quinta-feira, dezembro 30, 2010

Tábua de crenças II (2010)

Acredito na insistência e na teimosia. Porque as coisas criam-se e constróem-se nas rotinas do dia-a-dia, nas horas iguais às outras horas e não nos momentos geniais de inspiração metafísica.

Acredito nos momentos geniais de inspiração metafísica, mas, pelo sim pelo não, que é melhor não contar com eles.

Acredito que as pessoas não mudam mas sei que evoluem e se tranformam. Acredito que tenho que me lembrar mais vezes que o fazem apenas por processos internos de descoberta e não porque alguém lhes oferece as respostas que precisam embrulhadas em papel verde e laçarote vermelho em cima.

Acredito nos recomeços como forma coerente de evoluir no mesmo percurso.

Acredito que a chuva a bater no rosto ajuda nesses recomeços.

Acredito na consistência do ser, dos acontecimentos e dos processos, como forma de tomada de decisão mais livre e acertada. Acredito na inconsciência como forma de sentir a liberdade na pele.

Acredito no auto-controle e na racionalidade como forma de perceber e fazer. E nos sentimentos e como forma de ser, sentir e querer.
Acredito nas escolhas por opção. E nas inevitabilidades, por emoção.

Acredito profundamente nos paradoxos. E em que os paradoxos podem trazer coerência.

Acredito na boa vontade como valor alicerce para o entendimento entre pessoas. Tudo o resto vem depois. Se a boa vontade não for comum, mais nada poderá ser contruido em comum.

Acredito que os gestos das pessoas valem mais do que as suas palavras.
Acredito nas palavras, fora das pessoas. E nos cheiros que trazem.

Acredito que é possível ver-se mais do que aquilo que se vê. E para isso, basta olhar de verdade.

Acredito em planos e estratégias.
E na falta deles e delas.

Acredito no silêncio da minha casa. E no barulho das conversas soltas entornadas em copos de vinho, servidas como aperitivos para as descobertas dos sentidos - da vida e dos sensoriais.

Acredito que é na variedade que se encontra o conhecimento. E que acreditarei sempre nisto, ou que espero acreditar sempre nisto.

Acredito que tenho as mãos cheias de nada e que vão continuar assim até morrer. Que nunca irei agarrar nada mas que há momentos em que posso tocar em algumas coisas - tal como emoções, sentimentos, pessoas, sonhos - e até segurá-los um bocadinho, saber-lhes as formas, consistências, texturas, antes de voltar a ficar com as mãos cheias de nada.

"Acredito que aquilo em que acreditamos faz de nós aquilo que somos e que é uma ajuda lembrar disso quando nós próprios nos sentimos perdidos."
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Em 2003 escrevi um texto chamado "tábua de crenças", pode ser lido aqui.

Em 2010 andava às voltas com ele, que seria altura de escrever um novo, mas não me saía. E no natal, a minha mãe ofereceu-me com um metro de altura. E eu gostei mesmo, mas decidi que antes do final de 2010 teria que escrever um novo. E escrevi.

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