segunda-feira, dezembro 27, 2010

linhas cruzadas em becos

"So many people live within unhappy circumstances
and yet will not take the initiative to change their situation
because they are conditioned to a life of security,
conformity, and conservatism, all of which may appear
to give one peace of mind, but in reality nothing is more dangerous
to the adventurous spirit within a man than a secure future.
The very basic core of a man's living spirit is his passion for adventure.
The joy of life comes from our encounters with new experiences,
and hence there is no greater joy than to have an endlessly
changing horizon, for each day to have a new and different sun."

Chris McCandless



O dia amanhece do lado de fora da janela. Um casal de adolescentes recém-apaixonados e recém-desvirgindados prende-se em suor e cansaço num abraço carinhoso. O teu despertador toca, mais 5 minutos, pensas. Os adolescentes adormecem no mesmo tempo em que te convences que tens mesmo que sair da cama. Entrar no banho. Escolher roupa que vestir, saltos que usar, não esquecer de combinar a mala nem de levar o laptop. O sr. Zé da pastelaria já abriu portas há que tempo, serve o café ao sexto cliente do dia, e um bolinho acabado de fazer. Vestes as calças e o botão aperta a custo, engordei?, e o sexto cliente do dia limpa as migalhas da boca e põe-se a caminho do escritório, mesmo aqui ao lado. Vai-se despedir hoje, que está farto de ser mal tratado por um chefe antipático, que tem ido a entrevistas várias, que finalmente a sorte lhe sorriu e agora sorri ele, dono de uma liberdade que se vai encostar a uma nova rotina.

O casaco, onde deixaste o casaco? ah, está no carro, falta o computador e duas trancas à porta que esta cidade confia mas não é de confiança. E passa na rua uma menina com o cabelo em trança, galochas para a chuva e dona de todas as poças enquanto a mãe reclama, na verdade porque há muito que não se encontra com o pai na cama, que lhes terá acontecido, é stress do trabalho, é stress do trabalho, nada preocupante, todos os casais passam por isto.

Guias pelo meio da cidade, passam edifícios, janelas, alcatrão, carros. Passam sonhos, desejos, medos, esperanças, expectativas. Semáforo vermelho, velho desdentado com a revista dos pobrezinhos, uma moeda, uma moeda, e tu que não e ele que segue para o outro carro, tal como seguiu a sua triste vida depois de ter enterrado dois filhos, depois de se ter apercebido que os outros três por ele não se interessam nada, que a culpa foi sua, que devia ter batido menos na mulher que tinha, que devia ter bebido menos e já resultava mas se conseguir vender só 2 revistas hoje já pode ir buscar um copo d3 ao António do bairro, que já não lhos vende fiados, mas se pagar o primeiro talvez lhe ofereça o segundo.

Entras no escritório, cumprimentas o porteiro, cumprimentas o segurança, sorris para os colegas com quem te cruzas no corredor. Cruzadas estão também as raças dos 5 cães que acabaram de ser paridos num quintal do outro lado da estrada e que amanhã, quando forem descobertos, vão fazer as felicidades do filho mais novo e angustiar a mãe não-tão-velha.

O dia de trabalho passa-te rápido, com muitos afazeres e decisões, planos e estratégias, vendas e compras. Lá fora os tempos do mesmo dia são outros: lento para os velhos colados à televisão, incrivelmente veloz para as crianças no infantário, praticamente parado no velório da igreja, em imperfeita pausa na sala de espera das urgências do hospital, ligeirinho nas carteiras e nos bares das universidades, curto na instituição de solidariedade social, onde curtas são também as mãos que dão quando comparadas com as que se estendem.

Ao jantar, enches 4 copos de vinho com histórias de tempos que passaram há pouco tempo, mas que vos parece muito, nessa mesa de amizades e frases adivinhadas, aventuras partilhadas, gostos reconhecidos. Ao jantar regressa a casa o marido ingenuamente encornado, o pai taxista muito suado, o filho estroina sempre animado, a criança ranhosa já de ar ensonado. Do outro lado do mundo nasce o dia e algumas vidas preparam-se para sair da cama, outras entram nela em horas desorientadas, os ciclos empurrados na rotação de uma terra que não sendo de ninguém é de toda a gente.

Pela janelas vês outra janela de luz acesa, o sabor do vinho adoça-te o pensamento, o dia correu-te bem com direito a elogio do chefe e palmadinha nas costas. Daqui amanhã espera-te uma promoção, daqui amanhã casas-te e tens filhos, daqui amanhã envelheces e não sabes o que te aconteceu. Há outra saída? Há outra alternativa melhor?

É o ritmo da vida, de todas as vidas, os rumos que tem que levar. Olhas à volta, uma já casada, o outro é para o ano, a terceira não está para lá encaminhada, mas há-de estar, há-de estar, que é isso que se faz.

Como explicar então que de repente o vinho te deixe um sabor amargo a insatisfação?

(Todas as outras vidas com que nos cruzamos sem saber, todas sem excepção, são pessoas que tentaram fazer delas o melhor possível, dentro do que souberam, dentro do que puderam. Mas esqueceram-se de se saberem vivas, esqueceram-se de se saberem existentes. Acontece, às vezes. Estar vivo não é o contrário de estar morto, pode-se estar vivo sem se estar, por desconhecimento desse facto.)

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