terça-feira, dezembro 21, 2010

A desgraça de dona Graça

Dona Graça era senhora de braços enérgicos e roliços. Suas pulseiras douradas tilintavam nos movimentos elegantes e decididos, eram a banda sonora das vírgulas e pontos finais de suas frases.

Como se costuma dizer, dona Graça enchia uma sala - de vozes altas, de gargalhadas bem dadas, de frases afectadas, de gestos pensados e de gordura adiposa. E usava túnicas soltas e vestidos leves, para disfarçar o peso, se bem que este não lhe pesava, nem na energia, nem na leveza do seu ser, nem nos recônditos da sua consciência quando se deliciava com qualquer sobremesa cheia de creme.

Alegre, quase sempre, a verdade é que dona Graça não era descontraída. Tinha preocupações, dona Graça: com os filhos e as filhas que parira, o marido que a escolhera, os sobrinhos que lhe tinha dado, as vizinhas com que lidava, as associações a que presidia e os jantares de festa que promovia.

Não parava muito tempo para pensar, entretida nos seus afazeres, ritmo constante da vida sucessiva, pontuada nos tilintares de suas bugigangas: mais um baptizado para ensaiar, uma festa de beneficiência para orquestrar, um problema inconfessado de um sobrinho que por um olhar tinha adivinhado, tudo-tudo-tudo-tudo dona Graça resolvia. Mesmo quando as pessoas, coitadas, se zangavam com ela - injustas, as pessoas, que não percebiam que ela só as queria ajudar. E ingratas, porque nunca lhe agradeciam convenientemente. Não que dona Graça quisesse agradecimentos, "mas já viu óh Rosarinho? Tanto que eu fiz por ele e nem um 'obrigado tia' decente. Nem os pais dele, já viu?"

A vida de dona Graça resolveu gracejar com ela num pretérito inacabado, em meados do ano passado. Foi por razões de uma ida ao Brasil - viagem habitual que já há uns anos não repetia. Não levava o marido, não, que os homens para estas coisas são uns chatos; um grupo de amigas, que as compras tem que ser feitas e a diversão fica muito mais garantida.

No terceiro dia da estadia, deparou-se dona Graça com uma Casmerodius albus. De porte elegante, graciosidade no andar, magestidade no olhar e asas que pareciam feitas de nuvens. A verdade é que dona Graça já tinha visto outras garças, mas nunca deste tamanho. E irritou-se: bochecas encardidas do encarnado, gotas de suor a escorregarem entre as moles mamas, pulseiras e berlicoques a pontuar e a exclamar os tremeliques da irritação patentes nos braços e nas mãos.

Deu-se conta dona Graça, que o érre do seu nome e do da criatura estavam trocados, que era ela, a Graça que tinha voz esganiçada e era a outra, a garça, que era cheia de graça na vida livre que vivia. Deu-se conta dona Graça, que não podia voar, que estava presa à teia que lhe tinham cuspido, que nunca tinha questionado o que tinha querido, que nunca se tinha lembrado de acordar e sair da cama feita de lençóis de expectativas, normas, códigos e suposições.

Deu-se conta dona Graça, que os anos que tinha e não confessava haviam sido dispendidos em energias inúteis, esforços inglórios, traduzidos em resultados nulos nas suas importâncias. E as suas rugas não eram as testemunhas de um caminho preenchido, eram antes a marca acusadora de uma vida tão pouco tentadora.

E a irritação subiu-lhe à fronte e a garça defronte nem a olhava e dona Graça em desgraça rebentou de irritação.

Depois de recolherem os seus pedaços espalhados, puderam apontar no relatório médico a causa da morte: "consciência tardia". E o médico que o escreveu olhou para o enfermeiro e desabafou, que é este dos poucos casos em que mais vale nunca que tarde.
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