quinta-feira, dezembro 16, 2010

Os homens andam atrasados, os bichos não. (parte I)

"O tempo pergunta ao tempo quanto tempo o tempo têm. O tempo responde ao tempo que o tempo tem tanto tempo, quanto o tempo tempo tem."

Talvez aquilo que temos de mais real na nossa vida, o tempo - o que temos e o que nos falta. E aquilo que mais temos de fictício na nossa vida - o tempo, concepção humana sobre a evolução natural dos organismos vivos e não vivos.

O tempo não existe fora de nós. Os animais não têm tempo, tem necessidades biológicas, tem comportamentos, tem uma evolução física que faz uma curva semelhante à da distribuição normal. (Sim, tenho noções de estatística.)

Os homens estão presos ao tempo. O tempo de estudar, o de comer, o de se divertir, o de trabalhar. Os homens andam atrasados, os bichos não. O Homem dividiu uma evolução em partes desiguais entre si, iguais entre outras. Arranjou "marcos", quando o sol aparecer ali é de dia, quando desaparecer dali é de noite. O período espacial (e não temporal) que vai do sol ir daqui até ali fica dividido assim. Quando o sol aparecer daqui-ali X vezes, chamamos-lhe assado. E quando forem 365 vezes, chamamos-lhe frito. Ah, mas depois ele não aparece ali de vez em quando, quando era suposto. Não faz mal, aí deixamos que ele apareça mais uma vez, de 4 em 4 vezes das outras. Ah, tá bem.

Estrutura, medida, uniformização, conceptualização - o tempo.

Problema: tempo flexível.

- Uhm? O tempo não é flexível, todos os minutos duram o mesmo.
- Mentira. Tive minutos na minha vida que demoraram mais de 3 horas. E tive horas na minha vida que duraram menos de dois minutos.

E todas as noites me duram mais do que os dias. As noites tem outro tempo que o tempo dos dias, outro ritmo, outra passagem. Os dias passam a correr, as noites arrastam-se com a lentidão de quem não tem ninguém à espera, de quem não tem contas que prestar.

- Ah, isso não é o tempo que duram, é a percepção que tu tens da sua duração.

- A percepção que eu tenho que uma coisa que não existe, mas que se faz sentir, fortemente, real. E chamas percepção àquilo que sinto e não à invenção de algo "criado" mas que afinal existe.

- Ah, não é assim tão simples.
- Pois não. Especialmente nos tempos desencontrados.

- Nos quê?? O tempo é sempre igual para toda a gente, estamos todos no dia não sei quantos do mês não sei que mais do ano tal. E são precisamente x horas. Se estamos no mesmo sítio, o meu tempo é igual ao teu.
- Sim, mas eu queria ficar contigo agora e tu achas que se eu te tivesse aparecido em outro tempo, poderiamos ter ficado mas agora não. Como se os nossos caminhos tivessem cruzados, mas em tempos diferentes.
- Ah, mas isso não é o tempo, isso é a oportunidade.
- Desperdiçada num tempo que não é o meu nem o teu.

- É, é, a nossa concepção temporal é a mesma.
- Mentira. Este ano para mim passou a correr. Este ano para ti demorou-se uma eternidade. O ano passado aconteceu-me isto, mas parece que foi há 20 anos atrás, que isto sempre existiu na minha vida. O meu tempo não é igual ao tempo que "uso" para me relacionar com as pessoas. Esse tempo imposto é uma plataforma comum de referenciação. Mas o meu tempo é diferente do teu. E pior, o meu tempo não está ao meu dispôr como quero.

- Estás a atrofiar, e eu estou sem tempo para te ouvir.

Quanto tempo terá o meu tempo para esperar por ti?
Quanto tempo dura a vertigem de uma queda, no desconhecimento do solo onde vai aterrar e do quanto vai doer?


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