terça-feira, dezembro 28, 2010

*

Estou preocupada.
Perdi um asterisco.

Não sei onde o deixei, já procurei:
nos bolsos das calças
nos bolsos dos casacos
nos bolsos da bolsa
no carro
no chão do carro
nas almofadas do sofá
por debaixo das almofadas do sofá
no hall do prédio
no caminho que fiz daqui-até-ali

e não o encontro.

Perdi um asterisco e faz-me falta.
Não tanta quanto um ponto final, ou uma vírgula, é certo. Mas faz-me falta, o asterisco. Posso substitui-lo por BêJotaÉsse, mas não é a mesma coisa.

Preferia ter perdido outra coisa qualquer. Nunca se escolhem as coisas que se perdem.
Se alguém encontrar o meu asterisco, que me avise. É meio despenteado e tem um ar desconfiado quando não conhece as pessoas, mas depois é todo ternurento e meiguinho. É cor-de-rosa, para mal dos meus pecados que não gosto do cor-de-rosa, mas era a promoção que havia na loja do chinês, de asteriscos sem olhos em bico, só cor-de-rosas. E cheira a algodão-doce.

Eu sei, assim descrito nem parece que era meu. Mazéra, mazéra.

Se calhar foi isso.
Por não parecer meu.
Se calhar não o perdi, foi ele que se foi embora.

Fui abandonada por um asterisco.
E nem carta de despedida deixou.
Nem me avisou que ia lá fora comprar tabaco.

Se alguém encontrar o meu asterisco, que fique com ele.
Não o quero de volta.

Vou arranjar outro para mim,
um que seja líquido,
que seja feito de água:

Quero entornar asteriscos nas varandas dos vizinhos de cima.
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