sexta-feira, dezembro 31, 2010

O chão que pisas, sou eu.

Disfarça o sabor a sangue na boca. E tenta andar em pé, com as dores de quem tem os joelhos partidos, os calcanhares desfeitos, a carne a colar-se no chão, os ossos a baterem no chão e as pessoas a pensarem que o batuque é da sola dos sapatos. As pessoas, a pensarem que pensam e a comerem pensamentos mastigados pelos olhos.
Cuidado quando tentares fazer um sorriso. Há o perigo de te sair um esgar esquisito, capaz de pôr a chorar qualquer criancinha tenrinha. Cuidado quando apertares a mão a alguém, capaz de lhe partires alguns ossos para lhe tentar mudar a linha do destino. Não vai resultar, sabes disso. Cuidado quando entrares no autocarro, capaz de comeres à dentada os bancos e talvez o motorista e os passageiros, e depois vomitá-los agarrado ao pneu, canibalismo bulímico, o sabor a sangue dos outros misturado com o teu, misturado com o vómito e a bílis e as cores novas que se criam nessa poça aos teus pés. Quase poético, o vómito esverdeado-acinzentado, se não se tivesse transformado num lagarto emprenhado de lombrigas a correr pela cidade fora. Por esta cidade fora, por esta cidade dentro, nesta cidade sepultado por debaixo do alcatrão negro, por de cima dos alicerces podres, dos ninhos das ratazanas.

O corpo, nauseabundo, a espalhar-se no chão, sem espanto, nem coragem, nem força, nem vertigens.

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