um programa político e de gestão para o reino, ter-he falado nele, captado o interesse dele quer pela sua cultura geral, quer pela sua visão estratégica. Mas não, ele queria-a comer.
Ah, mas podemos falar na pequena sereia... aí todas as questões são outras. Ela muda a sua aparência fisica e tudo aquilo que é para agradar um homem. Em troca perde a capacidade de falar, e então? Assim como assim, ela não tem nada de jeito para dizer mesmo! Nem precisa porque... o principe só a quer.... comer.
Não quero ser ressabiada, nem femininista, nem nada esquisito... mas... hey! A Disney anda-nos a ensinar que basta um homem querer comer-nos!!
segunda-feira, fevereiro 22, 2010
...
Ela tem hábitos péssimos. Deixa a roupa espalhada pelo chão, todas as manhãs. E todas as noites tira as meias quando já está deitada e empurra-as para o fim da cama, perto da fronteira onde o colchão acaba. Quando se mudam os lençóis à cama, é comum encontrarem-se duas ou três meias perdidas e desemparelhadas.
E estes nem sequer são os seus piores hábitos.
Conheço-a bem, tão bem quanto se pode conhecer alguém. Conheço as suas manias, e tantas que tem! Tem, por exemplo, a mania que há-de conseguir sempre o que quer. Nem sempre consegue, mas por ter essa mania é mais insistente e às vezes até resulta. Quando resulta, diz de sorriso posto que consegue sempre o que quer, mas é mania dela, para o conseguir às vezes. Tenho ideia de que ela tem consciência disto, mas não tenho a certeza.
É assim que ela vai construíndo as suas verdades. Outro exemplo, é quando ela se obriga a querer coisas que não sabe se quer de facto. Mete só na cabeça que as quer, para se obrigar a querê-las e depois para tentar consegui-las. Mais uma vez, não tenho a certeza que ela saiba disso, mas às vezes desconfio que sim.
Não são raras as vezes que carrega nos ombros toda a tristeza do mundo. E isto é que eu não sei porquê. Sei que às vezes trás a tristeza mais triste de todas. Disfarça-a, claro.
Sente-se muitas vezes perdida e é aí que se obriga a querer coisas. É bastante sozinha mas, ao mesmo tempo que procura outros, tenta guardar a sua solidão só para si. Às vezes tento meter conversa com ela, mas nem sempre lhe consigo chegar a sério. Ela não deixa.
E estes nem sequer são os seus piores hábitos.
Conheço-a bem, tão bem quanto se pode conhecer alguém. Conheço as suas manias, e tantas que tem! Tem, por exemplo, a mania que há-de conseguir sempre o que quer. Nem sempre consegue, mas por ter essa mania é mais insistente e às vezes até resulta. Quando resulta, diz de sorriso posto que consegue sempre o que quer, mas é mania dela, para o conseguir às vezes. Tenho ideia de que ela tem consciência disto, mas não tenho a certeza.
É assim que ela vai construíndo as suas verdades. Outro exemplo, é quando ela se obriga a querer coisas que não sabe se quer de facto. Mete só na cabeça que as quer, para se obrigar a querê-las e depois para tentar consegui-las. Mais uma vez, não tenho a certeza que ela saiba disso, mas às vezes desconfio que sim.
Não são raras as vezes que carrega nos ombros toda a tristeza do mundo. E isto é que eu não sei porquê. Sei que às vezes trás a tristeza mais triste de todas. Disfarça-a, claro.
Sente-se muitas vezes perdida e é aí que se obriga a querer coisas. É bastante sozinha mas, ao mesmo tempo que procura outros, tenta guardar a sua solidão só para si. Às vezes tento meter conversa com ela, mas nem sempre lhe consigo chegar a sério. Ela não deixa.
sexta-feira, fevereiro 12, 2010
quarta-feira, fevereiro 10, 2010
sexta-feira, fevereiro 05, 2010
quinta-feira, fevereiro 04, 2010
terça-feira, fevereiro 02, 2010
Da vida deles IV
- O teu problema é que exiges demasiado de ti. Não podes ser tão exigente contigo mesmo, às vezes só seguir o primeiro impulso, não pensar demais... sabe bem!...
- Pois sabe, mas a vida não é só feita do que sabe bem e do que não dá muito trabalho... a vida implica tomada de decisões e, se seguires o teu primeiro impulso ou não pensares o suficiente sobre elas, como podes segui-las até ao fim? E se não forem para ser seguidas até ao fim, se não acreditares nelas porque foste tu quem as decidiu, então de que servem? E, no final, quem és tu e que vida vives? Sabes o que dizem... Don't waste your life. No one chooses mediocracy, but many settle for it.
(Unkonwn)
(Arigato Dri)
Da vida deles - III
À entrada do infantário e um aglomerado de crianças impacientes e expectantes, desconcentradas e gritantes, brincalhonas, esquecendo-se por momentos o que as trouxera ali. Ann sentia-se por vezes desfalecer, todos os dias o mesmo esforço de cuidar, atentar, encaminhar, educar... e no dia seguinte parece que se esvaia num grande nada do esquecimento. Tantas vezes parecia que não valia a pena... se calhar podia simplesmente mudar de vida, para qualquer outra coisa mais fácil... Mas sabia que, no final de algum tempo, o seu trabalho ali era importante e podia mudar vidas. Só que no dia-a-dia não parecia que sim!...
Foi quando Ann estava entretida nestes pensamentos que James chegou. Era sua tarefa encaminhá-lo ao infantário e portanto foi ter com ele. Ele vinha sorridente e bem disposto. Ann perguntou-lhe:
- Afinal, como consegue James? Como aparece todos os dias, em todos os infantários, com o mesmo sorriso paciente?
James Whitcomb Riley (poeta infantil)
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